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março 21, 2026

Frankie e os Monstros (2025)

 


Título original: Stitch Head
Direção: Steve Hudson
Sinopse: Em seu laboratório no castelo, um professor dá vida (ou quase isso) a suas monstruosas criações, apenas para logo esquecê-las. Stitch Head, sua primeira criação, obedece a todas as ordens do mestre, mas nunca recebe reconhecimento ou carinho. Tudo muda quando um Show de Horrores chega à cidade. O dono do espetáculo visita o castelo em busca de Stitch Head, prometendo-lhe tudo o que ele sempre sonhou: fama, fortuna e amor.


Frankie e os Monstros, dirigido por Steve Hudson, parte de uma premissa que, no papel, parece quase irresistível: uma fábula gótica infantil sobre criaturas rejeitadas, solidão e pertencimento, tudo embalado por um visual que remete ao imaginário clássico de monstros à la Frankenstein. Baseado na obra de Guy Bass, o filme tenta transformar esse universo em uma aventura acessível para toda a família, mas o que chega à tela é uma experiência estranhamente vazia, que nunca consegue justificar sua própria existência.

A história acompanha Stitch Head, uma criatura esquecida criada por um cientista excêntrico em um castelo isolado, que passa seus dias cuidando de outros monstros enquanto sonha com algum tipo de reconhecimento. Quando um circo de aberrações chega à cidade, surge a promessa de que ele finalmente poderá ser visto e admirado, o que o leva a sair de seu isolamento e enfrentar o mundo exterior. É uma ideia que mistura inocência e melancolia, com potencial para algo tocante, mas o roteiro se contenta em desenvolver tudo da forma mais superficial possível, como se tivesse medo de aprofundar qualquer sentimento.

O grande problema do filme está justamente aí. Ele parece sempre à beira de dizer algo, mas nunca diz. A jornada de autodescoberta de Stitch Head é apressada, seus conflitos são resolvidos com uma facilidade irritante, e a relação com os outros personagens não passa de esboços de algo que poderia ser genuinamente emocionante. Há uma tentativa clara de trabalhar temas como aceitação e identidade, mas tudo é tratado de maneira tão simplificada que perde qualquer impacto real.

Visualmente, Frankie e os Monstros até encontra alguns momentos interessantes. O castelo tortuoso, com seus corredores escuros e torres inclinadas, cria uma atmosfera que remete a um gótico cartunesco simpático, quase como uma versão diluída de O Estranho Mundo de Jack. Os designs dos monstros também têm certo charme, especialmente nas primeiras cenas, quando ainda existe um frescor na apresentação daquele universo. Mas esse encanto inicial rapidamente se desgasta, porque o filme não sabe o que fazer com o próprio cenário. Tudo vira pano de fundo para uma narrativa genérica, sem qualquer senso de progressão ou descoberta.

A dublagem original, liderada por Asa Butterfield, tenta dar alguma vida ao protagonista, trazendo uma doçura contida que combina com o personagem. Há momentos em que essa interpretação sugere um filme melhor escondido ali dentro, um que talvez existisse em outra versão do roteiro. Mas mesmo isso acaba limitado por diálogos pouco inspirados e por uma direção que parece constantemente frear qualquer emoção mais sincera.

O humor, que deveria ser um dos pilares de uma animação voltada ao público infantil, raramente funciona. As piadas são previsíveis, repetitivas e, em muitos casos, simplesmente sem graça. Existe uma insistência em gags físicas e situações caóticas que nunca atingem o timing necessário para realmente provocar riso. É como se o filme estivesse sempre atrasado em relação a si mesmo, chegando às próprias ideias quando elas já perderam o efeito.

Outro ponto que pesa contra a obra é o ritmo. Embora tenha pouco mais de uma hora e meia, a sensação é de um filme arrastado, que demora a engrenar e, quando finalmente parece encontrar alguma direção, já está perto do fim. As transições são bruscas, os acontecimentos surgem sem preparação e desaparecem sem consequência. Essa falta de coesão transforma a experiência em algo cansativo, mesmo para um público menos exigente.

E talvez o mais frustrante seja perceber que havia ali um potencial genuíno. A ideia de um monstro esquecido que cuida de outros rejeitados, escondido em um castelo enquanto teme o julgamento do mundo exterior, tem força suficiente para render uma história sensível e memorável. Mas Frankie e os Monstros escolhe o caminho mais fácil em absolutamente tudo. Não arrisca, não se aprofunda, não desafia o espectador em nenhum momento.

No fim das contas, o filme funciona como uma colagem de referências e intenções que nunca se concretizam de verdade. Ele até diverte em pequenos momentos isolados, especialmente para crianças muito pequenas, mas não deixa qualquer marca duradoura. Falta alma, falta identidade, falta coragem de ser mais do que apenas um produto genérico embalado em estética gótica.

Frankie e os Monstros não chega a ser ofensivo, mas é exatamente esse o problema. Ele passa pela tela sem causar incômodo, sem provocar emoção e, principalmente, sem justificar por que foi feito. É o tipo de animação que parece existir apenas para preencher espaço, como um brinquedo esquecido no fundo de uma caixa, esperando por atenção que nunca vem.

Ben-Hur (1925)

 


Título original: Ben-Hur: A Tale of the Christ
Direção: Fred Niblo
Sinopse: Os amigos de infância Judah Ben-Hur e Messala encontram-se novamente quando adultos. Messala é um oficial romano e Ben-Hur é um judeu conquistado. Um mal-entendido durante um desfile romano faz com que Ben-Hur seja escravizado pelo agora ex-amigo e veja sua família humilhada. Este é apenas o começo da épica jornada de Ben-Hur em busca da vingança.


Falar de Ben-Hur (1925) é, antes de tudo, falar de um momento em que o cinema ainda estava descobrindo até onde podia ir. Dirigido por Fred Niblo, o filme nasce como um projeto gigantesco para a época, quase um ato de ousadia industrial, e ao mesmo tempo como uma tentativa sincera de contar uma história de fé, vingança e redenção. O resultado é curioso, porque oscila constantemente entre o deslumbramento técnico e uma certa dificuldade narrativa que impede a obra de atingir uma força emocional mais consistente.

A história acompanha Judah Ben-Hur, interpretado por Ramon Novarro, um príncipe judeu traído pelo amigo de infância Messala, vivido por Francis X. Bushman. A partir daí, o filme percorre um caminho clássico de queda e ascensão, misturando drama pessoal com pano de fundo histórico e religioso. É uma narrativa de grandes ideias, mas que, em muitos momentos, parece mais preocupada em mostrar sua grandiosidade do que em fazer o espectador sentir o peso emocional de cada acontecimento.

E essa grandiosidade é, sem dúvida, o grande trunfo e também o grande problema do filme. Com um orçamento que beirava os 4 milhões de dólares, algo absurdo para os anos 1920, a produção se tornou a mais cara do cinema mudo . Isso está visível em cada cena. Multidões, cenários imensos, batalhas marítimas e uma recriação monumental do mundo antigo fazem com que o filme impressione ainda hoje. Não é difícil entender por que ele ajudou a consolidar a Metro-Goldwyn-Mayer como uma potência de Hollywood.

Mas o que mais chama atenção, inevitavelmente, é a famosa corrida de bigas. É o tipo de sequência que parece ter sido feita para atravessar o tempo. Filmada com dezenas de câmeras e envolvendo uma quantidade absurda de material bruto, ela foi reduzida a poucos minutos que condensam tensão, ritmo e espetáculo de forma impressionante . Mesmo hoje, há uma fisicalidade ali que muitos filmes modernos não conseguem replicar. Não é apenas grandiosa, é visceral.

Só que fora desses momentos de impacto, o filme sofre com o próprio formato. Como todo épico mudo, depende de intertítulos e expressões exageradas para transmitir emoção, e nem sempre isso funciona. Ramon Novarro tem presença e carisma, mas seu Ben-Hur às vezes parece distante, como se estivesse sempre a um passo de realmente se conectar com o público. Já Francis X. Bushman consegue imprimir uma rivalidade mais clara, embora também limitado pelas convenções da época.

Existe ainda um elemento religioso que atravessa o filme inteiro, com a presença indireta de Jesus Cristo influenciando a trajetória do protagonista. Essas passagens têm uma intenção espiritual interessante, e até ousada para a época, especialmente pelo uso de cores em algumas cenas específicas, algo ainda experimental naquele momento . No entanto, elas quebram o ritmo da narrativa e reforçam a sensação de que o filme está dividido entre dois objetivos: ser um espetáculo histórico e uma parábola religiosa.

Talvez o maior ponto de conflito esteja justamente aí. Ben-Hur quer ser tudo ao mesmo tempo. Quer emocionar, impressionar, ensinar, deslumbrar. E consegue, em partes. Há momentos em que o filme realmente alcança algo próximo do sublime, especialmente nas sequências de ação e nas composições visuais mais ambiciosas. Mas há outros em que ele se arrasta, preso a uma narrativa que parece inchada, como se o peso da produção tivesse engolido a leveza da história.

Ainda assim, é impossível ignorar sua importância. Não apenas como marco técnico, mas como símbolo de uma época em que o cinema ainda estava inventando suas próprias regras. Muitos dos caminhos que seriam explorados décadas depois já estão aqui, ainda em estado bruto, ainda imperfeitos.

Assistir a esse Ben-Hur hoje é uma experiência curiosa. Não é exatamente envolvente o tempo todo, nem emocionalmente devastador como poderia ser. Mas é fascinante. É como observar um gigante em formação, cheio de força, mas ainda aprendendo a se equilibrar. No fim das contas, é um filme que impressiona mais pela ambição do que pela execução, mais pelo que representa do que pelo que entrega plenamente. E talvez seja justamente isso que o mantém vivo até hoje.

março 20, 2026

As Loucuras (2025)

 


Título original: Las Locuras
Direção: Rodrigo García
Sinopse: Seis mulheres unidas por uma "amiga" em comum: a loucura. E receber a visita dela significa escancarar a realidade, tomar decisões ousadas e ter a vida transformada.


As Loucuras (2025), dirigido por Rodrigo García, é daqueles filmes que parecem simples à primeira vista, mas vão se abrindo aos poucos, quase como uma conversa íntima que começa tímida e termina expondo feridas profundas. Não é um filme que grita, não é um filme que tenta te convencer à força. Ele te puxa devagar, com calma, até que você percebe que já está completamente envolvido naquele universo emocional fragmentado.

A proposta narrativa é curiosa. O longa se constrói como um mosaico de histórias, acompanhando diferentes mulheres em momentos de ruptura, todas atravessadas por pressões sociais, familiares e internas que vão se acumulando até transbordar . Existe uma sensação constante de limite, como se cada personagem estivesse prestes a cruzar uma linha invisível entre o controle e o colapso. E o mais interessante é que o filme nunca trata isso de forma caricata ou exagerada. Pelo contrário, há uma naturalidade desconcertante em como essas “loucuras” se manifestam.

O roteiro do próprio García evita amarrar tudo de maneira convencional. Não há uma estrutura clássica com começo, meio e fim bem definidos para cada arco. Em vez disso, as histórias se conectam mais por sentimento do que por narrativa direta. Essa escolha poderia facilmente resultar em algo confuso, mas aqui funciona porque o filme entende que o elo entre essas mulheres não é um evento específico, mas sim uma experiência compartilhada de sufocamento emocional. É como se todas estivessem vivendo versões diferentes da mesma crise.

O desempenho do elenco é, sem exagero, o coração do filme. Cassandra Ciangherotti, especialmente, carrega uma intensidade impressionante na pele de Renata, uma personagem que já começa a história em um estado de fragilidade evidente, em prisão domiciliar após um colapso mental . Há algo nos seus silêncios que diz mais do que qualquer diálogo. Naian González Norvind e Adriana Barraza também entregam performances muito humanas, sem qualquer traço de artificialidade, como se estivéssemos assistindo pedaços reais de vida sendo capturados pela câmera.

E talvez seja justamente aí que o filme mais acerta. Ele não tenta explicar demais. Não há diagnósticos fáceis, não há moral da história mastigada. O que existe é uma observação sensível dessas personagens lidando com expectativas que vêm de todos os lados. Família, sociedade, relações afetivas, autocobrança. Tudo pesa. Tudo acumula. E em algum momento, inevitavelmente, explode.

Visualmente, o filme acompanha essa proposta com uma abordagem discreta, mas muito eficiente. A câmera parece sempre próxima demais, quase invasiva, como se estivesse tentando captar algo que as personagens não conseguem expressar em palavras. Não há grandes exibicionismos estéticos. A fotografia prefere tons mais neutros, ambientes cotidianos, reforçando a ideia de que essas histórias poderiam estar acontecendo em qualquer lugar, com qualquer pessoa. E isso torna tudo ainda mais incômodo, porque aproxima demais da realidade.

Outro ponto interessante é como o tempo é tratado. A narrativa se passa em um único dia, mas a sensação é de que estamos vendo anos de desgaste emocional condensados em poucas horas . Essa compressão do tempo dá ao filme uma urgência silenciosa. Nada parece apressado, mas tudo parece prestes a desmoronar.

O texto também flerta com uma crítica sutil à forma como a sociedade encara a saúde mental, especialmente quando se trata de mulheres. Existe uma linha tênue entre o que é considerado comportamento aceitável e o que é rapidamente rotulado como “loucura”. O filme não oferece respostas, mas levanta perguntas incômodas, daquelas que ficam ecoando depois que os créditos sobem.

Se há alguma fragilidade, talvez esteja justamente na natureza fragmentada da obra. Nem todas as histórias têm o mesmo impacto, e algumas parecem mais desenvolvidas do que outras. Em certos momentos, dá vontade de permanecer mais tempo com determinadas personagens, de explorar melhor suas trajetórias. Mas, curiosamente, essa sensação de incompletude também dialoga com o próprio tema do filme. Afinal, vidas reais raramente têm resoluções perfeitas.

No fim das contas, As Loucuras é um filme que encontra sua força naquilo que não diz, nos espaços vazios, nos silêncios, nos olhares perdidos. É uma obra que exige paciência, mas recompensa com uma experiência emocional honesta e, em muitos momentos, desconfortavelmente familiar. Não é um filme para todos, nem tenta ser. Mas para quem se permite entrar nesse fluxo fragmentado de sentimentos, ele revela algo raro: a beleza caótica de pessoas tentando, à sua maneira, não desmoronar completamente.

Terror em Shelby Oaks (2025)

 


Título original: Shelby Oaks
Direção: Chris Stuckmann
Sinopse: Acompanhe a busca desesperada de Mia por sua irmã desaparecida, Riley, uma youtuber famosa por investigar o paranormal. A obsessão de Mia recomeça quando ela recebe uma fita misteriosa com indícios de que Riley ainda pode estar viva. A partir daí, ela mergulha em uma espiral de horror de um mal desconhecido, repleta de revelações perturbadoras e uma atmosfera sufocante.


Há algo quase inevitável em Terror em Shelby Oaks (2025), de Chris Stuckmann. Não falo da trama sobre uma mulher que investiga o desaparecimento da irmã em uma cidade abandonada envolta por mistérios sobrenaturais, mas da sensação de que tudo ali já nasceu gasto. A ideia central até carrega um potencial curioso, com ecos de investigações paranormais, vídeos antigos e traumas familiares atravessando o tempo, mas o que se vê na tela é um projeto que parece permanentemente preso ao rascunho, incapaz de se tornar um filme de verdade.

A história acompanha Mia, interpretada por Camille Sullivan, que tenta entender o sumiço da irmã Riley, ligada a um grupo de investigação paranormal. A narrativa mistura found footage com investigação contemporânea, criando uma estrutura fragmentada que, em teoria, poderia gerar tensão. Na prática, no entanto, o filme se perde em um emaranhado de ideias recicladas. Há cidades abandonadas, fitas antigas, símbolos demoníacos e sombras que espreitam corredores, mas nada disso se organiza de forma minimamente envolvente. Tudo parece montado como uma colagem de referências que nunca se transformam em linguagem própria.

É impossível ignorar como o filme bebe diretamente de fontes como A Bruxa de Blair e O Chamado, mas sem entender o que tornava essas obras eficazes. Em vez de construir atmosfera, Terror em Shelby Oaks se limita a imitar superfícies. O medo nunca se instala de fato, porque não há ritmo, não há construção, não há paciência. As cenas surgem e desaparecem como se estivessem apenas cumprindo uma lista de obrigações do gênero.

O problema se agrava na condução narrativa. A montagem, que deveria ser a espinha dorsal de um filme com múltiplas linhas temporais e materiais distintos, soa desordenada e sem propósito. Há momentos em que o filme parece esquecer o que estava tentando contar minutos antes. A progressão dramática é inexistente, substituída por uma repetição cansativa de pistas que não levam a lugar algum. O resultado é um filme que, mesmo com pouco mais de uma hora e meia, se arrasta como se tivesse o dobro da duração.

O elenco, que inclui nomes como Brendan Sexton III e Keith David, parece à deriva dentro desse caos. Não se trata de falta de talento, mas de ausência total de direção consistente. As atuações variam entre o exagero e a apatia, como se cada ator estivesse em um filme diferente. Camille Sullivan até tenta sustentar alguma carga emocional, mas o roteiro não oferece base para isso. Sua personagem é definida por uma obsessão que nunca ganha profundidade, tornando difícil qualquer conexão real com o público.

Visualmente, há momentos que sugerem uma intenção estética mais sombria, especialmente nas sequências envolvendo a cidade abandonada. Mas até isso é desperdiçado. A fotografia raramente contribui para o clima, e os enquadramentos parecem genéricos, como se estivessem ali apenas para registrar a ação, não para criar significado. O mesmo vale para a trilha sonora, que surge de forma mecânica, tentando induzir tensão onde não existe construção prévia.

Talvez o aspecto mais frustrante de Terror em Shelby Oaks seja perceber que existe uma ambição clara por trás dele. O projeto nasceu de financiamento coletivo e chegou a se destacar como um dos mais financiados do gênero, o que demonstra o interesse inicial do público. Há também o envolvimento de Mike Flanagan como produtor executivo, o que poderia indicar algum direcionamento mais sólido. Mas nada disso se traduz em resultado. A ambição existe, mas não encontra forma, não encontra voz, não encontra cinema.

O filme tenta ser muitas coisas ao mesmo tempo. Um falso documentário, um horror psicológico, um drama familiar, uma investigação sobrenatural. No fim, não consegue ser nenhuma delas. Falta identidade, falta foco, falta entendimento básico de como construir tensão ou desenvolver personagens. Em vez disso, sobra uma sensação constante de improviso mal resolvido, como se cada elemento tivesse sido inserido sem reflexão.

A recepção dividida da crítica talvez até seja generosa diante do que o filme apresenta. Há quem enxergue potencial ou valor na tentativa, mas o que chega ao espectador é um produto desarticulado, derivativo e, acima de tudo, vazio.

No fim, Terror em Shelby Oaks não é apenas um filme ruim. É um filme que revela, a cada cena, a distância entre gostar de cinema e saber fazê-lo. E talvez seja justamente essa distância, escancarada sem pudor, que transforma a experiência em algo não só frustrante, mas quase constrangedor.

março 19, 2026

O Encouraçado Potemkin (1925)

 


Título original: Броненосец Потёмкин
Direção: Sergei Eisenstein
Sinopse: Em 1905, na Rússia czarista, aconteceu um levante que pressagiou a Revolução de 1917. Tudo começou no navio de guerra Potemkin quando os marinheiros estavam cansados de serem maltratados, sendo que até carne estragada lhes era dada com o médico de bordo insistindo que ela era perfeitamente comestível. Alguns marinheiros se recusam em comer esta carne, então os oficiais do navio ordenam a execução deles. A tensão aumenta e, gradativamente, a situação sai cada vez mais do controle. Logo depois dos gatilhos serem apertados Vakulinchuk (Aleksandr Antonov), um marinheiro, grita para os soldados e pede para eles pensarem e decidirem se estão com os oficiais ou com os marinheiros. Os soldados hesitam e então abaixam suas armas. Louco de ódio, um oficial tenta agarrar um dos rifles e provoca uma revolta no navio, na qual o marinheiro é morto. Mas isto seria apenas o início de uma grande tragédia.


Falar de O Encouraçado Potemkin é, de certa forma, falar do próprio nascimento do cinema como linguagem. Dirigido por Sergei Eisenstein em 1925, o filme não apenas dramatiza a revolta de marinheiros contra seus superiores em 1905, como também redefine a maneira como imagens podem se organizar para provocar emoção, choque e reflexão. É curioso perceber que, mesmo com mais de um século nas costas, a obra ainda pulsa com uma energia que muitos filmes modernos sequer conseguem alcançar.

A narrativa é simples, quase direta ao ponto. Um grupo de marinheiros, cansado das condições desumanas a bordo, se recusa a comer carne podre infestada de vermes, o que desencadeia um motim. A partir daí, o filme se expande para além do navio e alcança a cidade de Odessa, onde a população se solidariza com os rebeldes, culminando em uma repressão brutal. Essa estrutura em episódios, dividida em cinco partes, dá ao filme uma sensação de progressão inevitável, como se cada ato fosse um passo a mais rumo a uma explosão histórica.

Mas o que realmente diferencia O Encouraçado Potemkin de qualquer outro filme de sua época não é a história em si, e sim como ela é contada. Eisenstein não está interessado apenas em mostrar acontecimentos, ele quer provocar sensações. A montagem aqui não é invisível, pelo contrário, ela é agressiva, quase física. Os cortes não servem apenas para dar continuidade, mas para criar impacto, para fazer com que o espectador sinta o peso de cada situação.

Isso fica evidente na famosa sequência da escadaria de Odessa, talvez uma das cenas mais icônicas da história do cinema. Soldados descem as escadas em formação rígida, atirando contra civis indefesos, enquanto o pânico se espalha em imagens fragmentadas. Uma mulher é atingida, um menino cai, um carrinho de bebê despenca degraus abaixo. Não é só a violência que impressiona, mas a maneira como ela é construída. Cada corte intensifica o anterior, criando um ritmo que transforma o horror em algo quase hipnótico.

O mais interessante é que Eisenstein não foca em um protagonista tradicional. Não há um herói claro, alguém que conduza a narrativa de forma convencional. O verdadeiro protagonista é o coletivo. São os marinheiros, o povo, a massa. Isso reforça o caráter político do filme, que foi concebido como uma obra de propaganda revolucionária, celebrando a luta contra a opressão. Ainda assim, mesmo com esse objetivo ideológico evidente, o filme nunca se reduz a um panfleto vazio. Há uma força estética tão grande que ultrapassa qualquer discurso.

Visualmente, o filme é impressionante. A fotografia em preto e branco, marcada por contrastes fortes, cria imagens que parecem talhadas em pedra. Os rostos são intensos, carregados de emoção, quase esculturas vivas. Não há diálogos falados, mas os intertítulos são suficientes para guiar a narrativa, enquanto as expressões e os gestos dizem tudo o que precisa ser dito. É um cinema que confia na imagem, e essa confiança faz toda a diferença.

Ao mesmo tempo, é impossível ignorar que o filme também carrega suas limitações. Em alguns momentos, o excesso de intenção ideológica torna certas situações previsíveis. Há uma clara divisão entre opressores e oprimidos, sem espaço para ambiguidades. Isso pode afastar quem busca uma narrativa mais complexa ou menos direcionada. Ainda assim, esse aspecto faz parte da proposta do filme, e criticá-lo por isso é, de certa forma, ignorar o contexto em que foi criado.

O impacto de O Encouraçado Potemkin no cinema é gigantesco. A famosa sequência da escadaria foi recriada, homenageada e referenciada inúmeras vezes ao longo das décadas. Mais do que isso, a ideia de que a montagem pode gerar significado por si só mudou completamente a forma como os filmes passaram a ser pensados. Não é exagero dizer que muito do cinema que existe hoje deve algo a esse filme.

Assistir a O Encouraçado Potemkin hoje é uma experiência curiosa. Por um lado, ele pode parecer distante, tanto pela estética quanto pelo ritmo. Por outro, há momentos em que ele se mostra incrivelmente moderno, quase como se tivesse sido feito ontem. Essa dualidade é parte do seu charme. Ele é, ao mesmo tempo, um documento histórico e uma obra viva.

No fim das contas, o filme de Eisenstein não é perfeito, mas talvez nem precise ser. Sua importância é tão grande, seu impacto tão duradouro, que pequenas falhas se tornam quase irrelevantes diante do todo. É um daqueles raros casos em que a experiência vai além do entretenimento e se transforma em algo mais amplo, quase uma aula sobre o que o cinema pode ser. E mesmo depois de tantos anos, a sensação que fica é a de ter visto algo fundamental, como se cada corte ainda ecoasse na forma como enxergamos imagens até hoje.

Parque das Almas (2022)

 


Título original: Lélekpark
Direção: Illés Horváth, Róbert Odegnál
Sinopse: Uma jovem detetive e um policial prestes a se aposentar precisarão confrontar seus traumas do passado para desvendar o misterioso caso de um homem que acordou dentro de um zoológico, sem roupas, ao lado de crocodilos.


Há algo de curioso em Parque das Almas (no original Lélekpark): a premissa, por si só, já carrega um potencial quase irresistível. Um homem acorda nu entre crocodilos em um zoológico, sem memória dos últimos anos, enquanto uma jovem detetive e um policial veterano mergulham em um caso que parece apontar para um culto misterioso. É o tipo de ponto de partida que poderia render um thriller psicológico inquietante, daqueles que exploram a fragilidade da mente e o peso do passado. Mas o filme dirigido por Illés Horváth e Róbert Odegnál parece incapaz de sustentar a própria ideia que propõe, como se tivesse medo de ir fundo demais no que ele mesmo sugere.

A narrativa se arrasta em uma estrutura que mistura investigação policial com elementos místicos, mas nunca encontra um equilíbrio convincente entre esses dois polos. O roteiro parece constantemente hesitar, como se não soubesse se quer ser um suspense procedural ou uma reflexão filosófica sobre consciência e sofrimento, conceito que o próprio filme menciona de forma superficial. Esse conflito interno não gera complexidade, mas sim dispersão. O espectador percebe rapidamente que há algo desalinhado, como se cada cena puxasse para uma direção diferente sem jamais construir um caminho sólido.

O problema se agrava porque o filme insiste em criar uma atmosfera de mistério sem oferecer ferramentas reais para que esse mistério se torne envolvente. Em vez de tensão, o que se sente é uma espécie de vazio dramático. As revelações não impactam, os enigmas não instigam e os personagens parecem caminhar em círculos, repetindo emoções sem evolução. A ideia do culto, que poderia ser o coração perturbador da história, surge mais como um recurso genérico do que como algo realmente desenvolvido. Falta densidade, falta construção, falta risco.

No centro disso tudo estão as performances, especialmente de László Attila Horváth e Viktória Staub, que até tentam dar algum peso emocional à narrativa. Há momentos em que se percebe esforço, principalmente na tentativa de transmitir traumas e conflitos internos, mas o texto nunca colabora. Os personagens são escritos de forma rasa, presos a arquétipos que não evoluem. O policial cansado e a jovem determinada são figuras conhecidas, mas aqui não ganham nenhuma camada adicional que os torne memoráveis.

Visualmente, o filme até apresenta alguns lampejos interessantes. O cenário do zoológico, por exemplo, tem um potencial simbólico evidente, quase como uma metáfora óbvia para aprisionamento e desorientação. Em alguns momentos, a ambientação contribui para um clima ligeiramente estranho, mas isso nunca se transforma em linguagem cinematográfica consistente. São ideias soltas, imagens que sugerem mais do que realmente constroem. A sensação é de um projeto que tenta parecer maior do que é, mas sem os recursos narrativos ou estéticos para sustentar essa ambição.

Também pesa o fato de que a duração enxuta, cerca de 75 minutos, não é aproveitada com eficiência. Em vez de concisão, o filme parece curto e arrastado ao mesmo tempo, uma combinação difícil de alcançar, mas que aqui se concretiza. Há cenas que se prolongam sem necessidade e outras que passam rápido demais, impedindo qualquer envolvimento real. É como se o ritmo fosse constantemente sabotado por decisões equivocadas de montagem e condução dramática.

Talvez o mais frustrante seja perceber que havia um caminho possível. A ideia de memória fragmentada, aliada a um ambiente estranho e a um culto enigmático, poderia render algo genuinamente perturbador ou ao menos intrigante. Mas Parque das Almas escolhe o caminho mais seguro e, paradoxalmente, o mais vazio. Ele não abraça o absurdo da própria premissa nem mergulha de verdade no psicológico de seus personagens. Fica preso em uma zona morna, onde nada é suficientemente ruim para ser caótico, mas também nada é bom o bastante para ser interessante.

No fim, o filme deixa uma sensação de desperdício. Não pela falta de recursos, já que é claramente uma produção modesta, mas pela falta de direção criativa. É um daqueles casos em que a ideia parece muito mais interessante do que o resultado final. E talvez seja exatamente isso que mais incomoda: a impressão constante de que algo poderia ter sido feito, mas simplesmente não foi.

março 14, 2026

Melhores de 2025

 Foram 115 filmes elegíveis de 2025 com estreia durante o ano nos Estados Unidos ou no seu país de origem. Abaixo segue a lista dos indicados e o vencedor em negrito.


Melhor Documentário
Armado com uma Câmera: Vida e Morte de Brent Renaud
Kaizen
Lumière: A Aventura Continua!
Perfectly a Strangeness
A Vizinha Perfeita


Melhores Efeitos Visuais
Avatar: Fogo e Cinzas
F1: O Filme
Frankenstein
TRON:Ares
Xeno


Melhor Edição de Som
Avatar: Fogo e Cinzas
Extermínio: A Evolução
F1: O Filme
Soberano
TRON: Ares


Melhor Som
F1: O Filme
GOAT
Kaizen
Sirāt
Sonhos de Trem


Melhor Edição
Casa de Dinamite
F1: O Filme
A Vida de Chuck
A Vizinha Perfeita
A Voz de Hind Rajab


Melhor Figurino
O Beijo da Mulher Aranha
Drácula: Uma História de Amor
Frankenstein
Kokuho: O Preço da Perfeição
A Meia-Irmã Feia


Melhor Maquiagem
Drácula: Uma História de Amor
Extermínio: A Evolução
Frankenstein
Kokuho: O Preço da Perfeição
A Longa Marcha: Caminhe ou Morra


Melhor Direção de Arte
Balada de um Jogador
O Beijo da Mulher Aranha
Drácula: Uma História de Amor
Frankenstein
Kokuho: O Preço da Perfeição


Melhor Fotografia
Os Malditos
Perfectly a Strangeness
Sirāt
Sonhos de Trem
TRON: Ares


Melhor Canção (Original ou Versão Para o Filme)
"Clouds Away", November Ultra & Arnaud Toulon (Arco)
"Lose My Mind", Don Toliver feat. Doja Cat (F1: O Filme)
"Golden", Huntrix (Guerreiras do K-Pop)
"Song Sung Blue", Hugh Jackman & Kate Hudson (Song Sung Blue: Um Sonho a Dois)
"Train Dreams", Nick Cave (Sonhos de Trem)


Melhor Trilha Sonora (Coletânea)
Depois da Caçada
F1: O Filme
Song Sung Blue: Um Sonho a Dois
A Única Saída
Viagem de Risco


Melhor Trilha Sonora Original
Arco
F1: O Filme
Frankenstein
Sonhos de Trem
TRON: Ares


Melhor Filme de Animação
Arco
Elio
Forevergreen
A Pequena Amélie
Snoopy Apresenta: Um Musical de Verão


Melhor Roteiro Adaptado
Drácula: Uma História de Amor
Frankenstein
Kokuho: O Preço da Perfeição
Sonhos de Trem
A Única Saída


Melhor Roteiro Original
Foi Apenas um Acidente
Soberano
Twinless: Um Gêmeo a Menos
Two People Exchanging Saliva
A Vida de Chuck


Melhor Atriz Coadjuvante
Ana Sophia Heger, Fuga Fatal
Ayo Edebiri, Depois da Caçada
Saja Kilani, A Voz de Hind Rajab
Son Ye-jin, A Única Saída
Tilda Swinton, Balada de um Jogador


Melhor Ator Coadjuvante
Jacob Elordi, Frankenstein
Jacob Tremblay, Soberano
Jacobi Jupe, Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Sean Penn, Uma Batalha Após a Outra
Sebastian Bull Sarning, Filhos


Melhor Atriz
Julia Roberts, Depois da Caçada
Rose Byrne, Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria
Sidse Babett Knudsen, Filhos
Vanessa Kirby, A Noite Sempre Chega
Zar Amir Ebrahimi, Two People Exchanging Saliva


Melhor Ator
Joel Edgerton, Sonhos de Trem
Lee Byung-hum, A Única Saída
Motaz Malhees, A Voz de Hind Rajab
Nick Offerman, Soberano
Taron Egerton, Fuga Fatal


Melhor Elenco
O Agente Secreto
Foi Apenas um Acidente
Sirāt
A Única Saída
A Voz de Hind Rajab


Melhor Filme Brasileiro
O Agente Secreto
A Melhor Mãe do Mundo
Oficina do Diabo
O Papa Que Venceu o Comunismo
Resistentes


Melhor Filme em Língua Não-Inglesa ou Não Brasileiro
Filhos
Lumière: A Aventura Continua!
Perfectly a Strangeness
A Única Saída
A Voz de Hind Rajab


Melhor Direção
Kathryn Bigelow, Casa de Dinamite
Jafar Panahi, Foi Apenas um Acidente
Clint Bentley, Sonhos de Trem
Park Chan-wook, A Única Saída
Kaouther Bem Hania, A Voz de Hind Rajab


Pior Filme
Faça Ela Voltar
Mickey 17
Pecadores
Prédio Vazio
Segredos


Melhor Filme
Arco
Eddington
Filhos
Lumière: A Aventura Continua!
Pretty Thing
Sonhos de Trem
Twinless: Um Gêmeo a Menos
A Única Saída
A Vizinha Perfeita
A Voz de Hind Rajab