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setembro 29, 2026

Tratamento de Choque (1981)

 


Título original: Shock Treatment
Direção: Jim Sharman
Sinopse: Brad e Janet Majors veem seu casamento em crise ser colocado à prova no popular programa de TV de Denton, Marriage Maze. O pobre Brad é fortemente sedado e internado, enquanto Janet passa por uma transformação radical e é preparada para se tornar uma estrela. Mas quais seriam as verdadeiras motivações por trás da excêntrica equipe da DTV e de seu enigmático chefe, Farley Flavors?


Tratamento de Choque, dirigido por Jim Sharman em 1981, tenta repetir a fórmula de irreverência, musical, humor absurdo e crítica aos costumes que havia funcionado tão bem em The Rocky Horror Picture Show. A diferença é que, desta vez, a ideia parece muito maior do que a capacidade do filme de transformá-la em uma experiência realmente divertida. O resultado é um daqueles casos em que existe uma proposta interessante escondida dentro de um filme que simplesmente não consegue fazê-la funcionar. Que fracasso, que tédio absurdo. Durante boa parte dos seus pouco mais de noventa minutos, Tratamento de Choque parece estar esperando que alguma coisa finalmente aconteça, mas essa sensação quase nunca se transforma em entusiasmo.

A história leva Brad e Janet Majors de volta a Denton, uma cidade que, na prática, funciona como um enorme estúdio de televisão. Tudo gira em torno da programação da DTV, dos programas de auditório e de uma população que parece existir permanentemente diante das câmeras. O casal acaba participando de Marriage Maze, um programa que deveria explorar os problemas do casamento, mas que rapidamente transforma Brad em uma espécie de paciente e Janet em uma potencial celebridade. A premissa tinha bastante espaço para uma sátira inteligente sobre televisão, fama e a transformação da vida privada em espetáculo. O próprio conceito de Denton como um gigantesco palco televisivo é visualmente curioso e permite algumas situações interessantes. O problema é que o roteiro de Richard O'Brien e Sharman espalha tantas ideias, personagens e números musicais que tudo acaba ficando superficial.

A maior dificuldade está justamente no ritmo. O filme não consegue construir uma progressão que faça o espectador se importar com o que está acontecendo. As situações são estranhas, os personagens são caricatos e a narrativa parece avançar de uma atração televisiva para outra sem encontrar um verdadeiro centro dramático. A sátira sobre a televisão é evidente, mas muitas vezes é tão exagerada e repetitiva que deixa de ser engraçada. Em vez de provocar aquele sentimento de diversão caótica que marcou Rocky Horror, a sucessão de cenas extravagantes frequentemente provoca apenas cansaço. A própria ideia de uma cidade inteira funcionando como um programa de televisão poderia render uma crítica mordaz à cultura da audiência e à fabricação de celebridades, mas o filme insiste tanto na estética de estúdio que acaba ficando preso dentro dela.

Jessica Harper assume Janet e é provavelmente o elemento mais simpático do elenco. Ela demonstra boa presença e segurança nos momentos musicais, além de conseguir acompanhar o tom deliberadamente exagerado da produção. Cliff De Young interpreta Brad e também Farley Flavors, o misterioso homem que controla boa parte daquele universo televisivo. A ideia de colocar o mesmo ator nos dois papéis é interessante e acrescenta uma pequena camada de estranheza à história, mas o roteiro não aproveita essa possibilidade com a força necessária. Richard O'Brien, Patricia Quinn, Charles Gray e Nell Campbell retornam em novos personagens, enquanto Barry Humphries, Ruby Wax e Rik Mayall completam um elenco cheio de figuras excêntricas.

Visualmente, Tratamento de Choque até apresenta alguns méritos. Os cenários são deliberadamente artificiais, coloridos e exagerados, combinando com a proposta de transformar Denton em uma espécie de parque temático da televisão. A direção de arte de Brian Thomson e os figurinos associados ao trabalho de Sue Blane ajudam a criar uma identidade própria para o filme. A fotografia de Mike Molloy também entende que aquele mundo não pretende parecer naturalista. Tudo parece construído para as câmeras, e isso faz parte da própria piada. O problema é que uma boa aparência não consegue compensar a falta de energia da narrativa. O filme pode ser visualmente curioso, mas raramente é empolgante.

E há ainda a música, que deveria ser um dos grandes trunfos. Algumas faixas realmente funcionam. Denton, U.S.A., que apresenta a cidade como uma espécie de grande espetáculo televisivo, é uma das mais marcantes, enquanto a faixa-título, Shock Treatment, também consegue transmitir um pouco da energia que o filme procura. Há mais uma ou outra composição que merece ser lembrada, especialmente quando as vozes e a encenação encontram um ritmo mais envolvente. Mas são apenas duas ou três músicas que realmente se salvam. O restante passa sem deixar grande impressão. A trilha foi composta principalmente por Richard Hartley e Richard O'Brien, com as canções desenvolvidas por O'Brien e Hartley, mas falta à maioria delas aquela combinação de melodia irresistível, personalidade e espontaneidade que ajudava The Rocky Horror Picture Show a transformar números musicais em momentos memoráveis.

E é impossível não fazer essa comparação. Tratamento de Choque pode até tentar seguir por outro caminho e não ser exatamente uma continuação convencional, mas vem diretamente da mesma equipe criativa e utiliza personagens e atores ligados ao filme anterior. O próprio Sharman deixou claro que as intenções dos dois filmes eram diferentes. Ainda assim, para o espectador, a comparação é inevitável. E a queda é abissal. Onde The Rocky Horror Picture Show tinha energia, personalidade, sensualidade, humor e músicas que permaneciam na cabeça, Tratamento de Choque frequentemente parece uma versão cansada e excessivamente complicada daquela mesma irreverência.

O mais frustrante é perceber que havia uma boa ideia no centro de tudo. A televisão transformando pessoas em produtos, a obsessão pela fama, a exploração da intimidade e a necessidade de estar permanentemente diante de uma câmera continuam sendo temas interessantes. Em alguns momentos, o filme até parece antecipar uma realidade que se tornaria muito mais comum décadas depois. Só que ter uma boa ideia não basta. É preciso saber desenvolvê-la, e Tratamento de Choque transforma uma premissa potencialmente divertida em uma experiência cansativa.

No fim, sobra a impressão de uma produção que tentou ser tão excêntrica quanto seu antecessor que acabou esquecendo de ser divertida. Há bons atores, uma identidade visual peculiar, algumas músicas interessantes e uma sátira que poderia ter sido muito mais afiada. Mas tudo isso fica soterrado por um roteiro irregular, personagens pouco envolventes e um ritmo que parece constantemente emperrado. Tratamento de Choque não é completamente desprovido de qualidades, mas está muito longe da energia e do charme de The Rocky Horror Picture Show. É uma experiência curiosa para quem quer conhecer mais do universo criado por Richard O'Brien e Jim Sharman, mas, como filme musical e como comédia, acaba sendo muito mais frustrante do que divertida.