Steve (2025), dirigido por Tim Mielants, parte de uma premissa que, à primeira vista, parece carregada de potencial humano e dramático. A história acompanha um único dia na vida de Steve, diretor de uma escola de reabilitação para jovens com problemas comportamentais, enquanto tenta manter a instituição funcionando ao mesmo tempo em que sua própria saúde mental se deteriora . É aquele tipo de narrativa que, no papel, promete intensidade emocional, conflito interno e uma observação crua sobre fragilidade humana. Mas o que se vê na tela é um filme que parece constantemente à beira de dizer algo importante e nunca consegue.
Tim Mielants, que já demonstrou sensibilidade em outros trabalhos, aqui opta por uma abordagem contida, quase minimalista. O problema não está exatamente na escolha estética, mas na forma como ela é conduzida. A narrativa se arrasta sem criar envolvimento real. A ideia de acompanhar apenas 24 horas na vida desse personagem poderia gerar urgência, tensão e até claustrofobia emocional, mas o ritmo acaba sendo irregular, alternando momentos de aparente intensidade com longos trechos que soam vazios. Não é um silêncio significativo, é um silêncio oco.
Cillian Murphy, no papel principal, é provavelmente o único elemento que ainda mantém o filme de pé por algum tempo. Ele interpreta Steve com aquele ar de cansaço constante, um homem esmagado pela responsabilidade e pela sensação de fracasso. É um tipo de atuação que ele domina bem, e aqui não é diferente. Ainda assim, há uma sensação incômoda de repetição. Murphy parece preso a um registro emocional único, como se estivesse sempre a meio caminho entre o colapso e a apatia. Em certos momentos, isso funciona. Em outros, dá a impressão de que o personagem nunca evolui, apenas gira em torno do mesmo estado emocional.
O filme também tenta dividir sua atenção com o jovem Shy, interpretado por Jay Lycurgo, um dos internos da instituição que carrega traumas e impulsos autodestrutivos . A intenção de criar um paralelo entre o adulto em colapso e o adolescente à deriva é interessante, mas a execução é superficial. Falta profundidade na construção desse garoto, que acaba reduzido a um conjunto de comportamentos previsíveis. Em vez de um retrato complexo da juventude marginalizada, o que surge é quase um esboço.
Há também um problema claro de excesso de temas. O filme quer falar sobre saúde mental, abandono institucional, educação, violência juvenil, esgotamento profissional e empatia. Em teoria, tudo isso poderia coexistir. Na prática, parece que nenhuma dessas ideias é realmente desenvolvida. É como se o roteiro, escrito por Max Porter a partir de sua própria obra, tentasse condensar muitas camadas em pouco tempo e acabasse não aprofundando nenhuma . O resultado é um acúmulo de conflitos que não se conectam de forma orgânica.
Visualmente, o filme segue uma linha sóbria, com uma fotografia fria e discreta, que reforça o ambiente institucional e a sensação de isolamento. Mas, novamente, tudo parece correto demais, previsível demais. Não há um momento visual que realmente fique na memória. É um tipo de estética funcional, que cumpre seu papel sem jamais se destacar. A mesma coisa vale para a trilha sonora, que acompanha o drama sem interferir, quase como se tivesse medo de se fazer presente.
Talvez o maior problema de Steve seja a sua incapacidade de provocar. É um filme que claramente quer ser sensível, quer ser humano, quer emocionar, mas não consegue atravessar a barreira da superfície. Falta risco. Falta personalidade. Falta aquela sensação de que estamos vendo algo que realmente precisava ser contado. Em vez disso, tudo soa como uma variação de histórias que já vimos muitas vezes, só que com menos impacto.
Há momentos isolados que sugerem um filme melhor escondido ali dentro. Pequenas interações, olhares, silêncios que quase dizem algo. Mas esses momentos nunca se sustentam. Eles surgem e desaparecem sem deixar marcas. E, quando o filme chega ao fim, fica a impressão de que nada realmente aconteceu, mesmo depois de acompanhar um dia inteiro de crise.
No fim das contas, Steve é um daqueles filmes que parecem importantes enquanto estão acontecendo, mas evaporam rapidamente da memória. Um drama que tenta ser profundo, mas se contenta em parecer sério. E talvez esse seja seu maior erro: confundir peso com profundidade. Porque, no fundo, não basta parecer denso. É preciso realmente ser.
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