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dezembro 08, 2024

Sandra Chamando (2017)

 


Título original: Sandra Chamando
Direção: João Cândido Zacharias
Sinopse: No curta, após um encontro casual para uma noite de sexo, dois jovens rapazes “esticam” o encontro e começam a conversar e fazer reflexões sobre assuntos como vida, perdas, morte e luto.


O filme narra a história de uma pessoa lidando com a perda e buscando entender os ecos emocionais deixados por uma figura importante em sua vida. Apesar de sua duração limitada, o curta consegue explorar questões complexas como a memória, o vazio da ausência e o processo de reconstrução pessoal após uma perda significativa. Essa profundidade é um dos méritos do roteiro assinado por Zacharias, que equilibra momentos de introspecção com diálogos simples, mas carregados de subtexto.

João Cândido Zacharias exibe um domínio excepcional da direção de elenco. A espontaneidade dos atores é impressionante, especialmente em momentos que dependem da sutileza de reações não verbalizadas. Igor Mo e Maurício José Barcellos, que lideram o elenco, entregam performances cheias de humanidade, com destaque para a química orgânica entre os personagens, algo que potencializa o impacto emocional do filme.

Zacharias, formado em cinema pela Universidade Federal Fluminense, imprime no curta uma visão que transcende sua simplicidade narrativa. Ele guia os atores de forma que o público se sinta conectado às suas emoções, criando um ambiente cinematográfico que é ao mesmo tempo intimista e universal.

A paleta de cores suaves e a utilização de planos estáticos ajudam a transmitir a sensação de imobilidade emocional do luto. A montagem de Livia Arbex, por sua vez, dá ritmo à história ao balancear momentos contemplativos com diálogos essenciais, criando uma experiência fluida e envolvente para o espectador.

Sandra Chamando é mais do que um curta-metragem sobre luto; é uma exploração poética das conexões humanas e da forma como nos reconciliamos com a ausência. A obra reflete o crescimento do cinema brasileiro contemporâneo, provando que histórias locais podem ressoar universalmente quando bem contadas.

O filme também é um exemplo de como curtas-metragens podem ser tão impactantes quanto longas, utilizando sua duração limitada para focar em emoções e temas específicos, ao invés de expandir excessivamente sua narrativa. A abordagem de Zacharias mostra sua habilidade em trabalhar com precisão narrativa e emocional.

Com atuações cativantes, uma direção de arte cuidadosa e uma mensagem que atinge o coração, Sandra Chamando se consolida como uma obra essencial no circuito de festivais de cinema. É um exemplo notável de como simplicidade, quando aliada a uma execução impecável, pode resultar em uma experiência cinematográfica memorável.

outubro 02, 2024

Nove Vidas: Gatos em Istambul (2017)

 


Título original: Kedi
Direção: Ceyda Torun
Sinopse: O perfil de uma cidade antiga e das pessoas únicas que nela vivem, vistas pelos olhos de um dos animais mais misteriosos e amados que o homem já conheceu, os gatos.


Ceyda Torun nos leva pelas ruas de Istambul em Nove Vidas: Gatos em Istambul (Kedi, 2017), um documentário inusitado, que se desenrola em uma cidade efervescente e cheia de história, através dos olhos de um protagonista inesperado: o gato. No entanto, o documentário é muito mais do que uma exploração de felinos urbanos; é uma celebração da interação entre esses animais e a cultura turca, e um profundo testemunho do vínculo entre uma comunidade e seus bichanos, marcando um trabalho tão visual quanto emocionalmente tocante.

Nove Vidas não segue uma estrutura documental convencional, deixando-se levar por um formato mais sensorial e poético. Em vez de uma narrativa rígida ou linear, ela explora uma narrativa fluida, onde cada gato é apresentado como um personagem individual, com suas próprias peculiaridades e histórias. A narrativa se divide entre personagens felinos distintos, como Psikopat, Sari, e Gamsiz, e suas rotinas em Istambul. Cada um é tratado com o devido cuidado, e cada nome representa uma personalidade única e instigante, revelando traços de humor, coragem e afeto. A escolha de contar a história dos gatos como indivíduos, ao invés de representá-los como um grupo unificado, foi uma sacada que faz o espectador se conectar com os bichanos e querer saber mais sobre eles.

A decisão de Torun de capturar o mundo a partir de um ponto de vista baixo, muitas vezes à altura dos gatos, permite que o espectador sinta a cidade da mesma maneira que esses animais. Esse ângulo especial intensifica a experiência e cria uma sensação de imersão que torna Istambul quase um personagem adicional no filme. Cada esquina, beco e café se torna vivo e expressivo, como se os muros contassem histórias sobre a cidade.

No aspecto visual, a cinematografia de Nove Vidas é esplêndida e surpreendentemente complexa. Torun trabalhou com o diretor de fotografia Charlie Wuppermann para capturar a essência de Istambul com uma câmera fluida e observadora. O uso de drones, câmeras no nível do solo e imagens aéreas proporciona uma variedade visual que mantém o filme dinâmico e atrativo. Os movimentos da câmera seguem os gatos por telhados e ruelas com uma fluidez que dá a impressão de que a câmera foi feita para seguir esses seres, conferindo ao documentário uma qualidade quase ficcional em certos momentos.

É especialmente notável como o trabalho de Wuppermann e Torun nos faz sentir parte do cotidiano da cidade, mesclando o grandioso e o minucioso. Em uma tomada, vemos o movimento frenético da cidade, e em outra, uma simples lambida de um gato à beira de uma calçada. Essa mudança de escala, do macro para o micro, nos dá a dimensão tanto da grandiosidade da cidade quanto da simplicidade que torna a relação com esses animais tão especial.

A trilha sonora, assinada por Kira Fontana, complementa a atmosfera do filme com toques suaves e melodias que se misturam com os sons naturais de Istambul, como o burburinho das ruas e o canto dos pássaros. A música é utilizada de forma cuidadosa, dando espaço para que os sons ambientais desempenhem seu papel na construção da imersão. Por exemplo, em cenas em que os gatos caçam ou interagem com o ambiente, o silêncio ou os sons sutis de passos e miados servem como um pano de fundo que acentua o clima da cena.

Além disso, os depoimentos das pessoas também contribuem para a criação da ambiência sonora. Habitantes locais explicam com naturalidade e carinho o que os gatos significam para eles, e suas vozes se misturam aos sons da cidade de forma orgânica, em uma sinergia que parece sem esforço, mas claramente demandou uma edição sonora apurada. Esses elementos sonoros formam uma camada emocional que se aprofunda ao longo do filme, dando ao espectador uma sensação de estar ouvindo uma conversa íntima sobre Istambul.

O filme também aborda, mesmo que sutilmente, questões sociais e culturais importantes, como o papel dos gatos na cultura turca e a forma como a cidade os adotou como símbolos de liberdade e autonomia. Os gatos de rua, para muitos, representam a resistência e a liberdade, conceitos que dialogam com a própria história da cidade de Istambul, uma metrópole em constante transformação e cheia de contrastes. Ao enfatizar essa conexão simbólica, Nove Vidas oferece uma perspectiva única sobre como uma cidade e seus habitantes se moldam mutuamente, criando laços que transcendem a simples convivência.

Além disso, o documentário também se destaca por transmitir uma mensagem ecológica e comunitária. O respeito e cuidado demonstrados pelos habitantes locais em relação aos gatos são reflexos de uma visão de mundo onde humanos e animais coexistem em harmonia. Isso é especialmente relevante em um contexto urbano, onde, normalmente, o espaço é disputado, mas em Istambul parece haver uma trégua sagrada entre humanos e gatos.

Nove Vidas: Gatos em Istambul é, em essência, uma carta de amor tanto aos gatos quanto à cidade. Ao longo de seus 79 minutos, Ceyda Torun constrói uma narrativa encantadora, que vai muito além da mera observação de felinos e se aprofunda na dinâmica humana-animal de uma forma quase filosófica. Este não é um filme que busca grandes arcos dramáticos ou conflitos, mas sim um estudo de personagens — humanos e felinos — que nos convida a desacelerar e observar o mundo ao nosso redor com mais atenção e compaixão.

O trabalho de Torun, em seu conjunto, é uma verdadeira ode a uma convivência harmoniosa entre espécies, algo que poucas cidades no mundo conseguem alcançar de forma tão bonita e natural quanto Istambul. E é essa simplicidade quase ingênua que torna o documentário uma experiência tão encantadora e, de certa forma, transformadora. É um lembrete de que, por vezes, o extraordinário se esconde nas menores interações cotidianas, e que, para apreciar isso, basta observar com os olhos de um gato.

setembro 05, 2024

Você Nunca Esteve Realmente Aqui (2017)

 


Título original: You Were Never Really Here
Direção: Lynne Ramsay
Sinopse: Um homem, veterano de guerra, ganha a vida resgatando mulheres presas em cativeiros trabalhando como escravas sexuais. Após uma missão mal sucedida em um bordel de Manhattan, a opinião pública se torna contra ele e uma onda de violência se abate na região.


Você Nunca Esteve Realmente Aqui, dirigido por Lynne Ramsay, é um filme que, apesar de suas intenções de provocar e confrontar, falha em diversos níveis, tornando-se uma experiência frustrante. O longa, que tem Joaquin Phoenix no papel principal, não oferece a profundidade emocional esperada em uma história de violência e resgate, e sua abordagem, ao invés de ser impactante, acaba por ser exaustiva e fria.

O enredo, que gira em torno de Joe (Phoenix), um veterano de guerra com traumas profundos, agora especializado em resgatar garotas sequestradas, promete uma narrativa pesada e visceral. Entretanto, a execução decepciona. Phoenix, em mais uma performance introspectiva e monótona, parece repetir a mesma expressão inexpressiva e carrancuda que vimos em tantos outros filmes de sua carreira. Se em Johnny & June (único filme em que realmente gosto de sua interpretação) ele trouxe camadas de emoção e vulnerabilidade, aqui sua interpretação segue o padrão desgastado: o semblante de sofrimento contido, que não evolui ao longo da trama.

A escolha de Ramsay por um estilo minimalista, tanto em termos de diálogo quanto de ação, poderia ter criado uma atmosfera opressiva e intensa. No entanto, o que encontramos é um filme com uma energia pesada e, por vezes, desagradável. Desde o começo, somos imersos em uma atmosfera sombria que não encontra alívio ou respiro. A violência, sempre presente, é tratada de forma quase indiferente, o que enfraquece seu impacto emocional. Não há espaço para a construção de uma verdadeira conexão com as vítimas que Joe tenta salvar. Elas se tornam meros dispositivos narrativos, e o filme não parece interessado em explorá-las além de sua função de gerar angústia e sofrimento.

A cinematografia, por mais competente que seja em criar uma estética coerente com o tom da obra, contribui para essa sensação de desconforto. As cores escuras e a iluminação baixa, embora tenham sua função na criação de uma atmosfera tensa, acabam tornando o filme visualmente opressor. Não há nuances, nem mesmo nos momentos mais íntimos ou vulneráveis de Joe, como as cenas com sua mãe. Esses raros momentos de "humanidade" parecem insuficientes para quebrar a dureza contínua que permeia o filme. A trilha sonora, composta por Jonny Greenwood, é caótica e, em muitos momentos, intrusiva, amplificando ainda mais a energia negativa que o filme transmite. Normalmente celebro vigorosamente as trilhas de Greenwood, mas não aqui. Em vez de complementar a narrativa, a música frequentemente distrai e agrava a sensação de desconforto, o que dificulta a imersão completa na história.

Outro aspecto problemático é a superficialidade com que o filme trata seus temas centrais. A exploração do tráfico de menores e da violência sexual poderia ter sido tratada com muito mais profundidade e sensibilidade, mas aqui tudo é raso. O filme não se esforça para desenvolver empatia pelas vítimas, que aparecem e desaparecem sem deixar qualquer impressão emocional no público. Falta profundidade na construção dessas personagens, e o resultado é que a violência que elas sofrem parece mais um artifício narrativo do que uma realidade a ser questionada e enfrentada. Isso cria uma barreira emocional entre o espectador e o filme, tornando difícil qualquer tipo de envolvimento ou reflexão mais significativa.

A estrutura narrativa fragmentada, com constantes saltos entre flashbacks e o presente, também contribui para a desconexão emocional. Embora Ramsay tenha tentado utilizar esses recursos para explorar o trauma de Joe e suas motivações, a falta de clareza e coesão na montagem acaba tornando a narrativa confusa e, por vezes, irritante. Não há uma progressão clara, e isso enfraquece o impacto que a história poderia ter.

No que diz respeito ao protagonista, Joe é uma figura quase impenetrável, o que dificulta qualquer tentativa de simpatia ou empatia por parte do público. Seu passado traumático e seu comportamento autodestrutivo são apresentados de forma tão vaga que não conseguimos nos conectar verdadeiramente com ele. Mesmo nos momentos em que o filme tenta humanizá-lo — como nas cenas em que ele cuida de sua mãe idosa —, a frieza da narrativa impede qualquer verdadeira comoção.

No fim das contas, Você Nunca Esteve Realmente Aqui falha em criar um equilíbrio entre estilo e substância. Sua estética sombria e suas escolhas narrativas ambiciosas não compensam a falta de profundidade emocional e de conexão com seus personagens. A sensação que o filme deixa é de uma obra que tenta ser mais profunda e provocativa do que realmente é, resultando em uma experiência árida e desconfortável. Para quem esperava um drama intenso e comovente, o filme decepciona ao oferecer pouco mais que um exercício de estilo visualmente perturbador, mas emocionalmente vazio.

agosto 29, 2024

Trama Fantasma (2017)

 


Título original: Phantom Thread
Direção: Paul Thomas Anderson
Sinopse: Nos anos 1950, Reynolds Woodcock é um renomado e confiante estilista que trabalha ao lado da irmã, Cyril, para vestir grandes nomes da realeza e da elite britânica. Sua inspiração surge através das mulheres que, constantemente, entram e saem de sua vida. Mas tudo muda quando ele conhece a forte e inteligente Alma, que vira sua musa e amante.


Paul Thomas Anderson, diretor renomado por filmes que exploram o interior dos personagens e suas complexas relações humanas, nos entrega em Trama Fantasma uma obra que combina elegância e intensidade. Situado na Londres dos anos 1950, o filme é centrado no excêntrico e perfeccionista estilista Reynolds Woodcock (interpretado por Daniel Day-Lewis), cuja vida ordenada e meticulosamente controlada sofre uma reviravolta ao conhecer Alma (Vicky Krieps), uma jovem de espírito livre que desafia seu controle. Mais do que uma narrativa sobre moda, Trama Fantasma é um estudo psicológico sobre a dinâmica do poder, obsessão e amor tóxico, envolto em uma estética impecável que eleva a experiência cinematográfica.

Um dos maiores destaques do filme é, sem dúvida, a trilha sonora composta por Jonny Greenwood, que não só complementa a narrativa, mas a enriquece com uma intensidade emocional profunda. Greenwood, que já havia colaborado com Anderson em filmes anteriores, atinge um novo nível de excelência em Trama Fantasma, criando uma trilha orquestral que captura a tensão e a beleza do mundo de Reynolds e Alma.

A música de Greenwood age quase como um personagem adicional no filme, intensificando cada cena com uma sutileza notável. Desde os momentos mais delicados até os mais dramáticos, a trilha eleva o tom do filme, refletindo as camadas complexas das emoções dos personagens. As composições para piano e cordas são especialmente marcantes, preenchendo o ar com uma sensação de nostalgia e sofisticação que dialoga diretamente com o cenário de alta costura da época. A trilha funciona não apenas como acompanhamento, mas como um eco das personalidades controladoras e obsessivas de Reynolds, ao mesmo tempo que revela as vulnerabilidades ocultas por trás de sua fachada de perfeição.

Outro elemento que brilha em Trama Fantasma é a fotografia, supervisionada pelo próprio Paul Thomas Anderson, que dispensa um diretor de fotografia oficial. O estilo visual do filme é extremamente refinado, e cada quadro parece cuidadosamente desenhado, assim como os vestidos criados por Reynolds. Há uma estética clássica permeando toda a obra, com uma paleta de cores que ressalta os tons suaves e neutros, sem abrir mão de uma profundidade emocional intrínseca.

A luz natural é usada com maestria, especialmente nas cenas dentro da casa e do ateliê de Woodcock, que se tornam quase uma extensão da personalidade do protagonista. O controle visual reflete a rigidez com que ele governa seu mundo, e essa estética rígida é ocasionalmente rompida pelos contrastes sutis, especialmente nos momentos em que Alma começa a desafiar as regras. A câmera de Anderson é precisa, focando nos detalhes das costuras, dos gestos e das expressões mínimas dos personagens, fazendo com que até mesmo um simples olhar ou o ato de ajustar um vestido se torne carregado de significado.

Seria impossível falar sobre Trama Fantasma sem mencionar a excelência do figurino, que desempenha um papel vital na construção da narrativa. Os trajes não são apenas belos de se ver, mas também funcionam como uma extensão da psicologia dos personagens. Reynolds, um homem obcecado pela perfeição e pelo controle, encontra nos vestidos que cria uma forma de expressar seu poder e seu desejo por ordem. No entanto, à medida que a relação entre ele e Alma se desenvolve, esses trajes começam a refletir a luta de poder entre eles.

Os vestidos, desenhados pela figurinista Mark Bridges, são absolutamente deslumbrantes, e capturam perfeitamente a opulência e o glamour da alta costura dos anos 1950. A atenção aos detalhes é impressionante, desde os tecidos luxuosos até os bordados intrincados, que servem como uma metáfora visual para as complexas relações tecidas ao longo da trama. Cada peça de roupa parece uma obra de arte viva, moldada não apenas pela estética, mas pelas emoções reprimidas e pela tensão que atravessa o filme.

No centro dessa história está Daniel Day-Lewis, que, em sua suposta última atuação, entrega uma performance contida e profundamente calculada. Seu Reynolds é ao mesmo tempo fascinante e repelente, um homem cuja genialidade é inegável, mas cuja incapacidade de se conectar emocionalmente torna-o trágico. Day-Lewis constrói um personagem complexo, cujo silêncio e gestos mínimos falam mais do que palavras. Cada movimento seu, seja ajustando um vestido ou movendo uma colher de chá, é carregado de significado. Vicky Krieps, por sua vez, é o contraponto perfeito, trazendo uma leveza inicial que logo se transforma em uma força silenciosa capaz de abalar o mundo de Reynolds. A relação entre eles, marcada pela manipulação e interdependência, é o coração do filme, e suas interações são fascinantes de assistir.

Lesley Manville, como Cyril, a irmã de Reynolds, é igualmente brilhante. Sua personagem é uma presença constante, rígida e fria, mas com nuances que revelam uma compreensão profunda dos mecanismos que sustentam o mundo de seu irmão. Ela é a figura que garante que a ordem seja mantida, mas também é capaz de ver quando essa ordem está em risco.

O roteiro de Paul Thomas Anderson, assim como a direção, é meticuloso e profundamente psicológico. Trama Fantasma não é um filme de grandes reviravoltas ou explosões dramáticas, mas de sutilezas. Cada interação entre os personagens é carregada de subtexto, e o que não é dito muitas vezes tem mais impacto do que as palavras. A narrativa explora temas como o controle, a obsessão e a necessidade humana por conexão, de uma forma quase claustrofóbica.

A estrutura do filme é lenta, mas intencionalmente construída para que cada momento seja uma peça de um quebra-cabeça emocional. Anderson desafia o espectador a ler nas entrelinhas, a observar as camadas escondidas sob a superfície polida de seus personagens, especialmente no jogo psicológico entre Reynolds e Alma, que se desenrola de forma quase invisível, mas sempre presente.

Trama Fantasma é uma obra de arte cinematográfica que se destaca pela sua sofisticação técnica e emocional. Desde a trilha sonora envolvente de Jonny Greenwood até a fotografia meticulosa e o figurino luxuoso, o filme é uma experiência visual e auditiva que se entrelaça com uma narrativa densa e provocativa. Através das atuações sutis, mas poderosas, e da direção precisa de Anderson, o filme explora as profundezas da psique humana e as dinâmicas do poder nas relações de uma maneira elegante e inesquecível. É um filme que exige paciência e atenção, recompensando aqueles que mergulham em seus detalhes com uma experiência rica e gratificante.

agosto 22, 2024

120 Batimentos Por Minuto (2017)

 


Título original: 120 Battements Par Minute
Direção: Robin Campillo
Sinopse: Na França dos anos 1990, o grupo ativista Act Up intensifica seus esforços para que a sociedade reconheça a importância da prevenção e do tratamento da AIDS.


120 Batimentos por Minuto, dirigido por Robin Campillo, mergulha no ativismo do grupo ACT UP, uma organização que lutou pelos direitos das pessoas vivendo com HIV/AIDS na Paris dos anos 1990. A proposta do filme é reviver uma época de luta e desespero, marcada pela negligência do governo, da sociedade e das indústrias farmacêuticas em relação à epidemia de AIDS. O longa, no entanto, embora tenha sido aclamado em muitos círculos, falha em trazer uma abordagem inovadora ou instigante, repetindo temas que, ao longo dos anos, se tornaram previsíveis e cansativos dentro do gênero.

Não há dúvida de que o contexto histórico do filme é relevante, mas ele se insere em uma longa linha de produções que já exploraram extensivamente a questão da AIDS e o impacto no meio gay. Embora seja inegável a importância do debate sobre saúde pública, 120 Batimentos por Minuto acaba reforçando uma fórmula já desgastada, sem adicionar novas camadas ao tema. É uma repetição de dramas anteriores que colocam a doença como eixo central de sua narrativa, focando na dor, na luta e no sofrimento, sem trazer uma abordagem renovadora.

Além disso, o filme perpetua o estereótipo do gay promíscuo, algo que, em pleno século XXI, parece ultrapassado e até contraproducente para a própria comunidade que ele pretende representar. As cenas de sexo entre desconhecidos, mostradas de maneira repetitiva e explícita, soam como uma escolha que reforça a imagem estereotipada do comportamento sexual excessivo, em vez de enriquecer a narrativa com a profundidade emocional ou a complexidade dos personagens. Ao apresentar os personagens quase sempre através de suas ações sexuais, o filme deixa de lado o potencial de criar figuras multifacetadas que poderiam cativar o espectador de maneira mais significativa.

Um dos aspectos mais desconfortáveis de 120 Batimentos por Minuto é a forma como as cenas sexuais são tratadas. A explicitude pode até ter um objetivo dramático de choque, mas o filme ultrapassa o limite ao fazer disso um elemento recorrente, e não um aspecto pontual. A sensação de exagero é reforçada pela repetição de encontros íntimos entre desconhecidos, o que pode fazer o espectador se perguntar se todas essas cenas são realmente necessárias para contar a história que o filme se propõe a explorar. Em vez de criar uma atmosfera emocional ou reflexiva, essas cenas parecem existir apenas para provocar e causar desconforto.

Essa repetição também contribui para o que parece ser uma tentativa forçada de chocar o público, mais do que narrar uma história de maneira significativa. As cenas de ativismo e protestos — que poderiam ter sido o coração pulsante da narrativa — são frequentemente eclipsadas pela fixação na vida sexual dos personagens, tornando o filme cansativo e desnecessariamente repetitivo. Há uma sensação de que o filme tenta se equilibrar entre o drama político e a crônica sexual, mas acaba falhando em ambos os aspectos.

Outro ponto que não colabora para o envolvimento do espectador é a trilha sonora. O filme utiliza músicas que já foram exaustivamente associadas ao contexto gay ou à narrativa de luta contra a AIDS. Em vez de dar frescor à narrativa, essas escolhas parecem clichês e deslocadas, contribuindo para a sensação de que o filme está preso a um modelo ultrapassado. As batidas da música eletrônica, que deveriam impulsionar o ritmo e dar um senso de urgência à narrativa, soam batidas e cafonas, transformando momentos que poderiam ser emocionantes em sequências previsíveis e desprovidas de impacto.

A trilha sonora é, de certa forma, uma metáfora para o próprio filme: uma repetição de fórmulas que já foram usadas à exaustão em produções anteriores. Se a intenção era evocar a atmosfera da época, o resultado final não consegue ir além da superfície e acaba por contribuir para a experiência arrastada do filme.

Os personagens de 120 Batimentos por Minuto também não ajudam a criar uma conexão emocional com o espectador. Muitos deles são construídos com base em estereótipos já vistos em outras produções sobre o tema. Ao invés de oferecerem complexidade ou nuances, os protagonistas são apresentados de forma óbvia e, em alguns casos, irritantes. O protagonista, por exemplo, é quase sempre apresentado como um mártir da causa, sem que o filme explore de maneira mais profunda suas motivações ou seus dilemas internos.

Esse tipo de construção torna difícil para o público criar empatia com os personagens. Em vez de sentir a urgência de sua luta, muitas vezes o espectador se encontra distanciado, quase torcendo para que as tragédias anunciadas ocorram logo, libertando-o da experiência tediosa que o filme proporciona. A morte, que deveria ser o ponto culminante de uma narrativa emocionalmente carregada, acaba sendo recebida com apatia, tamanho o desinteresse que o filme gera ao longo de suas duas horas e vinte minutos.

120 Batimentos por Minuto é uma tentativa frustrada de recontar uma história que já foi explorada à exaustão. A promessa de um filme com uma narrativa relevante sobre a luta pela sobrevivência e pelos direitos civis é rapidamente diluída por escolhas artísticas que se repetem, cenas desnecessárias e uma trilha sonora sem inspiração. Ao invés de proporcionar uma reflexão profunda ou uma experiência emocional envolvente, o filme se arrasta por temas cansativos e uma abordagem que soa, em muitos momentos, provocativa por pura provocação.

A crítica ao sistema de saúde e à negligência governamental são questões importantes, mas a insistência em retratar os personagens de maneira unidimensional e estereotipada impede que o filme alcance seu potencial. No fim das contas, 120 Batimentos por Minuto acaba sendo mais um exemplo de como a repetição de temas sem inovação pode transformar um tópico de grande importância em uma experiência cinematográfica exaustiva e desinteressante.