Desde o seu início, Alabama: Presos do Sistema se propõe a derrubar o véu de silêncio que envolve o sistema prisional do Alabama nos Estados Unidos. A abordagem nasce de um encontro aparentemente casual em 2019, quando os diretores entram em um festival religioso dentro da prisão e são puxados de lado por detentos que, com celulares contrabandeados, começam a relatar condições que vão muito além de rotina carcereira e tocam em abusos, violência e negligência de uma espécie que em teoria deveria ser de correção e reabilitação. Essa escolha de matéria-prima, a gravação clandestina feita pelos próprios presos, cria um efeito de proximidade crua com o espectador e representa um dos aspectos mais singulares da obra. Você sente o peso desses vídeos porque eles vêm de dentro mesmo, sem diluição institucional alguma. Essa aposta pode ser tão valiosa quanto problemática.
A linguagem escolhida por Kaufman e Jarecki não é a de uma narrativa tradicional de documentário investigativo que guia o espectador com uma mão firme. Em muitos momentos o filme parece hesitar entre mostrar camadas de horror documental e ser um manifesto político. Isso pode dar a impressão de que o objetivo é chocar acima de explicar. A montagem se apoia fortemente em depoimentos brutos e sequências muitas vezes desconectadas entre si, o que tende a diluir o ritmo e, paradoxalmente, reduzir o impacto emocional que pretende gerar. As falas das pessoas encarceradas, ainda que fortes e essenciais, muitas vezes se sucedem de forma repetitiva, criando um ambiente narrativo que não se desenvolve logicamente, apenas se acumula.
Há momentos no documentário em que a sensação de que estamos constantemente diante de algo inédito e revelador se perde porque aquilo que se revela, graficamente mostrado ou sugerido nos relatos, torna-se uma espécie de espetáculo de horror repetido. A condição cruel da superlotação, a presença de abuso físico por parte de agentes penitenciários, a falta de atendimento médico e o uso de trabalho forçado são apresentados de maneira quase implacável, mas o filme raramente se detém para contextualizar ou aprofundar essas situações além do choque inicial. A repetição de imagens e testemunhos acaba diluindo a urgência que a própria obra pretende evocar.
Outro aspecto importante é a relação entre forma e conteúdo. A fotografia, construída majoritariamente a partir de materiais amadores — vídeos gravados em celulares — confere uma estética de guerrilha e irreverência documental. Mas esse recurso, que poderia ser uma vantagem estética e política, também pode parecer um artifício de sensacionalismo. Quando tudo é apresentado como extremamente perturbador sem um trabalho de mediação mais refinado, o espectador corre o risco de se cansar, num efeito contrário ao desejado. Ao invés de amadurecer a reflexão, a montagem muitas vezes desorienta, fazendo com que cenas de brutalidade seguidas de cenas de protesto dentro das prisões não dialoguem de forma orgânica, parecendo peças justapostas de uma colagem visceral.
O trabalho de som e música também carrega esse peso. A trilha sonora, quando presente, tende a enfatizar e reforçar a mensagem de indignação, sem deixar espaço para silêncios que poderiam ampliar a dimensão humana dos sujeitos retratados. Em vez de explorar nuances e atmosferas, a sonoridade dá um sentido imperativo ao filme, sinalizando sempre o que o público deve sentir, e isso pode soar didático demais em um documentário que busca justamente mostrar vozes marginalizadas.
Um dos pontos narrativos que era promissor — a investigação da morte de um preso, Steven Davis, sob circunstâncias suspeitas — é tratado com dedicação, mas sem dar ao público as ferramentas que poderiam permitir uma compreensão mais ampla das implicações desse caso dentro do sistema jurídico e penal como um todo. Fica claro que o documentário quer colocar a audiência diante de uma injustiça, mas ele não constrói um caminho narrativo que permita ligar os pontos com profundidade histórica, política ou social. Mais do que expor, falta ao filme explicar.
Esse tipo de abordagem pode ser poderosa em primeira instância, mas deixa uma sensação de urgência incompleta. Quando um documentário escolhe se posicionar como um grito, é inevitável que parte desse grito se perca pelo caminho se não houver uma reflexão mais sustentada por trás dele. O título do filme sugere a ideia de uma “solução”, mas o resultado final parece mais um território aberto de queixas e revelações do que uma proposição de caminhos concretos para reforma ou mudança. Essa contradição fica evidente ao final, quando o espectador é deixado com uma coleção de imagens e depoimentos que impressionam, mas raramente trazem clareza ou esperança.
A atuação dos protagonistas involuntários, os presos ativistas como Robert Earl Council e Melvin Ray, merece menção porque eles carregam o peso do filme. Eles não são apenas fontes de informações; são narradores de suas próprias vidas e experiências, e isso confere um grau de autenticidade que não pode ser ignorado. Mesmo assim, essa autenticidade não consegue, por si só, sustentar uma narrativa que precisa ser mais bem estruturada. Os momentos de resistência e organização, como uma greve de presos que o filme registra, poderiam ser mais explorados como elementos de uma história maior sobre agência, luta e transformação.
O documentário funciona como um espelho revelador de um sistema que permanece, de muitas maneiras, invisível para grande parte do público. A proposta de colocar essas vidas e vozes diante de nós é louvável e necessária, e há momentos em que isso realmente cria uma conexão direta e impactante. Porém, o modo como essa proposta é executada se perde em um ritmo irregular, em uma montagem que prioriza repetição em detrimento de aprofundamento e em decisões narrativas que transformam a causa em um grito disperso.
No fim das contas, Alabama: Presos do Sistema é um documentário que merece ser visto por abordar um tema de grande relevância social e por dar espaço a personagens que normalmente seriam silenciados. Mas como obra cinematográfica ele tropeça em suas próprias ambições, alternando entre momentos verdadeiramente reveladores e sequências que soam mais como recortes chocantes do que como uma construção cuidadosa de sentido. Kaufman e Jarecki conseguem nos mostrar o horror e a urgência do problema, mas não conseguem transformar essa exposição em um argumento cinematográfico verdadeiramente convincente e coeso. A sensação que fica é de um filme que precisava ir além do choque para encontrar significado duradouro.
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