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março 11, 2026

Arco (2025)

 


Título original: Arco
Direção: Ugo Bienvenu
Sinopse: Um menino de 10 anos, de um futuro distante e pacífico, acidentalmente viaja de volta ao ano 2075 e descobre um mundo em perigo. À medida que Arco desenvolve uma amizade com uma jovem chamada Iris, eles se unem e, junto com seu robô cuidador Mikki, partem em uma jornada para conduzir Arco de volta para casa.


Quando o cinema de animação realmente encontra uma voz própria, ele deixa de parecer apenas um desenho em movimento e passa a soar como um pequeno milagre visual. É exatamente isso que acontece em Arco, dirigido por Ugo Bienvenu. Em seu primeiro longa-metragem, o cineasta francês entrega uma obra de ficção científica delicada, emotiva e profundamente inventiva, uma experiência que mistura imaginação infantil com reflexões surpreendentemente maduras sobre futuro, memória e amizade. O resultado é um daqueles raros filmes que parecem ter sido feitos com a liberdade criativa de um artista que simplesmente decidiu desenhar seus sonhos na tela.

A história é aparentemente simples, mas carregada de possibilidades. O jovem Arco, um garoto de dez anos que vive em um futuro extremamente distante, usa um traje especial que permite viajar no tempo. Em sua primeira tentativa, algo dá errado e ele acaba caindo literalmente do céu no ano de 2075. Lá conhece Iris, uma menina que vive praticamente sozinha em um mundo dominado por tecnologia, mudanças climáticas e adultos distantes. Juntos, os dois tentam encontrar uma forma de fazer Arco voltar para casa. O enredo poderia ser apenas mais uma aventura infantil de ficção científica, mas o filme transforma essa premissa em algo muito mais amplo, explorando amizade, solidão e esperança em um planeta que parece constantemente à beira de perder o rumo.

O que imediatamente chama atenção é a animação absolutamente lindíssima. Há uma beleza sincera em cada cenário, em cada movimento dos personagens e em cada cor espalhada pela tela. A estética mistura traços simples com um uso expressivo de cores vibrantes, criando imagens que lembram tanto quadrinhos europeus quanto a tradição do anime. Não é por acaso que muitos críticos apontam influências que vão desde artistas de ficção científica como Moebius até o imaginário de Hayao Miyazaki. O próprio diretor tem origem nos quadrinhos e na ilustração, e essa formação se percebe em cada enquadramento, que parece ter sido cuidadosamente desenhado como se fosse uma página de graphic novel em movimento.

Mas o mais curioso em Arco é como ele parece misturar referências aparentemente incompatíveis e ainda assim funcionar perfeitamente. Existe ali algo do espírito aventureiro de De Volta Para o Futuro, especialmente nessa ideia de viagem temporal conduzida por pura curiosidade juvenil. Ao mesmo tempo, o filme mergulha numa estética musical e visual que lembra experiências mais experimentais da animação japonesa, evocando inevitavelmente Interstella 5555: The 5tory of the 5ecret 5tar 5ystem, a famosa animação associada ao duo Daft Punk. É uma combinação improvável, quase uma bagunça estilística, mas uma bagunça muito boa. Parece um anime perdido produzido por algum estúdio francês com orçamento modesto e imaginação infinita.

Essa mistura cultural cria algo extremamente singular. Há momentos em que o filme parece um conto futurista melancólico, quase contemplativo. Em outros, vira uma aventura leve e colorida cheia de energia juvenil. E em certos trechos, simplesmente se entrega à pura contemplação visual, como se a narrativa abrisse espaço para que o espectador apenas absorvesse aquele mundo imaginado. Essa liberdade narrativa é um dos maiores encantos da obra.

A relação entre Arco e Iris também funciona com enorme sensibilidade. Não há sentimentalismo exagerado nem diálogos artificiais. Os dois personagens se conectam de forma natural, como crianças que descobrem no outro um companheiro improvável em meio a um mundo meio estranho. O filme entende perfeitamente como retratar a infância sem transformá-la em caricatura. A amizade dos dois é o coração emocional da história, e é ela que conduz o espectador pela narrativa.

Outro aspecto encantador é o mundo futurista que o filme constrói. O ano de 2075 mostrado aqui não é apenas uma distopia tecnológica. Há drones, robôs e hologramas, mas também um sentimento constante de melancolia ambiental, uma sensação de que a humanidade perdeu alguma coisa essencial ao longo do caminho. Ainda assim, o filme nunca se torna pessimista. Pelo contrário, ele sugere que a esperança pode vir justamente das novas gerações que ainda enxergam o mundo com curiosidade e imaginação.

É impossível ignorar também a trilha sonora e o ritmo quase musical de certas sequências. Em alguns momentos, o filme parece realmente se aproximar da linguagem de um videoclipe futurista, algo que faz sentido considerando o histórico de Bienvenu trabalhando com música e cultura pop. Essas passagens reforçam a sensação de que estamos vendo uma obra que mistura cinema, quadrinhos, anime e música eletrônica num único organismo criativo.

Talvez o mais impressionante seja perceber que tudo isso nasce de um primeiro longa-metragem. Muitos diretores passam anos tentando encontrar uma identidade visual e narrativa. Aqui ela surge já completamente formada. Arco não tenta seguir tendências nem imitar o estilo das grandes animações industriais. Ele simplesmente existe à sua maneira, como um pequeno universo independente dentro do cinema de animação contemporâneo.

Ao final da jornada, fica a sensação rara de ter assistido a algo genuinamente especial. Um filme que olha para o futuro sem perder a ternura do olhar infantil. Uma obra que mistura referências com liberdade, sem medo de parecer estranha. E acima de tudo, um lembrete de que a animação ainda é capaz de produzir imagens que fazem o espectador sentir algo verdadeiro. Em tempos de produções cada vez mais calculadas e previsíveis, Arco surge como um arco-íris inesperado no céu do cinema. E às vezes é exatamente isso que a arte precisa ser. 

março 09, 2026

Zootopia 2 (2025)

 


Título original: Zootopia 2
Direção: Jared Bush, Byron Howard
Sinopse: Os detetives Judy Hopps e Nick Wilde se encontram na trilha sinuosa de um réptil misterioso que chega a Zootopia e vira a metrópole dos mamíferos de cabeça para baixo.


A sequência Zootopia 2 chega quase uma década depois do sucesso estrondoso do primeiro filme, tentando revisitar o universo da metrópole habitada por animais que conquistou o público em 2016. Dirigido por Jared Bush e Byron Howard, o longa retoma os personagens Judy Hopps e Nick Wilde, novamente dublados por Ginnifer Goodwin e Jason Bateman, agora trabalhando juntos como policiais enquanto investigam um caso envolvendo uma misteriosa serpente chamada Gary De’Snake, personagem interpretado por Ke Huy Quan. Na história, a dupla acaba sendo incriminada e precisa atravessar diferentes regiões da cidade para provar sua inocência e capturar o verdadeiro responsável pelo caos que se instala na metrópole.

O problema é que, apesar da escala maior e da evidente ambição da produção, a sensação constante é de um projeto que existe mais pela necessidade industrial de continuar uma franquia lucrativa do que por uma verdadeira inspiração criativa. O primeiro Zootopia funcionava justamente porque parecia uma surpresa. Misturava investigação policial com sátira social e humor de forma leve e inteligente. Já aqui, a impressão é de que quase tudo foi reciclado, ampliado ou esticado sem que houvesse realmente algo novo a dizer. O filme tenta repetir a fórmula da dupla improvável que aprende a confiar um no outro, mas esse arco dramático já foi resolvido antes e retorna agora com uma artificialidade que torna muitas cenas previsíveis.

Visualmente, é impossível negar que a animação continua impressionante. A tecnologia da Walt Disney Animation Studios evoluiu bastante desde o primeiro filme, e a cidade de Zootopia surge ainda mais detalhada, cheia de pequenas piadas visuais e texturas sofisticadas. Os ambientes continuam criativos, com bairros que refletem diferentes climas e habitats animais, e há momentos em que a câmera virtual percorre esses cenários com uma fluidez que lembra superproduções de ação. O problema é que toda essa sofisticação técnica parece existir quase como distração. Quanto mais o filme aposta em perseguições frenéticas, explosões e sequências espetaculares, mais evidente se torna o vazio da narrativa.

A relação entre Judy e Nick, que antes era o coração emocional da história, aqui parece presa a diálogos repetitivos. O roteiro insiste em reforçar conflitos que não soam naturais, como se a trama precisasse inventar obstáculos artificiais apenas para movimentar a história. Isso enfraquece o ritmo do filme e faz com que vários momentos que deveriam ser engraçados ou emocionantes soem apenas mecânicos. O humor também sofre. A espontaneidade do primeiro filme dá lugar a piadas que parecem calculadas demais, muitas delas dependentes de referências internas ou de personagens secundários que entram e saem da trama sem deixar impressão duradoura.

O elenco de vozes continua competente. Ginnifer Goodwin mantém o entusiasmo incansável de Judy Hopps, enquanto Jason Bateman ainda consegue extrair certo carisma do cinismo relaxado de Nick Wilde. Entre os novos nomes, Ke Huy Quan traz uma energia curiosa ao personagem da serpente Gary, mas o roteiro nunca decide exatamente se ele deve ser um vilão ameaçador, uma figura cômica ou apenas um dispositivo de trama. Participações de nomes conhecidos como Idris Elba e Shakira aparecem mais como acenos ao público do que como elementos realmente importantes para a história.

O curioso é que, enquanto muitos espectadores e críticos elogiaram a continuação e o filme se tornou um gigantesco sucesso comercial, arrecadando mais de 1,8 bilhão de dólares no mundo todo, esse triunfo de bilheteria parece reforçar justamente a sensação de que Hollywood está cada vez mais dependente de propriedades já estabelecidas. A indústria celebra números e recordes, mas a criatividade parece cada vez mais comprimida entre expectativas de franquia e estratégias de marketing.

No fim das contas, Zootopia 2 não é um desastre técnico. A animação é refinada, os personagens continuam simpáticos e há energia suficiente para manter o público infantil entretido. Mas o filme carrega um problema difícil de ignorar: ele nunca justifica realmente sua existência. Falta surpresa, falta risco e, principalmente, falta aquele encanto que fazia o primeiro filme parecer especial. O resultado é uma sequência que funciona como espetáculo visual, mas que deixa a sensação de que estamos apenas revisitanto um mundo que já disse tudo o que tinha para dizer. Em vez de expandir Zootopia, o filme apenas circula em volta dela, como um passeio longo demais por uma cidade que perdeu parte da sua magia.



março 06, 2026

A Meia-Irmã Feia (2025)

 


Título original: Den Stygge Stesøsteren 
Direção: Emilie Blichfeldt
Sinopse: Elvira, meia-irmã de Cinderela, vive com a família em um poderoso reino onde poucas coisas são tão importantes quanto a beleza. Ela recorre a medidas extremas para cativar o príncipe, em meio a uma competição implacável pela perfeição física.


O cinema recente tem demonstrado um interesse curioso em revisitar contos de fadas sob óticas sombrias. Histórias que antes pareciam inocentes passam a ser examinadas como metáforas de violência social, obsessões e frustrações humanas. Dentro desse movimento aparece A Meia-Irmã Feia (2025), estreia da diretora norueguesa Emilie Blichfeldt, uma releitura grotesca e satírica do conto da Cinderela. O filme parte de uma premissa simples e até bastante promissora. Em vez de acompanhar a tradicional heroína, a narrativa desloca o foco para a meia-irmã considerada “feia”, Elvira, interpretada por Lea Myren. A proposta é inverter a perspectiva do conto clássico e mostrar a história pelo ponto de vista de quem normalmente ocupa o papel de antagonista.

A trama se passa em um reino onde a beleza não é apenas um atributo desejável, mas praticamente uma moeda social. Elvira vive com a mãe e a irmã em uma situação financeira frágil e enxerga no casamento com o príncipe uma possível saída para sua vida. O problema é que ela precisa competir com a própria meia-irmã Agnes, vivida por Thea Sofie Loch Næss, cuja aparência perfeita parece torná-la a escolha natural para o baile real. A partir daí, o filme transforma o conhecido conto em uma espécie de disputa desesperada por padrões de beleza impossíveis.

A ideia de transformar o universo de Cinderela em uma sátira grotesca sobre padrões estéticos é, sem dúvida, a parte mais interessante do projeto. A diretora constrói um mundo onde a aparência física se torna uma espécie de tirania social. Para se adequar a esse ideal, Elvira passa por procedimentos cada vez mais extremos e dolorosos, numa abordagem que aproxima o filme do chamado “body horror”, gênero que utiliza o próprio corpo humano como elemento de terror.

Visualmente, o longa tem momentos que realmente chamam atenção. A fotografia assinada por Marcel Zyskind cria uma atmosfera meio sombria, meio fantasiosa, que lembra ilustrações antigas de contos de fadas. O cenário mistura luxo decadente com ambientes sujos e claustrofóbicos, reforçando a sensação de que aquele reino elegante esconde algo profundamente perturbador. Em certos momentos, o filme até consegue capturar uma beleza visual curiosa, quase como se fosse um conto de fadas contaminado por algo estranho e desagradável ao mesmo tempo.

A performance de Lea Myren também merece destaque. A atriz consegue transmitir uma mistura interessante de ingenuidade, inveja e desespero. Sua personagem não é simplesmente malvada, mas alguém esmagado por expectativas absurdas. Essa camada dramática ajuda a tornar Elvira mais humana, ainda que o filme às vezes exagere nas situações grotescas que ela enfrenta. Já Ane Dahl Torp, como a mãe ambiciosa e manipuladora, funciona bem como a força que empurra a filha para essa obsessão pela beleza e pelo status social.

O problema é que, depois de estabelecer essa premissa instigante, o filme parece não saber exatamente o que fazer com ela. Em vez de desenvolver melhor os conflitos entre as personagens ou aprofundar a crítica social, a narrativa passa a apostar cada vez mais no choque visual. As cenas grotescas se tornam frequentes e, em certos momentos, parecem existir apenas para provocar reação imediata do público. Há sequências que claramente querem causar desconforto físico, o que pode até gerar impacto inicial, mas acaba ficando repetitivo conforme a história avança.

Essa insistência no grotesco acaba enfraquecendo o próprio discurso do filme. A crítica aos padrões de beleza, que poderia ser explorada com mais ironia ou inteligência, vai sendo soterrada por imagens exageradas e situações cada vez mais absurdas. O resultado é um longa que começa com uma ideia forte, mas que aos poucos se transforma em uma experiência cansativa. Em vez de provocar reflexão, muitas cenas parecem apenas querer chocar o espectador.

Outro problema é o ritmo irregular. O filme alterna momentos interessantes com trechos que se arrastam sem muita progressão narrativa. Há sequências em que a história praticamente para para mostrar mais um procedimento bizarro ou mais um momento grotesco, o que acaba quebrando o fluxo da narrativa. Quando finalmente chega ao seu clímax, a sensação é de que o filme já disse tudo que tinha a dizer muito antes.

No fim das contas, A Meia-Irmã Feia é um filme curioso, cheio de ideias visuais e com uma proposta que poderia render algo realmente memorável. A tentativa de transformar um conto de fadas em uma sátira sombria sobre padrões de beleza tem potencial e até funciona em alguns momentos. No entanto, a obsessão pelo choque acaba dominando a experiência e enfraquecendo o impacto da história.

O resultado é um longa que chama atenção, que certamente vai gerar comentários e reações fortes, mas que também deixa a sensação de que havia um filme muito melhor escondido ali. Em vez de aprofundar suas ideias, a obra prefere exagerar nos excessos. E quando o choque se torna mais importante que a narrativa, até o conto de fadas mais perverso acaba perdendo sua magia.

março 05, 2026

O Ônibus Perdido (2025)

 


Título original: The Lost Bus
Direção: Paul Greengrass
Sinopse: Um pai determinado arrisca tudo para resgatar uma professora dedicada e seus alunos de um incêndio florestal devastador.


Inspirado em um episódio real ocorrido durante o devastador incêndio conhecido como Camp Fire, que atingiu a Califórnia em 2018, O Ônibus Perdido, dirigido por Paul Greengrass, parte de uma premissa que, à primeira vista, parece promissora para um drama de sobrevivência. Baseado no livro Paradise: One Town's Struggle to Survive an American Wildfire, da jornalista Lizzie Johnson, o filme acompanha um motorista de ônibus escolar que precisa conduzir um grupo de crianças e uma professora através de uma região tomada por um incêndio fora de controle. No papel principal está Matthew McConaughey, ao lado de America Ferrera, que interpreta a professora responsável pelos alunos durante a fuga desesperada.

A história segue Kevin McKay, um motorista encarregado de transportar crianças enquanto o fogo avança rapidamente sobre estradas e cidades próximas. Ao lado da professora Mary Ludwig, ele tenta encontrar uma rota segura em meio ao caos causado pelo incêndio, que se espalha de forma imprevisível e transforma ruas em corredores de fumaça e pânico. A premissa possui todos os ingredientes de um bom drama de tensão. Há perigo constante, crianças em risco e uma corrida contra o tempo. No papel, parece o tipo de narrativa capaz de produzir um filme intenso e emocional. Na prática, porém, o resultado é muito menos envolvente do que poderia ser.

O principal problema de O Ônibus Perdido é que ele se torna rapidamente entediante e repetitivo. A sensação ao longo da projeção é de que o filme gira em círculos, repetindo sempre as mesmas situações. O ônibus tenta avançar por uma estrada, encontra algum obstáculo, precisa voltar, pega outro caminho e tudo volta a acontecer novamente. Esse mecanismo narrativo se repete tantas vezes que o espectador começa a perceber claramente o padrão. Em vez de aumentar a tensão, como provavelmente era a intenção, o filme acaba criando um efeito oposto. A narrativa perde impacto e passa a dar a impressão de que nada realmente progride.

Esse problema se torna ainda mais evidente quando se observa a duração da obra. O filme ultrapassa duas horas de duração, algo que parece completamente exagerado para uma história tão simples. O que poderia funcionar como um drama de sobrevivência direto e conciso acaba se estendendo muito além do necessário. Muitas sequências parecem variações da mesma ideia visual. Fumaça, estrada bloqueada, desespero dentro do ônibus, mais fumaça, mais estrada bloqueada. A sensação é a de um filme que repete constantemente a mesma situação sem acrescentar novas camadas dramáticas.

Outro elemento que pesa negativamente é a atuação de Matthew McConaughey. O ator, que interpreta o motorista Kevin McKay, parece sempre preso ao mesmo tipo de performance, com trejeitos e expressões que já se tornaram previsíveis ao longo de sua carreira. Sua atuação aqui não acrescenta nenhuma nuance ao personagem. Pelo contrário, contribui para deixar a experiência ainda mais monótona. É o tipo de interpretação que parece sempre igual, independentemente do contexto do filme. Para quem já não simpatiza com o ator, O Ônibus Perdido dificilmente mudará essa impressão.

America Ferrera, por sua vez, faz o que pode com um papel relativamente limitado. Sua personagem possui potencial dramático, afinal ela é responsável por manter a calma das crianças enquanto tudo desmorona ao redor. Porém o roteiro raramente se aprofunda nesse aspecto. Muitas vezes ela se limita a reagir às situações, sem que a narrativa realmente desenvolva sua perspectiva de forma mais interessante.

Visualmente, o filme tenta reproduzir o estilo característico de Paul Greengrass. A câmera nervosa, os enquadramentos instáveis e a edição acelerada procuram transmitir sensação de urgência e caos. Esse estilo já apareceu em diversos trabalhos do diretor, especialmente em produções de ação e suspense. No entanto, aqui o recurso parece mais um hábito repetido do que uma escolha realmente eficaz. Em muitos momentos, a movimentação constante da câmera não intensifica a cena, apenas reforça a artificialidade da encenação.

Isso acaba reforçando uma impressão recorrente na filmografia de Greengrass. Com exceção de Voo United 93, talvez sua obra mais impactante e realmente emocional, muitos de seus filmes parecem superficiais, dependentes de um estilo visual agitado que tenta substituir profundidade dramática. O Ônibus Perdido segue exatamente esse padrão. É uma produção que tenta se apresentar como um grande drama humano em meio a um desastre, mas que acaba soando artificial e distante.

Mesmo o contexto histórico do incêndio de Paradise, que poderia gerar momentos realmente devastadores, raramente ganha o peso emocional que merece. O desastre permanece mais como pano de fundo para sequências de ação repetidas do que como um elemento humano capaz de provocar reflexão ou impacto.

No fim das contas, O Ônibus Perdido é um exemplo claro de como uma história potencialmente poderosa pode se perder em uma execução cansativa. A repetição constante de situações, a duração exagerada e a falta de profundidade dramática transformam o filme em uma experiência arrastada. O que deveria ser uma jornada angustiante de sobrevivência acaba parecendo apenas um longo percurso circular. Quando o ônibus finalmente chega ao destino, o sentimento predominante não é alívio ou emoção. É simplesmente a sensação de que a viagem demorou muito mais do que deveria.

março 04, 2026

Sing: Thriller (2024)

 


Título original: Sing: Thriller
Direção: Garth Jennings
Sinopse: Buster Moon sonha com um espetáculo estelar ao som de Thriller, do Michael Jackson, nesta animação com personagens da franquia de filmes Sing.


Dentro do universo das animações musicais recentes, Sing: Thriller, dirigido por Garth Jennings, surge como um pequeno especial de Halloween que tenta capitalizar tanto o sucesso da franquia Sing quanto o eterno apelo da música “Thriller”, de Michael Jackson. Produzido pela Illumination Entertainment e lançado pela Netflix, o curta tem apenas cerca de 11 minutos e reúne novamente o elenco de vozes conhecido da série, incluindo Matthew McConaughey, Scarlett Johansson, Taron Egerton, Tori Kelly e Nick Kroll. A ideia é simples: transformar o famoso clipe de “Thriller” em um número musical dentro do mundo dos personagens animais da franquia. Na prática, porém, o resultado está longe de justificar sua própria existência.

A história é extremamente básica. O produtor teatral Buster Moon organiza um espetáculo de Halloween no New Moon Theatre, no qual os personagens interpretam uma versão temática de “Thriller”. Depois do show, todos seguem para uma festa, mas um acidente em um laboratório espalha um estranho líquido que transforma os convidados em criaturas semelhantes a zumbis, levando a um grande número musical inspirado diretamente na coreografia clássica do clipe original.

O problema é que essa premissa, que poderia gerar algo divertido e energético, é executada de forma surpreendentemente sem graça. Mesmo com duração curtíssima, o curta consegue ser entediante. Tudo parece existir apenas como desculpa para chegar rapidamente ao momento em que os personagens dançam ao som da música. Não há qualquer construção dramática, humor realmente eficaz ou criatividade narrativa. A impressão é de assistir a um produto promocional esticado para preencher alguns minutos.

Visualmente, a animação mantém o padrão técnico esperado do estúdio, com personagens expressivos e cenários coloridos. No entanto, isso já não impressiona tanto quanto poderia. A estética é praticamente a mesma vista nos filmes da série, apenas revestida com alguns elementos de Halloween. Há abóboras, luzes esverdeadas e um clima de paródia de filme B de terror, mas tudo é tão genérico que passa sem deixar marca.

O maior problema, contudo, está no tom. A animação aposta em um humor infantil extremamente simplório. Muitas piadas são previsíveis, outras parecem feitas para crianças muito pequenas, e o resultado geral é uma sucessão de momentos bobos que dificilmente arrancam mais do que um sorriso tímido. A sensação é de estar vendo algo produzido no piloto automático, sem qualquer ambição artística.

Se algo realmente se salva na experiência é a própria música. “Thriller” continua sendo um clássico absoluto da cultura pop e, inevitavelmente, carrega consigo uma energia que nenhuma animação fraca consegue destruir. O momento em que os personagens reproduzem a famosa coreografia é talvez o único instante que desperta algum interesse. Mas isso acontece menos por mérito do curta e mais pela força da obra original que ele tenta homenagear.

No fim das contas, Sing: Thriller parece um daqueles projetos concebidos apenas para manter uma marca ativa nas plataformas de streaming. Falta inspiração, falta humor e falta qualquer senso de novidade. Para um especial tão curto, surpreende como consegue parecer longo. Quando termina, fica a impressão de que se assistiu a algo completamente descartável. Tirando a música de Michael Jackson, o resto é praticamente um desperdício de tempo. Quase um lixo animado embalado em cores brilhantes e nostalgia pop.

Pillion (2025)

 


Título original: Pillion
Direção: Harry Lighton
Sinopse: Colin, um homem tímido, conhece Ray, um confiante líder de gangue de motoqueiros, que o inicia em um relacionamento submisso, desafiando a existência mundana de Colin e estimulando o crescimento pessoal por meio de sua dinâmica.


Dirigido por Harry Lighton em sua estreia no cinema, Pillion (2025) é um daqueles filmes que parecem determinados a provocar reações fortes no público. Inspirado no romance Box Hill, de Adam Mars-Jones, o longa acompanha a relação entre Colin, um rapaz tímido e socialmente deslocado, e Ray, um misterioso motociclista que o introduz a uma dinâmica sexual baseada em dominação e submissão. No papel de Colin está Harry Melling, enquanto Ray é interpretado por Alexander Skarsgård. A produção britânico-irlandesa estreou no Festival de Cannes de 2025 e rapidamente ganhou notoriedade por seu tema provocativo e por tratar abertamente de um relacionamento BDSM entre os dois protagonistas.

A história começa de forma relativamente simples. Colin vive com os pais nos arredores de Londres, trabalha aplicando multas de estacionamento e tenta levar uma vida tranquila cantando em um quarteto de pub. Um encontro casual com Ray muda completamente seu cotidiano. O motociclista o convida para uma relação que rapidamente ultrapassa o campo do desejo ocasional e se transforma em uma estrutura rígida de submissão, na qual Colin passa a obedecer ordens, dormir no chão e desempenhar tarefas domésticas em troca da atenção do parceiro.

Embora o filme seja vendido como uma mistura de romance, humor negro e drama psicológico, a experiência de assisti-lo tende a ser bastante desconfortável. Pillion insiste em mergulhar o espectador em uma dinâmica de poder que, em vez de provocar reflexão ou complexidade emocional, frequentemente soa apenas desagradável. O longa parece fascinado pela ideia de submissão extrema e, em vários momentos, trata situações de humilhação como se fossem algo bonito, quase poético. Essa escolha narrativa acaba criando um estranhamento que não é necessariamente produtivo. Em vez de explorar as contradições humanas de seus personagens, o filme muitas vezes parece apenas contemplar o sofrimento e a degradação como se fossem elementos românticos.

Também não ajuda o fato de que a narrativa é bastante arrastada. Com pouco mais de uma hora e quarenta minutos, a história avança lentamente, repetindo variações da mesma dinâmica entre os protagonistas. Muitas cenas parecem prolongadas além do necessário, criando uma sensação de estagnação dramática. A tentativa de transformar o relacionamento em uma jornada de autodescoberta acaba se diluindo em sequências que insistem no mesmo tipo de interação, sem realmente levar a trama para novos lugares.

Apesar dessas limitações, o filme tem alguns pontos que merecem destaque. O principal deles é a atuação de Harry Melling. O ator, conhecido por muitos anos pelo papel de Dudley na série de filmes de Harry Potter, entrega aqui uma performance surpreendentemente sensível. Seu Colin é um personagem frágil, inseguro e profundamente carente de afeto, e Melling consegue transmitir essas nuances com naturalidade. Há momentos em que seu olhar ou sua postura corporal dizem mais sobre o personagem do que qualquer diálogo. É justamente essa vulnerabilidade que sustenta boa parte do interesse dramático do filme.

Infelizmente, o mesmo não pode ser dito de Alexander Skarsgård. Seu Ray deveria ser uma figura magnética, alguém capaz de exercer fascínio e domínio ao mesmo tempo. No entanto, o ator parece passar boa parte do tempo como um boneco inexpressivo. Sua atuação é rígida, quase mecânica, e raramente transmite a complexidade emocional que o personagem aparentemente exige. Em vez de um líder carismático ou ameaçador, Ray acaba parecendo apenas uma presença vazia em cena. Isso prejudica profundamente a dinâmica central da história, já que todo o conflito depende da relação entre os dois personagens.

Visualmente, o filme até tenta construir uma atmosfera específica, explorando ambientes urbanos noturnos e o universo dos clubes de motociclistas. No entanto, essa ambientação raramente se transforma em algo realmente envolvente. O cenário existe mais como pano de fundo do que como elemento dramático ativo, o que contribui para a sensação de monotonia.

No fim das contas, Pillion é um filme que claramente deseja ser provocador e ousado, mas que acaba se perdendo em sua própria proposta. Ao tentar transformar uma relação marcada por humilhação e submissão em algo esteticamente belo, o longa acaba criando uma experiência muitas vezes desagradável de assistir. Mesmo com a entrega sincera de Harry Melling, o resultado geral fica comprometido por um ritmo arrastado, uma dinâmica repetitiva e uma atuação central que simplesmente não convence.

É um daqueles casos em que a provocação parece existir mais como intenção do que como resultado artístico. E quando o choque se esgota, sobra apenas um filme longo demais para uma ideia que nunca chega realmente a justificar sua própria existência.

março 03, 2026

O Diabo Não Tem Descanso (2025)

 


Título original: The Devil Is Busy
Direção: Christalyn Hampton, Geeta Gandbhir
Sinopse: Documentário da HBO que mostra a realidade atual da saúde reprodutiva nos EUA, acompanhando Tracy, uma mulher de fé e a inabalável chefe de segurança de uma clínica de aborto em Atlanta.


O curta-metragem O Diabo Não Tem Descanso, dirigido por Geeta Gandbhir e Christalyn Hampton, é um daqueles documentários que parecem nascer de um contexto político muito específico e urgente. Com pouco mais de meia hora de duração, o filme acompanha um único dia de funcionamento de uma clínica de aborto em Atlanta, nos Estados Unidos, onde médicos e funcionários tentam manter o atendimento funcionando enquanto lidam diariamente com protestos e tensões do lado de fora do prédio. No centro da narrativa está Tracii, responsável pela segurança do local, que passa o dia tentando proteger pacientes e colegas em meio a um ambiente de constante hostilidade.

A proposta do curta é claramente mostrar como a rotina de uma clínica desse tipo se transformou depois das mudanças recentes nas leis sobre aborto nos Estados Unidos. A câmera acompanha os procedimentos de segurança, as chegadas das pacientes e os momentos de tensão provocados pelos manifestantes que ficam do lado de fora gritando mensagens religiosas e tentando intimidar quem entra. Tudo é mostrado de maneira bastante direta, quase observacional, como se o espectador estivesse simplesmente caminhando pelos corredores da clínica durante aquele dia.

O filme aposta numa abordagem bastante simples, quase sem narração explicativa. A história é conduzida pelas conversas entre os funcionários e pelos depoimentos espontâneos de Tracii, que revela um pouco de sua própria história pessoal e de sua relação com a fé. Esse detalhe acaba criando um contraste interessante, já que muitos dos manifestantes também utilizam argumentos religiosos para justificar seus protestos. Essa tensão entre interpretações diferentes da religião é um dos elementos mais curiosos do curta, e talvez seja o aspecto mais humano da obra.

Visualmente, o documentário segue uma estética bem típica do cinema documental contemporâneo. A câmera está quase sempre próxima dos personagens, muitas vezes em planos fechados, acompanhando movimentos pelos corredores ou observando discretamente as interações do dia a dia. Não há grandes invenções formais, nem tentativas de transformar a narrativa em algo mais cinematográfico. O objetivo parece ser registrar os acontecimentos com o máximo de naturalidade possível. Essa escolha ajuda a transmitir a sensação de rotina e de desgaste emocional que envolve o trabalho dentro da clínica.

O problema é que, apesar de tratar de um tema extremamente delicado e complexo, o curta acaba ficando um pouco limitado em sua abordagem. A narrativa se concentra tanto no cotidiano da clínica que quase não abre espaço para explorar outras perspectivas ou ampliar a discussão. Tudo fica muito preso ao ponto de vista interno daquele ambiente específico. Isso faz com que o filme funcione mais como um retrato momentâneo de uma situação do que como uma reflexão mais profunda sobre o tema que aborda.

Também existe uma sensação de repetição ao longo dos minutos. A estrutura do filme basicamente acompanha a rotina da segurança e dos funcionários enquanto pacientes chegam, manifestantes gritam do lado de fora e a equipe tenta manter o controle da situação. Embora isso reflita a realidade daquele trabalho, cinematograficamente acaba não criando uma progressão dramática muito forte. O curta começa, desenvolve e termina quase no mesmo tom emocional.

Ainda assim, é preciso reconhecer que O Diabo Não Tem Descanso possui momentos de sinceridade bastante fortes. Quando Tracii fala sobre sua própria história ou quando vemos o cuidado com que os funcionários tentam tranquilizar pacientes nervosas, o filme consegue revelar um lado humano que vai além do debate político. São nesses momentos que o documentário encontra alguma força, justamente quando deixa de lado a ideia de discurso e se concentra nas pessoas que estão ali lidando com aquela realidade.

Outro aspecto interessante é como o curta revela a atmosfera de tensão permanente que envolve esses espaços. Mesmo quando aparentemente nada está acontecendo, existe sempre a sensação de que algo pode dar errado. A presença constante de manifestantes, os procedimentos de segurança e o nervosismo das pacientes criam um ambiente pesado que o filme consegue captar com certa eficiência.

No entanto, apesar de ter um tema relevante e personagens reais que despertam empatia, o resultado final não chega a ser particularmente marcante. O documentário cumpre seu papel de mostrar uma situação específica e de dar voz a quem vive essa realidade diariamente, mas faz isso de maneira relativamente convencional. Falta ao filme um olhar mais amplo ou uma construção narrativa mais envolvente que transforme esse registro em algo verdadeiramente memorável.

No fim das contas, O Diabo Não Tem Descanso acaba sendo um documentário honesto, com boas intenções e alguns momentos humanos interessantes, mas que não vai muito além de um retrato direto de um conflito social já bastante conhecido. É um filme que se assiste com atenção, principalmente pelo tema delicado que aborda, mas que dificilmente permanece na memória depois que os créditos terminam.

A Friend of Dorothy (2025)

 


Título original: A Friend of Dorothy
Direção: Lee Knight
Sinopse: Dorothy é uma viúva solitária cujo corpo está falhando, mas cuja mente permanece tão brilhante quanto sempre. Quando JJ, um rapaz de 17 anos, chuta acidentalmente sua bola de futebol para dentro do jardim dela, ele acaba mudando completamente a rotina diária de Dorothy, feita de remédios, ameixas secas e palavras cruzadas. A partir desse encontro inesperado, nasce uma amizade improvável. Apesar de parecerem viver em mundos totalmente diferentes, os dois acabam descobrindo que têm muito mais em comum do que poderiam imaginar.


O curta-metragem A Friend of Dorothy (2025), dirigido por Lee Knight, é uma dessas pequenas obras que lembram por que o cinema, mesmo em poucos minutos, pode alcançar uma força emocional enorme. Com cerca de vinte minutos de duração, o filme britânico acompanha o encontro improvável entre duas pessoas que, à primeira vista, parecem pertencer a mundos completamente diferentes: uma viúva idosa e solitária e um adolescente ainda tentando entender seu lugar no mundo. O resultado é um relato delicado sobre amizade, solidão e pertencimento, conduzido com uma sensibilidade rara para um curta de estreia.

A história gira em torno de Dorothy, interpretada com enorme humanidade por Miriam Margolyes, uma senhora que vive sozinha e cuja rotina parece resumida a remédios, palavras cruzadas e dias silenciosos dentro de casa. Tudo muda quando o jovem JJ, vivido por Alistair Nwachukwu, chuta acidentalmente uma bola de futebol para dentro do jardim dela. O incidente, que poderia ser apenas um pequeno inconveniente, se transforma no início de uma relação inesperada. Aos poucos, a convivência entre os dois cresce e se fortalece, revelando afinidades que nenhum deles imaginava encontrar.

O grande mérito do filme está na forma como ele desenvolve essa amizade com naturalidade. Em vez de buscar grandes reviravoltas ou conflitos exagerados, o roteiro prefere observar pequenos gestos e momentos cotidianos. Conversas simples, leituras de peças teatrais e tarefas domésticas passam a construir uma intimidade gradual entre os personagens. Essa abordagem dá ao curta um tom muito humano e sincero, evitando sentimentalismos fáceis. A narrativa parece entender que, às vezes, as transformações mais profundas surgem justamente de encontros aparentemente banais.

Nesse processo, o filme também toca em temas importantes, como o isolamento dos idosos e as dificuldades enfrentadas por jovens que ainda não se sentem totalmente aceitos pela sociedade. A história sugere que, apesar da diferença de idade, Dorothy e JJ compartilham algo fundamental: ambos se sentem, de alguma forma, deslocados. Essa identificação silenciosa cria uma ligação que se fortalece a cada cena. A relação entre os dois se torna uma espécie de refúgio emocional, um espaço onde é possível ser sincero sem medo de julgamento.

Grande parte da força do filme vem da atuação de Miriam Margolyes. A atriz, conhecida por trabalhos em produções como Harry Potter e a Câmara Secreta, constrói uma Dorothy cheia de personalidade. Ela alterna humor ácido, fragilidade física e uma inteligência afiada que transforma cada diálogo em algo especial. Margolyes evita qualquer caricatura da velhice. Sua personagem não é apenas uma senhora frágil, mas alguém espirituosa, curiosa e profundamente humana.

Ao lado dela, Alistair Nwachukwu oferece uma interpretação sensível e muito natural. Seu JJ é tímido, às vezes inseguro, mas também cheio de curiosidade e sonhos. O contraste entre os dois atores funciona de forma admirável. As cenas compartilhadas por eles têm uma espontaneidade que faz o espectador acreditar totalmente naquela amizade. É justamente nessa química que o filme encontra seu coração.

Outro nome importante no elenco é Stephen Fry, que aparece em papel secundário, mas acrescenta um charme especial ao conjunto. Sua presença ajuda a ampliar o universo da história sem desviar o foco da relação central entre Dorothy e JJ.

Visualmente, o filme aposta em uma estética simples e acolhedora. A fotografia privilegia ambientes domésticos e tons suaves, criando uma atmosfera intimista que combina com o tom da narrativa. A câmera raramente chama atenção para si mesma. Em vez disso, parece observar os personagens com discrição, como se estivesse respeitando a intimidade daquele vínculo que está nascendo. Esse estilo reforça a sensação de proximidade emocional entre público e personagens.

Outro aspecto que merece destaque é a maneira como o filme usa o teatro e a literatura como ponte entre gerações. Dorothy incentiva JJ a explorar seu interesse pela atuação e pelas artes, lembrando que o mundo cultural pode ser um espaço de liberdade e descoberta pessoal. Essa troca entre os dois não apenas fortalece a amizade, mas também aponta para o papel transformador da arte.

A inspiração para o roteiro veio de uma amizade real vivida pelo próprio Lee Knight com uma vizinha idosa, o que talvez explique a autenticidade emocional que permeia todo o curta. O filme funciona quase como uma homenagem às pessoas que surgem inesperadamente em nossas vidas e acabam mudando nosso caminho.

Todo esse conjunto ajudou a obra a ganhar grande reconhecimento em festivais e até uma indicação ao Oscar de melhor curta-metragem em live action, além de diversos prêmios em eventos dedicados ao formato. Esse tipo de reconhecimento faz sentido, pois o filme demonstra uma maturidade surpreendente para um projeto relativamente pequeno.

Mas talvez o que mais impressione em A Friend of Dorothy seja sua capacidade de emocionar sem recorrer a exageros. O filme entende que a verdadeira força das histórias está nas relações humanas e nas pequenas demonstrações de cuidado. Em pouco mais de vinte minutos, ele constrói personagens memoráveis e uma ligação afetiva que permanece com o espectador muito depois dos créditos finais.

Ao terminar, fica a sensação de ter presenciado algo simples, mas profundamente bonito. É o tipo de curta que nos lembra que amizade, empatia e escuta ainda são capazes de transformar vidas. E quando um filme consegue transmitir isso com tanta delicadeza, ele deixa de ser apenas uma boa história e se torna um pequeno gesto de humanidade.

março 02, 2026

Embaixo da Luz de Neon (2025)

 


Título original: Come See Me in the Good Light
Direção: Ryan White
Sinopse: Em uma história íntima e alegre de amor diante da perda, as poetas Andrea Gibson e Megan Falley encontram força, e hilaridade inesperada, naquele que pode ser o último ano juntas.


No documentário Embaixo da Luz de Neon, dirigido por Ryan White, existe uma intenção clara de construir um retrato íntimo sobre a vida e os últimos anos da poeta norte-americana Andrea Gibson. A obra acompanha Gibson e sua companheira, a escritora Megan Falley, durante o período em que a poeta enfrenta um diagnóstico de câncer considerado incurável. O filme tenta transformar essa experiência dolorosa em uma reflexão sobre amor, mortalidade e arte, costurando cenas do cotidiano do casal com leituras de poemas e momentos de intimidade doméstica.

Na superfície, o projeto parece promissor. A premissa é a de acompanhar um casal de artistas enquanto lidam com a fragilidade da vida e com a proximidade da morte, um terreno que o cinema documental já explorou muitas vezes, mas que ainda pode render obras profundamente humanas. O problema é que o filme de Ryan White acaba preso justamente nessa familiaridade excessiva. Desde os primeiros minutos, fica evidente que o documentário se apoia em um tema batido, daqueles que parecem ter sido reciclados inúmeras vezes no circuito de festivais: a jornada inspiradora de alguém que enfrenta uma doença terminal. Em vez de encontrar um ponto de vista novo ou uma abordagem realmente particular, a narrativa segue uma cartilha previsível que já foi vista em dezenas de produções semelhantes.

White opta por um estilo extremamente íntimo, acompanhando Andrea Gibson em consultas médicas, conversas em casa, leituras de poesia e momentos aparentemente espontâneos da vida cotidiana. A câmera está sempre muito próxima, como se quisesse transmitir a sensação de que o espectador faz parte daquela convivência. Em teoria, essa proximidade deveria gerar empatia e profundidade emocional. Na prática, no entanto, o filme parece repetir indefinidamente as mesmas situações: conversas sobre o estado de saúde, reflexões sobre a vida, pequenos momentos domésticos, leituras de poemas e novas conversas sobre o estado de saúde. O ciclo se repete tantas vezes que, em certo ponto, o espectador passa a sentir que já viu tudo aquilo antes.

Esse problema se torna ainda mais evidente na duração do documentário. Com pouco mais de uma hora e quarenta minutos, o filme parece absurdamente longo para aquilo que realmente tem a dizer. Não se trata de uma história complexa, nem de um retrato que precise de muitas camadas narrativas para se sustentar. Pelo contrário, a sensação é de que o material poderia facilmente ser reduzido a metade do tempo sem perder absolutamente nada. O resultado final transmite a impressão de que o documentário entra em um loop narrativo interminável, revisitando as mesmas ideias e emoções até que elas percam completamente o impacto.

A responsabilidade por isso recai, em grande parte, sobre o trabalho de edição. Em teoria, a montagem deveria organizar os acontecimentos de maneira a criar progressão dramática. Aqui, porém, ela parece simplesmente acumular cenas semelhantes, como se qualquer momento capturado pela câmera fosse automaticamente digno de permanecer no corte final. O filme insiste em mostrar repetidas interações entre Gibson e Falley, momentos de humor ou ternura que inicialmente funcionam, mas que se tornam cada vez mais redundantes conforme se repetem. O resultado é um ritmo arrastado que transforma uma história potencialmente comovente em uma experiência cansativa.

Nem mesmo o uso da poesia de Andrea Gibson consegue salvar a narrativa desse desgaste. Os poemas aparecem ao longo do filme como comentários sobre os acontecimentos, tentando dar uma dimensão artística à história. Em alguns momentos, essa estratégia funciona, especialmente quando os versos dialogam diretamente com a fragilidade da vida e com o medo da morte. Mas o documentário usa esse recurso tantas vezes que ele também acaba se tornando previsível. Cada leitura de poema surge quase como um marcador emocional programado, sinalizando ao público que aquele é o momento de sentir algo profundo.

Isso não significa que o filme seja completamente vazio. Existem instantes genuínos de humanidade, especialmente quando Gibson demonstra humor diante da própria situação ou quando o casal conversa sobre memórias e inseguranças. Esses fragmentos têm uma honestidade que poderia sustentar um retrato muito mais poderoso. O problema é que eles ficam soterrados por uma estrutura narrativa repetitiva e por uma insistência em prolongar a experiência muito além do necessário.

Também chama atenção a maneira como o documentário parece constantemente buscar um tom inspirador, quase edificante, como se estivesse preocupado em transformar cada momento em uma lição sobre a vida. Essa abordagem acaba diluindo a complexidade da situação real. A doença, o medo e a vulnerabilidade aparecem filtrados por uma estética sentimental que transforma o drama em algo excessivamente polido.

No fim das contas, Embaixo da Luz de Neon revela um paradoxo curioso. Trata-se de um filme feito com boas intenções e protagonizado por pessoas claramente carismáticas e autênticas. Mas essas qualidades não são suficientes para sustentar uma obra tão longa e repetitiva. O que poderia ser um retrato sensível sobre amor e mortalidade acaba se transformando em um documentário que gira em círculos, preso a um tema já explorado inúmeras vezes e prejudicado por um trabalho de edição que parece incapaz de enxugar sua própria narrativa.

Talvez a história de Andrea Gibson merecesse um filme mais direto, mais concentrado e menos preocupado em transformar cada instante em uma epifania. Porque, quando a câmera finalmente se afasta de sua insistência em repetir as mesmas situações, fica claro que havia ali uma história simples e humana. Infelizmente, o documentário prefere prolongá-la até que ela se torne exaustiva, como uma conversa que já disse tudo o que tinha a dizer muito antes de terminar.

Mr. Nobody Against Putin (2025)

 


Título original: Mr. Nobody Against Putin
Direção: David Borenstein
Sinopse: Enquanto a invasão russa da Ucrânia em 2022 se inicia em larga escala, escolas primárias nas regiões mais remotas da Rússia são transformadas em palcos de recrutamento para a guerra. Diante do dilema ético de trabalhar em um sistema marcado pela propaganda e pela violência, um professor corajoso decide agir disfarçado e filma secretamente o que realmente está acontecendo dentro de sua própria escola.



O documentário Mr. Nobody Against Putin (2025), dirigido por David Borenstein e pelo próprio professor russo Pavel Talankin, parte de uma premissa extremamente poderosa. A ideia de acompanhar um professor que decide registrar, por dentro, o funcionamento de um sistema educacional transformado em ferramenta de propaganda estatal é, por si só, material de sobra para um grande documentário político. O filme acompanha Talankin, funcionário de uma escola primária na pequena cidade de Karabash, nos montes Urais, que passa a registrar secretamente as mudanças na educação russa após a invasão da Ucrânia em 2022, quando programas de “educação patriótica” começam a transformar o cotidiano escolar em um palco de nacionalismo e militarização.

Talankin não é exatamente um dissidente clássico. Ele é um funcionário escolar comum, um tipo meio brincalhão e querido pelos alunos, alguém que jamais imaginaria estar envolvido em algo que pudesse ser chamado de ativismo político. O que torna sua jornada interessante é justamente essa posição de “ninguém”, alguém que não pretende liderar uma revolução, mas que acaba se vendo moralmente incapaz de ignorar o que está acontecendo ao seu redor. Conforme a guerra avança e o governo russo intensifica a retórica patriótica nas escolas, ele passa a filmar cerimônias, aulas, eventos e discursos que gradualmente transformam o ambiente educacional em algo próximo de um campo de formação ideológica.

O material captado por Talankin ao longo de cerca de dois anos é, sem dúvida, o grande trunfo do filme. Há algo perturbador em observar crianças participando de atividades cada vez mais militarizadas, professores repetindo slogans oficiais e eventos escolares que lembram mais um ritual político do que um ambiente pedagógico. Algumas das cenas mais fortes surgem justamente da banalidade. Não há violência explícita ou confrontos dramáticos. O que vemos é um cotidiano aparentemente normal sendo lentamente tomado por símbolos patrióticos, discursos de guerra e a constante ideia de que o dever cívico é defender o país a qualquer custo. Esse tipo de registro direto tem um valor histórico enorme, pois mostra como a propaganda funciona não apenas em discursos grandiosos, mas nas pequenas rotinas da vida diária.

O problema é que, apesar dessa premissa extraordinária, Mr. Nobody Against Putin raramente consegue transformar seu material em uma narrativa realmente envolvente. O filme parece confiar demais na força da ideia inicial e acaba se acomodando em uma estrutura repetitiva. Muitas cenas seguem o mesmo padrão: eventos escolares filmados por Talankin, comentários em voz over sobre sua frustração e novas situações que reiteram o mesmo ponto sobre a presença da propaganda no sistema educacional.

Essa repetição começa a pesar ao longo da projeção. O documentário tem cerca de noventa minutos, mas em vários momentos dá a sensação de estar girando em torno da mesma observação. A cada nova sequência percebemos novamente que a escola está sendo usada para reforçar valores nacionalistas, mas o filme raramente avança para reflexões mais profundas ou para novos caminhos narrativos. Há momentos em que parece faltar um olhar mais incisivo da direção para organizar o material e encontrar uma progressão dramática mais clara.

Outro elemento que contribui para essa sensação é a própria narração de Talankin. Como ele também é personagem central da história, seu relato em primeira pessoa tenta dar unidade ao filme. Em certos momentos isso funciona bem, principalmente quando ele expressa dúvidas morais ou medo das consequências de seu trabalho. Porém, em outros trechos, a narração acaba apenas reforçando aquilo que já está evidente nas imagens, o que contribui para a sensação de repetição.

Isso não significa que o documentário seja desinteressante. Pelo contrário. O acesso que o protagonista teve ao interior da escola é impressionante e oferece um retrato raro da realidade russa contemporânea. O fato de Talankin ter registrado esse material enquanto ainda vivia no país e corria risco real de punição dá ao filme um peso ético considerável. Não se trata apenas de um registro jornalístico, mas de um gesto de coragem pessoal. Há momentos em que o espectador percebe claramente que aquela câmera pode custar a liberdade de quem está atrás dela.

Também chama atenção a atmosfera melancólica que se instala conforme o filme avança. Talankin demonstra um carinho genuíno pelos alunos e pela própria escola. Ver esse ambiente se transformar gradualmente em um espaço dominado por discursos de guerra cria um sentimento de perda silenciosa. O que antes era apenas um lugar comum da infância passa a carregar uma carga ideológica pesada, e o documentário consegue capturar essa mudança de forma bastante clara.

Mesmo assim, fica a impressão de que Mr. Nobody Against Putin tinha potencial para ser muito mais impactante. A premissa é excelente, o acesso ao material é raro e a história pessoal do protagonista é forte. Mas o resultado final nunca alcança totalmente a força dramática que essas peças prometiam. O filme informa, documenta e denuncia, mas raramente empolga ou surpreende.

No fim das contas, a obra funciona mais como um testemunho importante do que como um grande documentário cinematográfico. É um registro valioso de um momento histórico e da coragem de um funcionário escolar comum que decidiu olhar para a realidade com honestidade. Só que, cinematograficamente falando, a experiência acaba sendo mais interessante em teoria do que na prática. Uma ideia poderosa que, infelizmente, se repete mais do que evolui.

março 01, 2026

Armado com uma Câmera: Vida e Morte de Brent Renaud (2025)

 


Título original: Armed Only with a Camera: The Life and Death of Brent Renaud
Direção: Brent Renaud, Craig Renaud
Sinopse: Um retrato íntimo do documentarista Brent Renaud, o primeiro jornalista americano morto enquanto cobria a Guerra entre Rússia e Ucrânia.


O curta-metragem Armado com uma Câmera: Vida e Morte de Brent Renaud (2025), dirigido pelos irmãos Brent Renaud e Craig Renaud, é uma daquelas obras que lembram ao espectador que o cinema documental, quando feito com honestidade e urgência, pode ser tão poderoso quanto qualquer grande ficção. Com pouco mais de meia hora de duração, o filme se constrói como uma homenagem e, ao mesmo tempo, como um registro dolorosamente concreto da vida e da morte de um jornalista que passou décadas tentando mostrar ao mundo aquilo que muitos preferem não ver. O resultado é um curta profundamente impactante, emocional e, em vários momentos, difícil de assistir.

A obra acompanha a trajetória de Brent Renaud, cineasta e fotojornalista americano que dedicou sua carreira a documentar conflitos, crises humanitárias e histórias de pessoas comuns presas no meio da violência. Ao lado do irmão Craig, ele percorreu diversos cenários perigosos ao longo de anos de trabalho: zonas de guerra no Iraque, o terremoto devastador no Haiti em 2010, conflitos na Somália e rotas migratórias da América Central rumo aos Estados Unidos. Essa jornada culmina tragicamente em 2022, quando Brent foi morto enquanto documentava a evacuação de civis durante a invasão russa da Ucrânia, tornando-se o primeiro jornalista estrangeiro morto naquele conflito.

O curta utiliza uma estrutura que mistura material de arquivo, registros feitos ao longo da carreira de Brent e momentos posteriores à sua morte. Há algo de profundamente íntimo na forma como essas imagens são montadas. Em vez de transformar o jornalista em um mito distante, o filme mostra um homem que acreditava sinceramente na importância de testemunhar o sofrimento humano. O olhar da câmera de Brent raramente se posiciona acima das pessoas que filma. Ele está sempre ao lado delas, muitas vezes literalmente dentro da situação, registrando o medo, o desespero e a resistência de quem vive em territórios devastados pela guerra.

Um dos aspectos mais marcantes do curta é justamente sua honestidade visual. As imagens são, por vezes, extremamente gráficas. Há feridos, caos, corpos e o peso brutal da guerra. No entanto, nada parece gratuito ou exploratório. Pelo contrário, o filme deixa claro que esconder essa realidade seria uma forma de falsificar a própria história. O que precisa ser mostrado não é escondido do espectador. A violência aparece como consequência direta das guerras que Brent se propôs a documentar, não como espetáculo. Essa escolha dá ao curta uma força rara. Não há romantização da guerra, apenas a exposição crua de suas consequências.

Também impressiona a dimensão emocional do filme. Depois da morte de Brent, Craig Renaud assume a difícil tarefa de organizar o material, recuperar as últimas gravações e reconstruir a trajetória do irmão. Essa perspectiva pessoal transforma o curta em algo mais do que um documentário sobre jornalismo de guerra. É também um retrato de luto. Há momentos em que o filme parece quase uma conversa silenciosa entre dois irmãos que passaram a vida contando histórias juntos.

Mesmo sendo uma produção curta, a montagem consegue criar uma sensação de amplitude. Em cerca de 37 minutos, o filme atravessa décadas de trabalho e múltiplos cenários internacionais, mostrando como Brent via o mundo e por que escolheu estar sempre onde a maioria das pessoas tentaria fugir. O ritmo é direto, sem excessos formais ou tentativas de embelezar a narrativa. Isso faz com que o impacto emocional venha muito mais das imagens e das histórias do que de qualquer artifício de estilo.

Talvez o aspecto mais poderoso de Armado com uma Câmera: Vida e Morte de Brent Renaud seja a pergunta silenciosa que ele deixa no ar: qual é o papel do jornalista em tempos de guerra? Brent parecia acreditar que mostrar a realidade, mesmo quando ela é insuportável, é uma forma de dar voz às vítimas invisíveis dos conflitos. O filme deixa claro que sua câmera era mais do que uma ferramenta profissional. Era uma forma de testemunhar o mundo.

Ao final, o curta funciona como um memorial, mas também como um lembrete incômodo. A guerra continua existindo, e alguém precisa registrá-la. Brent Renaud fez isso até o último momento de sua vida. E depois de assistir a esse documentário, fica difícil olhar para uma câmera da mesma maneira novamente.