Há filmes que permanecem importantes para a história do cinema mesmo quando, vistos muitas décadas depois, já não conseguem provocar o mesmo impacto que provavelmente causaram em sua época. O Fantasma da Ópera, dirigido por Rupert Julian em 1925, é um desses casos. A adaptação do romance de Gaston Leroux possui uma enorme importância para o desenvolvimento do horror cinematográfico e apresenta momentos visualmente marcantes, mas também sofre de um problema que pesa bastante na experiência atual: é exageradamente arrastado.
A história acompanha Christine Daaé, uma jovem cantora que começa a receber a influência misteriosa de uma voz que parece surgir das profundezas da Ópera de Paris. Por trás desse fenômeno está Erik, o Fantasma interpretado por Lon Chaney, um homem desfigurado que vive escondido nos subterrâneos do teatro e desenvolve uma obsessão pela cantora. Christine acredita inicialmente que aquela presença seja uma espécie de Espírito da Música, até descobrir a verdadeira identidade do homem que a acompanha secretamente. Ao mesmo tempo, existe o romance com Raoul, criando o tradicional triângulo amoroso que conduz boa parte do conflito.
O grande problema é que a narrativa demora demais para chegar aos momentos realmente interessantes. A duração original, superior a uma hora e meia, poderia não parecer excessiva pelos padrões atuais, mas o ritmo é muito irregular. Muitas cenas se prolongam além do necessário, enquanto determinadas situações são repetidas ou desenvolvidas de maneira bastante lenta. O resultado é uma obra que frequentemente parece estar esperando pelo próximo acontecimento em vez de conduzir o espectador naturalmente até ele. O excesso de intertítulos e a estrutura melodramática também contribuem para essa sensação.
Ainda assim, existem elementos que continuam impressionantes. A produção da Universal investiu pesado na construção da Ópera de Paris, incluindo enormes cenários para o teatro, os corredores e as áreas subterrâneas. A direção de arte cria uma dimensão quase labiríntica para aquele universo, especialmente quando Christine é levada para as regiões escondidas sob o edifício. A sensação de que existe uma cidade inteira escondida abaixo da superfície da Ópera é uma das melhores ideias visuais do filme.
A fotografia também tem momentos muito interessantes. Como acontece com boa parte do cinema silencioso daquele período, a iluminação e a composição dos enquadramentos precisam assumir funções que posteriormente seriam divididas com o som. As sombras, os ambientes escuros e a própria arquitetura ajudam a criar uma atmosfera gótica bastante característica. As sequências da Ópera são especialmente grandiosas, com grandes multidões, figurinos elaborados e uma preocupação evidente em transmitir a sensação de um espetáculo monumental.
O destaque absoluto, porém, é Lon Chaney. Seu trabalho como o Fantasma continua sendo o elemento mais fascinante da produção. O ator constrói o personagem principalmente através de gestos, expressões e movimentos corporais, já que o cinema ainda não tinha diálogo sonoro para ajudá-lo. Mesmo quando permanece em silêncio, Chaney consegue transmitir ameaça, sofrimento, obsessão e desespero. Seu rosto transformado pela maquiagem também se tornou uma das imagens mais famosas do cinema de horror. A cena em que Christine retira sua máscara e revela seu rosto permanece como um dos grandes momentos da obra, principalmente porque a aparência do personagem foge completamente do padrão de beleza convencional do cinema daquela época.
Mary Philbin funciona bem como Christine, embora a personagem seja muito mais passiva do que uma protagonista contemporânea provavelmente seria. Norman Kerry, por sua vez, cumpre a função de interesse romântico e contraponto ao Fantasma, mas Raoul nunca consegue despertar o mesmo interesse que Erik. Isso acontece principalmente porque Chaney domina praticamente todas as cenas em que aparece.
Também chama atenção o uso de sequências coloridas em meio ao material em preto e branco. A versão restaurada atualmente exibida em algumas sessões incorpora os diferentes processos de coloração utilizados nas versões históricas, incluindo o Technicolor da sequência do baile. Essas passagens ajudam a quebrar visualmente a monotonia do preto e branco e mostram como o cinema da época já experimentava diferentes possibilidades para ampliar o impacto de determinadas cenas.
O problema é que toda essa importância histórica não consegue esconder as limitações da experiência cinematográfica. O filme parece muito mais interessado em construir uma sucessão de acontecimentos do que em desenvolver verdadeiramente seus personagens. A atmosfera é boa, os cenários são impressionantes e Lon Chaney oferece uma atuação memorável, mas a história se torna cansativa em diversos momentos. O melodrama também envelheceu bastante, tornando algumas relações e comportamentos excessivamente artificiais.
É curioso perceber que justamente aquilo que deveria tornar O Fantasma da Ópera assustador acaba sendo menos eficiente hoje. O horror está muito mais associado à imagem do Fantasma, aos subterrâneos e à própria ideia de um homem escondido nas entranhas da Ópera do que às situações de suspense propriamente ditas. O filme é mais interessante como documento de uma época e como demonstração do talento visual de seus realizadores do que como experiência de terror capaz de prender completamente o espectador moderno.
Ainda assim, seria injusto ignorar o peso de sua realização. A Universal construiu uma produção gigantesca para os padrões do período, com cenários elaborados, centenas de figurantes em determinadas sequências e um cuidado considerável com figurinos e ambientação. A presença de Lon Chaney também garante ao filme uma personalidade que muitas produções silenciosas da mesma época não possuem.
O Fantasma da Ópera permanece, portanto, como uma obra fundamental para compreender a evolução do horror no cinema, mas sua importância histórica é maior do que sua capacidade de entretenimento atualmente. Há imagens inesquecíveis, uma ambientação admirável e uma atuação central que continua chamando atenção, mas tudo isso está preso a uma narrativa excessivamente lenta e melodramática. É um filme que merece ser conhecido, principalmente por aquilo que representa na história da sétima arte, mas que exige bastante paciência de quem chega a ele mais de um século depois.
.jpg)