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setembro 28, 2026

Peter Pan (1953)

 


Título original: Peter Pan
Direção: Hamilton Luske, Wilfred Jackson, Clyde Geronimi
Sinopse: Deixando o conforto e segurança de seus lares, Wendy, Miguel e João seguem Peter Pan para um mundo mágico onde a infância dura para sempre, a Terra do Nunca. Mas logo as crianças descobrem que precisarão confrontar o terrível Capitão Gancho, um maquiavélico pirata que quer se livrar de uma vez por todas de Peter.


Peter Pan é um daqueles filmes que conseguem envelhecer de maneira especialmente difícil. Lançado em 1953 e dirigido por Hamilton Luske, Wilfred Jackson e Clyde Geronimi, o longa apresenta uma Terra do Nunca colorida, cheia de personagens extravagantes, piratas, sereias, crianças voadoras e animais falantes, mas por trás de toda essa aparência de fantasia existe uma experiência surpreendentemente tediosa. É um filme que deveria transmitir liberdade, aventura e imaginação, mas que frequentemente parece preso a uma sucessão de situações que não conseguem despertar grande interesse. A história acompanha Wendy, John e Michael Darling quando Peter Pan aparece em seu quarto e os leva para a Terra do Nunca, onde encontram os Meninos Perdidos, Sininho e o Capitão Gancho. A premissa é excelente no papel, mas a execução transforma boa parte dessa aventura em uma longa espera para que alguma coisa realmente interessante aconteça.

O maior problema está justamente no modo como o filme tenta construir seu humor. Peter Pan é extremamente barulhento, exagerado e episódico, com personagens que parecem existir mais para produzir algum tipo de reação imediata do que para desenvolver uma história consistente. Peter é apresentado como uma criança eternamente despreocupada, mas sua personalidade está longe de ser tão encantadora quanto o filme parece acreditar. Ele é egoísta, irresponsável e muitas vezes bastante desagradável, enquanto Sininho passa boa parte da história envolvida em ciúmes e atitudes mesquinhas. O Capitão Gancho, que poderia sustentar sozinho uma grande aventura de piratas, acaba reduzido a uma figura caricatural que funciona melhor visualmente do que dramaticamente. Hans Conried, responsável também pela voz de George Darling, pelo menos consegue imprimir alguma personalidade ao personagem, enquanto Bill Thompson dá ao Sr. Smee um tom cômico que ajuda a movimentar algumas cenas.

Visualmente, não há como negar que o trabalho de animação é elaborado. A produção teve anos de desenvolvimento e um enorme esforço artístico, com centenas de profissionais envolvidos e quase um milhão de desenhos preparados para a fotografia em Technicolor. A movimentação dos personagens, os cenários da Terra do Nunca e algumas sequências de voo demonstram o domínio técnico que os estúdios Disney já possuíam naquele período. O problema é que toda essa qualidade visual não consegue compensar a falta de encanto do conjunto. É como observar uma embalagem muito bem produzida para um conteúdo que simplesmente não desperta vontade de continuar consumindo.

E existe ainda um problema muito maior: quanto preconceito existe neste filme. Peter Pan é pessimamente datado, principalmente na maneira como representa os povos indígenas, tratados através de estereótipos ofensivos e de uma visão extremamente infantilizada. A sequência envolvendo Tiger Lily e a chamada tribo indígena é particularmente desconfortável atualmente, não apenas por reproduzir caricaturas, mas porque transforma esse preconceito em elemento de humor. É uma daquelas situações em que simplesmente dizer que "era outra época" não resolve o problema. O contexto histórico explica por que determinadas ideias foram colocadas na tela, mas não torna essas ideias menos problemáticas para quem assiste ao filme hoje.

Até as músicas, frequentemente apontadas como parte importante do encanto da produção, não conseguem salvar a experiência. You Can Fly possui uma energia contagiante, e The Second Star to the Right é uma composição bonita, mas os números musicais aparecem inseridos em uma narrativa que muitas vezes parece não saber para onde está indo. O filme pula de uma situação para outra com uma lógica bastante frouxa, acumulando personagens e acontecimentos sem construir uma aventura realmente envolvente. Em vez de provocar aquela sensação de maravilhamento que uma história sobre uma criança que se recusa a crescer deveria provocar, acaba produzindo uma sensação de cansaço.

É curioso comparar essa experiência com Alice no País das Maravilhas, lançado apenas dois anos antes. Os dois parecem pertencer à mesma leva particularmente estranha da Disney, marcada por uma tentativa de transformar nonsense, personagens excêntricos e acontecimentos desconexos em espetáculo. Mas em Peter Pan essa abordagem chega a produzir uma sensação quase surreal. Em vários momentos, parece feito por um drogado, tamanha a quantidade de situações aleatórias, personagens caricatos e mudanças bruscas de tom. Não há, porém, a inventividade visual necessária para transformar essa loucura em algo realmente fascinante. O resultado é apenas confuso e cansativo.

Também é difícil comprar a ideia de que Peter Pan seja uma figura tão encantadora quando ele passa boa parte da história demonstrando uma imaturidade que não parece propriamente divertida. A proposta de nunca crescer poderia render uma reflexão interessante sobre infância, responsabilidade e passagem do tempo, mas o filme prefere transformar a recusa em amadurecer em uma espécie de virtude absoluta. Wendy, por outro lado, funciona melhor justamente quando começa a perceber que aquela aventura tem limites e que crescer faz parte da vida. É uma ideia potencialmente interessante, mas o roteiro não desenvolve isso com profundidade suficiente.

No fim, Peter Pan é uma animação tecnicamente competente, com desenhos bonitos, cores marcantes e algumas músicas memoráveis, mas extremamente cansativa como experiência cinematográfica. A produção demonstra o enorme talento dos animadores da Disney, porém não consegue transformar esse talento em uma aventura realmente divertida. O excesso de caricaturas, o humor datado, os estereótipos preconceituosos e a narrativa episódica tornam o filme muito mais difícil de admirar hoje do que sua reputação sugere. É uma obra importante dentro da história da animação, mas importância histórica não significa necessariamente qualidade. Para mim, Peter Pan está entre os exemplos mais decepcionantes da fase clássica da Disney, um filme tedioso e frequentemente irritante, que parece ter confundido imaginação com falta de direção. E, assim como Alice no País das Maravilhas, pertence a uma leva da Disney que, apesar de todo o virtuosismo técnico, simplesmente não funciona para mim.