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setembro 21, 2026

Resident Evil (2026)

 


Título original: Resident Evil
Direção: Zach Cregger
Sinopse: Bryan, um tranquilo entregador, é enviado para uma entrega noturna no Hospital Geral de Raccoon City. No caminho por uma estrada montanhosa coberta de neve, ele acidentalmente atropela uma mulher desconhecida. Ela sobrevive, mas algo está muito errado. Ao tentar ajudar, Bryan se depara com um surto em larga escala envolvendo mutações horríveis com tentáculos e monstruosidades bioengenheiradas.


Resident Evil, de Zach Cregger, é daqueles filmes que podem provocar uma certa confusão antes mesmo de começar. Afinal, quem conhece os jogos da Capcom provavelmente vai esperar personagens conhecidos, situações reconhecíveis e uma adaptação mais diretamente ligada àquilo que já existe nos videogames. Só que não é isso que o diretor está interessado em fazer. O filme praticamente pega o nome, o universo e alguns elementos fundamentais da franquia e constrói outra coisa em cima deles. E, curiosamente, é justamente por não tentar reproduzir os jogos que acaba funcionando tão bem como cinema.

A história acompanha Bryan, interpretado por Austin Abrams, um simples entregador de medicamentos que chega a Raccoon City durante uma noite que rapidamente se transforma em um pesadelo. O protagonista não é um policial treinado, um agente especial ou algum personagem extraordinário. É apenas um sujeito comum que se vê no lugar errado, na hora errada, tentando entender o que está acontecendo enquanto a cidade mergulha no caos. A escolha é interessante porque coloca o espectador na mesma posição de Bryan. Ele não sabe exatamente o que está acontecendo e precisa descobrir as coisas enquanto avança.

É aí que o filme encontra sua principal qualidade. Resident Evil tem uma estrutura extremamente simples e direta, quase como uma grande corrida de sobrevivência. Bryan precisa sair de um ponto e chegar a outro, passando por diferentes ambientes e encontrando novas ameaças pelo caminho. A narrativa não perde tempo com longas explicações ou com uma quantidade exagerada de personagens e subtramas. Em pouco mais de uma hora e meia, Cregger consegue estabelecer o cenário, apresentar o problema e conduzir a história em ritmo bastante acelerado. O resultado é um filme enxuto, que sabe exatamente quanto tempo precisa permanecer em cada situação antes de seguir adiante.

E é justamente aqui que aparece uma das maiores ironias da produção: Resident Evil praticamente não tem nada a ver com o jogo, pelo menos no sentido tradicional de uma adaptação. Não é uma versão cinematográfica de Resident Evil 2, não reconta a história de Leon ou Claire e tampouco tenta reproduzir uma aventura específica da franquia. Bryan é um personagem original e a trama também é nova. A ligação está muito mais na atmosfera, na lógica de sobrevivência, na sensação de progressão e em pequenos elementos reconhecíveis para quem conhece os jogos. Cregger declarou que preferia reproduzir a sensação de jogar Resident Evil a simplesmente transportar uma história já contada nos videogames para o cinema, e essa decisão fica bastante evidente.

Isso não significa que o filme seja indiferente ao material de origem. Pelo contrário. Há uma preocupação clara em incorporar pequenas referências, objetos, situações e conceitos associados aos jogos. A Umbrella Corporation continua presente, assim como o T-Virus e a ideia de uma cidade tomada por criaturas. O próprio desenvolvimento do protagonista remete à progressão típica dos games, começando praticamente sem saber o que fazer e aprendendo a sobreviver conforme a situação piora. O filme ainda utiliza a mudança constante de ambientes como parte da experiência, algo que Cregger considera essencial para reproduzir no cinema a sensação de avançar por diferentes áreas de um jogo.

Mas, acima de tudo, Resident Evil é muito divertido. Essa talvez seja a melhor maneira de definir a experiência. O filme não parece preocupado em provar que é uma grande obra de terror, nem tenta transformar a franquia em algo excessivamente sofisticado. Ele simplesmente quer entregar uma boa aventura de horror, com tensão, criaturas, situações absurdas e uma boa dose de humor. E consegue fazer isso sem deixar que a comédia destrua completamente o clima.

Os poucos jump scares são outro ponto positivo. Em vez de construir praticamente todas as cenas em torno daquele susto previsível acompanhado por uma explosão sonora, Cregger prefere criar situações de expectativa e deixar que o espectador imagine o que pode aparecer. Quando o susto acontece, ele tende a funcionar justamente porque não é utilizado o tempo inteiro. O humor também está no nível certo. Existem momentos engraçados, principalmente pela própria situação desesperadora em que Bryan se encontra, mas o filme nunca parece estar tentando fazer uma paródia de Resident Evil. A graça surge naturalmente das circunstâncias e da personalidade do protagonista.

Austin Abrams ajuda bastante nesse equilíbrio. Bryan não é apresentado como um herói convencional, e o ator consegue transmitir muito bem o desespero de alguém completamente despreparado para aquele tipo de situação. Há uma vulnerabilidade no personagem que torna sua jornada mais divertida e também mais envolvente. Ele não parece invencível e não possui respostas para tudo. É justamente essa condição de pessoa comum que faz com que suas reações sejam tão fáceis de acompanhar.

Visualmente, o filme também encontra uma identidade própria. A fotografia explora bastante a noite, a neve e os espaços urbanos de Raccoon City, criando uma aparência fria e desconfortável. As locações filmadas principalmente em Praga ajudam a construir uma cidade que parece real, mas ao mesmo tempo ligeiramente estranha, como se alguma coisa estivesse errada mesmo antes de o horror começar. As criaturas são outro destaque, com efeitos que procuram preservar uma aparência física concreta em vez de transformar tudo em uma sucessão de imagens digitais indistintas.

A direção de Cregger é talvez o elemento que mais impede o filme de se tornar apenas mais uma produção genérica de zumbis. Depois de Noites Brutais e A Hora do Mal, o diretor demonstra novamente facilidade para controlar ritmo e tensão, mas aqui trabalha com uma proposta muito mais simples. Não há necessidade de grandes reviravoltas a cada dez minutos. O prazer está em acompanhar a escalada do caos e descobrir qual será o próximo ambiente e qual será a próxima ameaça.

No fim das contas, é justamente essa simplicidade que faz Resident Evil funcionar. Quem procurar uma adaptação fiel aos jogos provavelmente poderá sair decepcionado, porque este filme definitivamente não é isso. Mas quem aceitar a proposta de uma história nova ambientada nesse universo encontrará um excelente entretenimento. É rápido, divertido, bem produzido, tem violência suficiente para satisfazer a proposta, poucos sustos realmente eficientes e um humor que raramente ultrapassa o limite. Não reinventa o cinema de horror, mas também não precisa fazê-lo. Cregger entende que, às vezes, tudo o que um filme precisa oferecer é uma boa noite de diversão, e Resident Evil entrega exatamente isso.

O Fim da Rua (2026)

 


Título original: The End of Oak Street
Direção: David Robert Mitchell
Sinopse: Após um misterioso evento cósmico abalar o bairro Oak Street e o transportar dos subúrbios para um lugar desconhecido, a família Platt descobre que sua sobrevivência vai depender da união entre todos para enfrentar um ambiente agora irreconhecível.


Há filmes que conseguem chamar a atenção simplesmente porque partem de uma ideia que parece impossível de ignorar. O Fim da Rua, novo trabalho de David Robert Mitchell, certamente pertence a essa categoria. A proposta é extremamente original: uma pacata vizinhança suburbana dos Estados Unidos, ambientada no início dos anos 1980, é arrancada de seu lugar por um misterioso fenômeno cósmico e transportada para um ambiente completamente desconhecido, onde a família Platt descobre que, além de estar isolada do restante do mundo, terá de conviver com dinossauros. É uma premissa que mistura ficção científica, aventura, suspense, humor e drama familiar de uma maneira pouco convencional. O problema é que uma ideia tão boa acaba sendo prejudicada por uma execução que nem sempre consegue acompanhar o potencial do próprio conceito.

Mitchell, conhecido por filmes como Corrente do Mal e O Mistério de Silver Lake, constrói aqui uma história que começa quase como um drama familiar. Greg e Denise Platt, interpretados por Ewan McGregor e Anne Hathaway, vivem uma relação desgastada, enquanto os filhos Audrey e Brian percebem que existe alguma coisa errada entre os pais. A rotina aparentemente normal da família vai sendo lentamente contaminada por acontecimentos estranhos, até que o bairro inteiro deixa de ser aquilo que conhecemos. Essa escolha funciona bastante bem no começo, porque o contraste entre uma rua residencial perfeitamente comum e a presença de criaturas pré-históricas é justamente o que torna a proposta tão interessante.

A ambientação dos anos 1980 também ajuda muito. A direção de arte cria uma vizinhança que parece saída de uma memória cinematográfica daquela década, com casas, carros, roupas e objetos que reforçam a sensação de estarmos diante de uma espécie de subúrbio americano congelado no tempo. O filme claramente gosta desse imaginário e utiliza a aparência daquela época não apenas como decoração, mas como parte importante da experiência. Há uma tentativa evidente de recuperar o espírito das aventuras e ficções científicas que misturavam situações familiares com acontecimentos extraordinários, algo que combina com a própria ideia de colocar uma ameaça pré-histórica no meio de uma rua residencial.

Anne Hathaway e Ewan McGregor também fazem o possível para dar humanidade a uma história que rapidamente poderia cair no absurdo pelo simples prazer do espetáculo. Hathaway consegue transmitir bem a frustração de Denise e sua transformação diante das circunstâncias extremas, enquanto McGregor constrói um Greg inicialmente perdido dentro da própria vida. Mais interessante, porém, é acompanhar os filhos e perceber como o perigo externo acaba obrigando aquela família problemática a se aproximar. O relacionamento entre eles não é exatamente revolucionário, mas oferece ao filme uma base emocional necessária.

É justamente aí que O Fim da Rua encontra seus melhores momentos. Quando o filme deixa de tentar explicar demais o fenômeno e simplesmente coloca aquelas pessoas tentando sobreviver naquele cenário impossível, ele funciona muito bem. A ideia de transformar uma rua suburbana em uma espécie de território pré-histórico é visualmente divertida e permite situações que dificilmente poderiam existir em um filme convencional sobre dinossauros. Há uma sensação interessante de descoberta, principalmente quando os personagens começam a compreender que as regras do mundo que conheciam simplesmente deixaram de existir.

Infelizmente, a execução não mantém a mesma força da ideia. O roteiro apresenta situações muito boas, mas nem sempre sabe o que fazer com elas. Algumas relações familiares parecem mais importantes no início do que realmente se tornam depois, enquanto determinados acontecimentos parecem introduzidos apenas para movimentar a história de um ponto para outro. A narrativa também alterna momentos de suspense, humor e drama de maneira um pouco irregular. Em algumas passagens essa mistura é divertida, mas em outras fica a impressão de que o filme poderia ter desenvolvido melhor aquilo que tinha nas mãos.

E há ainda um problema que incomoda bastante: os efeitos visuais. É incrível como o CGI dos dinossauros consegue parecer tão artificial em um filme de 2026. Já se passaram 33 anos desde Jurassic Park, que em 1993 conseguiu estabelecer um nível impressionante de realismo ao combinar efeitos digitais e animatrônicos, e ainda assim O Fim da Rua apresenta criaturas que frequentemente parecem pertencer a uma produção muito mais barata. Em determinados momentos, os dinossauros não possuem peso, textura ou integração convincente com os ambientes ao redor. A movimentação também denuncia demais o caráter digital das criaturas.

Isso é particularmente frustrante porque o próprio filme depende completamente dessa interação entre o cotidiano e o extraordinário. A graça da proposta está justamente em imaginar dinossauros andando entre casas, jardins, carros e ruas comuns. Quando os animais parecem inseridos digitalmente sobre a imagem, parte significativa dessa ilusão desaparece. O Fim da Rua acaba entrando em uma lista cada vez maior de filmes atuais que possuem conceitos ambiciosos, grandes estúdios e personagens famosos, mas entregam efeitos visuais que parecem ter recebido menos atenção do que deveriam. Fica até a sensação de que faltou dinheiro ou tempo para fazer os dinossauros parecerem realmente convincentes, o que é difícil de aceitar em uma produção desse porte.

A fotografia de Michael Gioulakis, por outro lado, contribui para criar uma atmosfera bastante particular. Mitchell utiliza movimentos de câmera e enquadramentos que valorizam a arquitetura da vizinhança, transformando a própria rua em um personagem. A trilha de Michael Giacchino também ajuda a reforçar o espírito de aventura e mistério, embora em alguns momentos o filme pareça depender demais dessa atmosfera nostálgica para compensar fragilidades do roteiro.

O resultado é um filme curioso, divertido em vários momentos e sustentado por uma ideia realmente excelente, mas que poderia ter sido muito melhor. O conceito de transportar uma família suburbana dos anos 1980 para um ambiente dominado por dinossauros é criativo o suficiente para gerar uma aventura memorável. O problema é que David Robert Mitchell parece encontrar mais inspiração na própria premissa do que na maneira de desenvolvê-la até o fim. Existe bastante imaginação na construção daquele mundo, mas falta a mesma segurança na condução da narrativa.

Ainda assim, O Fim da Rua está longe de ser uma experiência descartável. A originalidade é seu maior mérito e impede que o filme seja apenas mais uma aventura genérica com criaturas pré-históricas. Existe personalidade na proposta, bons momentos de suspense, uma ambientação muito bem construída e um elenco que consegue sustentar o lado humano da história. Pena que a execução não esteja à altura de uma ideia tão inventiva.

No fim, O Fim da Rua é daqueles filmes que deixam uma sensação curiosa. É fácil imaginar como poderia ter sido excelente, porque existe ali material para algo realmente especial. Mas também é impossível ignorar as escolhas que enfraquecem o resultado, principalmente os efeitos visuais pouco convincentes e um roteiro que não consegue explorar completamente todas as possibilidades de sua premissa. É uma aventura original e irregular, que acerta quando simplesmente abraça o absurdo de sua situação, mas perde força justamente quando tenta transformar essa grande ideia em algo maior do que consegue sustentar.

setembro 20, 2026

Antártida (2026)

 


Título original: Antártida
Direção: Bruno Safadi
Sinopse: Na Estação Comandante Diniz, na Antártida, a cientista Inês é vítima de um crime brutal. Isolados pelo frio extremo e sem possibilidade de resgate imediato, todos os homens da base se tornam suspeitos, inclusive as maiores autoridades da missão. A subcomandante Elisabeth assume a difícil investigação enquanto as mulheres da estação precisam enfrentar o medo, o silêncio e a violência em um ambiente onde ninguém parece estar acima de qualquer suspeita. Em meio ao isolamento e às tempestades, elas descobrem que o verdadeiro perigo está entre elas.


Antártida, de Bruno Safadi, é um daqueles filmes que parecem ter chegado aos cinemas já carregando uma expectativa difícil de administrar. Cercado por uma produção de grande porte, um elenco bastante conhecido e uma proposta visual ambiciosa, o longa acabou recebendo uma reação bastante dura em sua passagem pelo Festival de Gramado e posteriormente entre parte da crítica. O curioso é que, embora esteja longe de ser uma obra-prima e tenha problemas bastante evidentes, a impressão que fica depois da sessão é de que houve um certo exagero na rejeição. Antártida não é o melhor filme nacional do ano, mas está muito longe do massacre que alguns críticos estão fazendo com ele.

A história acompanha uma equipe de cientistas e militares isolada em uma estação brasileira na Antártida durante o rigoroso inverno polar. Logo na primeira noite, a pesquisadora Inês, interpretada por Marina Ruy Barbosa, sofre uma violência sexual e não consegue identificar o responsável. A partir daí, a subcomandante Elisabeth, vivida por Andréa Beltrão, inicia uma investigação para descobrir quem cometeu o crime, já que o responsável está necessariamente entre as pessoas confinadas naquele ambiente. A estrutura lembra os tradicionais mistérios de identidade, mas substitui o assassinato convencional por uma situação de violência que passa a colocar todos os homens da estação sob suspeita.

É justamente nesse ponto que o filme encontra seu principal mérito e também sua maior fraqueza. O roteiro de Cláudia Jouvin tem uma preocupação muito clara em discutir machismo, relações de poder, violência e a dificuldade enfrentada por mulheres quando suas denúncias são colocadas em dúvida. Em alguns momentos, porém, essa preocupação se transforma em diálogos excessivamente explicativos. O filme frequentemente diz ao espectador aquilo que a própria situação já seria capaz de transmitir. A mensagem poderia ser mais forte se houvesse maior confiança nas imagens, nos silêncios e nas próprias interpretações.

Ainda assim, existe uma boa atmosfera de isolamento. A estação funciona como um espaço fechado em que qualquer tensão ganha proporções maiores. O frio, a distância do restante do mundo e a impossibilidade de simplesmente abandonar aquele lugar contribuem para criar uma sensação permanente de desconforto. O filme foi inteiramente realizado em estúdio no Rio de Janeiro, com o uso de tecnologia virtual para construir a paisagem antártica, e o resultado é bastante convincente. Em vez de parecer apenas uma demonstração tecnológica, a ambientação consegue, na maior parte do tempo, integrar os personagens ao cenário de maneira natural.

A fotografia aproveita bem o contraste entre os interiores da estação e o ambiente branco, amplo e hostil do lado de fora. A direção de Bruno Safadi procura transformar aquele espaço em uma espécie de prisão involuntária, em que as relações pessoais se tornam tão perigosas quanto as condições naturais. Também é interessante a maneira como o longa introduz situações paralelas envolvendo os integrantes da equipe, ampliando a sensação de que todos carregam algum tipo de conflito escondido.

Mas o grande destaque do elenco é, sem dúvida, Andréa Beltrão. Elisabeth é uma personagem que poderia facilmente cair em estereótipos de autoridade, mas a atriz encontra humanidade, firmeza e vulnerabilidade na medida certa. Mesmo quando o roteiro entrega falas pouco naturais, Beltrão consegue sustentá-las e fazer com que a personagem pareça maior do que aquilo que está escrito. Leandra Leal também contribui bastante, especialmente na relação entre as mulheres da estação.

Já Marina Ruy Barbosa é o ponto fraco do elenco, como era de se esperar. Inês é uma personagem central para o funcionamento da trama, mas a interpretação frequentemente parece limitada justamente nos momentos em que seria necessária maior intensidade emocional. Há cenas em que a personagem deveria transmitir medo, confusão ou fragilidade e a atuação acaba permanecendo excessivamente contida. Isso prejudica um pouco a força dramática de uma história que depende bastante da experiência daquela personagem.

O roteiro também poderia desenvolver melhor alguns dos personagens secundários. Como a narrativa tenta abordar muitos conflitos ao mesmo tempo, determinadas situações acabam surgindo com força e depois desaparecendo rapidamente. Há a sensação de que o projeto originalmente tinha material para respirar mais, algo compreensível diante da informação de que a história chegou a ser pensada para o formato de série antes de se transformar em longa-metragem.

Mesmo com essas limitações, há algo particularmente interessante em Antártida: pelo menos é um filme nacional que não está concentrado em pobreza ou ditadura. O cinema brasileiro frequentemente retorna a determinados temas sociais e históricos, muitos deles importantes e necessários, mas também existe espaço para histórias de suspense, investigação e sobrevivência ambientadas em universos diferentes. Aqui, a escolha de colocar uma trama desse tipo em uma estação científica brasileira no continente antártico já representa uma mudança bem-vinda.

E a própria Antártida poderia ser ainda mais explorada. O continente funciona muito mais como cenário do que como elemento essencial da narrativa, quando poderia contribuir ainda mais para a tensão. Mesmo assim, o isolamento geográfico é utilizado de maneira suficiente para justificar a estrutura da história e criar um ambiente incomum dentro do cinema brasileiro.

Antártida possui problemas de roteiro, algumas situações pouco desenvolvidas e uma protagonista que não consegue acompanhar a força de seus colegas de elenco. Também há momentos em que a mensagem social é apresentada de maneira excessivamente didática. Mas existe uma produção cuidadosa, uma ambientação visual bastante convincente, uma atmosfera interessante e, principalmente, uma Andréa Beltrão excelente. É um filme irregular, mas competente, que merece ser avaliado pelo conjunto e não reduzido aos seus tropeços. Não é uma obra-prima nem pretende ser, porém tampouco merece ser tratado como um desastre. Entre seus acertos e limitações, Antártida acaba sendo uma experiência nacional bastante válida, justamente por tentar fazer algo diferente dentro de um cinema que nem sempre se permite sair dos caminhos mais conhecidos.

setembro 19, 2026

Do Outro Lado do Pavilhão (2025)

 


Título original: Do Outro Lado do Pavilhão
Direção: Emília Silveira
Sinopse: O documentário dá voz a mulheres marginalizadas pelo sistema penal. Érica e Núbia se conhecem na prisão e criam um laço que ultrapassa as grades. Em liberdade condicional, relatam abusos, celas superlotadas e a perda da identidade feminina. Sem advogados, enfrentam essa rotina com coragem e humor. Suas histórias revelam a realidade do encarceramento feminino no Brasil.


Há filmes que precisam de grandes recursos para provocar reflexão e há outros que conseguem fazer isso simplesmente colocando pessoas diante da câmera e permitindo que contem suas próprias histórias. Do Outro Lado do Pavilhão, dirigido por Emília Silveira, pertence claramente ao segundo grupo. O documentário acompanha Érica e Núbia, duas mulheres que se conheceram durante o período em que estiveram presas e que mantiveram o vínculo depois de deixarem o sistema penitenciário. A partir das experiências das duas, o filme procura mostrar que a prisão não termina necessariamente quando os portões se abrem. Muitas das marcas deixadas pelo encarceramento continuam presentes na vida de quem tenta reconstruir a própria trajetória fora das grades.

Com cerca de 71 minutos, o longa é bastante enxuto e não tenta transformar sua proposta em algo maior do que ela realmente é. Emília Silveira concentra praticamente toda a narrativa nas duas protagonistas, que falam sobre as condições enfrentadas durante o período de prisão, os abusos, a superlotação, as privações e a perda progressiva da própria identidade. O interesse do documentário está justamente nessa proximidade. Em vez de transformar Érica e Núbia em meras estatísticas de um problema social, a câmera procura conhecê-las como pessoas, com suas lembranças, frustrações, dificuldades e também momentos de humor.

Essa escolha dá ao filme uma humanidade importante. As duas não aparecem apenas como vítimas de uma estrutura, mas como mulheres tentando seguir em frente em circunstâncias bastante difíceis. Existe uma diferença significativa entre simplesmente falar sobre o sistema prisional e permitir que pessoas que passaram por ele contem aquilo que viveram. Do Outro Lado do Pavilhão funciona melhor quando deixa que essa experiência seja transmitida diretamente pelas protagonistas, sem a necessidade de explicar o tempo todo aquilo que o espectador já consegue compreender a partir de seus relatos.

A direção de Emília Silveira é discreta e privilegia os depoimentos. A fotografia de Dennis Meier Junior acompanha esse caminho com imagens que procuram aproximar o espectador das personagens, enquanto a montagem de Vinícius Nascimento, João Felipe Freitas e Xavi Cortés mantém o filme relativamente direto. Há também momentos em que Érica e Núbia participam de pequenas encenações, recurso que ajuda a trazer para a tela algumas lembranças e situações relacionadas às suas experiências. Não se trata de uma reconstrução grandiosa, mas de uma maneira simples de complementar aquilo que é contado verbalmente.

A estrutura, porém, também revela algumas limitações. Como o filme depende muito da fala das protagonistas, determinadas passagens acabam ficando repetitivas e algumas ideias poderiam ter sido desenvolvidas com maior profundidade. A produção apresenta questões importantes sobre encarceramento feminino, ressocialização, desigualdade e abandono social, mas nem sempre consegue explorar todas elas de maneira igualmente consistente. Em alguns momentos, parece haver mais interesse em apresentar uma tese do que em desenvolver organicamente aquilo que as próprias personagens oferecem.

Esse é provavelmente o principal problema de Do Outro Lado do Pavilhão. Existe material humano suficiente para construir um documentário ainda mais envolvente, mas a duração reduzida e uma estrutura bastante convencional acabam limitando suas possibilidades. O filme apresenta situações e reflexões relevantes, mas muitas vezes apenas passa por elas antes de seguir adiante. 

Ainda assim, há uma qualidade importante na maneira como o documentário evita transformar sofrimento em espetáculo. A experiência das protagonistas é difícil, mas o filme não depende de imagens chocantes ou de uma exploração exagerada da dor para provocar impacto. Existe espaço inclusive para momentos de descontração, especialmente na relação entre Érica e Núbia. Essa amizade construída dentro de um ambiente tão hostil acaba se tornando um dos elementos mais interessantes da produção, justamente porque dá ao filme uma dimensão que vai além da denúncia.

O título também funciona como uma espécie de síntese da proposta. O pavilhão não representa apenas o espaço físico da prisão, mas uma barreira que continua existindo de outras formas depois da saída. O passado acompanha as personagens, seja pelas dificuldades econômicas, pela falta de oportunidades ou pela ausência de uma rede de apoio capaz de facilitar a reconstrução da vida. A liberdade, portanto, aparece como algo mais complexo do que simplesmente estar fora de uma cela.

É um tema que merece atenção e que ganha relevância justamente por ser apresentado através de experiências individuais. O documentário não pretende oferecer uma solução para o problema do encarceramento feminino, nem teria condições de fazê-lo em pouco mais de uma hora. Seu mérito está em abrir espaço para que duas mulheres contem o que viveram e mostrem como determinadas consequências permanecem mesmo depois do cumprimento da pena.

Do Outro Lado do Pavilhão não é um dos melhores documentários brasileiros, mas é adequado e enxuto. Sua importância está muito mais no assunto que escolhe abordar e na oportunidade que oferece às suas protagonistas do que em uma linguagem cinematográfica especialmente inventiva. Há boas escolhas de direção, montagem e fotografia, mas nenhuma delas chega a transformar o filme em uma experiência documental excepcional.

No fim, o longa funciona porque Érica e Núbia conseguem sustentar a narrativa com suas personalidades e experiências. São elas que dão ao filme seu verdadeiro sentido e impedem que a produção se transforme apenas em uma sucessão de informações sobre o sistema penitenciário. Mesmo com algumas limitações e uma abordagem que poderia aprofundar melhor determinadas questões, Do Outro Lado do Pavilhão cumpre sua proposta com seriedade, objetividade e sensibilidade. É um documentário simples, direto e necessário, que encontra sua maior força justamente naquilo que tem de mais básico: ouvir quem passou pelo outro lado das grades.

setembro 17, 2026

Indiana Jones e a Relíquia do Destino (2023)

 


Título original: Indiana Jones and the Dial of Destiny
Direção: James Mangold
Sinopse: Encontrando-se em uma nova era, aproximando-se da aposentadoria, Indy luta para se encaixar em um mundo que parece tê-lo superado. Mas quando os tentáculos de um mal muito familiar retornam na forma de um antigo rival, Indy deve colocar seu chapéu e pegar seu chicote mais uma vez para garantir que um antigo e poderoso artefato não caia nas mãos erradas.


Existe algo quase melancólico em assistir a Indiana Jones e a Relíquia do Destino, mas não necessariamente pela despedida de Harrison Ford do personagem que interpretou durante mais de quatro décadas. A melancolia vem principalmente da sensação de que este filme não precisava existir da maneira como foi concebido. James Mangold assume a direção no lugar de Steven Spielberg e tenta construir uma aventura que funcione ao mesmo tempo como continuação, homenagem e encerramento, mas o resultado é uma produção grandiosa demais para uma história que, no fundo, parece ter muito pouco a dizer. É um filme bobo, exagerado e frequentemente cansativo, que tenta recuperar a magia das aventuras anteriores através da nostalgia, mas quase sempre deixa evidente que está tentando demais.

A abertura, ambientada no final da Segunda Guerra Mundial, deveria funcionar como uma espécie de reencontro com o Indiana Jones clássico. O personagem aparece mais jovem graças a uma extensa operação de rejuvenescimento digital realizada pela Industrial Light & Magic, com aproximadamente 25 minutos do filme mostrando Harrison Ford digitalmente rejuvenescido. Só que o efeito é justamente um dos maiores problemas da produção. O CGI é horrendo. Em vez de fazer Ford parecer simplesmente mais jovem, o resultado muitas vezes faz ele parecer um boneco, uma representação artificial de Harrison Ford correndo, lutando e fazendo as mesmas expressões que conhecemos de décadas atrás. Há uma estranheza permanente naquele rosto excessivamente liso, especialmente nos olhos, que denuncia o efeito a todo instante. A tecnologia utilizada é impressionante do ponto de vista do trabalho necessário para produzi-la, mas o que aparece na tela é muito menos convincente. A intenção era fazer o espectador acreditar que estava vendo o Indiana Jones dos anos 1980, mas frequentemente parece que estamos olhando para uma versão digital do personagem.

Quando a história finalmente chega a 1969 e Ford aparece com sua idade real, o filme melhora consideravelmente. Não porque a aventura se torne subitamente extraordinária, mas porque o ator consegue devolver ao personagem uma humanidade que os efeitos digitais haviam retirado. Existe um certo cansaço em seu Indiana Jones, uma tristeza relacionada à passagem do tempo e ao afastamento de Marion, e Ford consegue transmitir isso com uma naturalidade que nenhum recurso visual seria capaz de reproduzir. É provavelmente aí que está o elemento mais interessante de Relíquia do Destino: não na tentativa de fazer Indiana Jones voltar a ser jovem, mas na possibilidade de mostrar o que aconteceu com ele depois que a juventude acabou.

A trama gira em torno da anticítera, um mecanismo atribuído a Arquimedes capaz de provocar alterações na própria estrutura do tempo. Indiana acaba envolvido na busca pelo objeto ao lado de Helena Shaw, interpretada por Phoebe Waller-Bridge, enquanto o vilão Jürgen Voller, vivido por Mads Mikkelsen, pretende utilizar o artefato para interferir na história. A premissa é típica da franquia, que sempre encontrou objetos históricos ou religiosos para transformar em motores de aventuras impossíveis. O problema é que desta vez tudo parece mais calculado e menos espontâneo. A Anticítera até oferece possibilidades interessantes, mas o roteiro frequentemente trata suas ideias com uma simplicidade excessiva, transformando conceitos potencialmente fascinantes em desculpas para outra perseguição, outra explosão e outra sequência de ação.

E são justamente essas sequências que revelam outro problema. Mangold sabe filmar ação, mas Relíquia do Destino raramente possui a clareza visual dos melhores momentos da franquia. A perseguição pelas ruas de Tânger, por exemplo, é gigantesca, barulhenta e cheia de acontecimentos, mas também é longa demais e visualmente confusa. Há tantos veículos, personagens, cortes e efeitos digitais acontecendo simultaneamente que o espectador começa a perceber mais o tamanho da produção do que o perigo da situação. A aventura deveria provocar entusiasmo, mas muitas vezes provoca apenas cansaço. O filme também possui uma sequência subaquática e outras cenas de perseguição que apostam mais na quantidade de acontecimentos do que na criatividade.

Phoebe Waller-Bridge é uma presença simpática como Helena, trazendo uma energia mais irreverente para acompanhar o personagem de Ford. Ela funciona especialmente bem quando o filme permite que a relação entre os dois seja construída com humor e conflito. Ainda assim, Helena parece muitas vezes uma personagem criada para manter Indiana em movimento, e não alguém que realmente consiga escapar da sombra gigantesca do protagonista. Mads Mikkelsen, por sua vez, faz o possível com um vilão que poderia ser muito mais interessante. Voller possui uma conexão direta com o passado de Indiana e uma obsessão bastante adequada ao tema do filme, mas o roteiro não explora essa relação com a profundidade necessária.

Também existe uma insistência quase desconfortável em transformar a despedida de Ford em um evento histórico. A trilha de John Williams ajuda bastante a recuperar a identidade da série, e ouvir novamente seus temas associados a Indiana Jones traz uma emoção genuína. Williams compôs a trilha de todos os filmes da franquia desde Os Caçadores da Arca Perdida, e seu trabalho aqui funciona como uma espécie de fio condutor entre diferentes épocas do personagem. O problema é que a música frequentemente parece carregada de uma nostalgia que o próprio filme não consegue sustentar. É como se a trilha lembrasse ao espectador o tempo inteiro que aquilo deveria ser emocionante.

A fotografia também procura reproduzir o aspecto clássico da franquia, alternando grandes paisagens, ambientes históricos e cenas noturnas com uma estética de aventura tradicional. Porém, a quantidade de efeitos digitais faz com que muitas dessas imagens percam a textura e o peso físico que tornavam os filmes antigos tão divertidos. Relíquia do Destino parece grande demais, limpo demais e artificial demais. Há momentos em que tudo parece ter sido construído dentro de um computador, justamente o contrário da sensação de perigo concreto que fazia as primeiras aventuras funcionarem tão bem.

Isso não significa que o filme seja completamente desprovido de qualidades. Harrison Ford continua sendo Indiana Jones, e basta ele colocar o chapéu e olhar para a câmera com aquela expressão característica para a memória afetiva assumir o controle. Há também algumas boas interações entre os personagens e momentos em que a história consegue recuperar o espírito aventureiro da série. O problema é que esses momentos aparecem cercados por uma quantidade exagerada de ação, efeitos visuais e nostalgia programada.

No fim, Indiana Jones e a Relíquia do Destino parece menos uma nova aventura e mais uma tentativa de impedir que o personagem envelheça. E essa é justamente a ironia mais interessante do filme. A melhor coisa que ele poderia fazer seria aceitar a passagem do tempo, tanto para Indiana quanto para Harrison Ford. Quando finalmente faz isso, existe emoção e até certa beleza. Quando tenta voltar artificialmente ao passado, o resultado é estranho, frio e frequentemente ridículo. O rejuvenescimento digital que deveria ser um triunfo tecnológico acaba sendo uma distração, enquanto o próprio Ford, com sua idade real, oferece uma atuação muito mais expressiva e verdadeira.

James Mangold entrega uma aventura competente em vários aspectos, mas também excessivamente longa, barulhenta e dependente de efeitos visuais. Falta aquela simplicidade que fazia Indiana Jones parecer um homem comum colocado em situações extraordinárias. Aqui, quase tudo é extraordinário o tempo inteiro, e justamente por isso pouco parece realmente especial. O filme quer ser épico, emocionante, divertido e definitivo ao mesmo tempo, mas acaba sendo principalmente uma produção gigantesca tentando convencer o público de que ainda existe uma necessidade de continuar uma história que já havia encontrado seu encerramento.

Indiana Jones merecia uma despedida mais simples e mais humana. Harrison Ford, por sua vez, merecia que sua presença fosse valorizada sem a necessidade de transformá-lo digitalmente em um boneco de décadas atrás. No final, a verdadeira aventura não está em voltar no tempo, mas em aceitar que ele passou. E Relíquia do Destino só parece compreender isso quando finalmente abandona o espetáculo e deixa Indiana Jones ser, simplesmente, um homem envelhecido tentando descobrir se ainda existe algum lugar para ele no mundo.

setembro 16, 2026

Backrooms: Um Não-Lugar (2026)

 


Título original: Backrooms
Direção: Kane Parsons
Sinopse: Em 1990, o vendedor de móveis Clark descobre em sua loja um portal para os "Backrooms", um labirinto infinito de escritórios surreais. Fascinado, ele convence sua funcionária Kat e o namorado dela a mapearem as anomalias do local. Após o desaparecimento de Clark, sua terapeuta, a Dra. Mary Kline, mergulha na dimensão impossível para resgatá-lo, sendo forçada a confrontar seus próprios traumas enquanto busca uma saída.


O conceito por trás de Backrooms: Um Não-Lugar é daqueles que parecem ter nascido para provocar a imaginação. A partir de uma fotografia de um ambiente vazio publicada na internet, surgiu todo um universo de corredores intermináveis, salas abandonadas e espaços que parecem existir fora da realidade. Kane Parsons transformou essa ideia em vídeos que conquistaram enorme popularidade e agora chega ao cinema com uma produção da (sempre péssima) A24, protagonizada por Chiwetel Ejiofor, Renate Reinsve e Mark Duplass. O problema é que aquilo que funciona muito bem como uma experiência curta e estranha nem sempre consegue sustentar um longa-metragem.

A história acompanha Clark, um vendedor de móveis que encontra uma passagem para um lugar aparentemente impossível. Depois de desaparecer, ele é procurado por Mary, sua terapeuta, que acaba entrando nesse universo para tentar encontrá-lo. A partir daí, o filme mergulha em corredores, salas vazias e ambientes que parecem se multiplicar indefinidamente, enquanto os personagens tentam compreender onde estão e como podem sair dali. A premissa é interessante, mas rapidamente fica evidente que o filme depende muito mais da atmosfera do que propriamente da história.

E atmosfera não falta. Kane Parsons demonstra um talento visual bastante evidente. Os cenários reproduzem com eficiência aquela estética estranha dos "backrooms", com paredes amareladas, carpete envelhecido, iluminação fluorescente e ambientes praticamente idênticos entre si. Existe algo genuinamente desconfortável nessas imagens, principalmente porque elas transformam lugares banais em espaços ameaçadores. A fotografia e o desenho de som também colaboram para criar essa sensação de isolamento, com ruídos constantes, silêncios prolongados e uma iluminação que parece nunca permitir que o espectador se sinta confortável.

O problema é que a estética acaba sendo muito mais interessante do que aquilo que o filme tem para contar. Não suporto essas coisas de surrealismo, fantasia, coisas sem explicação. Sei que essa ausência de respostas pode ser justamente o que atrai muita gente para esse tipo de produção, mas comigo acontece o contrário. Quando um filme estabelece um mistério, espero que exista alguma recompensa emocional ou narrativa nessa jornada. Aqui, quanto mais a história tenta explicar aquele universo, mais distante fico dos personagens e da própria narrativa.

Chiwetel Ejiofor faz o possível para dar humanidade a Clark, enquanto Renate Reinsve encontra alguns bons momentos como Mary. Os dois atores, porém, estão presos a personagens que nunca conseguem ultrapassar completamente suas funções dentro da trama. Seus dramas pessoais deveriam criar uma ligação emocional com o público, mas acabam parecendo acessórios para conduzir a história de um ambiente estranho ao seguinte. Falta uma conexão que faça com que eu realmente me importe com o destino deles.

É justamente aí que Backrooms: Um Não-Lugar se torna cansativo. Tedioso. A repetição dos corredores, salas e criaturas inicialmente produz curiosidade, mas depois começa a produzir apenas a sensação de que estamos andando em círculos. O que deveria ser uma representação da desorientação dos personagens passa a ser também a desorientação narrativa do próprio filme. Existem momentos interessantes, principalmente quando Parsons deixa o espaço falar por si, mas eles são prejudicados pela necessidade constante de ampliar a mitologia.

E talvez o maior problema esteja justamente nessa tentativa de transformar uma ideia simples em algo muito maior. Os backrooms eram fascinantes porque não precisavam de explicação. Uma fotografia de um espaço vazio já era suficiente para despertar a sensação de que havia algo errado. No longa, a introdução de criaturas, regras e explicações torna esse universo mais elaborado, mas não necessariamente mais interessante. Para mim, quanto mais o filme explica, menos misterioso ele fica.

É esteticamente bonito mas emocionalmente distante e completamente irrelevante. Consigo reconhecer o cuidado da produção, a qualidade dos cenários e o talento visual de Parsons, mas nada disso foi suficiente para criar envolvimento. O diretor claramente sabe construir imagens e atmosferas, e existe potencial em sua maneira de filmar, especialmente considerando que este é seu primeiro longa-metragem. O que falta é uma história capaz de sustentar esse talento durante toda a duração do filme.

No fim, Backrooms: Um Não-Lugar me parece mais uma demonstração do potencial cinematográfico de Kane Parsons do que um filme plenamente realizado. Há imagens memoráveis, uma identidade visual forte e uma premissa que continua sendo curiosa, mas também existe uma narrativa arrastada e emocionalmente pouco envolvente. O que poderia ser uma experiência inquietante acaba se tornando uma longa caminhada por corredores que parecem não levar a lugar algum. E, considerando justamente o título brasileiro, talvez essa seja a conclusão mais apropriada: depois de toda essa viagem, a sensação é a de ter chegado exatamente a lugar nenhum.

Rompendo Rochas (2025)

 


Título original: Cutting Through Rocks
Direção: Sara Khaki, Mohammad Reza Eyni
Sinopse: Sara Shahverdi, a primeira mulher iraniana eleita para a vereança de sua aldeia, luta contra tradições patriarcais ao ensinar meninas a andar de moto, defender o direito à propriedade e combater o casamento infantil, apesar da forte oposição. O documentário acompanha a jornada de Shahverdi, que, mesmo enfrentando dúvidas e resistência, se torna um símbolo de resistência e esperança para uma nova geração.


Há filmes que conseguem transformar uma história aparentemente simples em uma experiência cinematográfica poderosa, enquanto outros carregam consigo um tema tão relevante que, por si só, despertam interesse, mas não encontram na linguagem do cinema a mesma força que existe na realidade retratada. Rompendo Rochas, dirigido por Sara Khaki e Mohammad Reza Eyni, pertence mais à segunda categoria. O documentário parte de uma personagem extremamente interessante e de uma realidade social que merecia ser conhecida por um público muito mais amplo, mas acaba construindo uma experiência irregular, frequentemente monótona e menos envolvente do que poderia ser.

O filme acompanha Sara Shahverdi, mulher de 43 anos que vive em uma região rural do noroeste do Irã e que se tornou a primeira mulher eleita para o conselho municipal de sua comunidade. Divorciada, independente e acostumada a desafiar as expectativas impostas às mulheres ao seu redor, Sara se transforma em uma espécie de agente de mudança dentro de uma sociedade profundamente marcada por tradições patriarcais. Sua atuação passa por questões como o casamento infantil, o acesso das meninas à educação, a autonomia feminina e o direito das mulheres de participarem das decisões relacionadas às próprias vidas. O próprio título funciona como uma metáfora bastante evidente para essa trajetória: romper as estruturas sociais que parecem tão rígidas quanto as pedras que cercam a protagonista.

E é justamente aí que está o maior mérito do documentário. Sara é uma personagem naturalmente cinematográfica. Sua personalidade forte, sua maneira direta de falar, sua independência e a disposição para enfrentar homens e instituições fazem com que ela desperte curiosidade imediatamente. Há algo fascinante em acompanhar uma mulher que simplesmente se recusa a aceitar como inevitáveis determinadas regras sociais. Em diversos momentos, sua presença diante da câmera é muito mais interessante do que qualquer tentativa dos realizadores de explicar o que estamos vendo.

A produção também consegue registrar situações bastante significativas do cotidiano da comunidade. Sara tenta convencer famílias a permitir que meninas tenham outras possibilidades para o futuro, enfrenta conflitos dentro da própria família e utiliza sua posição política para tentar modificar pequenas estruturas de poder. O documentário foi construído a partir de aproximadamente sete anos de registros, condensados em pouco mais de uma hora e meia, e essa longa convivência dos realizadores com a personagem proporciona momentos de intimidade que seriam difíceis de conseguir em uma produção convencional.

O problema é que Rompendo Rochas nem sempre sabe o que fazer com esse material. Existe uma diferença considerável entre ter acesso privilegiado a uma história e conseguir transformar esse acesso em cinema. O filme frequentemente parece acreditar que simplesmente observar Sara durante longos períodos será suficiente para manter a atenção do espectador. Nem sempre é. Algumas situações se prolongam além do necessário, determinadas discussões parecem repetitivas e há momentos em que a narrativa dá a impressão de estar andando em círculos.

Essa característica torna a experiência bastante monótona em determinados trechos. A câmera observa, espera e acompanha, mas nem sempre existe uma construção narrativa capaz de transformar essa observação em tensão ou emoção. O estilo documental de acompanhamento direto pode funcionar muito bem quando existe uma montagem precisa, capaz de encontrar significado e ritmo dentro dos acontecimentos cotidianos. Aqui, porém, essa estratégia nem sempre produz o efeito desejado. O espectador percebe a importância daquilo que está sendo mostrado, mas isso não significa necessariamente que esteja envolvido com a maneira como a história é contada.

É curioso, inclusive, que o filme tenha sido recebido de maneira tão entusiasmada em alguns festivais. Rompendo Rochas estreou no Festival de Sundance de 2025 e recebeu o Grande Prêmio do Júri na competição de documentários de cinema mundial. A própria organização do festival destacou a trajetória de Sara e sua tentativa de oferecer às mulheres de sua comunidade maior liberdade de escolha. Há, portanto, um reconhecimento internacional bastante expressivo em torno da obra, ainda que a experiência pessoal diante do filme possa ser bem menos entusiasmante.

Parte dessa diferença talvez esteja justamente na força do tema. A situação retratada é tão relevante que pode acabar elevando a percepção sobre o próprio filme. A luta de Sara possui importância social evidente, e conhecer as dificuldades enfrentadas por mulheres em uma comunidade rural iraniana proporciona um retrato cultural que dificilmente seria encontrado em uma produção comercial. Entretanto, considero que um tema importante não garante automaticamente um grande documentário. É preciso que a forma de contar essa história seja tão eficiente quanto a história em si.

Nesse sentido, Rompendo Rochas me parece uma obra mal produzida quando comparada ao que encontramos com frequência no documentário brasileiro. O cinema documental brasileiro possui uma tradição particularmente forte de transformar questões sociais, políticas e humanas em narrativas mais dinâmicas, emocionais e cinematograficamente elaboradas. Mesmo quando trabalham com realidades igualmente difíceis, muitos documentários nacionais conseguem estabelecer melhor o ritmo, desenvolver seus personagens de maneira mais envolvente e encontrar imagens capazes de sintetizar aquilo que o filme pretende dizer. Em “Rompendo Rochas”, essa preocupação parece existir, mas nem sempre chega ao resultado esperado.

Isso não significa que a fotografia seja ruim. Pelo contrário, há momentos visualmente interessantes, especialmente quando a câmera acompanha Sara pelos espaços da comunidade ou registra sua relação com as meninas que tenta inspirar. A paisagem rural também contribui para criar uma sensação de isolamento e ajuda a compreender o ambiente em que os conflitos acontecem. O problema está menos nas imagens individualmente e mais na maneira como elas são articuladas. Faltam, em alguns momentos, uma seleção mais rigorosa e um ritmo que conduza o espectador de maneira mais natural.

A montagem também é responsável por essa sensação de irregularidade. Os realizadores, Sara Khaki e Mohammad Reza Eyni, acumulam funções importantes no projeto, com Eyni também responsável pela fotografia e ambos envolvidos na edição. Há uma intenção clara de construir um retrato próximo e espontâneo, mas algumas transições são abruptas e determinadas partes da trajetória de Sara ficam pouco desenvolvidas e certos aspectos pessoais da protagonista acabam sendo apresentados tarde demais ou tratados como elementos secundários.

O mais interessante é perceber que o próprio filme parece possuir material suficiente para ser muito melhor. A história da eleição de Sara, seus conflitos familiares, sua relação com as jovens da comunidade e as consequências de sua atuação poderiam sustentar uma narrativa mais coesa e emocionante. Em vez disso, o documentário muitas vezes prefere permanecer na superfície dos acontecimentos. Quando finalmente consegue alcançar uma dimensão mais íntima, a sensação é de que isso acontece tarde demais.

Ainda assim, seria injusto ignorar os momentos em que Rompendo Rochas encontra sua força. A relação de Sara com as meninas é particularmente significativa porque mostra que sua luta não está limitada ao enfrentamento imediato dos homens que se opõem a ela. Existe uma preocupação com aquilo que poderá acontecer depois, com a possibilidade de que uma nova geração de mulheres tenha opções que não estavam disponíveis para as anteriores. A sequência final, envolvendo Sara e um grupo de meninas em motocicletas, sintetiza essa ideia de maneira bastante eficiente e oferece uma conclusão coerente para sua trajetória.

No fim, Rompendo Rochas é um documentário cuja protagonista é mais interessante do que o próprio filme. Sara Shahverdi é uma figura fascinante, e sua história merece ser conhecida. O problema está na distância entre essa história e a forma encontrada pelos diretores para apresentá-la. Há boas imagens, situações relevantes e uma personagem central capaz de sustentar uma produção inteira, mas falta ao conjunto um pouco mais de ritmo, criatividade e capacidade de transformar observação em emoção.

É uma obra importante pelo que registra, mas apenas parcialmente bem-sucedida pelo modo como registra. Seu tema é poderoso, sua protagonista é memorável e algumas passagens realmente conseguem transmitir a dimensão da resistência que ela representa. Porém, o excesso de contemplação, a montagem irregular e uma narrativa que frequentemente se torna repetitiva fazem com que a experiência seja cansativa. Rompendo Rochas quer mostrar como uma mulher tenta abrir caminho em meio a estruturas sociais endurecidas pelo tempo. Ironicamente, o próprio filme parece encontrar dificuldade para abrir caminho até o espectador.

setembro 15, 2026

Coyote vs. Acme (2026)

 


Título original: Coyote vs. Acme
Direção: Dave Green
Sinopse: Após décadas de falhas catastróficas com os produtos ACME em sua caçada ao Papa-Léguas, Wile E. Coyote decide que é hora de buscar justiça e processar a corporação. Ao lado de um advogado azarado, Coyote trava uma batalha jurídica épica contra o impiedoso CEO da companhia. Enquanto enfrentam o sistema, a dupla desenvolve uma amizade improvável e luta para provar que a culpa de tantos desastres nunca foi do instinto, mas sim de defeitos de fabricação.


É curioso como alguns filmes conseguem chegar ao público carregando consigo uma história quase tão improvável quanto a que contam na tela. Coyote vs. Acme é exatamente esse tipo de caso. Um filme que ficou anos engavetado, parecia destinado a desaparecer e finalmente encontrou seu caminho até os cinemas em 2026. E existe uma ironia perfeita nisso, porque estamos falando de um personagem que passou décadas sendo esmagado, explodido, enganado e humilhado pelos produtos da ACME e que finalmente decide enfrentar a empresa responsável por todas as suas desgraças.

Eu esperava pouco. Muito pouco, na verdade. E talvez essa seja uma das maiores surpresas da experiência, porque Coyote vs. Acme é absolutamente sensacional. Não é apenas uma comédia nostálgica tentando explorar a memória afetiva de quem cresceu assistindo aos Looney Tunes. É um filme que entende seus personagens e, principalmente, entende que por trás de toda aquela loucura existe uma história muito humana sobre alguém que passou a vida inteira sendo tratado como o problema.

Sempre me identifiquei com o Coyote. E sempre o achei injustiçado. Existe algo particularmente melancólico naquele personagem que simplesmente não consegue vencer, não importa quanto tente. Ele planeja, pesquisa, compra os produtos mais absurdos da ACME, prepara suas armadilhas e, no instante seguinte, tudo dá errado. O Papa-Léguas escapa, Coyote sofre as consequências e nós rimos. O filme pega justamente essa velha piada e pergunta se talvez tenhamos passado décadas rindo da pessoa errada.

Dirigido por Dave Green, o longa acompanha Wile E. Coyote entrando em uma batalha judicial contra a ACME depois de tantos produtos defeituosos destruírem sua vida. Para isso, ele conta com o advogado Kevin Avery, vivido por Will Forte, enquanto John Cena interpreta o advogado da poderosa empresa. A partir daí, o que parecia uma premissa absurda se transforma em uma divertida comédia jurídica, mas também em uma história sobre amizade, injustiça e pessoas tentando ser ouvidas.

Will Forte funciona muito bem porque não transforma Kevin em um herói perfeito. Ele é inseguro, desacreditado e precisa recuperar a própria confiança. A relação que desenvolve com Coyote dá ao filme uma dimensão emocional que eu sinceramente não esperava encontrar. John Cena também se diverte bastante como o advogado da ACME, equilibrando o exagero necessário para uma produção desse tipo com uma atuação que nunca deixa o personagem cair completamente na caricatura.

Mas o grande astro continua sendo Coyote. O filme respeita a essência do personagem e entende que ele não precisa falar o tempo inteiro para ser engraçado. Seus olhares, movimentos e expressões continuam carregando aquela linguagem dos desenhos clássicos. E é justamente aí que o longa acerta em cheio.

Também fiquei muito surpreso com a maneira como a animação 3D é utilizada. Ela é bem sutil. Coyote e os demais personagens continuam parecendo desenhos, mas estão muito mais integrados ao mundo real do que em muitos filmes que tentaram fazer essa mistura. Para mim, Coyote vs. Acme é muito melhor que Uma Cilada Para Roger Rabbit. Não pela importância histórica, que pertence ao clássico de Robert Zemeckis, mas porque aqui a integração entre os dois mundos parece mais natural e menos preocupada em mostrar o próprio virtuosismo técnico.

A fotografia de Brandon Trost ajuda bastante nesse resultado, utilizando iluminação, perspectiva, sombras e interação física para fazer os personagens animados realmente parecerem parte daquele ambiente. O filme não precisa ficar o tempo inteiro lembrando que existe uma tecnologia por trás daquilo. Ela simplesmente funciona.

Mas o que mais me conquistou foi a crítica social. Coyote vs. Acme fala sobre grandes corporações, desigualdade de forças e pessoas que não conseguem ser ouvidas simplesmente porque não possuem dinheiro ou influência. E faz isso sem transformar a história em um discurso pesado.

É também uma excelente crítica aos julgamentos precoces. Coyote passou décadas sendo visto como um sujeito obcecado e responsável pelos próprios fracassos. O filme nos obriga a olhar novamente para essa história e perguntar se ele realmente era o culpado por tudo aquilo. É um tapa na cara de quem julga os outros sem conhecer o contexto.

E essa ideia funciona porque Coyote não é transformado em santo. Ele continua sendo Coyote. Continua cometendo erros e tomando decisões questionáveis. A diferença é que, pela primeira vez, alguém está disposto a ouvi-lo.

O roteiro de Samy Burch consegue equilibrar humor, aventura, crítica social e emoção sem esquecer que, acima de tudo, estamos diante de uma história dos Looney Tunes. A trilha de Steven Price acompanha bem essa mistura, enquanto a montagem mantém o filme movimentado, principalmente nas sequências de humor físico.

A única coisa que realmente me impede de considerar o filme completamente perfeito é o ritmo em alguns poucos momentos. Há cenas que se esticam um pouco além do timing ideal, quando poderiam terminar alguns segundos antes. É um detalhe pequeno, mas perceptível justamente porque o restante funciona tão bem.

No fim, Coyote vs. Acme é uma das maiores surpresas que tive com um filme desse tipo. Eu esperava pouco e encontrei algo absolutamente sensacional. É nostálgico sem viver apenas da nostalgia, engraçado sem ser infantil e crítico sem perder a leveza.

Sempre achei o Coyote injustiçado. Depois desse filme, acho ainda mais.

E talvez essa seja sua maior vitória. Pela primeira vez, ele deixa de ser apenas a piada e passa a ser o protagonista da própria história. Depois de décadas caindo de penhascos e sendo vítima das próprias armadilhas, finalmente chegou o momento de alguém ouvir o seu lado.

Quase perfeito. E, para um personagem que passou a vida inteira perdendo, já é uma vitória e tanto.

abril 29, 2026

O Diabo Veste Prada 2 (2026)

 


Título original: The Devil Wears Prada 2
Direção: David Frankel
Sinopse: Miranda Priestly navega por sua carreira em meio ao declínio das publicações tradicionais de revistas. Ela se confronta com Emily Charlton, sua ex-assistente, agora uma influente executiva de um grupo de luxo, que detém verbas publicitárias de que Miranda Priestly precisa desesperadamente.


É curioso como certas continuações parecem existir apenas para confirmar aquilo que já desconfiávamos. O Diabo Veste Prada 2 chega quase duas décadas depois do original com a promessa de revisitar um universo que marcou época, mas acaba funcionando mais como um eco esvaziado do que como uma evolução real. Dirigido novamente por David Frankel e reunindo nomes como Meryl Streep, Anne Hathaway, Emily Blunt e Stanley Tucci, o filme tenta atualizar o universo da moda para um cenário dominado por crises editoriais, digitalização e perda de relevância das revistas impressas . O problema é que, no meio desse esforço de modernização, ele perde justamente aquilo que fazia o original funcionar.

A maior prova disso está na própria Miranda Priestly. A personagem, que antes era magnética, cruel na medida certa e absurdamente fascinante, surge aqui irreconhecível. Não por uma tentativa ousada de reinvenção, mas por um esvaziamento evidente. É uma Miranda mais “humana”, mais contida, mais simples, e isso destrói completamente o eixo dramático. Parte do charme do primeiro filme vinha da aura quase mitológica que Meryl Streep construía com mínimos gestos e olhares. Aqui, essa força desaparece. O roteiro tenta justificar essa mudança com o declínio do mercado editorial e pressões corporativas , mas a sensação é de que tiraram o veneno da personagem sem colocar nada no lugar.

E talvez seja aí que se entenda por que a própria Streep raramente se envolve em continuações. Existe um momento em que revisitar um papel deixa de ser revisitar e passa a diluir. Em vários trechos, percebe-se uma atuação correta, profissional, mas sem o brilho que antes dominava cada cena. Não é uma questão de talento, que continua intacto, mas de material. Quando o texto não sustenta, até uma gigante como ela parece presa a algo que já perdeu o timing.

A narrativa acompanha Andy Sachs retornando ao universo da Runway em meio a uma nova fase da carreira, agora mais madura e inserida em um jornalismo em crise . A ideia tinha potencial. Havia espaço para discutir ambição, ética e adaptação a novos tempos. Mas o desenvolvimento é arrastado, com conflitos que nunca ganham peso real. Tudo parece diluído em diálogos excessivos e situações que se repetem sem chegar a lugar algum. O filme tem pouco mais de duas horas, mas a sensação é de algo ainda mais longo, tamanha a falta de ritmo.

E é justamente esse ritmo que compromete a experiência. O longa se arrasta de forma quase preguiçosa, como se estivesse sempre prestes a engrenar e nunca conseguisse. As cenas se acumulam sem urgência, sem tensão e sem aquela dinâmica ácida que fazia o original ser tão envolvente. Em vez de acompanhar uma escalada dramática, o espectador se vê preso a uma sequência de momentos mornos, próximos do entediante.

Curiosamente, quem acaba roubando a cena em meio a esse marasmo é Lady Gaga. Sua participação, que poderia facilmente ser apenas um artifício promocional, surge como um dos poucos elementos vivos do filme. Além de contribuir com a trilha, incluindo a música “Runway” , ela entrega uma presença cênica segura e carismática. Gaga já demonstrou em outras ocasiões que sabe atuar, mas aqui chama atenção justamente por conseguir trazer energia a um projeto que parece constantemente cansado de si mesmo.

O restante do elenco até tenta manter algum nível de interesse. Emily Blunt e Stanley Tucci ainda encontram momentos pontuais de brilho, especialmente pela familiaridade com seus personagens. Mas nem isso é suficiente para sustentar o filme. Há uma sensação constante de repetição, como se tudo fosse uma versão diluída do que já foi feito antes, sem o frescor ou a ironia que marcavam o original.

Outro problema evidente é a falta de novidade. Apesar de abordar temas contemporâneos como inteligência artificial e a crise do jornalismo, o filme não consegue aprofundar nenhuma dessas ideias. Tudo é tratado de maneira superficial, quase como pano de fundo decorativo. O roteiro parece mais interessado em revisitar situações conhecidas do que em realmente dizer algo novo sobre esse universo.

No fim, O Diabo Veste Prada permanece intocado justamente porque sabia quando parar. Sua continuação, ao contrário, expõe o risco de retornar a histórias que já se encerraram com perfeição. O resultado é um filme que até tenta recuperar a elegância e o sarcasmo de antes, mas que termina como uma versão simplificada e sem impacto daquilo que um dia foi icônico.

E talvez essa seja a maior decepção. Não é um desastre completo, mas é um filme que não convence, não se justifica e, principalmente, não acrescenta nada. Em vez de reafirmar o legado, acaba apenas lembrando que nem toda história precisa de um segundo capítulo.

abril 26, 2026

Devoradores de Estrelas (2026)

 


Título original: Project Hail Mary
Direção: Phil Lord, Christopher Miller
Sinopse: O professor de ciências Ryland Grace acorda em uma espaçonave anos-luz de casa sem memória de quem ele é ou como chegou lá.


Há algo de profundamente revelador quando um filme consegue provocar não apenas desinteresse, mas um tipo raro de rejeição ativa, quase física. Devoradores de Estrelas, adaptação do romance de Project Hail Mary dirigida por Phil Lord e Christopher Miller, entra para um território muito específico da experiência cinematográfica: aquele em que o espectador não apenas se desconecta, mas decide abandonar a sessão. Foi exatamente isso que aconteceu aqui. Em mais de duas décadas escrevendo sobre cinema, esta foi a primeira vez que levantei da poltrona antes do final. Não por choque, não por indignação estética sofisticada, mas por puro esgotamento diante de algo que simplesmente não funciona em absolutamente nenhum nível.

E não há rodeios possíveis: é simplesmente, preto no branco, um filme péssimo. Mas péssimo em caps lock.

A proposta até poderia sugerir algo interessante. Um astronauta acorda sozinho no espaço, sem memória clara de quem é ou do que precisa fazer, enquanto uma ameaça cósmica coloca em risco a sobrevivência da humanidade. É inevitável lembrar de 2001: Uma Odisseia no Espaço, não apenas pela ambientação, mas pela tentativa de criar um senso de mistério existencial e contemplação científica. O problema é que aqui essa inspiração não passa de um esboço mal compreendido. Onde o filme de Stanley Kubrick constrói tensão através do silêncio, da imagem e da ambiguidade, Devoradores de Estrelas opta por explicar tudo, o tempo todo, de forma confusa, truncada e, pior, entediante.

O roteiro parece não saber o que quer ser. Ele se estrutura como uma sucessão de problemas técnicos que precisam ser resolvidos, mas nenhum deles carrega peso dramático real. Não há conflito verdadeiro. Não há dilema. Não há urgência emocional. Tudo soa como uma lista de tarefas, quase um manual mal adaptado para o cinema. O protagonista enfrenta obstáculos que nunca parecem realmente ameaçadores, e a narrativa se arrasta sem qualquer senso de progressão. Em vez de uma jornada, temos uma repetição de situações ocas, que se acumulam até perder completamente o sentido.

E isso nos leva ao centro do problema: não conseguimos sentir absolutamente nada pelo protagonista.

Ryan Gosling, que já construiu uma carreira baseada muito mais em presença estética do que em profundidade dramática consistente, aqui atinge um nível impressionante de apatia. Sua atuação é mecânica, sem vida, e em vários momentos dá a sensação literal de que ele está lendo as falas diretamente do roteiro, sem qualquer esforço de interpretação. Não há carisma, não há vulnerabilidade, não há humanidade. Em um filme que depende quase exclusivamente da conexão com seu personagem central, isso é fatal.

Para piorar, o filme toma decisões estéticas e narrativas que parecem mirar um público infantil, mas sem a leveza ou a criatividade que esse tipo de abordagem exige. A introdução dos alienígenas, criaturas feitas de rocha com comportamento quase cartunesco, empurra a obra para um tom que beira o constrangimento. Em vez de fascínio ou estranhamento, o que se sente é um deslocamento absurdo. A ficção científica aqui não instiga, não provoca, não encanta. Ela infantiliza.

O contraste entre a ambição aparente e a execução real é gritante. Há uma tentativa clara de criar algo grandioso, de lidar com temas cósmicos e existenciais, mas tudo é reduzido a diálogos expositivos e soluções fáceis. O filme não confia na inteligência do espectador, mas também não consegue ser acessível de forma genuína. Fica preso em um limbo narrativo que o torna cansativo e irrelevante ao mesmo tempo.

É inevitável estabelecer um paralelo com outros filmes espaciais recentes que também falharam, cada um à sua maneira. Interestelar (o filme que mais odeio na vida) sempre me pareceu um exemplo clássico de cinema cafona disfarçado de profundidade, com uma trilha que parece saída de vídeos motivacionais de redes sociais e um sentimentalismo forçado que beira o ridículo. Gravidade, por sua vez, sempre me soou como uma comédia involuntária travestida de thriller espacial. Agora, Devoradores de Estrelas se junta a esse grupo, formando uma espécie de trilogia do absurdo cósmico. Três filmes que parecem, em espírito, terem sido produzidos e dirigidos por Mel Brooks, mas sem a menor consciência de que poderiam ser encarados como paródia.

A diferença é que, enquanto Interestelar ainda tenta emocionar e Gravidade ao menos aposta na experiência sensorial, Devoradores de Estrelas não oferece nada. Não há espetáculo visual memorável, não há construção de atmosfera, não há sequer um ritmo minimamente envolvente. O tempo parece se arrastar de forma cruel, transformando cada cena em um teste de paciência.

E talvez o mais grave seja isso: o filme é profundamente desinteressante.

Não há um único momento em que a curiosidade seja despertada de verdade. As revelações não impactam. As soluções não surpreendem. As interações não convencem. Tudo soa previsível, mal articulado e, acima de tudo, irrelevante. É como assistir a um rascunho que nunca foi revisado, uma ideia que nunca encontrou sua forma.

Em determinado ponto, a experiência deixa de ser apenas ruim e passa a ser quase inacreditável. Realmente nunca tinha visto um filme tão ruim assim. E isso não é uma hipérbole jogada ao vento. É um reconhecimento honesto de que estamos diante de algo que falha de maneira tão completa que se torna difícil até encontrar parâmetros de comparação.

Talvez a melhor definição venha de um lugar inesperado. Como diria o influenciador Valter Guijhon em suas aulas de etiqueta e postura, Devoradores de Estrelas é um filme para ser visto “jamais, em hipótese alguma, é o Apocalipse!”. E raramente uma frase se encaixou tão bem.

No fim das contas, o que fica não é raiva, nem frustração criativa. É um vazio. Um silêncio desconfortável de quem percebe que perdeu tempo com algo que não tinha absolutamente nada a oferecer. Se o cinema é, em sua essência, uma experiência de conexão, aqui temos o oposto absoluto. Um filme que não se comunica, não envolve e não justifica sua própria existência.

Devoradores de Estrelas não é apenas ruim. Ele é o fundo do poço do cinema. E, sinceramente, sair da sala antes do final foi a decisão mais lúcida que essa experiência permitiu.