É curioso como certas continuações parecem existir apenas para confirmar aquilo que já desconfiávamos. O Diabo Veste Prada 2 chega quase duas décadas depois do original com a promessa de revisitar um universo que marcou época, mas acaba funcionando mais como um eco esvaziado do que como uma evolução real. Dirigido novamente por David Frankel e reunindo nomes como Meryl Streep, Anne Hathaway, Emily Blunt e Stanley Tucci, o filme tenta atualizar o universo da moda para um cenário dominado por crises editoriais, digitalização e perda de relevância das revistas impressas . O problema é que, no meio desse esforço de modernização, ele perde justamente aquilo que fazia o original funcionar.
A maior prova disso está na própria Miranda Priestly. A personagem, que antes era magnética, cruel na medida certa e absurdamente fascinante, surge aqui irreconhecível. Não por uma tentativa ousada de reinvenção, mas por um esvaziamento evidente. É uma Miranda mais “humana”, mais contida, mais simples, e isso destrói completamente o eixo dramático. Parte do charme do primeiro filme vinha da aura quase mitológica que Meryl Streep construía com mínimos gestos e olhares. Aqui, essa força desaparece. O roteiro tenta justificar essa mudança com o declínio do mercado editorial e pressões corporativas , mas a sensação é de que tiraram o veneno da personagem sem colocar nada no lugar.
E talvez seja aí que se entenda por que a própria Streep raramente se envolve em continuações. Existe um momento em que revisitar um papel deixa de ser revisitar e passa a diluir. Em vários trechos, percebe-se uma atuação correta, profissional, mas sem o brilho que antes dominava cada cena. Não é uma questão de talento, que continua intacto, mas de material. Quando o texto não sustenta, até uma gigante como ela parece presa a algo que já perdeu o timing.
A narrativa acompanha Andy Sachs retornando ao universo da Runway em meio a uma nova fase da carreira, agora mais madura e inserida em um jornalismo em crise . A ideia tinha potencial. Havia espaço para discutir ambição, ética e adaptação a novos tempos. Mas o desenvolvimento é arrastado, com conflitos que nunca ganham peso real. Tudo parece diluído em diálogos excessivos e situações que se repetem sem chegar a lugar algum. O filme tem pouco mais de duas horas, mas a sensação é de algo ainda mais longo, tamanha a falta de ritmo.
E é justamente esse ritmo que compromete a experiência. O longa se arrasta de forma quase preguiçosa, como se estivesse sempre prestes a engrenar e nunca conseguisse. As cenas se acumulam sem urgência, sem tensão e sem aquela dinâmica ácida que fazia o original ser tão envolvente. Em vez de acompanhar uma escalada dramática, o espectador se vê preso a uma sequência de momentos mornos, próximos do entediante.
Curiosamente, quem acaba roubando a cena em meio a esse marasmo é Lady Gaga. Sua participação, que poderia facilmente ser apenas um artifício promocional, surge como um dos poucos elementos vivos do filme. Além de contribuir com a trilha, incluindo a música “Runway” , ela entrega uma presença cênica segura e carismática. Gaga já demonstrou em outras ocasiões que sabe atuar, mas aqui chama atenção justamente por conseguir trazer energia a um projeto que parece constantemente cansado de si mesmo.
O restante do elenco até tenta manter algum nível de interesse. Emily Blunt e Stanley Tucci ainda encontram momentos pontuais de brilho, especialmente pela familiaridade com seus personagens. Mas nem isso é suficiente para sustentar o filme. Há uma sensação constante de repetição, como se tudo fosse uma versão diluída do que já foi feito antes, sem o frescor ou a ironia que marcavam o original.
Outro problema evidente é a falta de novidade. Apesar de abordar temas contemporâneos como inteligência artificial e a crise do jornalismo, o filme não consegue aprofundar nenhuma dessas ideias. Tudo é tratado de maneira superficial, quase como pano de fundo decorativo. O roteiro parece mais interessado em revisitar situações conhecidas do que em realmente dizer algo novo sobre esse universo.
No fim, O Diabo Veste Prada permanece intocado justamente porque sabia quando parar. Sua continuação, ao contrário, expõe o risco de retornar a histórias que já se encerraram com perfeição. O resultado é um filme que até tenta recuperar a elegância e o sarcasmo de antes, mas que termina como uma versão simplificada e sem impacto daquilo que um dia foi icônico.
E talvez essa seja a maior decepção. Não é um desastre completo, mas é um filme que não convence, não se justifica e, principalmente, não acrescenta nada. Em vez de reafirmar o legado, acaba apenas lembrando que nem toda história precisa de um segundo capítulo.
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