Páginas

março 03, 2026

O Diabo Não Tem Descanso (2025)

 


Título original: The Devil Is Busy
Direção: Christalyn Hampton, Geeta Gandbhir
Sinopse: Documentário da HBO que mostra a realidade atual da saúde reprodutiva nos EUA, acompanhando Tracy, uma mulher de fé e a inabalável chefe de segurança de uma clínica de aborto em Atlanta.


O curta-metragem O Diabo Não Tem Descanso, dirigido por Geeta Gandbhir e Christalyn Hampton, é um daqueles documentários que parecem nascer de um contexto político muito específico e urgente. Com pouco mais de meia hora de duração, o filme acompanha um único dia de funcionamento de uma clínica de aborto em Atlanta, nos Estados Unidos, onde médicos e funcionários tentam manter o atendimento funcionando enquanto lidam diariamente com protestos e tensões do lado de fora do prédio. No centro da narrativa está Tracii, responsável pela segurança do local, que passa o dia tentando proteger pacientes e colegas em meio a um ambiente de constante hostilidade.

A proposta do curta é claramente mostrar como a rotina de uma clínica desse tipo se transformou depois das mudanças recentes nas leis sobre aborto nos Estados Unidos. A câmera acompanha os procedimentos de segurança, as chegadas das pacientes e os momentos de tensão provocados pelos manifestantes que ficam do lado de fora gritando mensagens religiosas e tentando intimidar quem entra. Tudo é mostrado de maneira bastante direta, quase observacional, como se o espectador estivesse simplesmente caminhando pelos corredores da clínica durante aquele dia.

O filme aposta numa abordagem bastante simples, quase sem narração explicativa. A história é conduzida pelas conversas entre os funcionários e pelos depoimentos espontâneos de Tracii, que revela um pouco de sua própria história pessoal e de sua relação com a fé. Esse detalhe acaba criando um contraste interessante, já que muitos dos manifestantes também utilizam argumentos religiosos para justificar seus protestos. Essa tensão entre interpretações diferentes da religião é um dos elementos mais curiosos do curta, e talvez seja o aspecto mais humano da obra.

Visualmente, o documentário segue uma estética bem típica do cinema documental contemporâneo. A câmera está quase sempre próxima dos personagens, muitas vezes em planos fechados, acompanhando movimentos pelos corredores ou observando discretamente as interações do dia a dia. Não há grandes invenções formais, nem tentativas de transformar a narrativa em algo mais cinematográfico. O objetivo parece ser registrar os acontecimentos com o máximo de naturalidade possível. Essa escolha ajuda a transmitir a sensação de rotina e de desgaste emocional que envolve o trabalho dentro da clínica.

O problema é que, apesar de tratar de um tema extremamente delicado e complexo, o curta acaba ficando um pouco limitado em sua abordagem. A narrativa se concentra tanto no cotidiano da clínica que quase não abre espaço para explorar outras perspectivas ou ampliar a discussão. Tudo fica muito preso ao ponto de vista interno daquele ambiente específico. Isso faz com que o filme funcione mais como um retrato momentâneo de uma situação do que como uma reflexão mais profunda sobre o tema que aborda.

Também existe uma sensação de repetição ao longo dos minutos. A estrutura do filme basicamente acompanha a rotina da segurança e dos funcionários enquanto pacientes chegam, manifestantes gritam do lado de fora e a equipe tenta manter o controle da situação. Embora isso reflita a realidade daquele trabalho, cinematograficamente acaba não criando uma progressão dramática muito forte. O curta começa, desenvolve e termina quase no mesmo tom emocional.

Ainda assim, é preciso reconhecer que O Diabo Não Tem Descanso possui momentos de sinceridade bastante fortes. Quando Tracii fala sobre sua própria história ou quando vemos o cuidado com que os funcionários tentam tranquilizar pacientes nervosas, o filme consegue revelar um lado humano que vai além do debate político. São nesses momentos que o documentário encontra alguma força, justamente quando deixa de lado a ideia de discurso e se concentra nas pessoas que estão ali lidando com aquela realidade.

Outro aspecto interessante é como o curta revela a atmosfera de tensão permanente que envolve esses espaços. Mesmo quando aparentemente nada está acontecendo, existe sempre a sensação de que algo pode dar errado. A presença constante de manifestantes, os procedimentos de segurança e o nervosismo das pacientes criam um ambiente pesado que o filme consegue captar com certa eficiência.

No entanto, apesar de ter um tema relevante e personagens reais que despertam empatia, o resultado final não chega a ser particularmente marcante. O documentário cumpre seu papel de mostrar uma situação específica e de dar voz a quem vive essa realidade diariamente, mas faz isso de maneira relativamente convencional. Falta ao filme um olhar mais amplo ou uma construção narrativa mais envolvente que transforme esse registro em algo verdadeiramente memorável.

No fim das contas, O Diabo Não Tem Descanso acaba sendo um documentário honesto, com boas intenções e alguns momentos humanos interessantes, mas que não vai muito além de um retrato direto de um conflito social já bastante conhecido. É um filme que se assiste com atenção, principalmente pelo tema delicado que aborda, mas que dificilmente permanece na memória depois que os créditos terminam.

A Friend of Dorothy (2025)

 


Título original: A Friend of Dorothy
Direção: Lee Knight
Sinopse: Dorothy é uma viúva solitária cujo corpo está falhando, mas cuja mente permanece tão brilhante quanto sempre. Quando JJ, um rapaz de 17 anos, chuta acidentalmente sua bola de futebol para dentro do jardim dela, ele acaba mudando completamente a rotina diária de Dorothy, feita de remédios, ameixas secas e palavras cruzadas. A partir desse encontro inesperado, nasce uma amizade improvável. Apesar de parecerem viver em mundos totalmente diferentes, os dois acabam descobrindo que têm muito mais em comum do que poderiam imaginar.


O curta-metragem A Friend of Dorothy (2025), dirigido por Lee Knight, é uma dessas pequenas obras que lembram por que o cinema, mesmo em poucos minutos, pode alcançar uma força emocional enorme. Com cerca de vinte minutos de duração, o filme britânico acompanha o encontro improvável entre duas pessoas que, à primeira vista, parecem pertencer a mundos completamente diferentes: uma viúva idosa e solitária e um adolescente ainda tentando entender seu lugar no mundo. O resultado é um relato delicado sobre amizade, solidão e pertencimento, conduzido com uma sensibilidade rara para um curta de estreia.

A história gira em torno de Dorothy, interpretada com enorme humanidade por Miriam Margolyes, uma senhora que vive sozinha e cuja rotina parece resumida a remédios, palavras cruzadas e dias silenciosos dentro de casa. Tudo muda quando o jovem JJ, vivido por Alistair Nwachukwu, chuta acidentalmente uma bola de futebol para dentro do jardim dela. O incidente, que poderia ser apenas um pequeno inconveniente, se transforma no início de uma relação inesperada. Aos poucos, a convivência entre os dois cresce e se fortalece, revelando afinidades que nenhum deles imaginava encontrar.

O grande mérito do filme está na forma como ele desenvolve essa amizade com naturalidade. Em vez de buscar grandes reviravoltas ou conflitos exagerados, o roteiro prefere observar pequenos gestos e momentos cotidianos. Conversas simples, leituras de peças teatrais e tarefas domésticas passam a construir uma intimidade gradual entre os personagens. Essa abordagem dá ao curta um tom muito humano e sincero, evitando sentimentalismos fáceis. A narrativa parece entender que, às vezes, as transformações mais profundas surgem justamente de encontros aparentemente banais.

Nesse processo, o filme também toca em temas importantes, como o isolamento dos idosos e as dificuldades enfrentadas por jovens que ainda não se sentem totalmente aceitos pela sociedade. A história sugere que, apesar da diferença de idade, Dorothy e JJ compartilham algo fundamental: ambos se sentem, de alguma forma, deslocados. Essa identificação silenciosa cria uma ligação que se fortalece a cada cena. A relação entre os dois se torna uma espécie de refúgio emocional, um espaço onde é possível ser sincero sem medo de julgamento.

Grande parte da força do filme vem da atuação de Miriam Margolyes. A atriz, conhecida por trabalhos em produções como Harry Potter e a Câmara Secreta, constrói uma Dorothy cheia de personalidade. Ela alterna humor ácido, fragilidade física e uma inteligência afiada que transforma cada diálogo em algo especial. Margolyes evita qualquer caricatura da velhice. Sua personagem não é apenas uma senhora frágil, mas alguém espirituosa, curiosa e profundamente humana.

Ao lado dela, Alistair Nwachukwu oferece uma interpretação sensível e muito natural. Seu JJ é tímido, às vezes inseguro, mas também cheio de curiosidade e sonhos. O contraste entre os dois atores funciona de forma admirável. As cenas compartilhadas por eles têm uma espontaneidade que faz o espectador acreditar totalmente naquela amizade. É justamente nessa química que o filme encontra seu coração.

Outro nome importante no elenco é Stephen Fry, que aparece em papel secundário, mas acrescenta um charme especial ao conjunto. Sua presença ajuda a ampliar o universo da história sem desviar o foco da relação central entre Dorothy e JJ.

Visualmente, o filme aposta em uma estética simples e acolhedora. A fotografia privilegia ambientes domésticos e tons suaves, criando uma atmosfera intimista que combina com o tom da narrativa. A câmera raramente chama atenção para si mesma. Em vez disso, parece observar os personagens com discrição, como se estivesse respeitando a intimidade daquele vínculo que está nascendo. Esse estilo reforça a sensação de proximidade emocional entre público e personagens.

Outro aspecto que merece destaque é a maneira como o filme usa o teatro e a literatura como ponte entre gerações. Dorothy incentiva JJ a explorar seu interesse pela atuação e pelas artes, lembrando que o mundo cultural pode ser um espaço de liberdade e descoberta pessoal. Essa troca entre os dois não apenas fortalece a amizade, mas também aponta para o papel transformador da arte.

A inspiração para o roteiro veio de uma amizade real vivida pelo próprio Lee Knight com uma vizinha idosa, o que talvez explique a autenticidade emocional que permeia todo o curta. O filme funciona quase como uma homenagem às pessoas que surgem inesperadamente em nossas vidas e acabam mudando nosso caminho.

Todo esse conjunto ajudou a obra a ganhar grande reconhecimento em festivais e até uma indicação ao Oscar de melhor curta-metragem em live action, além de diversos prêmios em eventos dedicados ao formato. Esse tipo de reconhecimento faz sentido, pois o filme demonstra uma maturidade surpreendente para um projeto relativamente pequeno.

Mas talvez o que mais impressione em A Friend of Dorothy seja sua capacidade de emocionar sem recorrer a exageros. O filme entende que a verdadeira força das histórias está nas relações humanas e nas pequenas demonstrações de cuidado. Em pouco mais de vinte minutos, ele constrói personagens memoráveis e uma ligação afetiva que permanece com o espectador muito depois dos créditos finais.

Ao terminar, fica a sensação de ter presenciado algo simples, mas profundamente bonito. É o tipo de curta que nos lembra que amizade, empatia e escuta ainda são capazes de transformar vidas. E quando um filme consegue transmitir isso com tanta delicadeza, ele deixa de ser apenas uma boa história e se torna um pequeno gesto de humanidade.

março 02, 2026

Embaixo da Luz de Neon (2025)

 


Título original: Come See Me in the Good Light
Direção: Ryan White
Sinopse: Em uma história íntima e alegre de amor diante da perda, as poetas Andrea Gibson e Megan Falley encontram força, e hilaridade inesperada, naquele que pode ser o último ano juntas.


No documentário Embaixo da Luz de Neon, dirigido por Ryan White, existe uma intenção clara de construir um retrato íntimo sobre a vida e os últimos anos da poeta norte-americana Andrea Gibson. A obra acompanha Gibson e sua companheira, a escritora Megan Falley, durante o período em que a poeta enfrenta um diagnóstico de câncer considerado incurável. O filme tenta transformar essa experiência dolorosa em uma reflexão sobre amor, mortalidade e arte, costurando cenas do cotidiano do casal com leituras de poemas e momentos de intimidade doméstica.

Na superfície, o projeto parece promissor. A premissa é a de acompanhar um casal de artistas enquanto lidam com a fragilidade da vida e com a proximidade da morte, um terreno que o cinema documental já explorou muitas vezes, mas que ainda pode render obras profundamente humanas. O problema é que o filme de Ryan White acaba preso justamente nessa familiaridade excessiva. Desde os primeiros minutos, fica evidente que o documentário se apoia em um tema batido, daqueles que parecem ter sido reciclados inúmeras vezes no circuito de festivais: a jornada inspiradora de alguém que enfrenta uma doença terminal. Em vez de encontrar um ponto de vista novo ou uma abordagem realmente particular, a narrativa segue uma cartilha previsível que já foi vista em dezenas de produções semelhantes.

White opta por um estilo extremamente íntimo, acompanhando Andrea Gibson em consultas médicas, conversas em casa, leituras de poesia e momentos aparentemente espontâneos da vida cotidiana. A câmera está sempre muito próxima, como se quisesse transmitir a sensação de que o espectador faz parte daquela convivência. Em teoria, essa proximidade deveria gerar empatia e profundidade emocional. Na prática, no entanto, o filme parece repetir indefinidamente as mesmas situações: conversas sobre o estado de saúde, reflexões sobre a vida, pequenos momentos domésticos, leituras de poemas e novas conversas sobre o estado de saúde. O ciclo se repete tantas vezes que, em certo ponto, o espectador passa a sentir que já viu tudo aquilo antes.

Esse problema se torna ainda mais evidente na duração do documentário. Com pouco mais de uma hora e quarenta minutos, o filme parece absurdamente longo para aquilo que realmente tem a dizer. Não se trata de uma história complexa, nem de um retrato que precise de muitas camadas narrativas para se sustentar. Pelo contrário, a sensação é de que o material poderia facilmente ser reduzido a metade do tempo sem perder absolutamente nada. O resultado final transmite a impressão de que o documentário entra em um loop narrativo interminável, revisitando as mesmas ideias e emoções até que elas percam completamente o impacto.

A responsabilidade por isso recai, em grande parte, sobre o trabalho de edição. Em teoria, a montagem deveria organizar os acontecimentos de maneira a criar progressão dramática. Aqui, porém, ela parece simplesmente acumular cenas semelhantes, como se qualquer momento capturado pela câmera fosse automaticamente digno de permanecer no corte final. O filme insiste em mostrar repetidas interações entre Gibson e Falley, momentos de humor ou ternura que inicialmente funcionam, mas que se tornam cada vez mais redundantes conforme se repetem. O resultado é um ritmo arrastado que transforma uma história potencialmente comovente em uma experiência cansativa.

Nem mesmo o uso da poesia de Andrea Gibson consegue salvar a narrativa desse desgaste. Os poemas aparecem ao longo do filme como comentários sobre os acontecimentos, tentando dar uma dimensão artística à história. Em alguns momentos, essa estratégia funciona, especialmente quando os versos dialogam diretamente com a fragilidade da vida e com o medo da morte. Mas o documentário usa esse recurso tantas vezes que ele também acaba se tornando previsível. Cada leitura de poema surge quase como um marcador emocional programado, sinalizando ao público que aquele é o momento de sentir algo profundo.

Isso não significa que o filme seja completamente vazio. Existem instantes genuínos de humanidade, especialmente quando Gibson demonstra humor diante da própria situação ou quando o casal conversa sobre memórias e inseguranças. Esses fragmentos têm uma honestidade que poderia sustentar um retrato muito mais poderoso. O problema é que eles ficam soterrados por uma estrutura narrativa repetitiva e por uma insistência em prolongar a experiência muito além do necessário.

Também chama atenção a maneira como o documentário parece constantemente buscar um tom inspirador, quase edificante, como se estivesse preocupado em transformar cada momento em uma lição sobre a vida. Essa abordagem acaba diluindo a complexidade da situação real. A doença, o medo e a vulnerabilidade aparecem filtrados por uma estética sentimental que transforma o drama em algo excessivamente polido.

No fim das contas, Embaixo da Luz de Neon revela um paradoxo curioso. Trata-se de um filme feito com boas intenções e protagonizado por pessoas claramente carismáticas e autênticas. Mas essas qualidades não são suficientes para sustentar uma obra tão longa e repetitiva. O que poderia ser um retrato sensível sobre amor e mortalidade acaba se transformando em um documentário que gira em círculos, preso a um tema já explorado inúmeras vezes e prejudicado por um trabalho de edição que parece incapaz de enxugar sua própria narrativa.

Talvez a história de Andrea Gibson merecesse um filme mais direto, mais concentrado e menos preocupado em transformar cada instante em uma epifania. Porque, quando a câmera finalmente se afasta de sua insistência em repetir as mesmas situações, fica claro que havia ali uma história simples e humana. Infelizmente, o documentário prefere prolongá-la até que ela se torne exaustiva, como uma conversa que já disse tudo o que tinha a dizer muito antes de terminar.

Mr. Nobody Against Putin (2025)

 


Título original: Mr. Nobody Against Putin
Direção: David Borenstein
Sinopse: Enquanto a invasão russa da Ucrânia em 2022 se inicia em larga escala, escolas primárias nas regiões mais remotas da Rússia são transformadas em palcos de recrutamento para a guerra. Diante do dilema ético de trabalhar em um sistema marcado pela propaganda e pela violência, um professor corajoso decide agir disfarçado e filma secretamente o que realmente está acontecendo dentro de sua própria escola.



O documentário Mr. Nobody Against Putin (2025), dirigido por David Borenstein e pelo próprio professor russo Pavel Talankin, parte de uma premissa extremamente poderosa. A ideia de acompanhar um professor que decide registrar, por dentro, o funcionamento de um sistema educacional transformado em ferramenta de propaganda estatal é, por si só, material de sobra para um grande documentário político. O filme acompanha Talankin, funcionário de uma escola primária na pequena cidade de Karabash, nos montes Urais, que passa a registrar secretamente as mudanças na educação russa após a invasão da Ucrânia em 2022, quando programas de “educação patriótica” começam a transformar o cotidiano escolar em um palco de nacionalismo e militarização.

Talankin não é exatamente um dissidente clássico. Ele é um funcionário escolar comum, um tipo meio brincalhão e querido pelos alunos, alguém que jamais imaginaria estar envolvido em algo que pudesse ser chamado de ativismo político. O que torna sua jornada interessante é justamente essa posição de “ninguém”, alguém que não pretende liderar uma revolução, mas que acaba se vendo moralmente incapaz de ignorar o que está acontecendo ao seu redor. Conforme a guerra avança e o governo russo intensifica a retórica patriótica nas escolas, ele passa a filmar cerimônias, aulas, eventos e discursos que gradualmente transformam o ambiente educacional em algo próximo de um campo de formação ideológica.

O material captado por Talankin ao longo de cerca de dois anos é, sem dúvida, o grande trunfo do filme. Há algo perturbador em observar crianças participando de atividades cada vez mais militarizadas, professores repetindo slogans oficiais e eventos escolares que lembram mais um ritual político do que um ambiente pedagógico. Algumas das cenas mais fortes surgem justamente da banalidade. Não há violência explícita ou confrontos dramáticos. O que vemos é um cotidiano aparentemente normal sendo lentamente tomado por símbolos patrióticos, discursos de guerra e a constante ideia de que o dever cívico é defender o país a qualquer custo. Esse tipo de registro direto tem um valor histórico enorme, pois mostra como a propaganda funciona não apenas em discursos grandiosos, mas nas pequenas rotinas da vida diária.

O problema é que, apesar dessa premissa extraordinária, Mr. Nobody Against Putin raramente consegue transformar seu material em uma narrativa realmente envolvente. O filme parece confiar demais na força da ideia inicial e acaba se acomodando em uma estrutura repetitiva. Muitas cenas seguem o mesmo padrão: eventos escolares filmados por Talankin, comentários em voz over sobre sua frustração e novas situações que reiteram o mesmo ponto sobre a presença da propaganda no sistema educacional.

Essa repetição começa a pesar ao longo da projeção. O documentário tem cerca de noventa minutos, mas em vários momentos dá a sensação de estar girando em torno da mesma observação. A cada nova sequência percebemos novamente que a escola está sendo usada para reforçar valores nacionalistas, mas o filme raramente avança para reflexões mais profundas ou para novos caminhos narrativos. Há momentos em que parece faltar um olhar mais incisivo da direção para organizar o material e encontrar uma progressão dramática mais clara.

Outro elemento que contribui para essa sensação é a própria narração de Talankin. Como ele também é personagem central da história, seu relato em primeira pessoa tenta dar unidade ao filme. Em certos momentos isso funciona bem, principalmente quando ele expressa dúvidas morais ou medo das consequências de seu trabalho. Porém, em outros trechos, a narração acaba apenas reforçando aquilo que já está evidente nas imagens, o que contribui para a sensação de repetição.

Isso não significa que o documentário seja desinteressante. Pelo contrário. O acesso que o protagonista teve ao interior da escola é impressionante e oferece um retrato raro da realidade russa contemporânea. O fato de Talankin ter registrado esse material enquanto ainda vivia no país e corria risco real de punição dá ao filme um peso ético considerável. Não se trata apenas de um registro jornalístico, mas de um gesto de coragem pessoal. Há momentos em que o espectador percebe claramente que aquela câmera pode custar a liberdade de quem está atrás dela.

Também chama atenção a atmosfera melancólica que se instala conforme o filme avança. Talankin demonstra um carinho genuíno pelos alunos e pela própria escola. Ver esse ambiente se transformar gradualmente em um espaço dominado por discursos de guerra cria um sentimento de perda silenciosa. O que antes era apenas um lugar comum da infância passa a carregar uma carga ideológica pesada, e o documentário consegue capturar essa mudança de forma bastante clara.

Mesmo assim, fica a impressão de que Mr. Nobody Against Putin tinha potencial para ser muito mais impactante. A premissa é excelente, o acesso ao material é raro e a história pessoal do protagonista é forte. Mas o resultado final nunca alcança totalmente a força dramática que essas peças prometiam. O filme informa, documenta e denuncia, mas raramente empolga ou surpreende.

No fim das contas, a obra funciona mais como um testemunho importante do que como um grande documentário cinematográfico. É um registro valioso de um momento histórico e da coragem de um funcionário escolar comum que decidiu olhar para a realidade com honestidade. Só que, cinematograficamente falando, a experiência acaba sendo mais interessante em teoria do que na prática. Uma ideia poderosa que, infelizmente, se repete mais do que evolui.

março 01, 2026

Armado com uma Câmera: Vida e Morte de Brent Renaud (2025)

 


Título original: Armed Only with a Camera: The Life and Death of Brent Renaud
Direção: Brent Renaud, Craig Renaud
Sinopse: Um retrato íntimo do documentarista Brent Renaud, o primeiro jornalista americano morto enquanto cobria a Guerra entre Rússia e Ucrânia.


O curta-metragem Armado com uma Câmera: Vida e Morte de Brent Renaud (2025), dirigido pelos irmãos Brent Renaud e Craig Renaud, é uma daquelas obras que lembram ao espectador que o cinema documental, quando feito com honestidade e urgência, pode ser tão poderoso quanto qualquer grande ficção. Com pouco mais de meia hora de duração, o filme se constrói como uma homenagem e, ao mesmo tempo, como um registro dolorosamente concreto da vida e da morte de um jornalista que passou décadas tentando mostrar ao mundo aquilo que muitos preferem não ver. O resultado é um curta profundamente impactante, emocional e, em vários momentos, difícil de assistir.

A obra acompanha a trajetória de Brent Renaud, cineasta e fotojornalista americano que dedicou sua carreira a documentar conflitos, crises humanitárias e histórias de pessoas comuns presas no meio da violência. Ao lado do irmão Craig, ele percorreu diversos cenários perigosos ao longo de anos de trabalho: zonas de guerra no Iraque, o terremoto devastador no Haiti em 2010, conflitos na Somália e rotas migratórias da América Central rumo aos Estados Unidos. Essa jornada culmina tragicamente em 2022, quando Brent foi morto enquanto documentava a evacuação de civis durante a invasão russa da Ucrânia, tornando-se o primeiro jornalista estrangeiro morto naquele conflito.

O curta utiliza uma estrutura que mistura material de arquivo, registros feitos ao longo da carreira de Brent e momentos posteriores à sua morte. Há algo de profundamente íntimo na forma como essas imagens são montadas. Em vez de transformar o jornalista em um mito distante, o filme mostra um homem que acreditava sinceramente na importância de testemunhar o sofrimento humano. O olhar da câmera de Brent raramente se posiciona acima das pessoas que filma. Ele está sempre ao lado delas, muitas vezes literalmente dentro da situação, registrando o medo, o desespero e a resistência de quem vive em territórios devastados pela guerra.

Um dos aspectos mais marcantes do curta é justamente sua honestidade visual. As imagens são, por vezes, extremamente gráficas. Há feridos, caos, corpos e o peso brutal da guerra. No entanto, nada parece gratuito ou exploratório. Pelo contrário, o filme deixa claro que esconder essa realidade seria uma forma de falsificar a própria história. O que precisa ser mostrado não é escondido do espectador. A violência aparece como consequência direta das guerras que Brent se propôs a documentar, não como espetáculo. Essa escolha dá ao curta uma força rara. Não há romantização da guerra, apenas a exposição crua de suas consequências.

Também impressiona a dimensão emocional do filme. Depois da morte de Brent, Craig Renaud assume a difícil tarefa de organizar o material, recuperar as últimas gravações e reconstruir a trajetória do irmão. Essa perspectiva pessoal transforma o curta em algo mais do que um documentário sobre jornalismo de guerra. É também um retrato de luto. Há momentos em que o filme parece quase uma conversa silenciosa entre dois irmãos que passaram a vida contando histórias juntos.

Mesmo sendo uma produção curta, a montagem consegue criar uma sensação de amplitude. Em cerca de 37 minutos, o filme atravessa décadas de trabalho e múltiplos cenários internacionais, mostrando como Brent via o mundo e por que escolheu estar sempre onde a maioria das pessoas tentaria fugir. O ritmo é direto, sem excessos formais ou tentativas de embelezar a narrativa. Isso faz com que o impacto emocional venha muito mais das imagens e das histórias do que de qualquer artifício de estilo.

Talvez o aspecto mais poderoso de Armado com uma Câmera: Vida e Morte de Brent Renaud seja a pergunta silenciosa que ele deixa no ar: qual é o papel do jornalista em tempos de guerra? Brent parecia acreditar que mostrar a realidade, mesmo quando ela é insuportável, é uma forma de dar voz às vítimas invisíveis dos conflitos. O filme deixa claro que sua câmera era mais do que uma ferramenta profissional. Era uma forma de testemunhar o mundo.

Ao final, o curta funciona como um memorial, mas também como um lembrete incômodo. A guerra continua existindo, e alguém precisa registrá-la. Brent Renaud fez isso até o último momento de sua vida. E depois de assistir a esse documentário, fica difícil olhar para uma câmera da mesma maneira novamente.

Quartos Vazios (2025)

 


Título original: All the Empty Rooms
Direção: Joshua Seftel
Sinopse: O jornalista Steve Hartman e o fotógrafo Lou Bopp embarcam numa viagem pelos Estados Unidos para documentar os quartos de crianças vítimas de tiroteios em escolas, ressaltando a necessidade urgente de ações contra a crescente epidemia de violência armada.


Quartos Vazios, ou All the Empty Rooms de Joshua Seftel, é um documentário em curta-metragem que se apoia numa ideia simples e visualmente direta: visitar os quartos intactos de crianças mortas em tiroteios em escolas nos Estados Unidos. O projeto começou como uma série de fotos do jornalista veterano Steve Hartman e do fotógrafo Lou Bopp e foi transformado em filme, com pouco mais de meia hora de duração, agora disponível globalmente pela Netflix e até indicado ao Oscar de Melhor Curta Documentário.

O ponto de partida do filme é a própria premissa que ele desenvolve sem muita complicação: não há reconstituições dramáticas, nem entrevistas longas em câmera, nem trilha musical que force emoção. A câmera circula pelos espaços deixados como santuários pelas famílias, mostrando brinquedos, roupas, desenhos e objetos pessoais que permaneceram exatamente como estavam no dia em que a tragédia aconteceu. A escolha fria que Seftel faz aqui é clara, e a fotografia de Matt Porwoll se encarrega de captar a luz e as sombras desses ambientes como se aquilo, por si só, já fosse suficiente para transmitir o peso do silêncio.

Num nível técnico o filme é correto. A montagem ponderada por Erin Casper e sua equipe não tenta manipular a percepção do espectador, alternando planos com paciência e respeitando o ritmo lento que um tema desses impõe. A trilha de Alex Somers está lá, mas raramente se impõe, atuando como um suporte discreto, quase submerso, para que a ação visual prevaleça. Isso ajuda a criar uma atmosfera de contemplação, mais do que de choque, e pode ser visto como um acerto de linguagem se o objetivo for permitir que as imagens falem por si mesmas.

Apesar disso, a sensação que fica ao assistir Quartos Vazios é a de que estamos diante de algo que, embora respeitável, já foi visto inúmeras vezes. Nos últimos anos, documentários sobre violência armada e suas consequências têm proliferado e tornaram-se um subgênero bastante explorado, especialmente no contexto americano. O filme de Seftel faz exatamente aquilo que se propõe a fazer sem grandes deslizes ou rupturas — ele mostra, ele respeita, ele lembra — mas não há nenhum elemento narrativo ou estético que realmente o destaque em meio a tantos outros que tratam de tragédias similares. A abordagem deliberadamente despolitizada, que chega a evitar até mesmo mencionar explicitamente a palavra “arma” para não polarizar o público, é uma escolha que pode parecer compreensível, mas também reduz o impacto transformador que um documentário com esse tema poderia buscar.

Além disso, para mim pessoalmente, esse tipo de temática não provoca uma conexão emocional mais profunda. A ideia de entrar em quartos onde vidas foram interrompidas bruscamente tem um poder visual forte, e certamente há momentos em que as fotos ou os detalhes — um ursinho esquecido, uma parede cheia de desenhos — podem cortar o espectador por dentro, mas isso não é suficiente para superar a sensação de repetição que se instala. Quando um documentário não consegue oferecer uma perspectiva original ou uma voz narrativa distintiva, ele corre o risco de se tornar mais um entre tantos exercícios bem intencionados sobre a mesma dor coletiva. E é exatamente essa sensação que persiste em Quartos Vazios: um documentário correto, sem tropeços técnicos, mas também apenas isso, sem um impacto verdadeiramente marcante.

No fim, Quartos Vazios cumpre sua função de lembrar individualmente aqueles que não estão mais entre nós e de usar imagens e silêncio para tentar despertar algo no público. Mas sua maneira de tratar um tema tão batido e tão explorado já tem tantas representações que aqui, para mim, não acrescenta um novo olhar nem uma carga emocional mais profunda. A obra é digna de atenção pelo respeito com que lida com suas figuras e pela sensibilidade técnica em mostrar espaços tão íntimos, mas dificilmente se firmará como um documentário que realmente se destaca entre tantos outros que abordam a mesma ferida aberta na sociedade atual. 

fevereiro 23, 2026

O Morro dos Ventos Uivantes (2026)

 


Título original: Wuthering Heights
Direção: Emerald Fennell
Sinopse: O órfão Heathcliff é acolhido ainda criança pela família Earnshaw e apaixona-se pela pequena Catherine. O afeto, embora correspondido, transforma-se num amor impossível. Tal vínculo devastador é envolto por uma atmosfera sombria e um teor dramático e audaz.


Comecei minha sessão com os olhos de quem não leu o livro, ou seja, cheguei como uma página em branco ao cinema, sem expectativas literárias pré-formadas. Isso deve ter tido um impacto positivo na minha impressão ao final do longa porque, ao comparar minhas reações com as de outros críticos que leram o livro, tem sido comum ouvir que os que leram parecem ter detestado mais do que eu. Essa falta de bagagem com a obra original talvez tenha me permitido receber o filme por aquilo que ele é, e não por aquilo que talvez me sentisse “traído” por não reconhecer.

Logo nas primeiras cenas fica claro que esta é uma versão muito, muito estranha de O Morro dos Ventos Uivantes, e eu, curiosamente, achei isso positivo. A direção de Emerald Fennell brinca com imagens e sensações em vez de simplesmente recontar a história clássica. A cinematografia mergulha em planos fechados que às vezes parecem obsessivos sobre texturas e detalhes — mãos envolvendo objetos orgânicos, chuva que molha até as emoções, suor escorrendo nas costas — como se o foco estivesse menos em contar e mais em sentir. Essa escolha visual, junto com locações e um cenário que alterna entre o gótico e o esteticamente exagerado, cria uma atmosfera única que prende o olhar, mesmo quando a narrativa perde um pouco a linha.

É importante notar que a sexualidade do filme é exagerada desde a primeira cena, e isso pode ser constrangedor dependendo de com quem você está assistindo. Há uma aposta franca e direta em imagens carregadas de desejo e sensualidade que ultrapassam o que se espera de um dramalhão romântico tradicional. Isso não significa que o filme seja pornográfico, mas sim que enfatiza o erotismo de maneira quase explícita como um elemento narrativo e estético. Essa escolha pode funcionar como uma linguagem visual para traduzir a intensidade emocional dos personagens, ou pode alienar espectadores que esperavam um romance mais clássico e contido.

Margot Robbie, como Catherine Earnshaw, traz ao papel uma presença que oscila entre o hipnótico e o impenetrável. Sua performance é cheia de nuances, e ela carrega a personagem com um misto de vulnerabilidade e força que, em muitos momentos, salva cenas que poderiam ter parecer apenas excessivas. Jacob Elordi, como Heathcliff, é um intérprete instintivo e intenso, e mesmo que sua caracterização seja alvo de debate — especialmente por não refletir algumas descrições tradicionais da obra original — ele cria um Heathcliff que vive à beira da contradição. Os dois juntos criam uma química que é tanto magnética quanto desconcertante, fazendo com que a relação deles seja um dos focos mais interessantes do filme.

A trilha sonora e a ambientação também merecem destaque. Em vez de seguir uma estética estritamente de época, há momentos em que a música e o som parecem buscar uma conexão com o público contemporâneo, criando uma ponte curiosa entre o drama gótico do século XVIII e sensibilidades modernas. Isso se encaixa no tom geral de todo o filme, que funciona menos como uma recriação fiel de um romance literário do que como uma experiência sensorial estilizada.

Tecnicamente, o filme se apoia em uma produção visual que não economiza nos detalhes de cena e figurino mesmo quando faz escolhas inesperadas ou incoerentes com a precisão histórica. A direção de arte, por exemplo, exagera contrastes e texturas até em espaços domésticos, criando ambientes que às vezes lembram mais uma fantasia teatral do que um universo realista. Essas opções estéticas reforçam a sensação de que estamos vendo um mundo à parte, quase um sonho febril, e não um retrato fiel da Inglaterra rural da época.

Narrativamente, o roteiro tenta seguir os contornos básicos da história de amor trágico entre Cathy e Heathcliff, mas se desvia frequentemente em busca de cenas e momentos que chocam ou provocam. Esse ritmo errático pode fazer com que a emoção que deveria emergir de uma tragédia apaixonada acabe sendo substituída por uma espécie de choque visual contínuo. Para alguns espectadores isso é original e audacioso; para outros parece apenas inconsistente.

No fim das contas, minha impressão é que esta adaptação de O Morro dos Ventos Uivantes funciona como uma obra cinematográfica que tem identidade própria, mas que muitas vezes se perde em seu próprio excesso de estilo em detrimento da profundidade emocional que poderia ter. Sem o peso da obra original na minha cabeça, eu consegui apreciar essa ousadia e até me divertir com a estranheza dela, mas entendo perfeitamente por que leitores fiéis do texto podem sair do cinema frustrados ou confusos. É um filme que conversa com a ideia de paixão e obsessão de forma muito crua e pouco convencional, abraçando a estranheza como estética central.

Se você vai ao cinema esperando uma adaptação fiel e tradicional de um clássico literário, provavelmente ficará perplexo. Mas se aceitar de antemão que esta é uma versão que se permite errar, chocar e extrapolar, encontrará aqui algo interessante, visualmente marcante e, acima de tudo, bastante diferente de tudo que já se viu com esse título. É esse choque entre expectativa e experiência que, para mim, faz o filme ser peculiar — nem sempre perfeito, mas sempre intrigante. 

fevereiro 08, 2026

Alabama: Presos do Sistema (2025)

 


Título original: The Alabama Solution
Direção: Charlotte Kaufman, Andrew Jarecki
Sinopse: Filmado com celulares contrabandeados, este documentário da HBO analisa um dos sistemas prisionais mais perigosos dos EUA.


Desde o seu início, Alabama: Presos do Sistema se propõe a derrubar o véu de silêncio que envolve o sistema prisional do Alabama nos Estados Unidos. A abordagem nasce de um encontro aparentemente casual em 2019, quando os diretores entram em um festival religioso dentro da prisão e são puxados de lado por detentos que, com celulares contrabandeados, começam a relatar condições que vão muito além de rotina carcereira e tocam em abusos, violência e negligência de uma espécie que em teoria deveria ser de correção e reabilitação. Essa escolha de matéria-prima, a gravação clandestina feita pelos próprios presos, cria um efeito de proximidade crua com o espectador e representa um dos aspectos mais singulares da obra. Você sente o peso desses vídeos porque eles vêm de dentro mesmo, sem diluição institucional alguma. Essa aposta pode ser tão valiosa quanto problemática.

A linguagem escolhida por Kaufman e Jarecki não é a de uma narrativa tradicional de documentário investigativo que guia o espectador com uma mão firme. Em muitos momentos o filme parece hesitar entre mostrar camadas de horror documental e ser um manifesto político. Isso pode dar a impressão de que o objetivo é chocar acima de explicar. A montagem se apoia fortemente em depoimentos brutos e sequências muitas vezes desconectadas entre si, o que tende a diluir o ritmo e, paradoxalmente, reduzir o impacto emocional que pretende gerar. As falas das pessoas encarceradas, ainda que fortes e essenciais, muitas vezes se sucedem de forma repetitiva, criando um ambiente narrativo que não se desenvolve logicamente, apenas se acumula.

Há momentos no documentário em que a sensação de que estamos constantemente diante de algo inédito e revelador se perde porque aquilo que se revela, graficamente mostrado ou sugerido nos relatos, torna-se uma espécie de espetáculo de horror repetido. A condição cruel da superlotação, a presença de abuso físico por parte de agentes penitenciários, a falta de atendimento médico e o uso de trabalho forçado são apresentados de maneira quase implacável, mas o filme raramente se detém para contextualizar ou aprofundar essas situações além do choque inicial. A repetição de imagens e testemunhos acaba diluindo a urgência que a própria obra pretende evocar.

Outro aspecto importante é a relação entre forma e conteúdo. A fotografia, construída majoritariamente a partir de materiais amadores — vídeos gravados em celulares — confere uma estética de guerrilha e irreverência documental. Mas esse recurso, que poderia ser uma vantagem estética e política, também pode parecer um artifício de sensacionalismo. Quando tudo é apresentado como extremamente perturbador sem um trabalho de mediação mais refinado, o espectador corre o risco de se cansar, num efeito contrário ao desejado. Ao invés de amadurecer a reflexão, a montagem muitas vezes desorienta, fazendo com que cenas de brutalidade seguidas de cenas de protesto dentro das prisões não dialoguem de forma orgânica, parecendo peças justapostas de uma colagem visceral.

O trabalho de som e música também carrega esse peso. A trilha sonora, quando presente, tende a enfatizar e reforçar a mensagem de indignação, sem deixar espaço para silêncios que poderiam ampliar a dimensão humana dos sujeitos retratados. Em vez de explorar nuances e atmosferas, a sonoridade dá um sentido imperativo ao filme, sinalizando sempre o que o público deve sentir, e isso pode soar didático demais em um documentário que busca justamente mostrar vozes marginalizadas.

Um dos pontos narrativos que era promissor — a investigação da morte de um preso, Steven Davis, sob circunstâncias suspeitas — é tratado com dedicação, mas sem dar ao público as ferramentas que poderiam permitir uma compreensão mais ampla das implicações desse caso dentro do sistema jurídico e penal como um todo. Fica claro que o documentário quer colocar a audiência diante de uma injustiça, mas ele não constrói um caminho narrativo que permita ligar os pontos com profundidade histórica, política ou social. Mais do que expor, falta ao filme explicar.

Esse tipo de abordagem pode ser poderosa em primeira instância, mas deixa uma sensação de urgência incompleta. Quando um documentário escolhe se posicionar como um grito, é inevitável que parte desse grito se perca pelo caminho se não houver uma reflexão mais sustentada por trás dele. O título do filme sugere a ideia de uma “solução”, mas o resultado final parece mais um território aberto de queixas e revelações do que uma proposição de caminhos concretos para reforma ou mudança. Essa contradição fica evidente ao final, quando o espectador é deixado com uma coleção de imagens e depoimentos que impressionam, mas raramente trazem clareza ou esperança.

A atuação dos protagonistas involuntários, os presos ativistas como Robert Earl Council e Melvin Ray, merece menção porque eles carregam o peso do filme. Eles não são apenas fontes de informações; são narradores de suas próprias vidas e experiências, e isso confere um grau de autenticidade que não pode ser ignorado. Mesmo assim, essa autenticidade não consegue, por si só, sustentar uma narrativa que precisa ser mais bem estruturada. Os momentos de resistência e organização, como uma greve de presos que o filme registra, poderiam ser mais explorados como elementos de uma história maior sobre agência, luta e transformação.

O documentário funciona como um espelho revelador de um sistema que permanece, de muitas maneiras, invisível para grande parte do público. A proposta de colocar essas vidas e vozes diante de nós é louvável e necessária, e há momentos em que isso realmente cria uma conexão direta e impactante. Porém, o modo como essa proposta é executada se perde em um ritmo irregular, em uma montagem que prioriza repetição em detrimento de aprofundamento e em decisões narrativas que transformam a causa em um grito disperso.

No fim das contas, Alabama: Presos do Sistema é um documentário que merece ser visto por abordar um tema de grande relevância social e por dar espaço a personagens que normalmente seriam silenciados. Mas como obra cinematográfica ele tropeça em suas próprias ambições, alternando entre momentos verdadeiramente reveladores e sequências que soam mais como recortes chocantes do que como uma construção cuidadosa de sentido. Kaufman e Jarecki conseguem nos mostrar o horror e a urgência do problema, mas não conseguem transformar essa exposição em um argumento cinematográfico verdadeiramente convincente e coeso. A sensação que fica é de um filme que precisava ir além do choque para encontrar significado duradouro.

fevereiro 06, 2026

Drácula de Bram Stoker (1992)

 


Título original: Bram Stoker's Dracula
Direção: Francis Ford Coppola
Sinopse: O vampiro Conde Drácula vem à Inglaterra atrás de quem ele acredita ser sua antiga paixão, de quando ainda era um mortal.


O que mais chama atenção num primeiro olhar para Drácula de Bram Stoker é como tudo ali parece saído de um palco gigante e barroco. A direção de Coppola é apaixonada por texturas e performances maiores que a vida. Cada personagem entra em cena com uma energia teatral tão evidente que mais parece estar se apresentando para plateias do que falando para uma câmera. Essa escolha estética poderia soar exagerada ou caricata, mas, no contexto geral da obra, encaixa-se como uma expressão consciente de um universo que não segue as leis do realismo cotidiano. Essa teatralidade dá ao filme uma sensação de rito, de espetáculo ritualístico onde as emoções são ampliadas, quase operísticas, funcionando muito bem na composição geral do filme.

Visualmente, Coppola e seu time de colaboradores – especialmente o diretor de fotografia Michael Ballhaus – criam uma Transilvânia e um Londres vitoriano que lembram cenários de teatro iluminados com cores intensas e contrastes profundos. A fotografia e a cenografia não tentam ser discretas, ao contrário, abraçam um romantismo gótico cheio de sombras densas, cores saturadas e enquadramentos que parecem composições de pintura. A iluminação dramática, as paisagens escuras e as construções imponentes transformam cada cena num quadro cuidadosamente composto.

Também é impossível falar do impacto sensorial do filme sem mencionar os figurinos de Eiko Ishioka, que ganharam o Oscar justamente por sua originalidade e poder visual. Os trajes são extravagantes e transbordam personalidade, desde a armadura vermelha de Drácula até os vestidos de Mina e Lucy, cada peça parece ter uma história própria e falar sobre seus personagens tanto quanto seus diálogos. Essa atenção ao figurino reforça a sensação do filme como uma peça de teatro muito bem filmada, onde cada elemento visual contribui para a construção daquele mundo fantástico.

No centro desse espetáculo está Gary Oldman como o Conde Drácula. Sua performance é entregue em grandes pinceladas dramáticas que beiram o exagero, mas que carregam uma intensidade emocional inegável. Ele alterna entre formas antigas e jovens com uma habilidade impressionante, fazendo do Drácula uma figura ao mesmo tempo ameaçadora e tragicômica. Seu olhar, suas transições e sua presença imponente são quase caricaturais, mas é essa caricatura que o torna memorável e fascinante.

Winona Ryder, no papel de Mina Murray e Elisabeta, também herda esse estilo amplo de atuação. Ela encarna suas personagens com paixão e um toque de dramatização que poderia soar forçado em outro contexto, mas aqui funciona como parte de um todo coeso. A relação entre Drácula e Mina não é apenas uma história de terror, é uma espécie de tragédia romântica filmada com grandiloquência, uma paixão que parece arrancada de um palco shakespeariano mergulhado em névoa e sangue.

Outros membros do elenco, como Anthony Hopkins no papel de Van Helsing e até mesmo Keanu Reeves como Jonathan Harker, mergulham nessa estética performática. As atuações não são contidas ou naturais, elas oscilam entre o intenso e o estilizado, o que pode desarmar espectadores acostumados ao realismo moderno. No entanto, é justamente esse exagero que contribui para a sensação de que estamos assistindo a um teatro gótico gigantesco projetado em cena.

Tecnicamente, o filme também brilha. Coppola fez a opção de recusar muitos dos efeitos digitais que começavam a emergir na época e investiu em efeitos práticos, cenários elaborados e truques de câmera que dialogam com a história do cinema em si. Essa escolha dá ao filme uma textura única, quase artesanal, como se fosse um artefato físico em vez de uma criação inteiramente digital.

A trilha sonora de Wojciech Kilar complementa essa jornada com uma profundidade dramática que guia o espectador por picos emocionais e abismos sombrios, reforçando o tom de fábula gótica. A música não apenas acompanha, mas amplifica o que está em cena, beirando o operístico em momentos chave.

O resultado final é uma obra que pode confundir quem procura um horror tradicional, mas que encanta quem se deixa levar pela intensidade visual, sonora e emocional da proposta. A narrativa, com sua mistura de horror, romance e lenda, é costurada por sequências que parecem respirarem uma vida própria, como se cada cena fosse um ato de uma peça épica.

Drácula de Bram Stoker é, acima de tudo, a materialização de um cinema apaixonado, um filme que não se esconde atrás de sutilezas ou moderação. Há nesta produção um compromisso com o exagero que nasce da coragem de Coppola em abraçar a teatralidade como forma de arte. Assistir a este filme é como ser convidado para uma montagem grandiosa onde tudo é maior, mais escuro, mais colorido e mais emocionante do que se poderia esperar. É essa intenção audaciosa, essa vontade de criar não apenas um filme, mas uma experiência estética completa, que o mantém vivo na memória dos espectadores e o coloca entre as versões mais inesquecíveis do mito de Drácula no cinema.

Marty Supreme (2025)

 


Título original: Marty Supreme
Direção: Josh Safdie
Sinopse: Marty Mauser é um jovem prodígio do tênis de mesa que tem sonhos grandiosos e estilo de jogo arrojado, mas é desacreditado pelas outras pessoas. Buscando provar sua capacidade, ele faz de tudo para alcançar o reconhecimento que julga merecer.


Assistir a Marty Supreme é um daqueles momentos em que você sai da sala querendo questionar por que gastou mais de duas horas e meia de vida naquele universo. A premissa até poderia ter sido interessante: um aspirante a campeão de tênis de mesa nos anos 1950, lutando para ser reconhecido e superar adversidades numa Nova York estilizada. Na vida real essa história pode ter um charme nerd, mas na tela aquilo que parecia promissor se desfaz num ritmo dolorosamente arrastado, numa narrativa que não consegue manter o interesse nem por sua própria conclusão.

O filme poderia ser visto como mais uma investida fracassada de glorificar um bandido simpático. Josh Safdie, que já explorou personagens moralmente dúbios em trabalhos anteriores, desta vez parece perder o foco e transformar o protagonista em uma figura que não inspira nem reflexão profunda nem empatia real. Em vez disso, ele se aproxima de um retrato exagerado do ego e arrogância que beira o irritante, algo que lembra o trabalho de Paul Thomas Anderson em Uma Batalha Após a Outra, mas sem a mesma força narrativa ou significado temático. O resultado é alguém celebrando comportamentos que não têm grande substância ou propósito além da própria exibição.

A fotografia, esperada como um dos pilares visuais do filme dado o envolvimento de Darius Khondji, é decepcionante. O que poderia ser uma estética marcante dos anos 50 filmada em 35 mm acaba soando apenas datada e confusa. Longos enquadramentos que deveriam capturar o clima da cidade ou a intensidade da obsessão do protagonista muitas vezes parecem apenas estáticos demais, sem o dinamismo ou composição visual que justificassem essa escolha. Em vez de impressionar, o olhar visual do filme tem momentos em que parece desinteressado, quase desligado da narrativa e do impacto emocional que pretendia criar.

A trilha sonora, composta por Daniel Lopatin e combinada com referências de músicas de décadas posteriores, deveria trazer textura sonora e atmosfera, mas infelizmente soa horrenda e cafona. Ao invés de complementar ou elevar as cenas, muitas vezes ela interfere na fluidez e no tom, dando a impressão de uma tentativa excessiva de dinamizar o filme sem entender onde realmente precisava de ritmo ou descanso. Essa escolha sonora acaba deixando as sequências ainda mais tediosas, contribuindo para um ritmo que tropeça sem encontrar conexão com o público.

E a temática? Para dizer o mínimo, ela se desenrola de maneira entediante. A obsessão de Marty Mauser em ser o melhor jogador vira um arco narrativo que se repete sem grande variação, e boa parte dos conflitos parecem mais postiços do que organicamente relevantes. Mesmo para quem pode ter um interesse no submundo do esporte ou em estudos de personagens excêntricos, o filme não encontra um modo interessante de explorar essas ideias. Em muitos momentos ele parece mais preocupado em mostrar uma série de eventos do que realmente construir qualquer significado profundo a partir deles.

Quanto à atuação de Timothée Chalamet, que tem sido amplamente elogiada por muitos críticos e já está sendo cotada como um dos grandes trabalhos de sua carreira, eu realmente não achei nada extraordinário no que vi. É claro que ele entrega uma presença de tela intensa e um personagem marcante de certa forma, mas isso não se traduz automaticamente em um desempenho que mereça ser elevado a alturas além da conta. O filme parece pedir que admiremos o protagonista mesmo quando ele age com arrogância extrema, como se isso por si só fosse uma qualidade cativante. Em vez disso, para mim ficou a sensação de que Chalamet interpreta uma versão grandiosa de si mesmo, um sujeito cuja maior característica é justamente sua autoconfiança exacerbada e muitas vezes irritante. Se ele de fato for premiado com o Oscar por esse trabalho, vai parecer um desperdício, porque a sensação é de que grandes talentos foram exigidos para sustentar um material que, em essência, não oferece grande profundidade dramática.

No fim, enquanto algumas pessoas possam argumentar que Marty Supreme tem qualidades estéticas ou performáticas, a experiência que fica é de um filme extremamente tedioso, com ritmo ruim e decisões artísticas que não se sustentam. Em vez de uma jornada envolvente sobre ambição e luta, o que vemos é um desfile de cenas que parecem não levar a lugar nenhum, salvo talvez a ideia superficial de “grandeza” sem significado real. É uma produção que parecia ter potencial para algo especial, mas que no resultado final se perde em sua própria grandiloquência vazia.

fevereiro 03, 2026

Song Sung Blue: Um Sonho a Dois (2025)

 


Título original: Song Sung Blue
Direção: Craig Brewer
Sinopse: Mike e Claire Sardina, um casal azarado de Milwaukee, compartilham o sonho de se tornarem músicos de sucesso. Ambos com grandes aspirações, a dupla decide mudar radicalmente o rumo de suas carreiras: eles formam uma banda de tributo a Neil Diamond. Essa decisão inesperada transforma a vida dos dois artistas, que rapidamente se tornam um ícone local, lidando com a fama e as consequências dessa guinada profissional e pessoal.


O filme começa com um tom que remete àquela sensação de estar ouvindo um disco antigo: familiar, um pouco gasto, mas cheio de memórias guardadas. Craig Brewer parte de uma história real de um casal comum de Milwaukee que decide subir num palco daquele jeito meio desajeitado, meio apaixonado, como quem diz “a música é tudo o que temos”. De cara o espectador é apresentado a Mike Sardina, interpretado por Hugh Jackman, um veterano meio perdido que vive de imitar Don Ho em feiras e bares. A primeira vez que o vemos é como um artista cujo espelho reflete um homem que parece cansado da própria rotina e, ainda assim, incapaz de abandonar a ilusão de que um dia vai ser alguém maior do que realmente é. Kate Hudson vive Claire, a parceira que cruza o caminho de Mike e traz com ela aquele brilho simples de quem acredita que tudo é possível se a gente cantar alto o suficiente. A química entre os dois é o que sustenta o filme nos momentos bons e nos difíceis. Eles não apenas dividem o microfone, mas também o peso das escolhas que fazem ao longo da história.

O roteiro, escrito também por Brewer, constrói a trajetória desses dois como uma linha que oscila entre momentos de euforia musical e situações duras da vida real. A narrativa não hesita em colocar obstáculos no caminho do casal, sendo a mais marcante o acidente que muda tudo para Claire e empurra Mike para um lugar de desespero e reflexão. A forma como essas cenas são montadas tenta espelhar o impacto emocional vivido pelos personagens, mas às vezes o ritmo se perde, especialmente quando Brewer tenta empurrar o público para lágrimas fáceis. É como se a montagem quisesse nos lembrar a cada momento “olhe aqui, é sério, isso dói”, em vez de simplesmente deixar a experiência se revelar por si só.

Tecnicamente, o filme é seguro sem ser impressionante. A fotografia acompanha os shows com câmeras muitas vezes em movimento, aproximando o público da energia crua das apresentações e das melodias de Neil Diamond que permeiam a trilha sonora. Essas cenas ao vivo têm vida própria, com a música funcionando não como mero pano de fundo, mas como força narrativa — cada canção escolhida aqui é usada para marcar um clima, dizer algo sobre os personagens, levar a história pra frente. Essa utilização da música como tecido emocional é um dos pontos mais fortes do filme, e mostra como Brewer entende que um musical precisa fazer sentido tanto na performance quanto no coração de quem assiste.

Por outro lado, a direção de arte e o design de produção se mantêm em um padrão seguro do cinema americano contemporâneo: os cenários são realistas, detalhados, mas não surpreendem. Não há invenção visual além do necessário, o que, por um lado, ajuda a manter a história centrada nos protagonistas e, por outro, faz com que a estética geral pareça um pouco plana em momentos nos quais uma ousadia maior poderia ampliar a expressão emocional. A sensação que fica às vezes é de estar assistindo a um documentário dramatizado com produção de grande estúdio, o que em partes pode ser intencional, já que o filme se inspira em um documentário real.

As atuações são, sem dúvida, o pilar mais sólido do projeto. Hugh Jackman traz uma vulnerabilidade surpreendente ao papel de Mike, um homem que canta com a intensidade de quem tenta encontrar sentido nas palavras que entoa. Ele não é apenas um imitador de Neil Diamond: ele é alguém que tenta, com cada nota, resgatar pedaços de si mesmo. Kate Hudson, por sua vez, entrega talvez um dos desempenhos mais emotivos de sua carreira recente. Sua Claire transita com naturalidade entre os momentos de alegria contagiante e os instantes de dor silenciosa que a vida impõe. A maneira como ela lida com a tragédia pessoal no filme é ao mesmo tempo delicada e poderosa, fazendo com que a personagem seja sempre vista como uma mulher complexa e não apenas coadjuvante do arco emocional do marido.

No fim das contas, Song Sung Blue: Um Sonho a Dois é um filme que se apoia com muito carinho na ideia de amor, música e resiliência, mas que por vezes tropeça na própria ambição de emocionar. Há momentos em que o melodrama se torna mais evidente do que a própria verdade emocional dos personagens, e isso pode afastar quem procura uma narrativa mais contida e menos gesticulada. Ainda assim, para quem se entrega ao ritmo das canções e à sinceridade das performances, a experiência tem seus méritos, principalmente na forma como celebra o ato de cantar como um gesto de coragem e de afirmação de vida. Brewer pode não reinventar o gênero musical ou biográfico, mas ele oferece um filme que abraça seus protagonistas de maneira afetuosa e nos lembra que há poesia até nas escolhas mais aparentemente simples, desde que cantadas com o coração aberto.

Se considerarmos tudo isso como um todo, o filme funciona como um tributo aos que insistem em seguir seus sonhos apesar de tudo, mesmo que nem sempre a execução esteja à altura da ambição emocional que a história promete. A jornada de Mike e Claire pode não ressoar com todos do mesmo jeito, mas há algo de genuinamente tocante em vê-los lutar por sua música e por sua vida juntos.