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setembro 30, 2026

Suddenly (2023)

 


Título original: Soudain Seuls
Direção: Thomas Bidegain
Sinopse: Ben e Laura são um casal apaixonado, mas instável, que embarca em uma aventura de veleiro ao redor do mundo para dar um novo começo ao relacionamento. Durante a viagem, eles decidem explorar uma vasta ilha deserta que descobrem na costa do Chile. Surpreendidos por uma violenta tempestade, eles se abrigam durante a noite em uma estação baleeira abandonada, mas acordam na manhã seguinte e descobrem que seu barco desapareceu. Presos em um ambiente hostil, sem qualquer meio de comunicação, com os suprimentos diminuindo e o inverno se aproximando, eles terão de trabalhar juntos em uma luta de vida ou morte pela sobrevivência, que colocará seus sentimentos à prova e mudará seu relacionamento para sempre.


Suddenly (Soudain Seuls, 2023), dirigido por Thomas Bidegain, parte de uma premissa bastante promissora para construir um drama de sobrevivência em um dos ambientes mais extremos do planeta. Ben e Laura formam um casal que decide dar a volta ao mundo em um veleiro, numa tentativa de recuperar uma relação que já apresenta sinais de desgaste. Quando chegam às proximidades da Antártida, resolvem fazer um desvio para conhecer uma ilha aparentemente deserta. Uma tempestade muda completamente os planos, o barco desaparece e os dois ficam isolados, obrigados a enfrentar o frio, a fome, o medo e, principalmente, os próprios conflitos. Adaptado do romance de Isabelle Autissier, o filme procura equilibrar aventura, sobrevivência e crise conjugal, mas acaba encontrando dificuldades justamente em transformar essa boa ideia em uma experiência realmente envolvente.

Thomas Bidegain demonstra interesse evidente pelo espaço físico. A fotografia de Nicolas Loir explora muito bem a sensação de isolamento, utilizando paisagens abertas, céu constantemente ameaçador, mar revolto, pedras, neve e uma natureza que parece não oferecer qualquer possibilidade de conforto. Há uma beleza quase hostil nesses cenários, e o filme funciona melhor quando simplesmente deixa seus personagens pequenos diante da imensidão. A escolha de uma região tão pouco utilizada em produções de sobrevivência também ajuda a diferenciar a proposta de aventuras ambientadas em praias tropicais ou florestas. O problema é que existe uma questão bastante incômoda na própria representação desse ambiente. É complicado acreditar que uma paisagem tão marcante quanto a da Islândia possa comportar pinguins e fazer o espectador acreditar que se trata de uma ilha deserta na Passagem de Drake, ao sul do Chile. Como a produção foi filmada na Islândia, a semelhança visual entre determinados cenários islandeses e o ambiente retratado acaba ficando evidente, especialmente para quem conhece a geografia da região.

Essa escolha de locação não destrói o filme, mas interfere diretamente na credibilidade da história. Em uma produção que depende tanto da sensação de isolamento e de realidade, perceber a distância entre o cenário apresentado e aquilo que a narrativa pretende representar acaba tirando parte da força da experiência. É possível aceitar algumas liberdades cinematográficas, naturalmente, mas aqui a ambientação é tão importante que qualquer estranhamento geográfico se torna mais perceptível.

A atuação de Mélanie Thierry e Gilles Lellouche é outro elemento importante. Como praticamente toda a narrativa depende dos dois, seria necessário que a relação entre Laura e Ben fosse suficientemente forte para sustentar o filme mesmo nos momentos de maior lentidão. Thierry consegue transmitir melhor a transformação de Laura diante da situação extrema, enquanto Lellouche constrói um Ben mais impulsivo e determinado, ainda que algumas reações do personagem pareçam pouco convincentes. A dinâmica entre os dois funciona em determinados momentos, especialmente quando a sobrevivência começa a expor problemas que já existiam antes do naufrágio, mas o roteiro nem sempre consegue aprofundar essa relação de maneira natural.

O maior problema está justamente no ritmo. Suddenly possui uma duração relativamente longa para uma história essencialmente concentrada em duas pessoas e um espaço limitado. O começo estabelece rapidamente a crise do casal e o acidente, mas a parte dedicada à sobrevivência nem sempre consegue produzir a tensão esperada. Existem momentos em que o filme parece prestes a se transformar em um suspense realmente angustiante, apenas para recuar e voltar ao drama conjugal. Em outras passagens, a sensação de perigo também é amenizada por soluções narrativas que tornam a situação dos protagonistas menos desesperadora do que poderia ser.

Isso é particularmente frustrante porque o conceito permitiria uma abordagem muito mais intensa. Uma ilha isolada, temperaturas extremas, ausência de comunicação, comida limitada e a aproximação do inverno oferecem material suficiente para um filme de sobrevivência muito mais contundente. Bidegain prefere uma abordagem mais contida, quase contemplativa, o que combina com a paisagem, mas nem sempre com a história. A direção procura evitar exageros e transformar a natureza na grande ameaça, porém acaba deixando alguns momentos dramáticos sem o impacto necessário.

Ainda assim, há méritos consideráveis na produção. A fotografia é bonita sem transformar completamente o ambiente em um cartão-postal, o som contribui para a percepção do vento e do mar, e a música de Raphaël ajuda a criar uma atmosfera melancólica. A direção de arte também consegue transmitir a sensação de precariedade sem recorrer excessivamente a efeitos espetaculares. O filme funciona melhor quando se concentra no silêncio, na solidão e na dificuldade de seus personagens em controlar uma situação que rapidamente deixa de obedecer à vontade humana.

No fim, Suddenly é uma produção que tinha todos os elementos para ser um excelente filme de sobrevivência, mas se contenta com algo mais convencional. A proposta é interessante, o elenco central é competente e as paisagens são indiscutivelmente impressionantes, porém o roteiro não encontra a mesma força para transformar esses componentes em uma experiência memorável. A combinação entre crise amorosa e luta pela sobrevivência poderia render uma história muito mais profunda e tensa, mas o filme permanece frequentemente na superfície das duas questões. É uma aventura razoavelmente bem realizada, com boas imagens e uma atmosfera convincente em vários momentos, mas prejudicada por escolhas de ambientação pouco convincentes, ritmo irregular e uma narrativa que raramente alcança a intensidade que sua premissa promete.