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setembro 16, 2026

Backrooms: Um Não-Lugar (2026)

 


Título original: Backrooms
Direção: Kane Parsons
Sinopse: Em 1990, o vendedor de móveis Clark descobre em sua loja um portal para os "Backrooms", um labirinto infinito de escritórios surreais. Fascinado, ele convence sua funcionária Kat e o namorado dela a mapearem as anomalias do local. Após o desaparecimento de Clark, sua terapeuta, a Dra. Mary Kline, mergulha na dimensão impossível para resgatá-lo, sendo forçada a confrontar seus próprios traumas enquanto busca uma saída.


O conceito por trás de Backrooms: Um Não-Lugar é daqueles que parecem ter nascido para provocar a imaginação. A partir de uma fotografia de um ambiente vazio publicada na internet, surgiu todo um universo de corredores intermináveis, salas abandonadas e espaços que parecem existir fora da realidade. Kane Parsons transformou essa ideia em vídeos que conquistaram enorme popularidade e agora chega ao cinema com uma produção da (sempre péssima) A24, protagonizada por Chiwetel Ejiofor, Renate Reinsve e Mark Duplass. O problema é que aquilo que funciona muito bem como uma experiência curta e estranha nem sempre consegue sustentar um longa-metragem.

A história acompanha Clark, um vendedor de móveis que encontra uma passagem para um lugar aparentemente impossível. Depois de desaparecer, ele é procurado por Mary, sua terapeuta, que acaba entrando nesse universo para tentar encontrá-lo. A partir daí, o filme mergulha em corredores, salas vazias e ambientes que parecem se multiplicar indefinidamente, enquanto os personagens tentam compreender onde estão e como podem sair dali. A premissa é interessante, mas rapidamente fica evidente que o filme depende muito mais da atmosfera do que propriamente da história.

E atmosfera não falta. Kane Parsons demonstra um talento visual bastante evidente. Os cenários reproduzem com eficiência aquela estética estranha dos "backrooms", com paredes amareladas, carpete envelhecido, iluminação fluorescente e ambientes praticamente idênticos entre si. Existe algo genuinamente desconfortável nessas imagens, principalmente porque elas transformam lugares banais em espaços ameaçadores. A fotografia e o desenho de som também colaboram para criar essa sensação de isolamento, com ruídos constantes, silêncios prolongados e uma iluminação que parece nunca permitir que o espectador se sinta confortável.

O problema é que a estética acaba sendo muito mais interessante do que aquilo que o filme tem para contar. Não suporto essas coisas de surrealismo, fantasia, coisas sem explicação. Sei que essa ausência de respostas pode ser justamente o que atrai muita gente para esse tipo de produção, mas comigo acontece o contrário. Quando um filme estabelece um mistério, espero que exista alguma recompensa emocional ou narrativa nessa jornada. Aqui, quanto mais a história tenta explicar aquele universo, mais distante fico dos personagens e da própria narrativa.

Chiwetel Ejiofor faz o possível para dar humanidade a Clark, enquanto Renate Reinsve encontra alguns bons momentos como Mary. Os dois atores, porém, estão presos a personagens que nunca conseguem ultrapassar completamente suas funções dentro da trama. Seus dramas pessoais deveriam criar uma ligação emocional com o público, mas acabam parecendo acessórios para conduzir a história de um ambiente estranho ao seguinte. Falta uma conexão que faça com que eu realmente me importe com o destino deles.

É justamente aí que Backrooms: Um Não-Lugar se torna cansativo. Tedioso. A repetição dos corredores, salas e criaturas inicialmente produz curiosidade, mas depois começa a produzir apenas a sensação de que estamos andando em círculos. O que deveria ser uma representação da desorientação dos personagens passa a ser também a desorientação narrativa do próprio filme. Existem momentos interessantes, principalmente quando Parsons deixa o espaço falar por si, mas eles são prejudicados pela necessidade constante de ampliar a mitologia.

E talvez o maior problema esteja justamente nessa tentativa de transformar uma ideia simples em algo muito maior. Os backrooms eram fascinantes porque não precisavam de explicação. Uma fotografia de um espaço vazio já era suficiente para despertar a sensação de que havia algo errado. No longa, a introdução de criaturas, regras e explicações torna esse universo mais elaborado, mas não necessariamente mais interessante. Para mim, quanto mais o filme explica, menos misterioso ele fica.

É esteticamente bonito mas emocionalmente distante e completamente irrelevante. Consigo reconhecer o cuidado da produção, a qualidade dos cenários e o talento visual de Parsons, mas nada disso foi suficiente para criar envolvimento. O diretor claramente sabe construir imagens e atmosferas, e existe potencial em sua maneira de filmar, especialmente considerando que este é seu primeiro longa-metragem. O que falta é uma história capaz de sustentar esse talento durante toda a duração do filme.

No fim, Backrooms: Um Não-Lugar me parece mais uma demonstração do potencial cinematográfico de Kane Parsons do que um filme plenamente realizado. Há imagens memoráveis, uma identidade visual forte e uma premissa que continua sendo curiosa, mas também existe uma narrativa arrastada e emocionalmente pouco envolvente. O que poderia ser uma experiência inquietante acaba se tornando uma longa caminhada por corredores que parecem não levar a lugar algum. E, considerando justamente o título brasileiro, talvez essa seja a conclusão mais apropriada: depois de toda essa viagem, a sensação é a de ter chegado exatamente a lugar nenhum.

Rompendo Rochas (2025)

 


Título original: Cutting Through Rocks
Direção: Sara Khaki, Mohammad Reza Eyni
Sinopse: Sara Shahverdi, a primeira mulher iraniana eleita para a vereança de sua aldeia, luta contra tradições patriarcais ao ensinar meninas a andar de moto, defender o direito à propriedade e combater o casamento infantil, apesar da forte oposição. O documentário acompanha a jornada de Shahverdi, que, mesmo enfrentando dúvidas e resistência, se torna um símbolo de resistência e esperança para uma nova geração.


Há filmes que conseguem transformar uma história aparentemente simples em uma experiência cinematográfica poderosa, enquanto outros carregam consigo um tema tão relevante que, por si só, despertam interesse, mas não encontram na linguagem do cinema a mesma força que existe na realidade retratada. Rompendo Rochas, dirigido por Sara Khaki e Mohammad Reza Eyni, pertence mais à segunda categoria. O documentário parte de uma personagem extremamente interessante e de uma realidade social que merecia ser conhecida por um público muito mais amplo, mas acaba construindo uma experiência irregular, frequentemente monótona e menos envolvente do que poderia ser.

O filme acompanha Sara Shahverdi, mulher de 43 anos que vive em uma região rural do noroeste do Irã e que se tornou a primeira mulher eleita para o conselho municipal de sua comunidade. Divorciada, independente e acostumada a desafiar as expectativas impostas às mulheres ao seu redor, Sara se transforma em uma espécie de agente de mudança dentro de uma sociedade profundamente marcada por tradições patriarcais. Sua atuação passa por questões como o casamento infantil, o acesso das meninas à educação, a autonomia feminina e o direito das mulheres de participarem das decisões relacionadas às próprias vidas. O próprio título funciona como uma metáfora bastante evidente para essa trajetória: romper as estruturas sociais que parecem tão rígidas quanto as pedras que cercam a protagonista.

E é justamente aí que está o maior mérito do documentário. Sara é uma personagem naturalmente cinematográfica. Sua personalidade forte, sua maneira direta de falar, sua independência e a disposição para enfrentar homens e instituições fazem com que ela desperte curiosidade imediatamente. Há algo fascinante em acompanhar uma mulher que simplesmente se recusa a aceitar como inevitáveis determinadas regras sociais. Em diversos momentos, sua presença diante da câmera é muito mais interessante do que qualquer tentativa dos realizadores de explicar o que estamos vendo.

A produção também consegue registrar situações bastante significativas do cotidiano da comunidade. Sara tenta convencer famílias a permitir que meninas tenham outras possibilidades para o futuro, enfrenta conflitos dentro da própria família e utiliza sua posição política para tentar modificar pequenas estruturas de poder. O documentário foi construído a partir de aproximadamente sete anos de registros, condensados em pouco mais de uma hora e meia, e essa longa convivência dos realizadores com a personagem proporciona momentos de intimidade que seriam difíceis de conseguir em uma produção convencional.

O problema é que Rompendo Rochas nem sempre sabe o que fazer com esse material. Existe uma diferença considerável entre ter acesso privilegiado a uma história e conseguir transformar esse acesso em cinema. O filme frequentemente parece acreditar que simplesmente observar Sara durante longos períodos será suficiente para manter a atenção do espectador. Nem sempre é. Algumas situações se prolongam além do necessário, determinadas discussões parecem repetitivas e há momentos em que a narrativa dá a impressão de estar andando em círculos.

Essa característica torna a experiência bastante monótona em determinados trechos. A câmera observa, espera e acompanha, mas nem sempre existe uma construção narrativa capaz de transformar essa observação em tensão ou emoção. O estilo documental de acompanhamento direto pode funcionar muito bem quando existe uma montagem precisa, capaz de encontrar significado e ritmo dentro dos acontecimentos cotidianos. Aqui, porém, essa estratégia nem sempre produz o efeito desejado. O espectador percebe a importância daquilo que está sendo mostrado, mas isso não significa necessariamente que esteja envolvido com a maneira como a história é contada.

É curioso, inclusive, que o filme tenha sido recebido de maneira tão entusiasmada em alguns festivais. Rompendo Rochas estreou no Festival de Sundance de 2025 e recebeu o Grande Prêmio do Júri na competição de documentários de cinema mundial. A própria organização do festival destacou a trajetória de Sara e sua tentativa de oferecer às mulheres de sua comunidade maior liberdade de escolha. Há, portanto, um reconhecimento internacional bastante expressivo em torno da obra, ainda que a experiência pessoal diante do filme possa ser bem menos entusiasmante.

Parte dessa diferença talvez esteja justamente na força do tema. A situação retratada é tão relevante que pode acabar elevando a percepção sobre o próprio filme. A luta de Sara possui importância social evidente, e conhecer as dificuldades enfrentadas por mulheres em uma comunidade rural iraniana proporciona um retrato cultural que dificilmente seria encontrado em uma produção comercial. Entretanto, considero que um tema importante não garante automaticamente um grande documentário. É preciso que a forma de contar essa história seja tão eficiente quanto a história em si.

Nesse sentido, Rompendo Rochas me parece uma obra mal produzida quando comparada ao que encontramos com frequência no documentário brasileiro. O cinema documental brasileiro possui uma tradição particularmente forte de transformar questões sociais, políticas e humanas em narrativas mais dinâmicas, emocionais e cinematograficamente elaboradas. Mesmo quando trabalham com realidades igualmente difíceis, muitos documentários nacionais conseguem estabelecer melhor o ritmo, desenvolver seus personagens de maneira mais envolvente e encontrar imagens capazes de sintetizar aquilo que o filme pretende dizer. Em “Rompendo Rochas”, essa preocupação parece existir, mas nem sempre chega ao resultado esperado.

Isso não significa que a fotografia seja ruim. Pelo contrário, há momentos visualmente interessantes, especialmente quando a câmera acompanha Sara pelos espaços da comunidade ou registra sua relação com as meninas que tenta inspirar. A paisagem rural também contribui para criar uma sensação de isolamento e ajuda a compreender o ambiente em que os conflitos acontecem. O problema está menos nas imagens individualmente e mais na maneira como elas são articuladas. Faltam, em alguns momentos, uma seleção mais rigorosa e um ritmo que conduza o espectador de maneira mais natural.

A montagem também é responsável por essa sensação de irregularidade. Os realizadores, Sara Khaki e Mohammad Reza Eyni, acumulam funções importantes no projeto, com Eyni também responsável pela fotografia e ambos envolvidos na edição. Há uma intenção clara de construir um retrato próximo e espontâneo, mas algumas transições são abruptas e determinadas partes da trajetória de Sara ficam pouco desenvolvidas e certos aspectos pessoais da protagonista acabam sendo apresentados tarde demais ou tratados como elementos secundários.

O mais interessante é perceber que o próprio filme parece possuir material suficiente para ser muito melhor. A história da eleição de Sara, seus conflitos familiares, sua relação com as jovens da comunidade e as consequências de sua atuação poderiam sustentar uma narrativa mais coesa e emocionante. Em vez disso, o documentário muitas vezes prefere permanecer na superfície dos acontecimentos. Quando finalmente consegue alcançar uma dimensão mais íntima, a sensação é de que isso acontece tarde demais.

Ainda assim, seria injusto ignorar os momentos em que Rompendo Rochas encontra sua força. A relação de Sara com as meninas é particularmente significativa porque mostra que sua luta não está limitada ao enfrentamento imediato dos homens que se opõem a ela. Existe uma preocupação com aquilo que poderá acontecer depois, com a possibilidade de que uma nova geração de mulheres tenha opções que não estavam disponíveis para as anteriores. A sequência final, envolvendo Sara e um grupo de meninas em motocicletas, sintetiza essa ideia de maneira bastante eficiente e oferece uma conclusão coerente para sua trajetória.

No fim, Rompendo Rochas é um documentário cuja protagonista é mais interessante do que o próprio filme. Sara Shahverdi é uma figura fascinante, e sua história merece ser conhecida. O problema está na distância entre essa história e a forma encontrada pelos diretores para apresentá-la. Há boas imagens, situações relevantes e uma personagem central capaz de sustentar uma produção inteira, mas falta ao conjunto um pouco mais de ritmo, criatividade e capacidade de transformar observação em emoção.

É uma obra importante pelo que registra, mas apenas parcialmente bem-sucedida pelo modo como registra. Seu tema é poderoso, sua protagonista é memorável e algumas passagens realmente conseguem transmitir a dimensão da resistência que ela representa. Porém, o excesso de contemplação, a montagem irregular e uma narrativa que frequentemente se torna repetitiva fazem com que a experiência seja cansativa. Rompendo Rochas quer mostrar como uma mulher tenta abrir caminho em meio a estruturas sociais endurecidas pelo tempo. Ironicamente, o próprio filme parece encontrar dificuldade para abrir caminho até o espectador.

setembro 15, 2026

Coyote vs. Acme (2026)

 


Título original: Coyote vs. Acme
Direção: Dave Green
Sinopse: Após décadas de falhas catastróficas com os produtos ACME em sua caçada ao Papa-Léguas, Wile E. Coyote decide que é hora de buscar justiça e processar a corporação. Ao lado de um advogado azarado, Coyote trava uma batalha jurídica épica contra o impiedoso CEO da companhia. Enquanto enfrentam o sistema, a dupla desenvolve uma amizade improvável e luta para provar que a culpa de tantos desastres nunca foi do instinto, mas sim de defeitos de fabricação.


É curioso como alguns filmes conseguem chegar ao público carregando consigo uma história quase tão improvável quanto a que contam na tela. Coyote vs. Acme é exatamente esse tipo de caso. Um filme que ficou anos engavetado, parecia destinado a desaparecer e finalmente encontrou seu caminho até os cinemas em 2026. E existe uma ironia perfeita nisso, porque estamos falando de um personagem que passou décadas sendo esmagado, explodido, enganado e humilhado pelos produtos da ACME e que finalmente decide enfrentar a empresa responsável por todas as suas desgraças.

Eu esperava pouco. Muito pouco, na verdade. E talvez essa seja uma das maiores surpresas da experiência, porque Coyote vs. Acme é absolutamente sensacional. Não é apenas uma comédia nostálgica tentando explorar a memória afetiva de quem cresceu assistindo aos Looney Tunes. É um filme que entende seus personagens e, principalmente, entende que por trás de toda aquela loucura existe uma história muito humana sobre alguém que passou a vida inteira sendo tratado como o problema.

Sempre me identifiquei com o Coyote. E sempre o achei injustiçado. Existe algo particularmente melancólico naquele personagem que simplesmente não consegue vencer, não importa quanto tente. Ele planeja, pesquisa, compra os produtos mais absurdos da ACME, prepara suas armadilhas e, no instante seguinte, tudo dá errado. O Papa-Léguas escapa, Coyote sofre as consequências e nós rimos. O filme pega justamente essa velha piada e pergunta se talvez tenhamos passado décadas rindo da pessoa errada.

Dirigido por Dave Green, o longa acompanha Wile E. Coyote entrando em uma batalha judicial contra a ACME depois de tantos produtos defeituosos destruírem sua vida. Para isso, ele conta com o advogado Kevin Avery, vivido por Will Forte, enquanto John Cena interpreta o advogado da poderosa empresa. A partir daí, o que parecia uma premissa absurda se transforma em uma divertida comédia jurídica, mas também em uma história sobre amizade, injustiça e pessoas tentando ser ouvidas.

Will Forte funciona muito bem porque não transforma Kevin em um herói perfeito. Ele é inseguro, desacreditado e precisa recuperar a própria confiança. A relação que desenvolve com Coyote dá ao filme uma dimensão emocional que eu sinceramente não esperava encontrar. John Cena também se diverte bastante como o advogado da ACME, equilibrando o exagero necessário para uma produção desse tipo com uma atuação que nunca deixa o personagem cair completamente na caricatura.

Mas o grande astro continua sendo Coyote. O filme respeita a essência do personagem e entende que ele não precisa falar o tempo inteiro para ser engraçado. Seus olhares, movimentos e expressões continuam carregando aquela linguagem dos desenhos clássicos. E é justamente aí que o longa acerta em cheio.

Também fiquei muito surpreso com a maneira como a animação 3D é utilizada. Ela é bem sutil. Coyote e os demais personagens continuam parecendo desenhos, mas estão muito mais integrados ao mundo real do que em muitos filmes que tentaram fazer essa mistura. Para mim, Coyote vs. Acme é muito melhor que Uma Cilada Para Roger Rabbit. Não pela importância histórica, que pertence ao clássico de Robert Zemeckis, mas porque aqui a integração entre os dois mundos parece mais natural e menos preocupada em mostrar o próprio virtuosismo técnico.

A fotografia de Brandon Trost ajuda bastante nesse resultado, utilizando iluminação, perspectiva, sombras e interação física para fazer os personagens animados realmente parecerem parte daquele ambiente. O filme não precisa ficar o tempo inteiro lembrando que existe uma tecnologia por trás daquilo. Ela simplesmente funciona.

Mas o que mais me conquistou foi a crítica social. Coyote vs. Acme fala sobre grandes corporações, desigualdade de forças e pessoas que não conseguem ser ouvidas simplesmente porque não possuem dinheiro ou influência. E faz isso sem transformar a história em um discurso pesado.

É também uma excelente crítica aos julgamentos precoces. Coyote passou décadas sendo visto como um sujeito obcecado e responsável pelos próprios fracassos. O filme nos obriga a olhar novamente para essa história e perguntar se ele realmente era o culpado por tudo aquilo. É um tapa na cara de quem julga os outros sem conhecer o contexto.

E essa ideia funciona porque Coyote não é transformado em santo. Ele continua sendo Coyote. Continua cometendo erros e tomando decisões questionáveis. A diferença é que, pela primeira vez, alguém está disposto a ouvi-lo.

O roteiro de Samy Burch consegue equilibrar humor, aventura, crítica social e emoção sem esquecer que, acima de tudo, estamos diante de uma história dos Looney Tunes. A trilha de Steven Price acompanha bem essa mistura, enquanto a montagem mantém o filme movimentado, principalmente nas sequências de humor físico.

A única coisa que realmente me impede de considerar o filme completamente perfeito é o ritmo em alguns poucos momentos. Há cenas que se esticam um pouco além do timing ideal, quando poderiam terminar alguns segundos antes. É um detalhe pequeno, mas perceptível justamente porque o restante funciona tão bem.

No fim, Coyote vs. Acme é uma das maiores surpresas que tive com um filme desse tipo. Eu esperava pouco e encontrei algo absolutamente sensacional. É nostálgico sem viver apenas da nostalgia, engraçado sem ser infantil e crítico sem perder a leveza.

Sempre achei o Coyote injustiçado. Depois desse filme, acho ainda mais.

E talvez essa seja sua maior vitória. Pela primeira vez, ele deixa de ser apenas a piada e passa a ser o protagonista da própria história. Depois de décadas caindo de penhascos e sendo vítima das próprias armadilhas, finalmente chegou o momento de alguém ouvir o seu lado.

Quase perfeito. E, para um personagem que passou a vida inteira perdendo, já é uma vitória e tanto.