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fevereiro 08, 2026

Alabama: Presos do Sistema (2025)

 


Título original: The Alabama Solution
Direção: Charlotte Kaufman, Andrew Jarecki
Sinopse: Filmado com celulares contrabandeados, este documentário da HBO analisa um dos sistemas prisionais mais perigosos dos EUA.


Desde o seu início, Alabama: Presos do Sistema se propõe a derrubar o véu de silêncio que envolve o sistema prisional do Alabama nos Estados Unidos. A abordagem nasce de um encontro aparentemente casual em 2019, quando os diretores entram em um festival religioso dentro da prisão e são puxados de lado por detentos que, com celulares contrabandeados, começam a relatar condições que vão muito além de rotina carcereira e tocam em abusos, violência e negligência de uma espécie que em teoria deveria ser de correção e reabilitação. Essa escolha de matéria-prima, a gravação clandestina feita pelos próprios presos, cria um efeito de proximidade crua com o espectador e representa um dos aspectos mais singulares da obra. Você sente o peso desses vídeos porque eles vêm de dentro mesmo, sem diluição institucional alguma. Essa aposta pode ser tão valiosa quanto problemática.

A linguagem escolhida por Kaufman e Jarecki não é a de uma narrativa tradicional de documentário investigativo que guia o espectador com uma mão firme. Em muitos momentos o filme parece hesitar entre mostrar camadas de horror documental e ser um manifesto político. Isso pode dar a impressão de que o objetivo é chocar acima de explicar. A montagem se apoia fortemente em depoimentos brutos e sequências muitas vezes desconectadas entre si, o que tende a diluir o ritmo e, paradoxalmente, reduzir o impacto emocional que pretende gerar. As falas das pessoas encarceradas, ainda que fortes e essenciais, muitas vezes se sucedem de forma repetitiva, criando um ambiente narrativo que não se desenvolve logicamente, apenas se acumula.

Há momentos no documentário em que a sensação de que estamos constantemente diante de algo inédito e revelador se perde porque aquilo que se revela, graficamente mostrado ou sugerido nos relatos, torna-se uma espécie de espetáculo de horror repetido. A condição cruel da superlotação, a presença de abuso físico por parte de agentes penitenciários, a falta de atendimento médico e o uso de trabalho forçado são apresentados de maneira quase implacável, mas o filme raramente se detém para contextualizar ou aprofundar essas situações além do choque inicial. A repetição de imagens e testemunhos acaba diluindo a urgência que a própria obra pretende evocar.

Outro aspecto importante é a relação entre forma e conteúdo. A fotografia, construída majoritariamente a partir de materiais amadores — vídeos gravados em celulares — confere uma estética de guerrilha e irreverência documental. Mas esse recurso, que poderia ser uma vantagem estética e política, também pode parecer um artifício de sensacionalismo. Quando tudo é apresentado como extremamente perturbador sem um trabalho de mediação mais refinado, o espectador corre o risco de se cansar, num efeito contrário ao desejado. Ao invés de amadurecer a reflexão, a montagem muitas vezes desorienta, fazendo com que cenas de brutalidade seguidas de cenas de protesto dentro das prisões não dialoguem de forma orgânica, parecendo peças justapostas de uma colagem visceral.

O trabalho de som e música também carrega esse peso. A trilha sonora, quando presente, tende a enfatizar e reforçar a mensagem de indignação, sem deixar espaço para silêncios que poderiam ampliar a dimensão humana dos sujeitos retratados. Em vez de explorar nuances e atmosferas, a sonoridade dá um sentido imperativo ao filme, sinalizando sempre o que o público deve sentir, e isso pode soar didático demais em um documentário que busca justamente mostrar vozes marginalizadas.

Um dos pontos narrativos que era promissor — a investigação da morte de um preso, Steven Davis, sob circunstâncias suspeitas — é tratado com dedicação, mas sem dar ao público as ferramentas que poderiam permitir uma compreensão mais ampla das implicações desse caso dentro do sistema jurídico e penal como um todo. Fica claro que o documentário quer colocar a audiência diante de uma injustiça, mas ele não constrói um caminho narrativo que permita ligar os pontos com profundidade histórica, política ou social. Mais do que expor, falta ao filme explicar.

Esse tipo de abordagem pode ser poderosa em primeira instância, mas deixa uma sensação de urgência incompleta. Quando um documentário escolhe se posicionar como um grito, é inevitável que parte desse grito se perca pelo caminho se não houver uma reflexão mais sustentada por trás dele. O título do filme sugere a ideia de uma “solução”, mas o resultado final parece mais um território aberto de queixas e revelações do que uma proposição de caminhos concretos para reforma ou mudança. Essa contradição fica evidente ao final, quando o espectador é deixado com uma coleção de imagens e depoimentos que impressionam, mas raramente trazem clareza ou esperança.

A atuação dos protagonistas involuntários, os presos ativistas como Robert Earl Council e Melvin Ray, merece menção porque eles carregam o peso do filme. Eles não são apenas fontes de informações; são narradores de suas próprias vidas e experiências, e isso confere um grau de autenticidade que não pode ser ignorado. Mesmo assim, essa autenticidade não consegue, por si só, sustentar uma narrativa que precisa ser mais bem estruturada. Os momentos de resistência e organização, como uma greve de presos que o filme registra, poderiam ser mais explorados como elementos de uma história maior sobre agência, luta e transformação.

O documentário funciona como um espelho revelador de um sistema que permanece, de muitas maneiras, invisível para grande parte do público. A proposta de colocar essas vidas e vozes diante de nós é louvável e necessária, e há momentos em que isso realmente cria uma conexão direta e impactante. Porém, o modo como essa proposta é executada se perde em um ritmo irregular, em uma montagem que prioriza repetição em detrimento de aprofundamento e em decisões narrativas que transformam a causa em um grito disperso.

No fim das contas, Alabama: Presos do Sistema é um documentário que merece ser visto por abordar um tema de grande relevância social e por dar espaço a personagens que normalmente seriam silenciados. Mas como obra cinematográfica ele tropeça em suas próprias ambições, alternando entre momentos verdadeiramente reveladores e sequências que soam mais como recortes chocantes do que como uma construção cuidadosa de sentido. Kaufman e Jarecki conseguem nos mostrar o horror e a urgência do problema, mas não conseguem transformar essa exposição em um argumento cinematográfico verdadeiramente convincente e coeso. A sensação que fica é de um filme que precisava ir além do choque para encontrar significado duradouro.

fevereiro 06, 2026

Drácula de Bram Stoker (1992)

 


Título original: Bram Stoker's Dracula
Direção: Francis Ford Coppola
Sinopse: O vampiro Conde Drácula vem à Inglaterra atrás de quem ele acredita ser sua antiga paixão, de quando ainda era um mortal.


O que mais chama atenção num primeiro olhar para Drácula de Bram Stoker é como tudo ali parece saído de um palco gigante e barroco. A direção de Coppola é apaixonada por texturas e performances maiores que a vida. Cada personagem entra em cena com uma energia teatral tão evidente que mais parece estar se apresentando para plateias do que falando para uma câmera. Essa escolha estética poderia soar exagerada ou caricata, mas, no contexto geral da obra, encaixa-se como uma expressão consciente de um universo que não segue as leis do realismo cotidiano. Essa teatralidade dá ao filme uma sensação de rito, de espetáculo ritualístico onde as emoções são ampliadas, quase operísticas, funcionando muito bem na composição geral do filme.

Visualmente, Coppola e seu time de colaboradores – especialmente o diretor de fotografia Michael Ballhaus – criam uma Transilvânia e um Londres vitoriano que lembram cenários de teatro iluminados com cores intensas e contrastes profundos. A fotografia e a cenografia não tentam ser discretas, ao contrário, abraçam um romantismo gótico cheio de sombras densas, cores saturadas e enquadramentos que parecem composições de pintura. A iluminação dramática, as paisagens escuras e as construções imponentes transformam cada cena num quadro cuidadosamente composto.

Também é impossível falar do impacto sensorial do filme sem mencionar os figurinos de Eiko Ishioka, que ganharam o Oscar justamente por sua originalidade e poder visual. Os trajes são extravagantes e transbordam personalidade, desde a armadura vermelha de Drácula até os vestidos de Mina e Lucy, cada peça parece ter uma história própria e falar sobre seus personagens tanto quanto seus diálogos. Essa atenção ao figurino reforça a sensação do filme como uma peça de teatro muito bem filmada, onde cada elemento visual contribui para a construção daquele mundo fantástico.

No centro desse espetáculo está Gary Oldman como o Conde Drácula. Sua performance é entregue em grandes pinceladas dramáticas que beiram o exagero, mas que carregam uma intensidade emocional inegável. Ele alterna entre formas antigas e jovens com uma habilidade impressionante, fazendo do Drácula uma figura ao mesmo tempo ameaçadora e tragicômica. Seu olhar, suas transições e sua presença imponente são quase caricaturais, mas é essa caricatura que o torna memorável e fascinante.

Winona Ryder, no papel de Mina Murray e Elisabeta, também herda esse estilo amplo de atuação. Ela encarna suas personagens com paixão e um toque de dramatização que poderia soar forçado em outro contexto, mas aqui funciona como parte de um todo coeso. A relação entre Drácula e Mina não é apenas uma história de terror, é uma espécie de tragédia romântica filmada com grandiloquência, uma paixão que parece arrancada de um palco shakespeariano mergulhado em névoa e sangue.

Outros membros do elenco, como Anthony Hopkins no papel de Van Helsing e até mesmo Keanu Reeves como Jonathan Harker, mergulham nessa estética performática. As atuações não são contidas ou naturais, elas oscilam entre o intenso e o estilizado, o que pode desarmar espectadores acostumados ao realismo moderno. No entanto, é justamente esse exagero que contribui para a sensação de que estamos assistindo a um teatro gótico gigantesco projetado em cena.

Tecnicamente, o filme também brilha. Coppola fez a opção de recusar muitos dos efeitos digitais que começavam a emergir na época e investiu em efeitos práticos, cenários elaborados e truques de câmera que dialogam com a história do cinema em si. Essa escolha dá ao filme uma textura única, quase artesanal, como se fosse um artefato físico em vez de uma criação inteiramente digital.

A trilha sonora de Wojciech Kilar complementa essa jornada com uma profundidade dramática que guia o espectador por picos emocionais e abismos sombrios, reforçando o tom de fábula gótica. A música não apenas acompanha, mas amplifica o que está em cena, beirando o operístico em momentos chave.

O resultado final é uma obra que pode confundir quem procura um horror tradicional, mas que encanta quem se deixa levar pela intensidade visual, sonora e emocional da proposta. A narrativa, com sua mistura de horror, romance e lenda, é costurada por sequências que parecem respirarem uma vida própria, como se cada cena fosse um ato de uma peça épica.

Drácula de Bram Stoker é, acima de tudo, a materialização de um cinema apaixonado, um filme que não se esconde atrás de sutilezas ou moderação. Há nesta produção um compromisso com o exagero que nasce da coragem de Coppola em abraçar a teatralidade como forma de arte. Assistir a este filme é como ser convidado para uma montagem grandiosa onde tudo é maior, mais escuro, mais colorido e mais emocionante do que se poderia esperar. É essa intenção audaciosa, essa vontade de criar não apenas um filme, mas uma experiência estética completa, que o mantém vivo na memória dos espectadores e o coloca entre as versões mais inesquecíveis do mito de Drácula no cinema.

Marty Supreme (2025)

 


Título original: Marty Supreme
Direção: Josh Safdie
Sinopse: Marty Mauser é um jovem prodígio do tênis de mesa que tem sonhos grandiosos e estilo de jogo arrojado, mas é desacreditado pelas outras pessoas. Buscando provar sua capacidade, ele faz de tudo para alcançar o reconhecimento que julga merecer.


Assistir a Marty Supreme é um daqueles momentos em que você sai da sala querendo questionar por que gastou mais de duas horas e meia de vida naquele universo. A premissa até poderia ter sido interessante: um aspirante a campeão de tênis de mesa nos anos 1950, lutando para ser reconhecido e superar adversidades numa Nova York estilizada. Na vida real essa história pode ter um charme nerd, mas na tela aquilo que parecia promissor se desfaz num ritmo dolorosamente arrastado, numa narrativa que não consegue manter o interesse nem por sua própria conclusão.

O filme poderia ser visto como mais uma investida fracassada de glorificar um bandido simpático. Josh Safdie, que já explorou personagens moralmente dúbios em trabalhos anteriores, desta vez parece perder o foco e transformar o protagonista em uma figura que não inspira nem reflexão profunda nem empatia real. Em vez disso, ele se aproxima de um retrato exagerado do ego e arrogância que beira o irritante, algo que lembra o trabalho de Paul Thomas Anderson em Uma Batalha Após a Outra, mas sem a mesma força narrativa ou significado temático. O resultado é alguém celebrando comportamentos que não têm grande substância ou propósito além da própria exibição.

A fotografia, esperada como um dos pilares visuais do filme dado o envolvimento de Darius Khondji, é decepcionante. O que poderia ser uma estética marcante dos anos 50 filmada em 35 mm acaba soando apenas datada e confusa. Longos enquadramentos que deveriam capturar o clima da cidade ou a intensidade da obsessão do protagonista muitas vezes parecem apenas estáticos demais, sem o dinamismo ou composição visual que justificassem essa escolha. Em vez de impressionar, o olhar visual do filme tem momentos em que parece desinteressado, quase desligado da narrativa e do impacto emocional que pretendia criar.

A trilha sonora, composta por Daniel Lopatin e combinada com referências de músicas de décadas posteriores, deveria trazer textura sonora e atmosfera, mas infelizmente soa horrenda e cafona. Ao invés de complementar ou elevar as cenas, muitas vezes ela interfere na fluidez e no tom, dando a impressão de uma tentativa excessiva de dinamizar o filme sem entender onde realmente precisava de ritmo ou descanso. Essa escolha sonora acaba deixando as sequências ainda mais tediosas, contribuindo para um ritmo que tropeça sem encontrar conexão com o público.

E a temática? Para dizer o mínimo, ela se desenrola de maneira entediante. A obsessão de Marty Mauser em ser o melhor jogador vira um arco narrativo que se repete sem grande variação, e boa parte dos conflitos parecem mais postiços do que organicamente relevantes. Mesmo para quem pode ter um interesse no submundo do esporte ou em estudos de personagens excêntricos, o filme não encontra um modo interessante de explorar essas ideias. Em muitos momentos ele parece mais preocupado em mostrar uma série de eventos do que realmente construir qualquer significado profundo a partir deles.

Quanto à atuação de Timothée Chalamet, que tem sido amplamente elogiada por muitos críticos e já está sendo cotada como um dos grandes trabalhos de sua carreira, eu realmente não achei nada extraordinário no que vi. É claro que ele entrega uma presença de tela intensa e um personagem marcante de certa forma, mas isso não se traduz automaticamente em um desempenho que mereça ser elevado a alturas além da conta. O filme parece pedir que admiremos o protagonista mesmo quando ele age com arrogância extrema, como se isso por si só fosse uma qualidade cativante. Em vez disso, para mim ficou a sensação de que Chalamet interpreta uma versão grandiosa de si mesmo, um sujeito cuja maior característica é justamente sua autoconfiança exacerbada e muitas vezes irritante. Se ele de fato for premiado com o Oscar por esse trabalho, vai parecer um desperdício, porque a sensação é de que grandes talentos foram exigidos para sustentar um material que, em essência, não oferece grande profundidade dramática.

No fim, enquanto algumas pessoas possam argumentar que Marty Supreme tem qualidades estéticas ou performáticas, a experiência que fica é de um filme extremamente tedioso, com ritmo ruim e decisões artísticas que não se sustentam. Em vez de uma jornada envolvente sobre ambição e luta, o que vemos é um desfile de cenas que parecem não levar a lugar nenhum, salvo talvez a ideia superficial de “grandeza” sem significado real. É uma produção que parecia ter potencial para algo especial, mas que no resultado final se perde em sua própria grandiloquência vazia.

fevereiro 03, 2026

Song Sung Blue: Um Sonho a Dois (2025)

 


Título original: Song Sung Blue
Direção: Craig Brewer
Sinopse: Mike e Claire Sardina, um casal azarado de Milwaukee, compartilham o sonho de se tornarem músicos de sucesso. Ambos com grandes aspirações, a dupla decide mudar radicalmente o rumo de suas carreiras: eles formam uma banda de tributo a Neil Diamond. Essa decisão inesperada transforma a vida dos dois artistas, que rapidamente se tornam um ícone local, lidando com a fama e as consequências dessa guinada profissional e pessoal.


O filme começa com um tom que remete àquela sensação de estar ouvindo um disco antigo: familiar, um pouco gasto, mas cheio de memórias guardadas. Craig Brewer parte de uma história real de um casal comum de Milwaukee que decide subir num palco daquele jeito meio desajeitado, meio apaixonado, como quem diz “a música é tudo o que temos”. De cara o espectador é apresentado a Mike Sardina, interpretado por Hugh Jackman, um veterano meio perdido que vive de imitar Don Ho em feiras e bares. A primeira vez que o vemos é como um artista cujo espelho reflete um homem que parece cansado da própria rotina e, ainda assim, incapaz de abandonar a ilusão de que um dia vai ser alguém maior do que realmente é. Kate Hudson vive Claire, a parceira que cruza o caminho de Mike e traz com ela aquele brilho simples de quem acredita que tudo é possível se a gente cantar alto o suficiente. A química entre os dois é o que sustenta o filme nos momentos bons e nos difíceis. Eles não apenas dividem o microfone, mas também o peso das escolhas que fazem ao longo da história.

O roteiro, escrito também por Brewer, constrói a trajetória desses dois como uma linha que oscila entre momentos de euforia musical e situações duras da vida real. A narrativa não hesita em colocar obstáculos no caminho do casal, sendo a mais marcante o acidente que muda tudo para Claire e empurra Mike para um lugar de desespero e reflexão. A forma como essas cenas são montadas tenta espelhar o impacto emocional vivido pelos personagens, mas às vezes o ritmo se perde, especialmente quando Brewer tenta empurrar o público para lágrimas fáceis. É como se a montagem quisesse nos lembrar a cada momento “olhe aqui, é sério, isso dói”, em vez de simplesmente deixar a experiência se revelar por si só.

Tecnicamente, o filme é seguro sem ser impressionante. A fotografia acompanha os shows com câmeras muitas vezes em movimento, aproximando o público da energia crua das apresentações e das melodias de Neil Diamond que permeiam a trilha sonora. Essas cenas ao vivo têm vida própria, com a música funcionando não como mero pano de fundo, mas como força narrativa — cada canção escolhida aqui é usada para marcar um clima, dizer algo sobre os personagens, levar a história pra frente. Essa utilização da música como tecido emocional é um dos pontos mais fortes do filme, e mostra como Brewer entende que um musical precisa fazer sentido tanto na performance quanto no coração de quem assiste.

Por outro lado, a direção de arte e o design de produção se mantêm em um padrão seguro do cinema americano contemporâneo: os cenários são realistas, detalhados, mas não surpreendem. Não há invenção visual além do necessário, o que, por um lado, ajuda a manter a história centrada nos protagonistas e, por outro, faz com que a estética geral pareça um pouco plana em momentos nos quais uma ousadia maior poderia ampliar a expressão emocional. A sensação que fica às vezes é de estar assistindo a um documentário dramatizado com produção de grande estúdio, o que em partes pode ser intencional, já que o filme se inspira em um documentário real.

As atuações são, sem dúvida, o pilar mais sólido do projeto. Hugh Jackman traz uma vulnerabilidade surpreendente ao papel de Mike, um homem que canta com a intensidade de quem tenta encontrar sentido nas palavras que entoa. Ele não é apenas um imitador de Neil Diamond: ele é alguém que tenta, com cada nota, resgatar pedaços de si mesmo. Kate Hudson, por sua vez, entrega talvez um dos desempenhos mais emotivos de sua carreira recente. Sua Claire transita com naturalidade entre os momentos de alegria contagiante e os instantes de dor silenciosa que a vida impõe. A maneira como ela lida com a tragédia pessoal no filme é ao mesmo tempo delicada e poderosa, fazendo com que a personagem seja sempre vista como uma mulher complexa e não apenas coadjuvante do arco emocional do marido.

No fim das contas, Song Sung Blue: Um Sonho a Dois é um filme que se apoia com muito carinho na ideia de amor, música e resiliência, mas que por vezes tropeça na própria ambição de emocionar. Há momentos em que o melodrama se torna mais evidente do que a própria verdade emocional dos personagens, e isso pode afastar quem procura uma narrativa mais contida e menos gesticulada. Ainda assim, para quem se entrega ao ritmo das canções e à sinceridade das performances, a experiência tem seus méritos, principalmente na forma como celebra o ato de cantar como um gesto de coragem e de afirmação de vida. Brewer pode não reinventar o gênero musical ou biográfico, mas ele oferece um filme que abraça seus protagonistas de maneira afetuosa e nos lembra que há poesia até nas escolhas mais aparentemente simples, desde que cantadas com o coração aberto.

Se considerarmos tudo isso como um todo, o filme funciona como um tributo aos que insistem em seguir seus sonhos apesar de tudo, mesmo que nem sempre a execução esteja à altura da ambição emocional que a história promete. A jornada de Mike e Claire pode não ressoar com todos do mesmo jeito, mas há algo de genuinamente tocante em vê-los lutar por sua música e por sua vida juntos.

fevereiro 02, 2026

A Voz de Hind Rajab (2025)

 


Título original: صوت هند رجب
Direção: Kaouther Ben Hania
Sinopse: Em uma noite de terror em Gaza, o que começa como uma chamada de emergência para o departamento humanitário se transforma em uma luta desesperada pela vida de uma criança palestina de apenas 6 anos. O filme acompanha a agonizante tentativa dos voluntários da Crescente Vermelha de resgatar Hind Rajab, presa sob fogo cruzado dentro de um carro. Em permanente contato telefônico com a menina, cuja voz no filme é real, eles enfrentam o desafio de coordenar uma operação de resgate em um ambiente de violência implacável.


A Voz de Hind Rajab chega como um sopro de cinema vivo, urgente e profundamente necessário. A diretora tunisiana Kaouther Ben Hania já tinha mostrado um talento singular para misturar realidade e ficção em suas obras anteriores, mas com este filme ela transcende e alcança um patamar raramente visto nas telas. A narrativa centra-se quase inteiramente no interior de um centro de despacho da Crescente Vermelha Palestina, onde um grupo de voluntários tenta responder a um telefonema angustiante de uma menina chamada Hind Rajab, que, cercada pela violência de uma zona de guerra, tenta desesperadamente ser resgatada. A escolha de manter a história dentro desse espaço fechado e tenso oferece um ritmo de narrativa que é ao mesmo tempo contido e explosivo emocionalmente, fazendo com que cada segundo na tela importe profundamente.

O que torna este filme especialmente poderoso é a decisão da cineasta de usar a própria gravação real da voz de Hind Rajab nas cenas que retratam seus últimos momentos. Esse som, pequeno e frágil na sua origem, preenche a sala e invade a nossa experiência de espectador de uma forma que poucos filmes conseguem. Não é apenas a técnica de som que impressiona, mas como essa escolha transforma a narrativa em um testemunho, uma peça de arte que nos obriga a ouvir, e a sentir, em vez de simplesmente observar. Através dessa voz, tão humana e vulnerável, a história deixa de ser uma representação distante para se tornar uma ponte direta para a realidade vivida por milhões de pessoas.

As performances dos atores que interpretam os voluntários da Crescente Vermelha são outro pilar desse filme. Saja Kilani, como Rana Hassan Faqih, traz uma presença de calma tensa que ressoa em cada linha de diálogo, mesmo quando tudo parece cair ao redor. Motaz Malhees, Amer Hlehel e Clara Khoury compõem um quarteto que transmite uma gama de emoções com naturalidade e profundidade, desde a determinação silenciosa até momentos de visível dor e impotência. A maneira como Ben Hania dirige esses atores permite que cada um deles respire e exista como pessoa dentro de uma situação extrema, sem cair em exageros melodramáticos ou caricaturas.

A cinematografia de Juan Sarmiento G. é outro elemento notável. Ao escolher enquadramentos que enfatizam a claustrofobia da sala de despacho e as expressões sutis dos rostos dos personagens, a câmera nunca se afasta de nossa empatia por eles. Os planos são limpos, muitas vezes longos, sem cortes desnecessários, convidando o espectador a viver o tempo em que a história se desenrola como se estivesse ali, ouvindo cada respiração, cada pausa e cada hesitação. A edição, por sua vez, maneja com maestria o ritmo da narrativa, deixando espaço para que os silêncios falem tanto quanto as palavras.

A música de Amine Bouhafa e o trabalho de som criam uma atmosfera que é ao mesmo tempo íntima e imensa. Não é uma trilha musical no sentido tradicional, mas um conjunto de texturas sonoras que ampliam a tensão emocional e enfatizam a presença da voz de Hind no centro de tudo. A tensão sonora, combinada com os efeitos de som ambiente e o uso deliberado da voz real da menina, torna a experiência quase palpável, como se estivéssemos dentro daquele centro de despacho lutando, junto com os personagens, para evitar que a tragédia aconteça.

O impacto de A Voz de Hind Rajab no público e na crítica internacional tem sido impressionante. Em sua estreia no Festival de Cinema de Veneza, o filme foi ovacionado por mais de 20 minutos, um sinal claro da ressonância emocional que o trabalho tem com plateias de diferentes culturas e experiências. Essa recepção extraordinária não é apenas um reflexo da técnica cinematográfica apurada ou da narrativa envolvente, mas da capacidade que o filme tem de tocar em questões humanas universais, de colocar rostos e vozes em estatísticas e de lembrar que cada pessoa tem uma história que merece ser ouvida.

O feito artístico de Ben Hania está também na maneira como ela equilibra o contexto histórico e político com a experiência puramente humana. A Voz de Hind Rajab não precisa recorrer a imagens explícitas de violência para transmitir a gravidade dos acontecimentos. A diretora, com sensibilidade, nos submerge na atmosfera daquilo que significa estar sozinho em perigo, lutando por um socorro que parece sempre distante. Essa escolha não apenas respeita a dignidade das pessoas reais cujas vozes e histórias inspiraram o filme, mas enriquece a experiência cinematográfica ao transformar o espectador em um parceiro silencioso da narrativa.

Este é um filme que se destaca não apenas pelo seu conteúdo, mas pela forma como o conteúdo é apresentado. Ele é provavelmente um dos filmes mais impactantes lançados nos últimos anos, um exemplo de como o cinema pode funcionar não apenas como entretenimento, mas como uma forma vital de conexão empática e reflexão sobre questões humanas profundas. Em cada cena, em cada tom de voz, em cada silêncio carregado de significado, A Voz de Hind Rajab reafirma o poder do cinema em sua forma mais pura e essencial: contar histórias que nos lembram de nossa humanidade compartilhada. 

fevereiro 01, 2026

Nuremberg (2025)

 


Título original: Nuremberg
Direção: James Vanderbilt
Sinopse: O psiquiatra americano Douglas Kelley, encarregado de determinar se os prisioneiros nazistas estão aptos a serem julgados por seus crimes de guerra, se vê em uma complexa batalha de inteligência com o braço direito de Hitler, Hermann Göring.


O filme Nuremberg entra na sala com a ambição de contar um dos capítulos mais densos da história moderna através da lente humana e íntima de um duelo psicológico. James Vanderbilt, que já havia se destacado como roteirista em filmes como Zodíaco, assume aqui não apenas o roteiro, mas também a direção, optando por uma narrativa que privilegia o embate de vontades mais do que uma reconstituição histórica linear. Ao adaptar o livro The Nazi and the Psychiatrist, de Jack El-Hai, ele mergulha no coração moral dos julgamentos que marcaram o fim da Segunda Guerra Mundial, tentando explicar como homens aparentemente comuns chegaram a cometer atrocidades indescritíveis.

O ponto de partida é simples em sua estrutura: após a rendição da Alemanha nazista, o psiquiatra do Exército dos Estados Unidos, Douglas Kelley, interpretado por Rami Malek, é encarregado de avaliar Hermann Göring, papel entregue a Russell Crowe, e outros prisioneiros de alto escalão para determinar se estão mentalmente aptos para enfrentar os julgamentos. A relação entre Kelley e Göring é a espinha dorsal da história e funciona como uma mesa de negociações entre ciência, moral e poder. Crowe domina a cena com uma presença que alterna charme e maldade, dando vida a um Göring que não é apenas vilão caricatural, mas um homem capaz de hipnotizar e manipular. Malek, por sua vez, traz à tona a insegurança escondida sob a fachada racional do seu personagem, embora seu desempenho nem sempre encante da mesma forma que o de seu parceiro de cena, criando uma dinâmica desigual que tira um pouco da força emocional que o roteiro tenta imprimir.

Tecnicamente o filme é sólido. A fotografia de Dariusz Wolski ajuda a transportar o espectador para aquele fim de guerra em que o peso de cada decisão parecia esmagador, mesmo quando filmado com tons relativamente contidos e um ritmo que aposta mais no drama interno do que em momentos de choque visual. A edição de Tom Eagles e a música de Brian Tyler contribuem para manter a narrativa fluindo, embora em alguns momentos o ritmo pareça ponderado demais, quase como se estivesse sempre equilibrando entre um documentário e um drama de tribunal tradicional. Essa escolha de ritmo é compreensível considerando a temática pesada, mas ela também acaba por arrastar algumas partes sem permitir que o espectador absorva plenamente cada cena antes de avançar para a próxima.

A estreia mundial do filme aconteceu no Festival Internacional de Cinema de Toronto, onde foi recebido com uma longa ovação de pé, e isso pode ter criado expectativas muito altas que a obra não consegue sustentar completamente ao longo de suas quase duas horas e meia de duração. O roteiro, por mais que tente explorar o jogo de inteligência e poder entre Kelley e Göring, às vezes cai em conversas que soam mais como explicações históricas de fácil digestão do que como conflitos verdadeiramente envolventes. A tentativa de tornar certos diálogos acessíveis ao público geral faz com que algumas discussões mais complexas percam profundidade, deixando a impressão de que mais tempo foi gasto em frases impactantes do que em desenvolvimento narrativo consistente.

Em termos de elenco de apoio, há nomes que ajudam a ancorar a história, como Michael Shannon interpretando o juiz Robert H. Jackson e Richard E. Grant como Sir David Maxwell Fyfe, figuras que adicionam camadas ao retrato dos julgamentos. Esses atores conseguem trazer nuances que equilibram a carga dramática, mesmo quando a própria narrativa parece hesitar em dar a cada um espaço suficiente para respirar. Porém, a grande maioria desses coadjuvantes acaba funcionando mais como peças de um grande tabuleiro histórico do que como personagens com vida própria, o que empobrece um pouco a experiência emocional do filme como um todo.

Um elemento que certamente divide opiniões é a maneira como Nuremberg lida com o horror representado pelos crimes nazistas. Há momentos em que imagens reais da brutalidade da guerra e dos campos de concentração são exibidas, contrastando fortemente com o restante da dramatização e lembrando ao público o peso histórico por trás de cada conversa teórica. Essa inserção de imagens reais é potente, mas também levanta a questão de que o filme, ao querer tornar muitos aspectos palatáveis e “assistíveis”, às vezes dilui o impacto que uma obra sobre esse tema deveria ter. A escolha de humanizar figuras históricas tão emblematicamente vilanescas é delicada, e aqui ela funciona em parte, mas deixa um sabor de oportunidade perdida em termos de profundidade moral e reflexão crítica.

A direção de Vanderbilt é competente, e há mérito em sua intenção de trazer à tona um capítulo essencial da história da justiça internacional. No entanto, essa ambição também parece ser sua maior limitação. O filme quer ser um drama humano, um thriller psicológico e uma lição de história ao mesmo tempo, e no processo acaba não se aprofundando o bastante em nenhum desses aspectos. Em outras palavras, ele se esforça para cumprir muitos papéis e às vezes não encontra o equilíbrio ideal entre eles. A sensação que fica é de que se trata de uma obra que parece maior do que efetivamente é, porque em vez de ir a fundo nas contradições e complexidades humanas que ampliariam seu impacto, ela prefere consultar seu próprio roteiro e se manter dentro de parâmetros seguros.

No fim das contas, Nuremberg é um filme que merece ser visto por sua proposta ousada e pelas atuações marcantes, principalmente de Crowe, mas que também frustrará quem espera uma narrativa mais ousada ou emocionalmente envolvente. Sua abordagem cuidadosa e, por vezes, excessivamente ponderada, cria uma distância que impede o espectador de se conectar de forma mais visceral com o que está sendo apresentado, reduzindo a intensidade dramática de um enredo que, em teoria, carregaria potencial para impactar muito mais. Ainda assim, é um trabalho respeitável que cumpre em parte sua missão de lembrar ao público a importância de não esquecer os horrores do passado e de refletir sobre as falhas e limites da justiça humana. 

janeiro 28, 2026

A Pequena Amélie (2025)

 


Título original: Amélie et la Métaphysique des Tubes
Direção: Maïlys Vallade, Liane-cho Han
Sinopse: O mundo é um mistério desconcertante e tranquilo para Amélie, uma garotinha belga nascida no Japão. À medida que desenvolve um profundo apego à governanta da família, Amélie descobre as maravilhas da natureza, bem como as verdades ocultas sob a superfície da vida idílica na Terra do Sol Nascente.


Desde os primeiros minutos de A Pequena Amélie somos convidados a mergulhar num universo de sensações e descobertas que espelham o olhar curioso e quase místico de uma criança em formação. Escrito e dirigido por Maïlys Vallade e Liane-Cho Han, o filme adapta o romance autobiográfico de Amélie Nothomb, conhecido por sua estranheza poética e pela maneira como transforma experiências sensoriais em linguagem literária e agora visual.

A narrativa parte de um ponto de vista pouco explorado no cinema: a experiência da primeira infância antes dos três anos, quando tudo ainda é novidade e o significado brota da percepção mais do que da lógica. A maneira como isso é traduzido em imagens e animações é um triunfo artístico em si. Cada quadro do filme parece pintado com delicadeza, usando uma paleta que mistura tons pasteis e cores vibrantes para expressar emoções mais do que acontecimentos concretos. Essa escolha estética dá ao filme uma textura quase onírica, como se estivéssemos vendo o mundo pelos olhos de alguém que ainda não aprendeu a separar fantasia de realidade.

O trabalho de direção de arte é um dos pilares mais fortes da obra. Os personagens e ambientes são desenhados com uma suavidade que remete à aquarela e à pintura manual, mas sem perder a fluidez que se espera da animação contemporânea. Essa sensibilidade visual não está lá só para ser bonita. Ela tem um papel narrativo: as cores e formas acompanham as emoções de Amélie, moldando e transformando a percepção do espectador de acordo com as descobertas que a personagem faz. Os criadores chegam a atribuir cores específicas a personagens e estados de espírito, o que ajuda a construir uma leitura emocional intuitiva da história.

O design de som e a trilha fortalecem esse senso de imersão. Em vários momentos, o som ambiente e a música se misturam de forma tão natural que mais parecem parte da própria consciência de Amélie do que simples elementos complementares. Em cenas onde a menina explora texturas, sabores e sons do mundo ao seu redor, os efeitos sonoros são usados com uma precisão que dá peso emocional a detalhes que, em outras obras, passariam despercebidos. Isso é particularmente eficaz nas sequências onde a percepção sensorial toma o lugar da narrativa tradicional, deixando o espectador experimentar o que a personagem sente, em vez de ser contado sobre isso.

O roteiro, adaptado por Liane-Cho Han, Maïlys Vallade e colaboradores a partir do livro de Nothomb, encontra um equilíbrio interessante entre o literal e o simbólico. Não é um filme de ação ou de grandes reviravoltas, mas uma jornada interior. A história acompanha Amélie desde um estado quase vegetativo até o despertar para o mundo através de pequenos acontecimentos — um terremoto, um pedaço de chocolate, um gesto de carinho — que vão moldando sua maneira de ver e sentir. A história ganha força justamente por não se prender a uma estrutura clássica de conflito e resolução. Em vez disso, ela aposta na maneira como lembranças e sensações se acumulam para formar uma identidade.

Esse enfoque narrativo naturalmente favorece a introspecção, e o filme se beneficia imensamente disso. Ele exige uma entrega do espectador para acompanhar a fluidez dos pensamentos de Amélie, e a recompensa vem na forma de profunda empatia. Ao deixar de lado muitos elementos de trama convencional, a animação abre espaço para que cada um leve consigo suas próprias lembranças de infância, projetando-as na tela. Esse tipo de experiência cinematográfica é raro, porque não se limita a contar uma história bonita. Ela conecta emocionalmente sem manipular, simplesmente refletindo as nuances do crescimento e da formação da consciência.

O elenco de vozes também merece destaque, com atuações que variam entre o sussurro contemplativo e a expressão vívida de sensações que ainda não têm palavras. Loïse Charpentier na voz de Amélie, por exemplo, consegue transmitir uma vasta gama de sentimentos com uma naturalidade que impressiona, considerando que muitas emoções exploradas pelo filme estão abaixo da linguagem verbal típica. As interações com a figura de Nishio-san, uma espécie de guia emocional na vida da pequena protagonista, são especialmente memoráveis, funcionando como âncoras afetivas em meio à abstração sensorial do resto da obra.

Tecnicamente o filme também se destaca por sua economia de recursos. Com cerca de 1 hora e 17 minutos, a duração é perfeita para que a proposta poética não se estenda demais, mantendo o espectador engajado sem cansar. A animação é fluida, mas nunca explosiva — as cenas respiram, e essa respiração é parte do ritmo da história. O uso de silêncios e de pausas contemplativas é tão significativo quanto a movimentação dos personagens, um lembrete de que nem tudo no cinema precisa ser comunicado por meio de ação e diálogo.

É também interessante observar como o filme dialoga com a cultura japonesa sem cair em exotismo gratuito. A presença de costumes, espaços e sensações ligados ao Japão serve como pano de fundo para a experiência de deslocamento e formação de identidade de Amélie, não como mero cenário. Isso confere uma autenticidade cultural que enriquece a narrativa e amplia o alcance emocional da obra, fazendo com que o filme fale tanto sobre infância quanto sobre o encontro entre mundos diferentes.

No conjunto, A Pequena Amélie é um filme que conquista pelo seu olhar sensível e pela coragem de apostar numa narrativa que privilegia sensações e memórias. Ele não é um espetáculo de grandes acontecimentos, mas sim um convite a se reconectar com a própria infância, aquela fase onde tudo é mistério, surpresa e descoberta. A experiência pode ser leve ou profunda, de acordo com o que cada espectador carrega, e é justamente essa flexibilidade afetiva que faz da obra um exemplo encantador de cinema de animação que não tem medo de ser frágil e humano.

janeiro 27, 2026

Guerreiras do K-Pop (2025)

 


Título original: KPop Demon Hunters
Direção: Maggie Kang, Chris Appelhans
Sinopse: Quando não estão lotando estádios, as estrelas do K-pop Rumi, Mira e Zoey usam seus poderes secretos para proteger os fãs contra ameaças sobrenaturais.


Guerreiras do K-Pop chegou como mais um título “evento” da Netflix em junho de 2025, prometendo uma mistura de música pop e fantasia animada que fundisse o frenesi das girl bands de K-pop com batalhas sobrenaturais cheias de energia. A premissa é simples ao extremo: Rumi, Mira e Zoey formam o girl group HUNTR/X, um grupo de estrelas pop que, quando não está arrasando estádios, combate criaturas demoníacas com o poder de suas vozes e coreografias. Imaginando isso no papel, a ideia tem certa leveza e potencial para um entretenimento vibrante, mas na prática é uma construção narrativa rasa que não sustenta o filme por muito tempo.

A história em geral é fortemente superficial. O roteiro coloca os elementos pop e fantasiosos na tela como se fossem suficientes em si, mas falta substância, conexão emocional e lógica interna. Por exemplo, o conflito central com um grupo rival formado por demônios mascarados de boy band jamais tem uma construção convincente ou motivação que vá além do clichê de “eles querem roubar nossos fãs”. O público acaba vendo cena após cena que se assemelha mais a um clipe musical prolongado do que a um arco dramático coerente. É difícil se importar com o destino das personagens porque mal chegamos a conhecer realmente quem elas são de verdade fora do palco e das lutas.

Essa fragilidade narrativa também se manifesta no ritmo. Em vários momentos a impressão é de que estamos pulando de um número musical espetacular para outro, sem uma ponte dramática sólida que conecte emocionalmente o público com os acontecimentos. A tentativa de inserir temas de identidade e aceitação soa forçada diante da falta de profundidade com que essas questões são tratadas. Vira e mexe o filme recorre a soluções fáceis de roteiro e diálogos expositivos para explicar relações ou motivações, o que acaba tirando qualquer frescor ou surpresa que a história pudesse ter.

Artisticamente, porém, Guerreiras do K-Pop tem aspectos que se destacam. A animação é vistosa e energética, com uma paleta de cores vibrante que casa bem com o universo do pop e com as coreografias ensaiadas para cada número musical. A direção visual consegue captar aquela sensação de espetáculo que se espera de um show de K-pop, com luzes, brilho e movimentos sincronizados que lembram grandes performances reais. Em muitos momentos, o impacto visual da animação é o que segura a atenção do espectador diante das lacunas do roteiro.

E é justamente nas músicas que o filme encontra sua razão de ser. As canções compostas para Guerreiras do K-Pop são de longe o ponto mais forte da produção. Elas realmente grudam na cabeça e conseguem transmitir uma energia contagiante, mesmo para quem não é fã do gênero. Isso explica por que parte do público e até mesmo o mercado musical abraçou essas faixas com entusiasmo, levando algumas a alcançar posições altas em paradas de sucesso global, como o hit “Golden”, que ultrapassou recordes nas listas da Billboard e em outras partes do mundo. A trilha sonora consegue ser memorável de uma forma que o restante do filme não é.

As performances vocais também ajudam a elevar essas faixas acima da média, e é fácil imaginar espectadores saindo do filme com algumas das canções na cabeça, ouvindo repetidas vezes depois. Mas esse brilho musical pouco faz para camuflar o fato de que a animação, por trás do espetáculo, carece de alma narrativa. A sensação que fica é de que os realizadores apostaram tudo no apelo sonoro e visual, negligenciando a necessidade de um roteiro mais sólido e personagens verdadeiramente envolventes.

Mesmo tecnicamente, embora seja impossível negar algum rigor na construção dos números musicais e no design dos personagens e cenários, o conjunto não se sustenta. Cada vez que a história tenta se aprofundar em temas como vulnerabilidade, amizade ou autoaceitação, esbarra em soluções narrativas preguiçosas e momentos que parecem colocados para preencher lacunas em vez de abrir portas para compreensão emocional. Isso torna a experiência final bastante superficial e dissociada da promessa que o título carrega.

De certa forma, é curioso observar que um filme tão assistido e comentado mundialmente possa falhar em algo tão essencial quanto uma boa história. O apelo pop e as músicas inegavelmente fortes funcionam como um tipo de cola que mantém o espectador engajado superficialmente, mas não há um núcleo narrativo que justifique realmente a existência da obra fora do espetáculo auditivo e visual. Se você busca um filme com profundidade ou personagens marcantes, dificilmente isso será encontrado aqui. A sensação que fica ao final é semelhante a terminar um álbum de músicas excelentes com letras fracas e pouco conectadas entre si.

A produção, ao se apoiar tanto em tendências culturais, especialmente na popularidade do K-pop e nos números de visualizações de streaming, faz sentido comercialmente, mas artisticamente se revela bastante falha. A impressão geral é de que os diretores Maggie Kang e Chris Appelhans colocaram mais energia na estética que na narrativa. Enquanto algumas cenas podem divertir momentaneamente, o todo acaba sendo esquecível, exceto pelas músicas que realmente grudam na cabeça do espectador.

No fim das contas, Guerreiras do K-Pop é um filme que vale mais pela sua trilha sonora do que por sua história. Mesmo com momentos visualmente atraentes e músicas que dificilmente saem da cabeça depois da sessão, não é possível ignorar que o roteiro em si é péssimo e a narrativa fraquíssima. O que poderia ter sido uma celebração inventiva da cultura pop termina sendo um produto visualmente saturado com pouco para contar de verdade, e a única razão pela qual ele permanece na memória de quem assiste são as faixas realmente cativantes que compõem sua trilha sonora.

janeiro 26, 2026

Nouvelle Vague (2025)

 


Título original: Nouvelle Vague
Direção: Richard Linklater
Sinopse: Acontece de tudo nos bastidores das filmagens de Acossado, de Jean-Luc Godard, um marco do movimento cinematográfico francês Nouvelle Vague.


Nouvelle Vague, como o próprio título indica, tenta revisitar um dos momentos mais celebrados da história do cinema: a criação de À Bout de Souffle (Acossado) por Jean-Luc Godard, um dos pilares da chamada Nouvelle Vague francesa. A premissa em si poderia ser um convite fascinante para explorar a gênese de um movimento que realmente abalou a forma como filmes eram feitos e pensados. A estrutura do filme, a fotografia em preto e branco, a escolha de filmar em formato 4:3 e até os detalhes como marcas de bobina e grão de película evocam esse período com uma precisão quase arqueológica. A maneira como Linklater e o diretor de fotografia David Chambille constroem a estética é tecnicamente competente, com um respeito evidente aos elementos visuais da época e um esforço claro em transportar o espectador para Paris em 1959.

O principal problema, e onde a minha antipatia por Richard Linklater se torna relevante, é que essa homenagem reverente acaba se tornando um simulacro vazio. Linklater sempre se apresentou como um diretor que aprecia o cinema em todas as suas formas, mas aqui essa admiração parece encobrir uma incapacidade de se engajar verdadeiramente com o espírito provocador que estava em jogo na obra de Godard e seus contemporâneos. Linklater, que muitas vezes se aninha em narrativas pausadas e introspectivas, tenta aqui um experimento histórico, mas o resultado soa como um passeio turístico por um marco cultural em vez de uma experiência cinematográfica que realmente desafie o espectador ou reproduza a ousadia que a Nouvelle Vague representou na época. A reverência se transforma em reverência por si mesma, uma reverência que empana a energia original e a substitui por um tipo de nostalgia ensaiada que não tem o mesmo impacto revolucionário.

O roteiro, que se esforça para acompanhar os bastidores da produção de Acossado, é minucioso ao ponto de parecer uma série de anotações de arquivo organizadas de forma dramática, mas sem alma. A dinâmica entre os personagens, incluindo Godard, a atriz americana Jean Seberg e o ator Jean-Paul Belmondo, misturada com as dificuldades de gravação, poderia ser fascinante se os conflitos fossem trabalhados com profundidade real. Em vez disso, muitos desses momentos parecem encenados para reafirmar o quanto aquela história é importante, mas sem que Linklater nos dê um motivo emocional para nos importarmos com esses indivíduos além de sua importância histórica. As cenas de improviso e café em que a equipe se encontra poderiam ter servido para revelar nuances humanas, mas aqui elas surgem mais como um convite para fãs de cinema reconhecerem referências do que como um mergulho nos dilemas e contradições daquele grupo de artistas.

A atuação de Guillaume Marbeck como Godard e de Zoey Deutch como Seberg tem momentos que flertam com uma autenticidade leve e espontânea, mas mesmo isso é sufocado por um roteiro que parece mais interessado em registrar do que em criar. Há uma quantidade enorme de nomes célebres do cinema francês presentes no texto e nas cenas, e isso pode ser divertido para quem gosta de trivia, mas também contribui para uma sensação de encolher o cinema a uma coleção de ícones em vez de explorar o que esses ícones sentiam e por que suas ideias realmente chocaram e modificaram as convenções do cinema.

Tecnicamente, o filme é impecável em muitos aspectos. A recriação de figurinos, locações e o uso do preto e branco evocam uma época com cuidado e precisão. A maneira como a câmera se move e enquadra certas cenas é, sem dúvida, um aceno respeitoso à estética que consagrou Godard. E ainda assim, essa exatidão técnica parece mais uma máscara do que um veículo de expressão. Linklater parece se sentir mais confortável recriando um estilo do que se arriscando a interpretá-lo ou expandi-lo de forma significativa. É como se, em vez de se comprometer com a ousadia original da Nouvelle Vague, ele tivesse escolhido viver dela de forma segura, admirando-a de longe e contentando-se em ser um artesão competente em vez de um provocador.

Esse tipo de cinema pode agradar quem gosta de celebrações respeitosas do passado. Não há como negar que a produção tem leveza, charme e até momentos em que dá gosto ver atores encarnando figuras tão icônicas em cenários tão ricos. A ambientação, o figurino e o elenco trazem detalhes preciosos e cuidadosos que, nas mãos de outro diretor, poderiam se tornar uma obra mais viva e vibrante. Mas aqui, essa vitrine técnica não encontra um coração narrativo que pulsa com intensidade própria. A sensação final é de assistir a um documentário dramatizado, com cortes bonitos e um senso de importância que nunca se justifica plenamente durante o tempo de projeção.

Outro aspecto que sempre me incomoda em Linklater é essa sua tendência a sentimentalizar e a domesticar qualquer material que poderia ter sido inquietante ou perturbador. Aqui ele suaviza o caos que estava no centro da criação de Acossado e transforma em algo palatável, limpo e elegante, tirando qualquer risco real de cena que realmente faça o espectador sentir a urgência e a ruptura que estavam no ar em Paris no final dos anos 50. A própria escolha de se apegar a um tom narrativo acessível, em vez de abraçar a complexidade e as contradições da época e das pessoas envolvidas, transforma o filme em uma peça decorativa em vez de um acontecimento cinematográfico com impacto emocional duradouro.

Ao fim da sessão, o que fica não é o ar revolucionário de uma nova forma de fazer cinema, mas um conforto bem ajeitado que talvez apenas reforce a grandeza do original sem aportar nada de realmente inquietante ou memorável por si só. Para mim, que detesto a visão muitas vezes complacente de Linklater, Nouvelle Vague é a confirmação de que ele prefere refazer-se do que se desafiar de verdade. A homenagem, em vez de ser uma ponte viva entre gerações, acaba sendo uma vitrine polida de um passado que merece ser questionado e vivido, não apenas retratado com admiração elegante.

Se o cinema deve servir de espelho e de provocador, então este filme se contenta demais em refletir o brilho alheio em vez de buscar um brilho próprio. E isso, para mim, é um sintoma claro da fraqueza mais profunda da obra: a falta de ousadia, de nervo, de risco. Em última análise, Nouvelle Vague entra para a lista daqueles filmes que olham para a história do cinema com respeito, mas sem a coragem de incitá-la novamente, deixando uma sensação de oportunidade perdida mais do que de reverência genuína.

janeiro 18, 2026

Hamnet: A Vida Antes de Hamlet (2025)

 


Título original: Hamnet
Direção: Chloé Zhao
Sinopse: Um dos mais importantes escritores do cânone ocidental, William Shakespeare vive uma tragédia ao lado de sua esposa Agnes quando o casal perde o filho de 11 anos para uma das várias pragas que assolaram o século XVI. Hamnet era o nome do menino. Explorando os temas da perda e da morte, o filme acompanha a rotina e o dia a dia de uma família, as alegrias e as tristezas de viver numa pequena vila na Inglaterra do passado e a história de amor poderosa que inspirou a criação da peça Hamlet.


Desde o início, Zhao aposta na estética sensorial. A câmera de Łukasz Żal privilegia tons terrosos e uma fotografia que pretende ser orgânica, muitas vezes se aproximando da natureza como se ela fosse personagem e espelho das emoções internas dos protagonistas. A trilha de Max Richter tenta dar suporte a esse universo emocional, com passagens que flutuam entre os momentos de silêncio e as elevações dramáticas, mas em vez de construir nuances, muitas vezes se acumula e empurra a narrativa para um lugar excessivamente expectante, como se nos lembrasse o tempo todo que ali há tristeza para ser sentida.

A história começa com um equilíbrio calmo: a infância dos filhos, a vida familiar em uma pequena comunidade rural, a relação de Agnes com a natureza e sua conexão quase mítica com o mundo ao redor. Jessie Buckley e Paul Mescal entregam performances intensas, e em muitos momentos é impossível negar o carisma e a entrega dos dois. Buckley tem cenas poderosas em que tenta expressar, com o corpo e o rosto, o peso da perda que se avizinha, e Mescal tenta carregar Shakespeare como alguém dividido entre o mundo literário e as exigências da vida familiar. Ainda assim, a relação entre eles às vezes se apoia demais em momentos de sofrimento explícito e menos em verdades comportamentais mais sutis, o que deixa a impressão de que a atuação oscila entre visceral e artificiosa.

Quando o ponto de virada chega — a doença e a morte de Hamnet — o filme abraça o melodrama com unhas e dentes. A sequência é longa e insistente, quase teatral de tão crua, como se fosse desenhada mais para arrancar lágrimas do que para explorar as verdadeiras implicações da perda. É aqui que Hamnet demonstra seu maior problema: a tendência de empurrar o espectador para sentir em vez de permitir que ele descubra por conta própria. A tristeza ganha muitos gritos e poucos suspiros, muitos climas e poucos detalhes que realmente amarram o público ao arco emocional da personagem.

A adaptação de Zhao tenta ser fiel ao livro em muitos aspectos, mas a maneira como essa fidelidade se traduz na tela é desigual. Por um lado, há cenas de grande beleza, como encontros em meio à floresta e momentos em família que parecem capturar um tempo quase eterno de calma. Por outro lado, a montagem e o ritmo se perdem quando o foco transita para a dor aberta, criando uma sensação de longa duração que pesa mais pelo exagero dramático do que pela profundidade. 

A ideia de ligar diretamente a dor pessoal de Shakespeare à criação de Hamlet é ambiciosa e traz questões interessantes. O filme tenta oferecer uma interpretação que humaniza o gênio por trás de uma das maiores peças de todos os tempos, mas esse esforço se perde em escolhas narrativas que exageram no sofrimento explícito e em cenas que parecem mais penduradas em técnicas emocionais familiares do que em uma construção dramática orgânica. A sensação de manipulação emocional é real em alguns momentos, porque o filme recorre a artifícios cinematográficos previsíveis em vez de confiar em suas próprias imagens e performances mais contidas para gerar conexão genuína.

Tecnicamente, a produção acerta em alguns pontos de ambientação e em cenas que exploram o espaço físico e social do período retratado. Os figurinos, a direção de arte e certos cortes de montagem dão verossimilhança ao mundo do século XVII. A direção de Zhao tende a favorecer cenas amplas e contemplativas, e isso funciona quando se trata de refletir sobre o universo natural e a vida antes da tragédia. Contudo, quando a narrativa exige um mergulho mais íntimo, a câmera muitas vezes recua para planos que exageram ou dramatizam em vez de revelar verdade emocional.

No fim das contas, Hamnet: A Vida Antes de Hamlet é um filme que tenta ser grandioso no que deveria ser simples. A proposta de transformar uma história de amor e perda em explicação para uma obra-prima da literatura é interessante, mas a execução cinematográfica tropeça em escolhas que deixam o espectador à distância. É um filme cheio de intenções nobres, com performances de alto nível e visuais bonitos, mas que falha em transformar esses elementos em uma experiência narrativa harmoniosa. Fica a impressão de uma obra que se esforça demais para ser sentida intensamente e acaba não sendo tão memorável quanto sua inspiração original.

Se o objetivo era tocar o coração profundamente através da dor e da arte, Hamnet certamente tenta com todas as suas forças, mas nem sempre o resultado compensa. A história pode ser digna de reflexão, mas o caminho escolhido para contar essa história pode deixar muitos espectadores mais exaustos do que verdadeiramente movidos.