Páginas

Mostrando postagens com marcador 2014. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador 2014. Mostrar todas as postagens

setembro 03, 2025

Interestelar (2014)

 


Título original: Interstellar
Direção: Christopher Nolan
Sinopse: As reservas naturais da Terra estão chegando ao fim e um grupo de astronautas recebe a missão de verificar possíveis planetas para receberem a população mundial, possibilitando a continuação da espécie. Cooper é chamado para liderar o grupo e aceita a missão sabendo que pode nunca mais ver os filhos. Ao lado de Brand, Jenkins e Doyle, ele seguirá em busca de um novo lar.


Voltei ao IMAX esperando ao menos uma redenção para esse engodo chamado Interestelar. Mas que tormento. Eu já havia dado uma estrela para essa porcaria do Christopher Nolan — e agora, depois dessa sessão imersiva-IMAX, confirmo: é o pior filme que já vi. Cada segundo só reforça o que penso: Nolan é o Ed Wood dos nossos tempos, porém com dinheiro. Ele pega toda a pompa de Hollywood e transforma num desfile de estereótipos mal costurados.

Tecnicamente, o filme se exibe como se isso bastasse: rodado em película 70 mm IMAX, 35 mm anamórfico, com um monstro de filme girando numa chapa de 72 polegadas, que mal cabe no projetor — dá até versão “chique” com adaptações técnicas só pra comportar o rolo mais longo da história IMAX. Mas isso não encobre o vazio: visual? Tudo é fotogênico, espetacular para pôster, mas só isso — vazio de alma.

E o clichê de filmar na Islândia, então? Todo mundo conhece: qualquer coisa que precise parecer planeta hostil é filmada lá. Só retardados ainda compram esse truque de paisagem congelada como “outro mundo”. A geleira de Svinafellsjökull transforma-se, por milagre de roteiro, em planetas inteiros, e uma equipe de 350 pessoas leva uma nave de mentira artificial para isso. Isso não é criatividade, é preguiça de pensamento.

A trilha de Hans Zimmer — ah, desculpe chamar de trilha. É um estrondo constante que impede de entender o que os personagens falam. Sim, o som é tão obliterado pela música que quase cheguei a ter vislumbres de diálogos… mas não dá. E o pior é que se repete na internet há décadas — tocada exaustivamente em redes sociais até virar nojo, e essa trilha empolgante virou uma das piores que já ouvi. E mesmo o próprio Zimmer e Nolan defendem esse massacre sonoro como escolha artística deliberada.

As cenas e diálogos parecem cópias tortas de 2001: Uma Odisseia no Espaço. Tudo é formulado como se fosse um xerox mal impresso: desde a viagem pelo espaço até os encantos misteriosos, a linguagem visual reaproveita ideias geniais mas sem nenhum respeito — é um remix malfeito, com menos alma e mais ego de diretor que acha que revisitar Stanley Kubrick o faz visionário.

Também: o “prático” dessa produção parece mais pose do que outra coisa. Plantaram 500 acres de milho no Canadá pra parecer real? Gastaram milhões em sets práticos? Beleza. Mas isso não salva o roteiro, que é piegas, inflado de explicações científicas batidas, emocionalismo de manual, e ainda por cima se acha filosófico quando não passa de teatro de efeitos, estilo fantasioso de gente que trocou cérebro por previsibilidade. A cinematografia de Hoyte van Hoytema até tenta trazer “realismo cru”, mas não consegue salvar a sensação de que tudo ali é fachada linda por fora, oca por dentro.

O design dos robôs, TARS (o HAL 9000 versão boazinha) e CASE, que deveriam ser inovadores, não passam de manequins quadrados com voz robotizada, como se a tecnologia por trás fosse substituível por qualquer aplicativo de desenho gráfico. O “futurismo usado” virou moda — nada de fantasias cromadas, mas a estética é tão sem personalidade que parece “lá vou eu parecer real, olhem como sou sóbrio”. Não tem identidade, tem fórmula.

E a ambição de colocar o espectador num terceiro ato físico? Pura pretensão. Construíram isso nos sets, dizem, mas o que vemos na tela é tanta simbologia pseudocientífica que me deu sono imaginário por excesso de explicação. Tudo tão forçado de “vamos mostrar conceitos quânticos com drama” que ficou entre a paródia e o desastre.

O som perdeu. O roteiro perdeu. A trilha sonora virou grito. Os efeitos parecem bonitos, mas vazios. O clichê de planetas filmados na Islândia, a ostentação tecnológica, o roteiro mal fundamentado, tudo conspirou pra esse filme ser um monumento à vaidade mal disfarçada.

Se o cinema inteiro fosse avaliado pelo que eu sinto vendo Interestelar, ele estaria com isolamento total — um vazio ruidoso onde só há músculo técnico, mas nenhuma emoção genuína. É tudo superficial, exagerado, barulhento, pastelão filosófico. Um “épico” que não passa de uma porcaria com orçamento enorme, e que só reforçou meu nojo absoluto por esse diretor.

outubro 21, 2024

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014)

 


Título original: Hoje Eu Quero Voltar Sozinho
Direção: Daniel Ribeiro
Sinopse: Leonardo é um adolescente cego que tenta lidar com a mãe superprotetora ao mesmo tempo em que busca sua independência. Quando Gabriel chega na cidade, novos sentimentos começam a surgir em Leonardo, fazendo com que ele descubra mais sobre si mesmo e sua sexualidade.


Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, dirigido por Daniel Ribeiro em 2014, é um marco do cinema brasileiro contemporâneo. A obra ganhou visibilidade internacional por abordar temas complexos, como a deficiência visual e a descoberta da sexualidade, com uma sensibilidade rara de se encontrar em dramas adolescentes. O filme oferece um olhar honesto e delicado sobre as primeiras experiências amorosas e as nuances de crescer em um mundo onde a diferença ainda é motivo de estigmatização. Daniel Ribeiro transforma uma história potencialmente convencional em uma obra que celebra a autenticidade juvenil, sustentada por atuações convincentes e uma direção cuidadosa.

A história acompanha Léo (Ghilherme Lobo), um adolescente cego que enfrenta desafios cotidianos não apenas pela deficiência visual, mas também pelo desejo de encontrar independência e autoconfiança. Ele passa seus dias ao lado de sua melhor amiga, Giovana (Tess Amorim), cuja relação com Léo é de companheirismo sincero e despretensioso. No entanto, a chegada de Gabriel (Fabio Audi) provoca uma revolução no mundo de Léo. A presença de Gabriel catalisa um despertar emocional em Léo, explorando o desejo de autodescoberta e atração. Ribeiro apresenta esses sentimentos de maneira sutil, mas impactante, sem recorrer a estereótipos ou a representações exageradas. É um filme que, ao capturar o espírito da adolescência, se torna universal.

O destaque de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho reside na construção dos personagens e na forma como os atores dão vida a eles. Ghilherme Lobo entrega uma performance contida e convincente como Léo, transmitindo vulnerabilidade e inquietação interior. É notável como ele incorpora os desafios de um adolescente cego, sem nunca forçar ou dramatizar além do necessário. Em vez disso, Lobo usa a linguagem corporal de maneira sutil para representar a desconexão e o desejo de autonomia de Léo. Sua atuação confere ao personagem uma autenticidade que se torna o núcleo emocional do filme.

Tess Amorim, como Giovana, traz um contraste interessante. Ela é a amiga que, em sua própria descoberta de si mesma, enfrenta o ciúme e a insegurança que a relação de Léo com Gabriel provoca. Amorim consegue equilibrar bem a doçura com a insegurança, e sua química com Lobo faz da amizade entre Léo e Giovana um dos pilares mais emocionantes da narrativa. Fabio Audi, por sua vez, faz de Gabriel uma figura acolhedora e sutilmente enigmática. Ele é um personagem que, mesmo com menor tempo de tela, exerce uma influência significativa. Sua atuação é marcada pela simplicidade e pela leveza, essenciais para estabelecer o vínculo romântico com Léo de forma crível e respeitosa.

Daniel Ribeiro é eficiente em seu roteiro e direção, conferindo ao filme um ritmo contemplativo, porém fluido. Ele não cede à tentação de dramatizar exageradamente as adversidades de Léo ou as tensões entre os personagens. Em vez disso, Ribeiro escolhe focar nas pequenas interações, nas trocas de olhares e nas pausas que revelam mais do que qualquer diálogo. Isso é particularmente evidente na maneira como ele retrata a conexão entre Léo e Gabriel, optando por uma abordagem naturalista que permite ao espectador sentir o florescimento gradual do romance.

A escolha de Ribeiro de não utilizar a cegueira de Léo como um ponto central da trama é especialmente significativa. Em vez disso, ele trabalha com sutileza as limitações físicas do protagonista, transformando a deficiência em um elemento presente, mas que não define Léo. Assim, Ribeiro desafia o espectador a enxergar Léo como um jovem com sonhos e inseguranças universais. Isso humaniza o personagem, evitando qualquer tipo de vitimização.

A fotografia de Pierre de Kerchove é essencial para estabelecer o tom do filme. Com planos que enfatizam o ambiente cotidiano, como a escola, a casa de Léo e os espaços públicos, a câmera capta a rotina de Léo com uma simplicidade que ajuda a reforçar a naturalidade do filme. De Kerchove também usa closes de forma eficaz, especialmente nas cenas em que Léo experimenta algo novo, seja uma sensação ou um toque. Essa escolha transmite ao espectador a intensidade dessas descobertas. Os tons suaves e naturais predominam, evocando uma sensação de acolhimento e intimidade.

A direção de arte é discreta, mas eficaz. Os ambientes são domésticos e sem qualquer luxo, refletindo a classe média brasileira e contribuindo para a identificação do público com a narrativa. Os cenários têm uma leve desorganização que confere veracidade ao cotidiano dos personagens, particularmente os quartos de Léo e Giovana, cheios de elementos que remetem à adolescência. Essa simplicidade ajuda a concentrar a atenção nas dinâmicas entre os personagens e na jornada de Léo.

Outro aspecto notável de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho é sua trilha sonora, que contribui para a atmosfera emocional do filme sem nunca roubar a cena. Ribeiro escolheu canções que capturam o espírito adolescente e evocam um misto de nostalgia e desejo. A música é usada de maneira econômica, pontuando os momentos cruciais do filme, como o primeiro toque entre Léo e Gabriel. A trilha ajuda a amplificar o impacto emocional desses momentos sem apelar para o sentimentalismo.

É impossível falar sobre Hoje Eu Quero Voltar Sozinho sem mencionar sua importância na representação LGBTQIA+ no cinema brasileiro. O filme não se limita a contar uma história de amor entre dois jovens; ele aborda o tema de maneira sutil, sem transformar a orientação sexual dos personagens em um problema a ser resolvido ou em uma lição moral. Ribeiro consegue tratar o tema com naturalidade, permitindo que o romance se desenvolva como qualquer outra história de amor adolescente. Essa abordagem é um alívio bem-vindo em um contexto onde, muitas vezes, narrativas LGBTQIA+ são pautadas pelo conflito e pela rejeição.

A deficiência visual de Léo também é tratada com respeito e autenticidade. O filme é cuidadoso ao não transformar a cegueira em uma metáfora para algo maior, mas sim em uma parte do personagem que influencia, mas não define, sua jornada. Ribeiro evita os clichês comuns, optando por uma representação que celebra a normalidade de um protagonista que encontra suas próprias formas de lidar com o mundo ao seu redor.

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho é uma obra cativante que se destaca pela autenticidade e pelo respeito com que aborda temas sensíveis. A atuação de Ghilherme Lobo, o roteiro sensível de Daniel Ribeiro e a abordagem sutil de temas complexos fazem deste filme um exemplo de como o cinema pode abordar a adolescência e a descoberta de maneira honesta e tocante. A simplicidade e a sinceridade com que Ribeiro conduz a narrativa permitem que o filme ressoe com qualquer espectador, independentemente de idade ou orientação. Em um gênero onde exageros são comuns, esta é uma história que se destaca por sua sutileza e impacto emocional, trazendo uma experiência genuína e profunda sobre o que significa crescer, amar e encontrar o próprio lugar no mundo.

outubro 19, 2024

Sin City: A Dama Fatal (2014)

 


Título original: Sin City: A Dame to Kill For
Direção: Robert Rodriguez, Frank Miller
Sinopse: Dwight tem seu confronto final com a mulher dos seus sonhos e pesadelos, Ava. Ela consegue ler mentes e transforma-se exatamente no que os homens desejam. Repleta de mulheres fortes, anti-heróis e vilões cruéis, seus caminhos se cruzam pelas ruas e bares da cidade do pecado.


Sin City: A Dama Fatal (Sin City: A Dame to Kill For, 2014) é a sequência aguardada do icônico Sin City, de 2005, e promete uma imersão ainda mais sombria e estilizada nesse universo noir adaptado das graphic novels de Frank Miller. Dirigido pelo próprio Miller em parceria com Robert Rodriguez, o filme se esforça para manter a brutalidade gráfica e o estilo visual singular que marcaram o original. No entanto, ao explorar novamente os submundos sombrios de Basin City, essa segunda parte oscila em seu impacto, não conseguindo alcançar o brilho transgressor do primeiro filme.

Tecnicamente, o filme se destaca. A opção pelo preto e branco com inserções de cores vibrantes – vermelhos de batom e sangue, tons esverdeados em joias – reforça o universo gráfico de Miller, quase como uma página viva das HQs. A direção de fotografia, assinada por Robert Rodriguez e Jimmy Lindsey, captura perfeitamente essa atmosfera noir estilizada. Desde a arquitetura decadente até os becos escuros e as chuvas densas, o ambiente de Basin City é mais um personagem que respira violência e corrupção. A escolha estética do contraste extremo entre luz e sombra cria um efeito que prende o olhar, mas a narrativa parece depender excessivamente desse recurso visual para mascarar alguns de seus pontos fracos, especialmente no que diz respeito ao desenvolvimento da trama.

A história se divide em três arcos principais, com o segmento "A Dame to Kill For" como centro, onde Eva Green interpreta a femme fatale Ava Lord. Green é a encarnação perfeita da sedutora implacável, manipulando e destruindo homens sem qualquer remorso. Sua presença magnética é inegável, mas a personagem em si é construída de forma um tanto previsível e exagerada, encaixando-se no estereótipo da mulher fatal que, ainda que visualmente impactante, não evolui para algo realmente interessante. Sua motivação é simplista, e o arco, embora bem atuado, não atinge a profundidade emocional que poderia levar a narrativa a um nível mais cativante.

Joseph Gordon-Levitt, interpretando o ambicioso e talentoso Johnny, é um dos pontos altos do filme. Sua performance como o jogador de sorte que desafia figuras poderosas em Basin City traz uma carga emocional e intensidade genuínas, em contraste com alguns dos personagens mais caricatos ao redor. Gordon-Levitt consegue dar ao público uma performance que se equilibra entre a audácia e a vulnerabilidade, criando empatia em um universo onde a moralidade é, no mínimo, ambígua. Sua entrega é sincera e coloca Johnny como uma das figuras mais humanas em um cenário de extrema brutalidade. A trajetória de seu personagem oferece um vislumbre interessante das consequências de se tentar desafiar o poder em um ambiente onde a corrupção e a crueldade imperam.

O elenco é recheado de nomes de peso, como Mickey Rourke retornando como o implacável Marv, e Jessica Alba, que interpreta Nancy Callahan com uma nova camada de intensidade. Marv, com seu corpo descomunal e rosto marcado, continua a ser o anti-herói por excelência, e Rourke parece à vontade em sua pele – um bruto com um código de honra peculiar. Jessica Alba, por outro lado, busca mais profundidade em Nancy, agora atormentada pelo desejo de vingança, mas, infelizmente, o roteiro não lhe oferece material suficiente para explorar essa mudança de forma significativa. Mesmo com Alba tentando transmitir a dor e a frustração de sua personagem, o arco de Nancy parece forçado, dando a impressão de ser uma extensão desnecessária do primeiro filme.

A montagem, feita por Rodriguez, opta por uma estrutura entrelaçada que deveria funcionar como uma colcha de retalhos coerente, mas, em alguns momentos, peca pela falta de ritmo e pela repetição de elementos que já tinham sido explorados no original. Embora a montagem paralela seja uma ferramenta poderosa para dar ao filme um senso de continuidade e urgência, neste caso, a escolha parece fazer o filme girar em círculos, com menos impacto a cada novo segmento. Talvez uma abordagem mais linear tivesse permitido que os arcos se desenvolvessem com maior clareza, valorizando as atuações e os diálogos que, muitas vezes, parecem perdidos na estilização excessiva.

No quesito trilha sonora, o compositor Carl Thiel, junto com Rodriguez, traz uma composição atmosférica que complementa o universo noir da obra. Ainda que funcione como um pano de fundo tenso e adequado para as cenas, a trilha sonora acaba sendo um pouco redundante, reforçando elementos que já estão visíveis na tela sem acrescentar novas camadas à experiência. A sensação é de que a trilha, em vez de amplificar a intensidade emocional, recai sobre clichês, como os acordes de saxofone e guitarras pesadas, que acabam reforçando o clima genérico de uma obra que já foi mais ousada em sua primeira edição.

O roteiro, coescrito por Rodriguez e Miller, não escapa de ser um dos pontos problemáticos do filme. Embora siga a linha estilística e temática de Sin City, a profundidade narrativa é ofuscada pela obsessão em emular os mesmos elementos que garantiram o sucesso inicial. Aqui, a violência muitas vezes se torna repetitiva e despropositada, e a narrativa perde força na tentativa de chocar o público com o excesso. Falta uma reflexão mais elaborada sobre os temas de vingança, poder e corrupção, que poderiam ter sido abordados de maneira menos superficial, e essa carência de profundidade deixa o filme vazio em suas motivações.

No fim das contas, Sin City: A Dama Fatal deixa uma impressão dividida. De um lado, é visualmente impressionante e traz a performance sempre excelente de Joseph Gordon-Levitt, que injeta um realismo necessário em meio à estilização extrema. Por outro lado, a obra não consegue se desvencilhar da sombra do primeiro filme, e a narrativa limitada faz com que a sequência não tenha o mesmo peso transgressor que a original. O filme é um passeio visual que agrada aos olhos, mas falta a alma de uma história mais robusta para sustentar o peso da estilização. Como sequência, ele fica aquém do esperado, e, no fim, se perde na tentativa de ser mais do mesmo – só que com menos impacto.

outubro 11, 2024

Reality+ (2014)

 


Título original: Reality+
Direção: Coralie Fargeat
Sinopse: Vincent, um jovem parisiense desconfortável com sua aparência, instala um chip cerebral chamado Reality+, que permite aos usuários verem a si mesmos e aos outros usuários com o corpo dos seus sonhos. No entanto, o Reality+ só funciona em intervalos de 12 horas, o que se torna frustrante para Vincent enquanto ele se apaixona por Stella, outra usuária.


O curta-metragem Reality+ (2014), de Coralie Fargeat, é uma obra fascinante e profundamente crítica sobre a superficialidade moderna e a obsessão pela aparência, temas que a diretora viria a expandir em seu mais recente longa, A Substância (2024). Ambientado em uma Paris futurista e brilhante, o filme explora um mundo onde a tecnologia permite que as pessoas controlem sua imagem por meio de um chip que ajusta a aparência de cada um ao gosto do próprio usuário — um truque que só dura 12 horas e revela um perigo subjacente: a ilusão é temporária, e a volta à realidade é inevitável.

A direção de Fargeat é estupenda, com uma abordagem detalhada e visionária que, mesmo em pouco mais de 20 minutos, captura a essência do fascínio e do desconforto com a autoimagem e a percepção alheia. Esse curta funciona quase como um ensaio para A Substância, abordando a mesma temática da aparência idealizada e do custo de ser eternamente prisioneiro de padrões estéticos impostos pela sociedade. A originalidade do enredo é reforçada pelo fato de que a tecnologia central não transforma apenas a aparência, mas altera a forma como o usuário se enxerga e é visto, destacando como a superficialidade se torna um meio para definir valor pessoal e relações interpessoais​.

O protagonista, Vincent (interpretado por Vincent Colombe), é a personificação dessa busca por perfeição: ansioso por melhorar sua aparência, ele acaba se tornando vítima das complexidades desse sistema visual perfeito. A narrativa é tão envolvente que deixa uma sensação de “quero mais”, como se cada nova cena pudesse ser o ponto de partida para uma exploração ainda mais profunda. Fargeat constrói esse universo com tanta riqueza de detalhes e intensidade que ele parece pulsar como um organismo vivo, sempre refletindo a cultura de aparências​.

Além disso, o curta explora aspectos técnicos com impressionante competência, o que lhe rendeu diversos prêmios e elogios. A direção de arte e a fotografia criam uma atmosfera sedutora, mas inquietante, contrastando a beleza estéril da estética futurista com a fragilidade humana por trás das telas. Cada enquadramento, cuidadosamente elaborado, é um convite a questionar o que é autêntico e o que é construído, e a tecnologia presente na narrativa se revela não como uma libertação, mas como uma nova forma de aprisionamento.

Em síntese, Reality+ é mais que uma história sobre tecnologia: é um olhar afiado e original sobre as consequências da autoimagem e do culto à beleza, prenunciando com maestria as discussões mais profundas que Fargeat traria em A Substância. Este curta-metragem não apenas encanta e provoca, mas ainda reafirma o domínio técnico e a inventividade da diretora, consolidando-a como uma das vozes mais ousadas do cinema contemporâneo sci-fi.

setembro 22, 2024

Garota Sombria Caminha Pela Noite (2014)

 


Título original: A Girl Walks Home Alone at Night
Direção: Ana Lily Amirpour
Sinopse: Coisas estranhas acontecem em Bad City. Uma cidade fantasma iraniana, lar de prostitutas, viciados, cafetões e outras almas sórdidas. Um reduto de depravação e falta de esperança, onde uma vampira solitária persegue os habitantes mais repugnantes. Mas quando um garoto conhece uma garota, uma história de amor incomum começa a florescer... vermelha como o sangue.


Ana Lily Amirpour estreou no cenário cinematográfico com Garota Sombria Caminha Pela Noite, um filme que logo de cara chama atenção pela sua premissa excêntrica e provocativa: uma vampira iraniana, vestindo hijab, perambula pelas ruas de uma cidade decadente, chamada Bad City. O filme é descrito como um "western de vampiros iraniano", e de fato, essa descrição carrega a peculiaridade que poderia ter gerado algo memorável e inovador. Acontece, porém, que o resultado final fica muito aquém do que essa ideia insinua. A originalidade estética e narrativa sucumbe a um ritmo que, como muitos filmes iranianos, se arrasta sem justificativa.

A primeira coisa que chama atenção é a ambientação. Bad City é um lugar fantasmagórico, povoado por figuras solitárias e uma sensação constante de decadência. A cidade não só é cenário, mas quase uma personagem à parte, com suas ruas desertas, fábricas abandonadas e poços de petróleo inquietantemente posicionados. Essa atmosfera de solidão e abandono poderia ter funcionado de forma exemplar se não fosse diluída por uma cadência absurdamente lenta. Cada cena se estende além do necessário, como se Amirpour estivesse desesperada para conferir ao filme uma aura de profundidade que, no final, nunca se concretiza.

Amirpour parece indecisa entre construir um filme de gênero ou uma obra de arte conceitual. Temos aqui a figura de uma vampira (vivida por Sheila Vand) que, em um contraste interessante com a representação típica desses seres, veste hijab e anda de skate pelas ruas escuras. Essa vampira não só se alimenta de sangue, mas também de uma espécie de justiça social, escolhendo suas vítimas com critério e, em alguns momentos, até exibindo uma certa ternura. O conceito de uma vampira justiceira no contexto de uma sociedade reprimida, como a que o Irã frequentemente retrata no cinema, é interessante. Contudo, a execução deixa a desejar.

Se, por um lado, o filme tenta misturar gêneros de forma ousada, por outro, sofre da insuportável lentidão que assola muitos filmes iranianos. Não há urgência nas ações, os diálogos são escassos e, quando acontecem, não fazem jus à complexidade que a trama sugere. Cada olhar, cada silêncio é esticado ao extremo, como se Amirpour estivesse mais preocupada em criar imagens do que em contar uma história com fluidez. E isso torna a experiência frustrante, pois o filme poderia ter sido muito mais dinâmico sem perder seu caráter reflexivo ou excêntrico.

Em termos técnicos, é inegável que o filme tem um apelo visual forte. O preto e branco destaca a desolação de Bad City e, em certos momentos, até evoca o trabalho de diretores clássicos, como Jim Jarmusch, ou até influências de spaghetti westerns. Contudo, a insistência em emular essas referências visuais parece mais uma tentativa de disfarçar a falta de substância narrativa. A câmera, embora elegante, não sustenta o peso do tédio que inevitavelmente se instala à medida que o filme avança.

A trilha sonora, por outro lado, é um dos pontos altos. Misturando influências do rock iraniano com músicas ocidentais, Amirpour consegue criar uma atmosfera sonora que complementa bem o clima estranho e melancólico da trama. As escolhas musicais, desde sons pulsantes a faixas mais delicadas, funcionam como uma espécie de salvaguarda para o filme, oferecendo momentos de leveza e envolvimento quando o roteiro já não tem mais forças. Contudo, nem mesmo uma boa trilha sonora é capaz de carregar um filme que se perde em sua própria pretensão.

As atuações são outro aspecto que não conseguem salvar o filme de sua própria monotonia. Sheila Vand, como a vampira, é magnética em certos momentos, mas não recebe material suficiente para explorar sua personagem de forma plena. Ela é um símbolo, mas nunca se desenvolve além disso. Os coadjuvantes também sofrem com essa falta de profundidade. Arash Marandi, que interpreta um jovem de bom coração que cruza o caminho da vampira, parece estar ali apenas para dar um mínimo de direção à trama, mas sua interação com a protagonista é superficial e nunca realmente se transforma em algo mais significativo.

O conceito de Garota Sombria Caminha Pela Noite é mais interessante do que o filme em si. A ideia de uma vampira de hijab em uma cidade iraniana poderia ter gerado uma discussão poderosa sobre repressão, isolamento e vingança. Contudo, essas temáticas são tocadas de forma rasa, perdendo-se no ritmo exasperante e em escolhas narrativas que muitas vezes parecem mais focadas na estética do que em contar uma história consistente. No fim, o filme se revela mais como um exercício de estilo do que uma obra com algo realmente a dizer.

Há quem aprecie o "estranho pelo estranho", mas a sensação ao final é de que Garota Sombria Caminha Pela Noite desperdiça suas boas ideias. Talvez seja uma obra para aqueles que procuram um filme para admirar pela sua estética, mas, para quem busca um equilíbrio entre estilo e substância, a decepção é quase inevitável.

agosto 27, 2024

O Amor É Estranho (2014)

 


Título original: Love Is Strange
Direção: Ira Sachs
Sinopse: Ben e George formam um casal há quatro décadas. Quando finalmente decidem se casar, a cerimônia é aprovada por amigos e familiares, mas acaba levando George a perder o seu emprego. Sem dinheiro, os dois são obrigados a viver separadamente até conseguirem vender a casa e comprar outra, mais barata. A nova vida em lares provisórios torna-se bastante desgastante para o casal e para os amigos envolvidos.


Dirigido por Ira Sachs, O Amor É Estranho (2014) é uma obra delicada e reflexiva que explora a complexidade dos relacionamentos humanos em meio a mudanças inesperadas da vida. O filme, com sua abordagem sutil e emocionalmente carregada, oferece uma visão profunda sobre o amor, o envelhecimento e as dificuldades que surgem ao lidar com sistemas sociais que frequentemente falham em apoiar o indivíduo. Ao focar nas nuances de um relacionamento de longa data, Sachs apresenta uma narrativa que, apesar de suas sutilezas, carrega uma ressonância emocional significativa.

A história segue Ben (John Lithgow) e George (Alfred Molina), um casal gay que, após quatro décadas juntos, finalmente consegue se casar. No entanto, a celebração da união traz uma reviravolta quando George perde seu emprego de professor em uma escola católica devido à sua orientação sexual. Esse evento desencadeia uma série de mudanças abruptas na vida do casal, que se vê forçado a vender seu apartamento e viver separadamente com amigos e familiares. A narrativa de O Amor É Estranho se desenrola a partir desse ponto de crise, explorando as tensões e desafios que surgem quando pessoas que se amam são forçadas a se adaptar a novas e difíceis circunstâncias.

Um dos aspectos mais marcantes do filme é a performance magistral de seus dois protagonistas. John Lithgow e Alfred Molina entregam atuações emocionantes e comoventes, carregadas de uma humanidade palpável. Lithgow, no papel de Ben, é doce, gentil, e revela a fragilidade de um homem que, apesar das adversidades, mantém sua ternura e otimismo. Já Molina, como George, transmite uma dignidade discreta, mas também a dor de alguém que enfrenta a perda de sua estabilidade profissional e emocional. Juntos, eles compartilham uma química que transparece o tipo de conexão construída ao longo de décadas de convivência. Suas interações são cheias de afeto e respeito mútuo, e é justamente essa intimidade que se torna o coração do filme.

A direção de Sachs se destaca pela sutileza. Ao invés de recorrer a grandes reviravoltas dramáticas ou a um melodrama excessivo, ele opta por um ritmo mais calmo, quase contemplativo. A câmera de Sachs observa seus personagens com paciência, deixando que suas emoções se desdobrem de maneira natural. Essa escolha faz com que o filme tenha uma qualidade quase documental em alguns momentos, como se estivéssemos observando a vida real ao invés de uma ficção. Essa abordagem torna O Amor É Estranho um filme íntimo, onde o drama está nos pequenos gestos, nos silêncios compartilhados, e nas dificuldades cotidianas de seus personagens.

A trilha sonora, composta principalmente por peças de Frédéric Chopin, acrescenta uma camada extra de sensibilidade à narrativa. A música clássica, com sua melancolia suave, reflete o estado emocional dos personagens e eleva o tom do filme sem nunca se sobrepor à delicadeza das cenas. A escolha de Chopin parece particularmente adequada, já que suas composições são conhecidas por expressar sentimentos de saudade e introspecção – temas que ressoam profundamente na história de Ben e George.

Outro ponto forte do filme é a maneira como aborda o envelhecimento e as implicações sociais do amor em sua fase mais madura. Ao contrário de muitos filmes que focam no romance jovem ou nos conflitos passionais, O Amor É Estranho oferece uma representação rara de um casal mais velho enfrentando os desafios de uma sociedade que ainda tem dificuldade em aceitar a diversidade. A separação forçada de Ben e George devido a limitações financeiras e sociais destaca como, apesar das conquistas no campo dos direitos LGBTQ+, ainda existem barreiras significativas que impactam a vida cotidiana de casais como eles.

Visualmente, o filme é simples, mas eficaz. A cinematografia de Christos Voudouris captura a cidade de Nova York com uma beleza sutil e nostálgica. A metrópole, com seus apartamentos apertados e parques urbanos, serve como pano de fundo para a história de Ben e George, refletindo a vida urbana contemporânea com todas as suas limitações e encantos. As cenas internas são frequentemente íntimas e claustrofóbicas, reforçando a sensação de confinamento físico e emocional que os personagens experimentam ao serem forçados a viver em espaços que não são seus.

No entanto, O Amor É Estranho também tem suas falhas. Embora o ritmo pausado contribua para a intimidade da narrativa, ele pode ser um pouco arrastado em certos momentos, fazendo com que o filme pareça se estender além do necessário. Além disso, alguns dos personagens secundários, como a família que acolhe Ben, poderiam ter sido mais desenvolvidos. As interações entre Ben e o casal mais jovem que o abriga são tocantes, mas há momentos em que essas subtramas parecem subaproveitadas, sem o mesmo nível de profundidade que o relacionamento central.

Ainda assim, esses pontos não diminuem a força emocional do filme. Ira Sachs constrói uma narrativa que, apesar de seus momentos mais lentos, ressoa com uma honestidade brutal sobre as complexidades do amor e da vida em sociedade. Ele retrata como o amor, por mais profundo e verdadeiro que seja, pode ser impactado por fatores externos – como a economia, a religião, e as normas sociais – de maneiras inesperadas e dolorosas.

No final das contas, O Amor É Estranho não é um filme sobre grandes gestos ou resoluções dramáticas. É uma obra que encontra beleza e profundidade nas pequenas coisas – nos olhares trocados entre Ben e George, nos momentos de silêncio compartilhados, e até mesmo nas dificuldades de adaptação a novas realidades. O filme deixa uma marca não pela grandiosidade de seu enredo, mas pela humanidade de seus personagens e pela maneira como retrata o amor em sua forma mais duradoura e resiliente.

Com performances excepcionais e uma direção sensível, O Amor É Estranho se consolida como um filme que, embora não seja perfeito, traz uma mensagem poderosa sobre as complexidades e os desafios do amor, especialmente em uma sociedade que ainda luta para aceitar a diversidade em todas as suas formas.