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setembro 27, 2026

Precisamos Falar (2026)

 


Título original: Precisamos Falar
Direção: Rebeca Diniz, Pedro Waddington
Sinopse: Dois adolescentes de classe média alta ateiam fogo em uma mulher e causam a sua morte. Seus pais protegerão aqueles que amam, omitindo a verdade que assola suas consciências? Baseado no best-seller mundial O Jantar, de Herman Koch.


Precisamos Falar, dirigido por Rebeca Diniz e Pedro Waddington, parte de uma premissa muito boa, especialmente quando transportada para a realidade brasileira. Dois casais de classe média alta descobrem que seus filhos adolescentes estão envolvidos no assassinato de uma mulher em situação de rua e precisam decidir até onde estão dispostos a ir para protegê-los. A história, baseada no romance O Jantar, de Herman Koch, coloca em discussão responsabilidade, privilégio, família, impunidade e os limites da proteção dos pais. É um ponto de partida bastante forte para um filme brasileiro, justamente porque permite discutir não apenas um crime, mas também uma sociedade acostumada a conviver com desigualdades e diferentes pesos para as consequências dos atos.

O problema é que Precisamos Falar encontra uma premissa muito mais interessante do que a execução consegue desenvolver. O filme parece saber exatamente quais questões pretende colocar em discussão, mas frequentemente não confia na própria história e acaba explicando demais aquilo que já poderia ser percebido pelo espectador. Em vez de deixar os conflitos familiares crescerem naturalmente a partir das situações, o roteiro insiste em apresentar posições políticas e morais de maneira bastante evidente. A divisão ideológica brasileira está ali o tempo inteiro, mas exposta de uma forma pueril, quase como se cada personagem precisasse representar uma determinada visão de mundo. Com isso, algumas conversas deixam de parecer discussões entre pessoas reais e passam a funcionar como discursos preparados para defender lados previamente estabelecidos.

Essa escolha também faz o filme rodar em círculos. O jantar que reúne os personagens deveria ser o grande motor da tensão, um espaço em que cada nova revelação pudesse modificar a relação entre eles e aumentar progressivamente o desconforto. Há bons momentos nesse sentido, principalmente quando a discussão deixa de ser apenas sobre o crime cometido pelos adolescentes e passa a atingir diretamente a forma como aqueles pais enxergam os próprios filhos. O problema é que muitas das ideias são repetidas várias vezes, com os personagens retornando aos mesmos argumentos sem que a narrativa consiga acrescentar sempre algo novo. A sensação, em determinados momentos, é de que o filme está prolongando uma conversa que já chegou ao seu ponto principal.

Ainda assim, há aspectos interessantes na maneira como a história foi construída. O crime não funciona apenas como um acontecimento isolado, mas como uma espécie de gatilho para revelar as diferenças entre as duas famílias. Sandra, Paulo, Celso e Anna reagem de maneiras distintas diante da descoberta, e essa oposição permite observar como valores aparentemente sólidos podem mudar quando a própria família está ameaçada. Marjorie Estiano, Alexandre Nero, Emílio de Mello e Hermila Guedes sustentam bem essas relações, especialmente porque conseguem transmitir a tensão mesmo quando o texto se torna excessivamente explicativo.

A direção de Rebeca Diniz e Pedro Waddington mantém o filme bastante concentrado nos personagens e nos ambientes fechados, reforçando a sensação de desconforto daquele encontro. A fotografia de Lula Cerri contribui para essa atmosfera mais contida, enquanto a direção de arte de Camila Moussallem constrói um universo de classe média alta que contrasta diretamente com a violência que desencadeia toda a história. A montagem de Sergio Mekler procura preservar o ritmo de um drama centrado nas conversas, embora a repetição dos conflitos acabe prejudicando justamente esse ritmo. A trilha sonora de Antonio Pinto também participa dessa tentativa de criar tensão, mas o filme frequentemente depende mais do próprio diálogo do que dos recursos visuais para produzir impacto.

Outro ponto que poderia ser mais forte é a maneira como a produção aborda a polarização brasileira. A ideia de colocar diferentes visões políticas e morais dentro de uma mesma família é bastante pertinente, ainda mais em um país no qual discussões políticas passaram a atravessar relações pessoais, familiares e profissionais. O filme percebe isso, mas sua abordagem muitas vezes parece simplificar demais uma realidade que é justamente interessante por ser contraditória. Em vez de permitir que os personagens apresentem ambiguidades, dúvidas e contradições, algumas posições ficam tão claramente marcadas que diminuem a possibilidade de surpresa. O conflito passa a ser menos sobre pessoas tentando compreender uma situação extrema e mais sobre personagens defendendo ideias que o espectador já sabe que representam.

Também chama atenção a utilização de celulares, câmeras e imagens registradas como elementos importantes para a história. A violência chega aos personagens por meio de registros que circulam e ajudam a transformar um acontecimento privado em um problema público. Essa presença da tecnologia poderia render uma discussão ainda mais interessante sobre como a violência é registrada, compartilhada e consumida, mas novamente o filme parece preferir explicar sua intenção a explorar todas as possibilidades dramáticas do recurso.

Precisamos Falar está longe de ser um filme sem qualidades. Existe uma boa história em seu centro, bons atores e uma situação dramática capaz de provocar discussões importantes. O grande problema está justamente na distância entre o potencial dessa história e aquilo que o longa consegue realizar. A premissa é muito boa, ainda mais no Brasil, mas a execução é bem fraca em vários momentos. O filme tem algo importante a dizer, porém repete tanto suas ideias que acaba tornando sua própria mensagem menos impactante.

No fim, Precisamos Falar funciona melhor quando simplesmente coloca seus personagens diante de uma situação moralmente desconfortável e deixa que suas reações revelem quem eles são. Quando tenta transformar cada conversa em uma explicação sobre a divisão política brasileira, perde força e naturalidade. É um filme que poderia ter sido muito mais provocador justamente se tivesse falado menos e confiado mais na inteligência do espectador. A discussão que propõe é válida e a realidade brasileira oferece material de sobra para torná-la complexa, mas a insistência em explicar, repetir e separar personagens em posições muito claras faz com que uma história potencialmente poderosa termine sendo apenas razoavelmente interessante.

setembro 24, 2026

Coração Selvagem (2026)

 


Título original: Heart of the Beast
Direção: David Ayer
Sinopse: Um ex-soldado ferido e seu cão de guerra aposentado lutam para sobreviver na região do Alasca e encontrar o caminho de volta para casa após um acidente aéreo na mata.


Coração Selvagem é daqueles filmes que parecem ter uma premissa extremamente simples, mas que conseguem encontrar dentro dela espaço para falar de companheirismo, sobrevivência, trauma e, principalmente, da relação quase inexplicável que pode existir entre um ser humano e seu cão. Dirigido por David Ayer, o longa acompanha James Belmont, interpretado por Brad Pitt, um veterano das Forças Especiais que acaba isolado no imenso e hostil território do Alasca depois de um acidente aéreo. Ao seu lado está Odin, seu cão de combate e companheiro de muitos anos. A partir daí, o que poderia ser apenas mais uma aventura de sobrevivência transforma-se em uma história sobre dois personagens que precisam um do outro para continuar avançando.

O grande mérito de Ayer está justamente em não tratar Odin como um simples animal de apoio ao protagonista. O cão é, de fato, um dos personagens centrais da narrativa. Existe uma comunicação entre os dois que praticamente dispensa diálogos, construída por olhares, movimentos, gestos e pela maneira como um reage imediatamente ao comportamento do outro. James e Odin possuem uma história anterior ao acidente, marcada pela experiência militar e por situações extremas que criaram entre eles uma confiança absoluta. Por isso, quando tudo ao redor desaparece, o relacionamento entre os dois se torna naturalmente o coração do filme.

Brad Pitt funciona muito bem porque não tenta transformar James em um herói invencível. Pelo contrário, existe bastante vulnerabilidade em sua interpretação. O personagem está fisicamente desgastado e também carrega marcas emocionais de seu passado, e o isolamento no Alasca faz com que essas fragilidades fiquem ainda mais evidentes. Pitt consegue transmitir muito através do silêncio, especialmente nas cenas em que James simplesmente observa Odin ou tenta compreender o próximo passo da jornada. É uma atuação mais contida do que expansiva, mas justamente por isso combina com a proposta do filme.

Só que, convenhamos, o verdadeiro dono da produção é Odin. O cachorro tem uma presença impressionante e consegue roubar praticamente todas as cenas em que aparece. Há momentos em que basta olhar para ele para entender exatamente o que está acontecendo emocionalmente com James. A equipe encontrou em Uber, um cão de resgate das montanhas da Nova Zelândia, e em seus três filhos os animais que interpretam Odin, depois de uma extensa busca por cães capazes de realizar o trabalho exigido pelo filme. Essa experiência anterior de Uber como cão de busca e resgate ajuda a explicar a naturalidade de sua presença diante das câmeras.

Aliás, fica aqui a campanha oficial: Oscar de Melhor Ator para o cão Odin! E não seria nem exagero dizer que ele merece uma indicação especial simplesmente pela capacidade de transmitir personalidade sem precisar dizer absolutamente nada. Existe uma inteligência na maneira como Odin é filmado e utilizado dentro da narrativa que impede que suas participações pareçam apenas truques para provocar emoção. Ele realmente participa da história e muitas vezes é justamente quem conduz James para a próxima etapa da sobrevivência.

A paisagem do Alasca também funciona quase como um terceiro protagonista. O filme aproveita muito bem a grandiosidade do ambiente, mostrando montanhas, rios, neve, florestas e áreas completamente isoladas da civilização. A fotografia de Mauro Fiore acompanha a transformação da viagem de uma experiência inicialmente contemplativa para uma luta cada vez mais desesperada pela sobrevivência. No começo, a câmera pode observar aquele cenário com certa distância e beleza. Conforme a situação de James e Odin piora, ela se aproxima dos personagens, fica mais instável e passa a transmitir uma sensação maior de perigo.

Essa mudança contribui bastante para a experiência porque Coração Selvagem não depende de ação constante para manter o interesse. O filme entende que caminhar durante horas por um território desconhecido, atravessar uma área perigosa ou simplesmente tentar encontrar água e abrigo pode ser tão tenso quanto uma grande sequência de perseguição. É um tipo de aventura que recupera uma simplicidade que muitas produções contemporâneas parecem ter esquecido. O objetivo é bastante claro: sobreviver e voltar para casa.

Isso não significa que o filme seja perfeito. Em alguns momentos, a sucessão de dificuldades enfrentadas pelos protagonistas começa a parecer um pouco exagerada, como se a natureza estivesse determinada a não permitir que os dois tenham sequer alguns minutos de tranquilidade. Certas situações poderiam ter sido desenvolvidas com um pouco mais de equilíbrio, especialmente porque a relação entre James e Odin já seria suficiente para sustentar boa parte da emoção. Ainda assim, esses excessos não chegam a comprometer a experiência.

A direção de David Ayer também encontra um equilíbrio interessante entre o filme de sobrevivência e o drama humano. O diretor, acostumado a histórias de homens submetidos a situações extremas, encontra aqui uma maneira mais íntima de trabalhar esse universo. Em vez de concentrar tudo em confrontos humanos, violência ou grandes discursos, Ayer coloca seu protagonista diante da natureza e de seu próprio passado. O resultado é um filme que funciona melhor quando simplesmente deixa James e Odin juntos em cena.

Com pouco mais de uma hora e meia, Coração Selvagem também não perde tempo demais tentando complicar aquilo que funciona justamente por ser simples. É uma aventura emocional sobre confiança, lealdade e sobrevivência, mas também uma história de amizade entre dois companheiros que já passaram por situações que nenhum dos dois consegue explicar completamente. Brad Pitt entrega um protagonista convincente, mas Odin é quem permanece na memória depois dos créditos.

No fim, Coração Selvagem pode até seguir uma estrutura conhecida, mas consegue fazer algo importante: fazer o público se importar genuinamente com seus dois protagonistas. E quando um filme consegue transformar a caminhada de um homem e seu cachorro por uma região selvagem em uma experiência envolvente e emocionante, já existe ali uma vitória considerável. No caso de Odin, fica apenas uma questão em aberto: se a Academia realmente levar cachorros em consideração algum dia, podem preparar o discurso, porque o Oscar de Melhor Ator já tem dono.

setembro 23, 2026

Zona Zero (2026)

 


Título original: 군체
Direção: Yeon Sang-ho
Sinopse: De repente, um vírus que sofre mutações rápidas é liberado em uma conferência de biologia, forçando o isolamento imediato do local. A contaminação se espalha rapidamente, e os infectados não apenas atacam, eles evoluem de formas imprevisíveis e cada vez mais perigosas. Presos nesse confinamento, um grupo de sobreviventes precisa lutar pela própria vida enquanto, a cada minuto, as regras do jogo mudam.


Zona Zero, dirigido por Yeon Sang-ho, parte de uma ideia que, no papel, parece bastante promissora: e se os zumbis deixassem de ser apenas criaturas violentas que perseguem seres humanos e passassem a funcionar como uma espécie de organismo coletivo, capaz de aprender, trocar informações e modificar seu comportamento em tempo real? É justamente dessa premissa que nasce o novo filme do diretor de Invasão Zumbi, que retorna ao gênero que ajudou a consolidar sua carreira internacional. O problema é que, apesar de algumas boas ideias e de momentos visualmente interessantes, Zona Zero nunca consegue transformar completamente sua proposta original em uma experiência realmente envolvente.

A história começa durante uma conferência de biotecnologia realizada em um grande edifício de Seul. O biólogo Seo Young-cheol, interpretado por Koo Kyo-hwan, anuncia uma ameaça antes que uma infecção se espalhe pelo prédio e transforme rapidamente os presentes. Entre os sobreviventes está a cientista Kwon Se-jeong, vivida por Jun Ji-hyun, que passa a observar o comportamento dos infectados enquanto tenta encontrar uma maneira de escapar daquele verdadeiro labirinto vertical. Ao lado dela estão personagens interpretados por Ji Chang-wook, Kim Shin-rok, Shin Hyun-been e Go Soo, todos tentando sobreviver enquanto percebem que estão lidando com algo muito diferente dos zumbis tradicionais.

Essa é justamente a principal novidade de Zona Zero. Os infectados não seguem regras fixas. Eles aprendem, mudam de comportamento e compartilham informações como se fossem partes de uma única criatura. Em determinado momento podem se movimentar de maneira quase animalesca, enquanto depois demonstram uma capacidade muito maior de organização. A ideia de uma inteligência coletiva é interessante porque transforma a ameaça em algo menos previsível. Não existe simplesmente um grupo de monstros avançando de maneira descontrolada. Existe uma espécie de sistema que observa, experimenta e aprende com os próprios erros.

Yeon Sang-ho também encontra uma maneira visual de diferenciar seus zumbis. Os movimentos são estranhos, muitas vezes desconfortáveis, e os corpos parecem se transformar em uma massa única. O uso de dançarinos para construir parte desses movimentos ajuda a criar uma identidade física própria para os infectados. Em vez de depender apenas de maquiagem grotesca ou de violência explícita, o filme tenta fazer com que o próprio movimento dos corpos provoque estranhamento. É uma escolha interessante e, em alguns momentos, realmente funciona.

O problema é que a novidade conceitual acaba sendo mais interessante do que a história construída ao redor dela. A narrativa passa boa parte do tempo explicando as regras daquele novo tipo de zumbi, enquanto os personagens humanos nem sempre recebem o mesmo cuidado. Kwon Se-jeong é uma protagonista competente e funciona bem como os olhos do público diante daquela situação, mas vários personagens secundários parecem existir principalmente para cumprir determinadas funções dentro da trama. Quando o filme deveria fazer com que o espectador se importasse com a sobrevivência daquele grupo, muitas vezes está mais preocupado em mostrar a próxima transformação dos infectados.

A escolha de concentrar praticamente toda a ação em um grande edifício também produz resultados irregulares. Por um lado, o espaço fechado ajuda a criar uma sensação de confinamento. Corredores, salas, áreas comerciais e diferentes andares se transformam em obstáculos que precisam ser atravessados. Por outro, depois de algum tempo, a repetição dessas situações começa a diminuir o impacto. O filme apresenta uma nova regra, os personagens tentam descobrir como escapar, alguma coisa dá errado e surge uma nova variação dos infectados. Esse mecanismo funciona durante determinado período, mas não consegue sustentar sozinho uma produção com mais de duas horas de duração. A produção tem aproximadamente 122 minutos, e em alguns trechos a impressão é de que a ideia central já poderia ter chegado ao seu ponto máximo antes do encerramento.

A direção de Yeon Sang-ho continua demonstrando segurança quando precisa construir cenas de caos. O diretor sabe trabalhar com espaços apertados e transformar uma situação aparentemente simples em uma sequência de perseguição. Há também uma preocupação evidente em fazer com que os zumbis tenham personalidade visual própria. O filme não parece interessado em simplesmente repetir aquilo que já foi feito em Invasão Zumbi ou Invasão Zumbi 2: Península. A intenção é claramente experimentar outra possibilidade dentro do gênero. O resultado, entretanto, é menos impactante do que a proposta faz imaginar.

Jun Ji-hyun é provavelmente o elemento humano mais consistente da produção. Sua personagem não é construída como uma heroína de ação tradicional, mas como alguém que tenta compreender racionalmente aquilo que está acontecendo. Isso combina com a própria proposta do filme, já que o espectador acompanha a evolução dos infectados praticamente junto com ela. Koo Kyo-hwan também aproveita bem a estranheza de seu personagem, enquanto Ji Chang-wook e Kim Shin-rok ajudam a manter o grupo de sobreviventes minimamente interessante. Ainda assim, o roteiro dá mais atenção à mecânica do apocalipse do que às relações entre essas pessoas.

É justamente aí que Zona Zero fica dividido entre ser uma experiência de terror e uma experiência de ficção científica. Quando aposta no suspense e na ameaça física, o filme funciona melhor. Quando tenta desenvolver sua reflexão sobre inteligência coletiva, humanidade e comportamento de massa, existem boas ideias, mas elas são apresentadas de maneira bastante direta. Yeon Sang-ho parte da comparação entre humanos e infectados para questionar quem realmente está evoluindo e quem está regredindo. Enquanto os zumbis começam em um estado quase primitivo e rapidamente aprendem a trabalhar em conjunto, os seres humanos vão abandonando a cooperação e revelando seus instintos de sobrevivência. É uma ideia interessante, embora o filme nem sempre consiga aprofundá-la como poderia.

Tecnicamente, Zona Zero é competente, especialmente na criação dos infectados e na utilização do espaço. A fotografia ajuda a transformar o edifício em um ambiente cada vez mais ameaçador, enquanto a montagem mantém boa parte das sequências de ação em movimento. A trilha sonora e o desenho de som também colaboram para aumentar a sensação de perigo, principalmente quando os personagens percebem que os infectados estão começando a agir de maneira coordenada. Nada disso, porém, chega a ser particularmente memorável.

O filme ainda carrega a expectativa de ser mais uma grande reinvenção do cinema de zumbis de Yeon Sang-ho, mas talvez esse seja justamente um dos seus problemas. A proposta é suficientemente diferente para despertar curiosidade, mas não suficientemente desenvolvida para provocar o impacto que poderia. Há momentos realmente criativos, algumas imagens bastante perturbadoras e uma ideia central que merecia um roteiro mais ousado. Em contrapartida, existe uma certa repetição na estrutura e uma dificuldade em transformar conceitos interessantes em emoção genuína.

Zona Zero está longe de ser um desastre. É uma produção bem realizada, com bons atores, uma concepção visual diferente para seus infectados e uma tentativa válida de encontrar uma nova abordagem para um gênero extremamente explorado. Também é possível perceber que Yeon Sang-ho continua interessado em utilizar o cinema de zumbis para falar sobre comportamento humano, e não apenas para criar cenas de perseguição. O problema é que, desta vez, a execução fica abaixo da força da ideia.

No fim, Zona Zero deixa a sensação de uma experiência curiosa, mas irregular. Quando o filme está concentrado nos infectados e em sua capacidade de aprender coletivamente, existe uma energia genuína e uma sensação de novidade. Quando precisa sustentar a narrativa através dos personagens e de uma história mais emocional, perde força. É um filme que tem boas ideias, alguns momentos muito interessantes e uma identidade própria, mas que poderia ter ido muito mais longe. Para quem esperava uma nova grande referência dentro do cinema de zumbis de Yeon Sang-ho, o resultado acaba sendo apenas razoável.

setembro 21, 2026

Resident Evil (2026)

 


Título original: Resident Evil
Direção: Zach Cregger
Sinopse: Bryan, um tranquilo entregador, é enviado para uma entrega noturna no Hospital Geral de Raccoon City. No caminho por uma estrada montanhosa coberta de neve, ele acidentalmente atropela uma mulher desconhecida. Ela sobrevive, mas algo está muito errado. Ao tentar ajudar, Bryan se depara com um surto em larga escala envolvendo mutações horríveis com tentáculos e monstruosidades bioengenheiradas.


Resident Evil, de Zach Cregger, é daqueles filmes que podem provocar uma certa confusão antes mesmo de começar. Afinal, quem conhece os jogos da Capcom provavelmente vai esperar personagens conhecidos, situações reconhecíveis e uma adaptação mais diretamente ligada àquilo que já existe nos videogames. Só que não é isso que o diretor está interessado em fazer. O filme praticamente pega o nome, o universo e alguns elementos fundamentais da franquia e constrói outra coisa em cima deles. E, curiosamente, é justamente por não tentar reproduzir os jogos que acaba funcionando tão bem como cinema.

A história acompanha Bryan, interpretado por Austin Abrams, um simples entregador de medicamentos que chega a Raccoon City durante uma noite que rapidamente se transforma em um pesadelo. O protagonista não é um policial treinado, um agente especial ou algum personagem extraordinário. É apenas um sujeito comum que se vê no lugar errado, na hora errada, tentando entender o que está acontecendo enquanto a cidade mergulha no caos. A escolha é interessante porque coloca o espectador na mesma posição de Bryan. Ele não sabe exatamente o que está acontecendo e precisa descobrir as coisas enquanto avança.

É aí que o filme encontra sua principal qualidade. Resident Evil tem uma estrutura extremamente simples e direta, quase como uma grande corrida de sobrevivência. Bryan precisa sair de um ponto e chegar a outro, passando por diferentes ambientes e encontrando novas ameaças pelo caminho. A narrativa não perde tempo com longas explicações ou com uma quantidade exagerada de personagens e subtramas. Em pouco mais de uma hora e meia, Cregger consegue estabelecer o cenário, apresentar o problema e conduzir a história em ritmo bastante acelerado. O resultado é um filme enxuto, que sabe exatamente quanto tempo precisa permanecer em cada situação antes de seguir adiante.

E é justamente aqui que aparece uma das maiores ironias da produção: Resident Evil praticamente não tem nada a ver com o jogo, pelo menos no sentido tradicional de uma adaptação. Não é uma versão cinematográfica de Resident Evil 2, não reconta a história de Leon ou Claire e tampouco tenta reproduzir uma aventura específica da franquia. Bryan é um personagem original e a trama também é nova. A ligação está muito mais na atmosfera, na lógica de sobrevivência, na sensação de progressão e em pequenos elementos reconhecíveis para quem conhece os jogos. Cregger declarou que preferia reproduzir a sensação de jogar Resident Evil a simplesmente transportar uma história já contada nos videogames para o cinema, e essa decisão fica bastante evidente.

Isso não significa que o filme seja indiferente ao material de origem. Pelo contrário. Há uma preocupação clara em incorporar pequenas referências, objetos, situações e conceitos associados aos jogos. A Umbrella Corporation continua presente, assim como o T-Virus e a ideia de uma cidade tomada por criaturas. O próprio desenvolvimento do protagonista remete à progressão típica dos games, começando praticamente sem saber o que fazer e aprendendo a sobreviver conforme a situação piora. O filme ainda utiliza a mudança constante de ambientes como parte da experiência, algo que Cregger considera essencial para reproduzir no cinema a sensação de avançar por diferentes áreas de um jogo.

Mas, acima de tudo, Resident Evil é muito divertido. Essa talvez seja a melhor maneira de definir a experiência. O filme não parece preocupado em provar que é uma grande obra de terror, nem tenta transformar a franquia em algo excessivamente sofisticado. Ele simplesmente quer entregar uma boa aventura de horror, com tensão, criaturas, situações absurdas e uma boa dose de humor. E consegue fazer isso sem deixar que a comédia destrua completamente o clima.

Os poucos jump scares são outro ponto positivo. Em vez de construir praticamente todas as cenas em torno daquele susto previsível acompanhado por uma explosão sonora, Cregger prefere criar situações de expectativa e deixar que o espectador imagine o que pode aparecer. Quando o susto acontece, ele tende a funcionar justamente porque não é utilizado o tempo inteiro. O humor também está no nível certo. Existem momentos engraçados, principalmente pela própria situação desesperadora em que Bryan se encontra, mas o filme nunca parece estar tentando fazer uma paródia de Resident Evil. A graça surge naturalmente das circunstâncias e da personalidade do protagonista.

Austin Abrams ajuda bastante nesse equilíbrio. Bryan não é apresentado como um herói convencional, e o ator consegue transmitir muito bem o desespero de alguém completamente despreparado para aquele tipo de situação. Há uma vulnerabilidade no personagem que torna sua jornada mais divertida e também mais envolvente. Ele não parece invencível e não possui respostas para tudo. É justamente essa condição de pessoa comum que faz com que suas reações sejam tão fáceis de acompanhar.

Visualmente, o filme também encontra uma identidade própria. A fotografia explora bastante a noite, a neve e os espaços urbanos de Raccoon City, criando uma aparência fria e desconfortável. As locações filmadas principalmente em Praga ajudam a construir uma cidade que parece real, mas ao mesmo tempo ligeiramente estranha, como se alguma coisa estivesse errada mesmo antes de o horror começar. As criaturas são outro destaque, com efeitos que procuram preservar uma aparência física concreta em vez de transformar tudo em uma sucessão de imagens digitais indistintas.

A direção de Cregger é talvez o elemento que mais impede o filme de se tornar apenas mais uma produção genérica de zumbis. Depois de Noites Brutais e A Hora do Mal, o diretor demonstra novamente facilidade para controlar ritmo e tensão, mas aqui trabalha com uma proposta muito mais simples. Não há necessidade de grandes reviravoltas a cada dez minutos. O prazer está em acompanhar a escalada do caos e descobrir qual será o próximo ambiente e qual será a próxima ameaça.

No fim das contas, é justamente essa simplicidade que faz Resident Evil funcionar. Quem procurar uma adaptação fiel aos jogos provavelmente poderá sair decepcionado, porque este filme definitivamente não é isso. Mas quem aceitar a proposta de uma história nova ambientada nesse universo encontrará um excelente entretenimento. É rápido, divertido, bem produzido, tem violência suficiente para satisfazer a proposta, poucos sustos realmente eficientes e um humor que raramente ultrapassa o limite. Não reinventa o cinema de horror, mas também não precisa fazê-lo. Cregger entende que, às vezes, tudo o que um filme precisa oferecer é uma boa noite de diversão, e Resident Evil entrega exatamente isso.

O Fim da Rua (2026)

 


Título original: The End of Oak Street
Direção: David Robert Mitchell
Sinopse: Após um misterioso evento cósmico abalar o bairro Oak Street e o transportar dos subúrbios para um lugar desconhecido, a família Platt descobre que sua sobrevivência vai depender da união entre todos para enfrentar um ambiente agora irreconhecível.


Há filmes que conseguem chamar a atenção simplesmente porque partem de uma ideia que parece impossível de ignorar. O Fim da Rua, novo trabalho de David Robert Mitchell, certamente pertence a essa categoria. A proposta é extremamente original: uma pacata vizinhança suburbana dos Estados Unidos, ambientada no início dos anos 1980, é arrancada de seu lugar por um misterioso fenômeno cósmico e transportada para um ambiente completamente desconhecido, onde a família Platt descobre que, além de estar isolada do restante do mundo, terá de conviver com dinossauros. É uma premissa que mistura ficção científica, aventura, suspense, humor e drama familiar de uma maneira pouco convencional. O problema é que uma ideia tão boa acaba sendo prejudicada por uma execução que nem sempre consegue acompanhar o potencial do próprio conceito.

Mitchell, conhecido por filmes como Corrente do Mal e O Mistério de Silver Lake, constrói aqui uma história que começa quase como um drama familiar. Greg e Denise Platt, interpretados por Ewan McGregor e Anne Hathaway, vivem uma relação desgastada, enquanto os filhos Audrey e Brian percebem que existe alguma coisa errada entre os pais. A rotina aparentemente normal da família vai sendo lentamente contaminada por acontecimentos estranhos, até que o bairro inteiro deixa de ser aquilo que conhecemos. Essa escolha funciona bastante bem no começo, porque o contraste entre uma rua residencial perfeitamente comum e a presença de criaturas pré-históricas é justamente o que torna a proposta tão interessante.

A ambientação dos anos 1980 também ajuda muito. A direção de arte cria uma vizinhança que parece saída de uma memória cinematográfica daquela década, com casas, carros, roupas e objetos que reforçam a sensação de estarmos diante de uma espécie de subúrbio americano congelado no tempo. O filme claramente gosta desse imaginário e utiliza a aparência daquela época não apenas como decoração, mas como parte importante da experiência. Há uma tentativa evidente de recuperar o espírito das aventuras e ficções científicas que misturavam situações familiares com acontecimentos extraordinários, algo que combina com a própria ideia de colocar uma ameaça pré-histórica no meio de uma rua residencial.

Anne Hathaway e Ewan McGregor também fazem o possível para dar humanidade a uma história que rapidamente poderia cair no absurdo pelo simples prazer do espetáculo. Hathaway consegue transmitir bem a frustração de Denise e sua transformação diante das circunstâncias extremas, enquanto McGregor constrói um Greg inicialmente perdido dentro da própria vida. Mais interessante, porém, é acompanhar os filhos e perceber como o perigo externo acaba obrigando aquela família problemática a se aproximar. O relacionamento entre eles não é exatamente revolucionário, mas oferece ao filme uma base emocional necessária.

É justamente aí que O Fim da Rua encontra seus melhores momentos. Quando o filme deixa de tentar explicar demais o fenômeno e simplesmente coloca aquelas pessoas tentando sobreviver naquele cenário impossível, ele funciona muito bem. A ideia de transformar uma rua suburbana em uma espécie de território pré-histórico é visualmente divertida e permite situações que dificilmente poderiam existir em um filme convencional sobre dinossauros. Há uma sensação interessante de descoberta, principalmente quando os personagens começam a compreender que as regras do mundo que conheciam simplesmente deixaram de existir.

Infelizmente, a execução não mantém a mesma força da ideia. O roteiro apresenta situações muito boas, mas nem sempre sabe o que fazer com elas. Algumas relações familiares parecem mais importantes no início do que realmente se tornam depois, enquanto determinados acontecimentos parecem introduzidos apenas para movimentar a história de um ponto para outro. A narrativa também alterna momentos de suspense, humor e drama de maneira um pouco irregular. Em algumas passagens essa mistura é divertida, mas em outras fica a impressão de que o filme poderia ter desenvolvido melhor aquilo que tinha nas mãos.

E há ainda um problema que incomoda bastante: os efeitos visuais. É incrível como o CGI dos dinossauros consegue parecer tão artificial em um filme de 2026. Já se passaram 33 anos desde Jurassic Park, que em 1993 conseguiu estabelecer um nível impressionante de realismo ao combinar efeitos digitais e animatrônicos, e ainda assim O Fim da Rua apresenta criaturas que frequentemente parecem pertencer a uma produção muito mais barata. Em determinados momentos, os dinossauros não possuem peso, textura ou integração convincente com os ambientes ao redor. A movimentação também denuncia demais o caráter digital das criaturas.

Isso é particularmente frustrante porque o próprio filme depende completamente dessa interação entre o cotidiano e o extraordinário. A graça da proposta está justamente em imaginar dinossauros andando entre casas, jardins, carros e ruas comuns. Quando os animais parecem inseridos digitalmente sobre a imagem, parte significativa dessa ilusão desaparece. O Fim da Rua acaba entrando em uma lista cada vez maior de filmes atuais que possuem conceitos ambiciosos, grandes estúdios e personagens famosos, mas entregam efeitos visuais que parecem ter recebido menos atenção do que deveriam. Fica até a sensação de que faltou dinheiro ou tempo para fazer os dinossauros parecerem realmente convincentes, o que é difícil de aceitar em uma produção desse porte.

A fotografia de Michael Gioulakis, por outro lado, contribui para criar uma atmosfera bastante particular. Mitchell utiliza movimentos de câmera e enquadramentos que valorizam a arquitetura da vizinhança, transformando a própria rua em um personagem. A trilha de Michael Giacchino também ajuda a reforçar o espírito de aventura e mistério, embora em alguns momentos o filme pareça depender demais dessa atmosfera nostálgica para compensar fragilidades do roteiro.

O resultado é um filme curioso, divertido em vários momentos e sustentado por uma ideia realmente excelente, mas que poderia ter sido muito melhor. O conceito de transportar uma família suburbana dos anos 1980 para um ambiente dominado por dinossauros é criativo o suficiente para gerar uma aventura memorável. O problema é que David Robert Mitchell parece encontrar mais inspiração na própria premissa do que na maneira de desenvolvê-la até o fim. Existe bastante imaginação na construção daquele mundo, mas falta a mesma segurança na condução da narrativa.

Ainda assim, O Fim da Rua está longe de ser uma experiência descartável. A originalidade é seu maior mérito e impede que o filme seja apenas mais uma aventura genérica com criaturas pré-históricas. Existe personalidade na proposta, bons momentos de suspense, uma ambientação muito bem construída e um elenco que consegue sustentar o lado humano da história. Pena que a execução não esteja à altura de uma ideia tão inventiva.

No fim, O Fim da Rua é daqueles filmes que deixam uma sensação curiosa. É fácil imaginar como poderia ter sido excelente, porque existe ali material para algo realmente especial. Mas também é impossível ignorar as escolhas que enfraquecem o resultado, principalmente os efeitos visuais pouco convincentes e um roteiro que não consegue explorar completamente todas as possibilidades de sua premissa. É uma aventura original e irregular, que acerta quando simplesmente abraça o absurdo de sua situação, mas perde força justamente quando tenta transformar essa grande ideia em algo maior do que consegue sustentar.

setembro 20, 2026

Antártida (2026)

 


Título original: Antártida
Direção: Bruno Safadi
Sinopse: Na Estação Comandante Diniz, na Antártida, a cientista Inês é vítima de um crime brutal. Isolados pelo frio extremo e sem possibilidade de resgate imediato, todos os homens da base se tornam suspeitos, inclusive as maiores autoridades da missão. A subcomandante Elisabeth assume a difícil investigação enquanto as mulheres da estação precisam enfrentar o medo, o silêncio e a violência em um ambiente onde ninguém parece estar acima de qualquer suspeita. Em meio ao isolamento e às tempestades, elas descobrem que o verdadeiro perigo está entre elas.


Antártida, de Bruno Safadi, é um daqueles filmes que parecem ter chegado aos cinemas já carregando uma expectativa difícil de administrar. Cercado por uma produção de grande porte, um elenco bastante conhecido e uma proposta visual ambiciosa, o longa acabou recebendo uma reação bastante dura em sua passagem pelo Festival de Gramado e posteriormente entre parte da crítica. O curioso é que, embora esteja longe de ser uma obra-prima e tenha problemas bastante evidentes, a impressão que fica depois da sessão é de que houve um certo exagero na rejeição. Antártida não é o melhor filme nacional do ano, mas está muito longe do massacre que alguns críticos estão fazendo com ele.

A história acompanha uma equipe de cientistas e militares isolada em uma estação brasileira na Antártida durante o rigoroso inverno polar. Logo na primeira noite, a pesquisadora Inês, interpretada por Marina Ruy Barbosa, sofre uma violência sexual e não consegue identificar o responsável. A partir daí, a subcomandante Elisabeth, vivida por Andréa Beltrão, inicia uma investigação para descobrir quem cometeu o crime, já que o responsável está necessariamente entre as pessoas confinadas naquele ambiente. A estrutura lembra os tradicionais mistérios de identidade, mas substitui o assassinato convencional por uma situação de violência que passa a colocar todos os homens da estação sob suspeita.

É justamente nesse ponto que o filme encontra seu principal mérito e também sua maior fraqueza. O roteiro de Cláudia Jouvin tem uma preocupação muito clara em discutir machismo, relações de poder, violência e a dificuldade enfrentada por mulheres quando suas denúncias são colocadas em dúvida. Em alguns momentos, porém, essa preocupação se transforma em diálogos excessivamente explicativos. O filme frequentemente diz ao espectador aquilo que a própria situação já seria capaz de transmitir. A mensagem poderia ser mais forte se houvesse maior confiança nas imagens, nos silêncios e nas próprias interpretações.

Ainda assim, existe uma boa atmosfera de isolamento. A estação funciona como um espaço fechado em que qualquer tensão ganha proporções maiores. O frio, a distância do restante do mundo e a impossibilidade de simplesmente abandonar aquele lugar contribuem para criar uma sensação permanente de desconforto. O filme foi inteiramente realizado em estúdio no Rio de Janeiro, com o uso de tecnologia virtual para construir a paisagem antártica, e o resultado é bastante convincente. Em vez de parecer apenas uma demonstração tecnológica, a ambientação consegue, na maior parte do tempo, integrar os personagens ao cenário de maneira natural.

A fotografia aproveita bem o contraste entre os interiores da estação e o ambiente branco, amplo e hostil do lado de fora. A direção de Bruno Safadi procura transformar aquele espaço em uma espécie de prisão involuntária, em que as relações pessoais se tornam tão perigosas quanto as condições naturais. Também é interessante a maneira como o longa introduz situações paralelas envolvendo os integrantes da equipe, ampliando a sensação de que todos carregam algum tipo de conflito escondido.

Mas o grande destaque do elenco é, sem dúvida, Andréa Beltrão. Elisabeth é uma personagem que poderia facilmente cair em estereótipos de autoridade, mas a atriz encontra humanidade, firmeza e vulnerabilidade na medida certa. Mesmo quando o roteiro entrega falas pouco naturais, Beltrão consegue sustentá-las e fazer com que a personagem pareça maior do que aquilo que está escrito. Leandra Leal também contribui bastante, especialmente na relação entre as mulheres da estação.

Já Marina Ruy Barbosa é o ponto fraco do elenco, como era de se esperar. Inês é uma personagem central para o funcionamento da trama, mas a interpretação frequentemente parece limitada justamente nos momentos em que seria necessária maior intensidade emocional. Há cenas em que a personagem deveria transmitir medo, confusão ou fragilidade e a atuação acaba permanecendo excessivamente contida. Isso prejudica um pouco a força dramática de uma história que depende bastante da experiência daquela personagem.

O roteiro também poderia desenvolver melhor alguns dos personagens secundários. Como a narrativa tenta abordar muitos conflitos ao mesmo tempo, determinadas situações acabam surgindo com força e depois desaparecendo rapidamente. Há a sensação de que o projeto originalmente tinha material para respirar mais, algo compreensível diante da informação de que a história chegou a ser pensada para o formato de série antes de se transformar em longa-metragem.

Mesmo com essas limitações, há algo particularmente interessante em Antártida: pelo menos é um filme nacional que não está concentrado em pobreza ou ditadura. O cinema brasileiro frequentemente retorna a determinados temas sociais e históricos, muitos deles importantes e necessários, mas também existe espaço para histórias de suspense, investigação e sobrevivência ambientadas em universos diferentes. Aqui, a escolha de colocar uma trama desse tipo em uma estação científica brasileira no continente antártico já representa uma mudança bem-vinda.

E a própria Antártida poderia ser ainda mais explorada. O continente funciona muito mais como cenário do que como elemento essencial da narrativa, quando poderia contribuir ainda mais para a tensão. Mesmo assim, o isolamento geográfico é utilizado de maneira suficiente para justificar a estrutura da história e criar um ambiente incomum dentro do cinema brasileiro.

Antártida possui problemas de roteiro, algumas situações pouco desenvolvidas e uma protagonista que não consegue acompanhar a força de seus colegas de elenco. Também há momentos em que a mensagem social é apresentada de maneira excessivamente didática. Mas existe uma produção cuidadosa, uma ambientação visual bastante convincente, uma atmosfera interessante e, principalmente, uma Andréa Beltrão excelente. É um filme irregular, mas competente, que merece ser avaliado pelo conjunto e não reduzido aos seus tropeços. Não é uma obra-prima nem pretende ser, porém tampouco merece ser tratado como um desastre. Entre seus acertos e limitações, Antártida acaba sendo uma experiência nacional bastante válida, justamente por tentar fazer algo diferente dentro de um cinema que nem sempre se permite sair dos caminhos mais conhecidos.

setembro 19, 2026

Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor (2026)

 


Título original: Practical Magic 2
Direção: Susanne Bier
Sinopse: O tempo passou, mas Sally e Gillian ainda são assombradas pela maldição do clã Owens, que todos que amam acabam morrendo. Agora, as duas devem confrontar poderes que ameaçam acabar com sua família de uma vez por todas.


É realmente difícil entender de quem foi a ideia estapafúrdia de fazer uma continuação de um filme tão ruim e tão brega quanto Da Magia à Sedução, quase trinta anos depois de seu lançamento. O mais curioso é que, além de tardia, essa continuação chega quando o primeiro filme já envelheceu de maneira bastante problemática. Aquilo que talvez tivesse algum charme excêntrico em 1998 hoje parece ainda mais exagerado, artificial e preso a uma estética muito específica dos anos 1990. Ainda assim, por uma dessas ironias do cinema, Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor consegue ser um pouco melhor do que seu antecessor, embora isso esteja longe de transformar a experiência em algo realmente empolgante.

Mais uma vez preciso dizer, como já havia feito na crítica do primeiro filme: detesto filmes de romance, magia e fantasia. E aqui, novamente, temos romance, magia e fantasia todos misturados no mesmo caldeirão. Era praticamente impossível que isso desse certo comigo. O filme é, portanto, destinado a ser um fracasso desde o princípio, porque trabalha justamente com elementos que normalmente me afastam de uma produção. A história das irmãs Owens continua mergulhada em maldições familiares, feitiços, relacionamentos amorosos e acontecimentos sobrenaturais, agora ampliando a história para uma nova geração da família. Sally e Gillian retornam ao centro da narrativa, enquanto as filhas de Sally também passam a ocupar espaço importante na trama.

A direção agora está nas mãos de Susanne Bier, substituindo Griffin Dunne, responsável pelo filme original. Bier já havia trabalhado anteriormente com Sandra Bullock em Bird Box e com Nicole Kidman em produções televisivas, o que ajuda a explicar a facilidade com que consegue conduzir as duas atrizes. O filme tem uma aparência mais sofisticada que o original, com fotografia de Simon Duggan, direção de arte bastante caprichada e uma fotografia que explora constantemente aquela atmosfera de casas antigas, jardins exuberantes, velas, objetos mágicos e cenários deliberadamente aconchegantes. Tudo é muito bonito, mas também extremamente calculado para reproduzir a identidade visual que os fãs esperam.

E talvez esse seja um dos grandes problemas da produção. Há uma sensação permanente de que tudo foi construído para recuperar uma memória afetiva que não necessariamente deveria ter sido recuperada. O filme tem uma preocupação evidente em resgatar personagens, situações e elementos do longa de 1998, mas isso nem sempre significa que exista uma história suficientemente forte para justificar seu retorno. A duração também pesa. Com cerca de duas horas e dez minutos, a narrativa poderia ser bem mais enxuta, especialmente porque algumas situações demoram demais para chegar a conclusões que já parecem previsíveis desde o início.

O roteiro, escrito por Akiva Goldsman, Georgia Pritchett e Kelly Marcel, tenta equilibrar a história das irmãs com a nova geração e a retomada da maldição familiar. A ideia de que as consequências dos acontecimentos anteriores ainda não foram completamente resolvidas cria um caminho razoável para justificar a existência da continuação, mas também expõe um problema bastante comum em continuações tardias: é preciso desfazer parte do encerramento anterior para que uma nova história possa existir. Aquilo que parecia resolvido precisa voltar a ser um problema, e a sensação de artificialidade aparece justamente aí.

Curiosamente, porém, há uma diferença importante em relação ao primeiro filme, e ela atende pelo nome de Nicole Kidman. Gillian Owens ganha muito mais espaço e personalidade desta vez, e isso faz uma diferença enorme. A personagem tem algumas das melhores tiradas do roteiro, justamente porque o filme parece compreender que Kidman pode ser muito mais divertida quando não tenta transformá-la simplesmente em uma figura excêntrica. Existe um humor mais espontâneo em sua atuação, e a atriz parece muito mais à vontade dentro daquele universo.

Os anos fizeram muito bem a Nicole Kidman como atriz. Hoje ela é completamente outra mulher em cena, muito mais desenvolta, segura e capaz de brincar com uma personagem sem parecer presa às limitações do material. No primeiro filme, Gillian parecia muitas vezes uma caricatura de uma jovem rebelde dos anos 1990. Aqui, Kidman consegue transformar a personagem em alguém mais interessante simplesmente porque demonstra domínio absoluto sobre o tom da produção. Ela sabe quando exagerar, quando fazer uma pausa e quando entregar uma fala aparentemente absurda com a expressão certa. É justamente nos momentos em que o roteiro permite que Gillian seja engraçada que o filme mais funciona.

Sandra Bullock também retorna como Sally, e sua presença continua sendo fundamental para que a relação entre as duas irmãs tenha alguma força. A química entre Bullock e Kidman permanece evidente, mesmo depois de quase três décadas, e as duas conseguem reproduzir aquela dinâmica de personalidades opostas que sustentava boa parte do primeiro filme. O retorno de Dianne Wiest e Stockard Channing como Jet e Franny também acrescenta uma agradável sensação de continuidade, embora as personagens não tenham necessariamente material suficiente para justificar todo o destaque que recebem.

Entre os novos integrantes estão Joey King e Maisie Williams, interpretando as filhas de Sally, além de Lee Pace, Xolo Maridueña e Solly McLeod. O problema é que boa parte desses personagens acaba funcionando mais como instrumento para movimentar a trama do que como figuras realmente memoráveis. A história continua muito mais interessante quando está concentrada nas mulheres da família Owens, especialmente quando Sally e Gillian estão juntas.

Visualmente, Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor é bastante competente. A fotografia, os cenários e os figurinos criam um universo de fantasia confortável e deliberadamente bonito. Não há exatamente uma tentativa de reinventar o estilo do primeiro filme. Pelo contrário, existe uma preocupação enorme em preservar sua identidade, mas com uma produção evidentemente maior. Os efeitos visuais também são mais elaborados, embora continuem servindo principalmente para sustentar o aspecto fantasioso da história, e não para criar momentos particularmente impressionantes.

O grande problema é que, para alguém que já não gostava da mistura proposta pelo primeiro filme, a continuação não oferece uma transformação suficiente para mudar essa relação. Continua sendo uma história de amor cercada por feitiços, maldições, poderes sobrenaturais e sentimentalismo. E, para piorar, existe uma camada de nostalgia que constantemente pede ao espectador que reconheça a importância daqueles personagens e daquele universo. Só que nostalgia, por si só, não transforma uma história antiga em uma boa história nova.

Ainda assim, é preciso reconhecer que esta continuação encontrou uma maneira inesperada de funcionar um pouco melhor do que o original. O principal motivo é Nicole Kidman. Sua Gillian está mais divertida, mais solta e muito mais interessante, e a atriz parece ter encontrado exatamente o tom que faltava décadas atrás. Há também uma relação entre as personagens que soa mais madura, algo natural depois de tantos anos, e isso dá ao filme uma pequena dose de personalidade própria.

No fim, Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor continua sendo uma produção que dificilmente conseguiria conquistar alguém que, como eu, não tem qualquer simpatia por romances açucarados, magia ou fantasia. A ideia de ressuscitar esse universo quase trinta anos depois continua parecendo desnecessária, e o resultado está longe de justificar tamanha espera. Mas, contra todas as expectativas, a continuação consegue ser ligeiramente mais agradável que o filme original, principalmente porque Nicole Kidman finalmente parece estar se divertindo de verdade com Gillian Owens. Talvez essa seja a verdadeira magia do filme: conseguir melhorar alguma coisa que, desde o princípio, parecia uma péssima ideia.

setembro 16, 2026

Backrooms: Um Não-Lugar (2026)

 


Título original: Backrooms
Direção: Kane Parsons
Sinopse: Em 1990, o vendedor de móveis Clark descobre em sua loja um portal para os "Backrooms", um labirinto infinito de escritórios surreais. Fascinado, ele convence sua funcionária Kat e o namorado dela a mapearem as anomalias do local. Após o desaparecimento de Clark, sua terapeuta, a Dra. Mary Kline, mergulha na dimensão impossível para resgatá-lo, sendo forçada a confrontar seus próprios traumas enquanto busca uma saída.


O conceito por trás de Backrooms: Um Não-Lugar é daqueles que parecem ter nascido para provocar a imaginação. A partir de uma fotografia de um ambiente vazio publicada na internet, surgiu todo um universo de corredores intermináveis, salas abandonadas e espaços que parecem existir fora da realidade. Kane Parsons transformou essa ideia em vídeos que conquistaram enorme popularidade e agora chega ao cinema com uma produção da (sempre péssima) A24, protagonizada por Chiwetel Ejiofor, Renate Reinsve e Mark Duplass. O problema é que aquilo que funciona muito bem como uma experiência curta e estranha nem sempre consegue sustentar um longa-metragem.

A história acompanha Clark, um vendedor de móveis que encontra uma passagem para um lugar aparentemente impossível. Depois de desaparecer, ele é procurado por Mary, sua terapeuta, que acaba entrando nesse universo para tentar encontrá-lo. A partir daí, o filme mergulha em corredores, salas vazias e ambientes que parecem se multiplicar indefinidamente, enquanto os personagens tentam compreender onde estão e como podem sair dali. A premissa é interessante, mas rapidamente fica evidente que o filme depende muito mais da atmosfera do que propriamente da história.

E atmosfera não falta. Kane Parsons demonstra um talento visual bastante evidente. Os cenários reproduzem com eficiência aquela estética estranha dos "backrooms", com paredes amareladas, carpete envelhecido, iluminação fluorescente e ambientes praticamente idênticos entre si. Existe algo genuinamente desconfortável nessas imagens, principalmente porque elas transformam lugares banais em espaços ameaçadores. A fotografia e o desenho de som também colaboram para criar essa sensação de isolamento, com ruídos constantes, silêncios prolongados e uma iluminação que parece nunca permitir que o espectador se sinta confortável.

O problema é que a estética acaba sendo muito mais interessante do que aquilo que o filme tem para contar. Não suporto essas coisas de surrealismo, fantasia, coisas sem explicação. Sei que essa ausência de respostas pode ser justamente o que atrai muita gente para esse tipo de produção, mas comigo acontece o contrário. Quando um filme estabelece um mistério, espero que exista alguma recompensa emocional ou narrativa nessa jornada. Aqui, quanto mais a história tenta explicar aquele universo, mais distante fico dos personagens e da própria narrativa.

Chiwetel Ejiofor faz o possível para dar humanidade a Clark, enquanto Renate Reinsve encontra alguns bons momentos como Mary. Os dois atores, porém, estão presos a personagens que nunca conseguem ultrapassar completamente suas funções dentro da trama. Seus dramas pessoais deveriam criar uma ligação emocional com o público, mas acabam parecendo acessórios para conduzir a história de um ambiente estranho ao seguinte. Falta uma conexão que faça com que eu realmente me importe com o destino deles.

É justamente aí que Backrooms: Um Não-Lugar se torna cansativo. Tedioso. A repetição dos corredores, salas e criaturas inicialmente produz curiosidade, mas depois começa a produzir apenas a sensação de que estamos andando em círculos. O que deveria ser uma representação da desorientação dos personagens passa a ser também a desorientação narrativa do próprio filme. Existem momentos interessantes, principalmente quando Parsons deixa o espaço falar por si, mas eles são prejudicados pela necessidade constante de ampliar a mitologia.

E talvez o maior problema esteja justamente nessa tentativa de transformar uma ideia simples em algo muito maior. Os backrooms eram fascinantes porque não precisavam de explicação. Uma fotografia de um espaço vazio já era suficiente para despertar a sensação de que havia algo errado. No longa, a introdução de criaturas, regras e explicações torna esse universo mais elaborado, mas não necessariamente mais interessante. Para mim, quanto mais o filme explica, menos misterioso ele fica.

É esteticamente bonito mas emocionalmente distante e completamente irrelevante. Consigo reconhecer o cuidado da produção, a qualidade dos cenários e o talento visual de Parsons, mas nada disso foi suficiente para criar envolvimento. O diretor claramente sabe construir imagens e atmosferas, e existe potencial em sua maneira de filmar, especialmente considerando que este é seu primeiro longa-metragem. O que falta é uma história capaz de sustentar esse talento durante toda a duração do filme.

No fim, Backrooms: Um Não-Lugar me parece mais uma demonstração do potencial cinematográfico de Kane Parsons do que um filme plenamente realizado. Há imagens memoráveis, uma identidade visual forte e uma premissa que continua sendo curiosa, mas também existe uma narrativa arrastada e emocionalmente pouco envolvente. O que poderia ser uma experiência inquietante acaba se tornando uma longa caminhada por corredores que parecem não levar a lugar algum. E, considerando justamente o título brasileiro, talvez essa seja a conclusão mais apropriada: depois de toda essa viagem, a sensação é a de ter chegado exatamente a lugar nenhum.

setembro 15, 2026

Coyote vs. Acme (2026)

 


Título original: Coyote vs. Acme
Direção: Dave Green
Sinopse: Após décadas de falhas catastróficas com os produtos ACME em sua caçada ao Papa-Léguas, Wile E. Coyote decide que é hora de buscar justiça e processar a corporação. Ao lado de um advogado azarado, Coyote trava uma batalha jurídica épica contra o impiedoso CEO da companhia. Enquanto enfrentam o sistema, a dupla desenvolve uma amizade improvável e luta para provar que a culpa de tantos desastres nunca foi do instinto, mas sim de defeitos de fabricação.


É curioso como alguns filmes conseguem chegar ao público carregando consigo uma história quase tão improvável quanto a que contam na tela. Coyote vs. Acme é exatamente esse tipo de caso. Um filme que ficou anos engavetado, parecia destinado a desaparecer e finalmente encontrou seu caminho até os cinemas em 2026. E existe uma ironia perfeita nisso, porque estamos falando de um personagem que passou décadas sendo esmagado, explodido, enganado e humilhado pelos produtos da ACME e que finalmente decide enfrentar a empresa responsável por todas as suas desgraças.

Eu esperava pouco. Muito pouco, na verdade. E talvez essa seja uma das maiores surpresas da experiência, porque Coyote vs. Acme é absolutamente sensacional. Não é apenas uma comédia nostálgica tentando explorar a memória afetiva de quem cresceu assistindo aos Looney Tunes. É um filme que entende seus personagens e, principalmente, entende que por trás de toda aquela loucura existe uma história muito humana sobre alguém que passou a vida inteira sendo tratado como o problema.

Sempre me identifiquei com o Coyote. E sempre o achei injustiçado. Existe algo particularmente melancólico naquele personagem que simplesmente não consegue vencer, não importa quanto tente. Ele planeja, pesquisa, compra os produtos mais absurdos da ACME, prepara suas armadilhas e, no instante seguinte, tudo dá errado. O Papa-Léguas escapa, Coyote sofre as consequências e nós rimos. O filme pega justamente essa velha piada e pergunta se talvez tenhamos passado décadas rindo da pessoa errada.

Dirigido por Dave Green, o longa acompanha Wile E. Coyote entrando em uma batalha judicial contra a ACME depois de tantos produtos defeituosos destruírem sua vida. Para isso, ele conta com o advogado Kevin Avery, vivido por Will Forte, enquanto John Cena interpreta o advogado da poderosa empresa. A partir daí, o que parecia uma premissa absurda se transforma em uma divertida comédia jurídica, mas também em uma história sobre amizade, injustiça e pessoas tentando ser ouvidas.

Will Forte funciona muito bem porque não transforma Kevin em um herói perfeito. Ele é inseguro, desacreditado e precisa recuperar a própria confiança. A relação que desenvolve com Coyote dá ao filme uma dimensão emocional que eu sinceramente não esperava encontrar. John Cena também se diverte bastante como o advogado da ACME, equilibrando o exagero necessário para uma produção desse tipo com uma atuação que nunca deixa o personagem cair completamente na caricatura.

Mas o grande astro continua sendo Coyote. O filme respeita a essência do personagem e entende que ele não precisa falar o tempo inteiro para ser engraçado. Seus olhares, movimentos e expressões continuam carregando aquela linguagem dos desenhos clássicos. E é justamente aí que o longa acerta em cheio.

Também fiquei muito surpreso com a maneira como a animação 3D é utilizada. Ela é bem sutil. Coyote e os demais personagens continuam parecendo desenhos, mas estão muito mais integrados ao mundo real do que em muitos filmes que tentaram fazer essa mistura. Para mim, Coyote vs. Acme é muito melhor que Uma Cilada Para Roger Rabbit. Não pela importância histórica, que pertence ao clássico de Robert Zemeckis, mas porque aqui a integração entre os dois mundos parece mais natural e menos preocupada em mostrar o próprio virtuosismo técnico.

A fotografia de Brandon Trost ajuda bastante nesse resultado, utilizando iluminação, perspectiva, sombras e interação física para fazer os personagens animados realmente parecerem parte daquele ambiente. O filme não precisa ficar o tempo inteiro lembrando que existe uma tecnologia por trás daquilo. Ela simplesmente funciona.

Mas o que mais me conquistou foi a crítica social. Coyote vs. Acme fala sobre grandes corporações, desigualdade de forças e pessoas que não conseguem ser ouvidas simplesmente porque não possuem dinheiro ou influência. E faz isso sem transformar a história em um discurso pesado.

É também uma excelente crítica aos julgamentos precoces. Coyote passou décadas sendo visto como um sujeito obcecado e responsável pelos próprios fracassos. O filme nos obriga a olhar novamente para essa história e perguntar se ele realmente era o culpado por tudo aquilo. É um tapa na cara de quem julga os outros sem conhecer o contexto.

E essa ideia funciona porque Coyote não é transformado em santo. Ele continua sendo Coyote. Continua cometendo erros e tomando decisões questionáveis. A diferença é que, pela primeira vez, alguém está disposto a ouvi-lo.

O roteiro de Samy Burch consegue equilibrar humor, aventura, crítica social e emoção sem esquecer que, acima de tudo, estamos diante de uma história dos Looney Tunes. A trilha de Steven Price acompanha bem essa mistura, enquanto a montagem mantém o filme movimentado, principalmente nas sequências de humor físico.

A única coisa que realmente me impede de considerar o filme completamente perfeito é o ritmo em alguns poucos momentos. Há cenas que se esticam um pouco além do timing ideal, quando poderiam terminar alguns segundos antes. É um detalhe pequeno, mas perceptível justamente porque o restante funciona tão bem.

No fim, Coyote vs. Acme é uma das maiores surpresas que tive com um filme desse tipo. Eu esperava pouco e encontrei algo absolutamente sensacional. É nostálgico sem viver apenas da nostalgia, engraçado sem ser infantil e crítico sem perder a leveza.

Sempre achei o Coyote injustiçado. Depois desse filme, acho ainda mais.

E talvez essa seja sua maior vitória. Pela primeira vez, ele deixa de ser apenas a piada e passa a ser o protagonista da própria história. Depois de décadas caindo de penhascos e sendo vítima das próprias armadilhas, finalmente chegou o momento de alguém ouvir o seu lado.

Quase perfeito. E, para um personagem que passou a vida inteira perdendo, já é uma vitória e tanto.

abril 29, 2026

O Diabo Veste Prada 2 (2026)

 


Título original: The Devil Wears Prada 2
Direção: David Frankel
Sinopse: Miranda Priestly navega por sua carreira em meio ao declínio das publicações tradicionais de revistas. Ela se confronta com Emily Charlton, sua ex-assistente, agora uma influente executiva de um grupo de luxo, que detém verbas publicitárias de que Miranda Priestly precisa desesperadamente.


É curioso como certas continuações parecem existir apenas para confirmar aquilo que já desconfiávamos. O Diabo Veste Prada 2 chega quase duas décadas depois do original com a promessa de revisitar um universo que marcou época, mas acaba funcionando mais como um eco esvaziado do que como uma evolução real. Dirigido novamente por David Frankel e reunindo nomes como Meryl Streep, Anne Hathaway, Emily Blunt e Stanley Tucci, o filme tenta atualizar o universo da moda para um cenário dominado por crises editoriais, digitalização e perda de relevância das revistas impressas . O problema é que, no meio desse esforço de modernização, ele perde justamente aquilo que fazia o original funcionar.

A maior prova disso está na própria Miranda Priestly. A personagem, que antes era magnética, cruel na medida certa e absurdamente fascinante, surge aqui irreconhecível. Não por uma tentativa ousada de reinvenção, mas por um esvaziamento evidente. É uma Miranda mais “humana”, mais contida, mais simples, e isso destrói completamente o eixo dramático. Parte do charme do primeiro filme vinha da aura quase mitológica que Meryl Streep construía com mínimos gestos e olhares. Aqui, essa força desaparece. O roteiro tenta justificar essa mudança com o declínio do mercado editorial e pressões corporativas , mas a sensação é de que tiraram o veneno da personagem sem colocar nada no lugar.

E talvez seja aí que se entenda por que a própria Streep raramente se envolve em continuações. Existe um momento em que revisitar um papel deixa de ser revisitar e passa a diluir. Em vários trechos, percebe-se uma atuação correta, profissional, mas sem o brilho que antes dominava cada cena. Não é uma questão de talento, que continua intacto, mas de material. Quando o texto não sustenta, até uma gigante como ela parece presa a algo que já perdeu o timing.

A narrativa acompanha Andy Sachs retornando ao universo da Runway em meio a uma nova fase da carreira, agora mais madura e inserida em um jornalismo em crise . A ideia tinha potencial. Havia espaço para discutir ambição, ética e adaptação a novos tempos. Mas o desenvolvimento é arrastado, com conflitos que nunca ganham peso real. Tudo parece diluído em diálogos excessivos e situações que se repetem sem chegar a lugar algum. O filme tem pouco mais de duas horas, mas a sensação é de algo ainda mais longo, tamanha a falta de ritmo.

E é justamente esse ritmo que compromete a experiência. O longa se arrasta de forma quase preguiçosa, como se estivesse sempre prestes a engrenar e nunca conseguisse. As cenas se acumulam sem urgência, sem tensão e sem aquela dinâmica ácida que fazia o original ser tão envolvente. Em vez de acompanhar uma escalada dramática, o espectador se vê preso a uma sequência de momentos mornos, próximos do entediante.

Curiosamente, quem acaba roubando a cena em meio a esse marasmo é Lady Gaga. Sua participação, que poderia facilmente ser apenas um artifício promocional, surge como um dos poucos elementos vivos do filme. Além de contribuir com a trilha, incluindo a música “Runway” , ela entrega uma presença cênica segura e carismática. Gaga já demonstrou em outras ocasiões que sabe atuar, mas aqui chama atenção justamente por conseguir trazer energia a um projeto que parece constantemente cansado de si mesmo.

O restante do elenco até tenta manter algum nível de interesse. Emily Blunt e Stanley Tucci ainda encontram momentos pontuais de brilho, especialmente pela familiaridade com seus personagens. Mas nem isso é suficiente para sustentar o filme. Há uma sensação constante de repetição, como se tudo fosse uma versão diluída do que já foi feito antes, sem o frescor ou a ironia que marcavam o original.

Outro problema evidente é a falta de novidade. Apesar de abordar temas contemporâneos como inteligência artificial e a crise do jornalismo, o filme não consegue aprofundar nenhuma dessas ideias. Tudo é tratado de maneira superficial, quase como pano de fundo decorativo. O roteiro parece mais interessado em revisitar situações conhecidas do que em realmente dizer algo novo sobre esse universo.

No fim, O Diabo Veste Prada permanece intocado justamente porque sabia quando parar. Sua continuação, ao contrário, expõe o risco de retornar a histórias que já se encerraram com perfeição. O resultado é um filme que até tenta recuperar a elegância e o sarcasmo de antes, mas que termina como uma versão simplificada e sem impacto daquilo que um dia foi icônico.

E talvez essa seja a maior decepção. Não é um desastre completo, mas é um filme que não convence, não se justifica e, principalmente, não acrescenta nada. Em vez de reafirmar o legado, acaba apenas lembrando que nem toda história precisa de um segundo capítulo.