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setembro 20, 2026

Antártida (2026)

 


Título original: Antártida
Direção: Bruno Safadi
Sinopse: Na Estação Comandante Diniz, na Antártida, a cientista Inês é vítima de um crime brutal. Isolados pelo frio extremo e sem possibilidade de resgate imediato, todos os homens da base se tornam suspeitos, inclusive as maiores autoridades da missão. A subcomandante Elisabeth assume a difícil investigação enquanto as mulheres da estação precisam enfrentar o medo, o silêncio e a violência em um ambiente onde ninguém parece estar acima de qualquer suspeita. Em meio ao isolamento e às tempestades, elas descobrem que o verdadeiro perigo está entre elas.


Antártida, de Bruno Safadi, é um daqueles filmes que parecem ter chegado aos cinemas já carregando uma expectativa difícil de administrar. Cercado por uma produção de grande porte, um elenco bastante conhecido e uma proposta visual ambiciosa, o longa acabou recebendo uma reação bastante dura em sua passagem pelo Festival de Gramado e posteriormente entre parte da crítica. O curioso é que, embora esteja longe de ser uma obra-prima e tenha problemas bastante evidentes, a impressão que fica depois da sessão é de que houve um certo exagero na rejeição. Antártida não é o melhor filme nacional do ano, mas está muito longe do massacre que alguns críticos estão fazendo com ele.

A história acompanha uma equipe de cientistas e militares isolada em uma estação brasileira na Antártida durante o rigoroso inverno polar. Logo na primeira noite, a pesquisadora Inês, interpretada por Marina Ruy Barbosa, sofre uma violência sexual e não consegue identificar o responsável. A partir daí, a subcomandante Elisabeth, vivida por Andréa Beltrão, inicia uma investigação para descobrir quem cometeu o crime, já que o responsável está necessariamente entre as pessoas confinadas naquele ambiente. A estrutura lembra os tradicionais mistérios de identidade, mas substitui o assassinato convencional por uma situação de violência que passa a colocar todos os homens da estação sob suspeita.

É justamente nesse ponto que o filme encontra seu principal mérito e também sua maior fraqueza. O roteiro de Cláudia Jouvin tem uma preocupação muito clara em discutir machismo, relações de poder, violência e a dificuldade enfrentada por mulheres quando suas denúncias são colocadas em dúvida. Em alguns momentos, porém, essa preocupação se transforma em diálogos excessivamente explicativos. O filme frequentemente diz ao espectador aquilo que a própria situação já seria capaz de transmitir. A mensagem poderia ser mais forte se houvesse maior confiança nas imagens, nos silêncios e nas próprias interpretações.

Ainda assim, existe uma boa atmosfera de isolamento. A estação funciona como um espaço fechado em que qualquer tensão ganha proporções maiores. O frio, a distância do restante do mundo e a impossibilidade de simplesmente abandonar aquele lugar contribuem para criar uma sensação permanente de desconforto. O filme foi inteiramente realizado em estúdio no Rio de Janeiro, com o uso de tecnologia virtual para construir a paisagem antártica, e o resultado é bastante convincente. Em vez de parecer apenas uma demonstração tecnológica, a ambientação consegue, na maior parte do tempo, integrar os personagens ao cenário de maneira natural.

A fotografia aproveita bem o contraste entre os interiores da estação e o ambiente branco, amplo e hostil do lado de fora. A direção de Bruno Safadi procura transformar aquele espaço em uma espécie de prisão involuntária, em que as relações pessoais se tornam tão perigosas quanto as condições naturais. Também é interessante a maneira como o longa introduz situações paralelas envolvendo os integrantes da equipe, ampliando a sensação de que todos carregam algum tipo de conflito escondido.

Mas o grande destaque do elenco é, sem dúvida, Andréa Beltrão. Elisabeth é uma personagem que poderia facilmente cair em estereótipos de autoridade, mas a atriz encontra humanidade, firmeza e vulnerabilidade na medida certa. Mesmo quando o roteiro entrega falas pouco naturais, Beltrão consegue sustentá-las e fazer com que a personagem pareça maior do que aquilo que está escrito. Leandra Leal também contribui bastante, especialmente na relação entre as mulheres da estação.

Já Marina Ruy Barbosa é o ponto fraco do elenco, como era de se esperar. Inês é uma personagem central para o funcionamento da trama, mas a interpretação frequentemente parece limitada justamente nos momentos em que seria necessária maior intensidade emocional. Há cenas em que a personagem deveria transmitir medo, confusão ou fragilidade e a atuação acaba permanecendo excessivamente contida. Isso prejudica um pouco a força dramática de uma história que depende bastante da experiência daquela personagem.

O roteiro também poderia desenvolver melhor alguns dos personagens secundários. Como a narrativa tenta abordar muitos conflitos ao mesmo tempo, determinadas situações acabam surgindo com força e depois desaparecendo rapidamente. Há a sensação de que o projeto originalmente tinha material para respirar mais, algo compreensível diante da informação de que a história chegou a ser pensada para o formato de série antes de se transformar em longa-metragem.

Mesmo com essas limitações, há algo particularmente interessante em Antártida: pelo menos é um filme nacional que não está concentrado em pobreza ou ditadura. O cinema brasileiro frequentemente retorna a determinados temas sociais e históricos, muitos deles importantes e necessários, mas também existe espaço para histórias de suspense, investigação e sobrevivência ambientadas em universos diferentes. Aqui, a escolha de colocar uma trama desse tipo em uma estação científica brasileira no continente antártico já representa uma mudança bem-vinda.

E a própria Antártida poderia ser ainda mais explorada. O continente funciona muito mais como cenário do que como elemento essencial da narrativa, quando poderia contribuir ainda mais para a tensão. Mesmo assim, o isolamento geográfico é utilizado de maneira suficiente para justificar a estrutura da história e criar um ambiente incomum dentro do cinema brasileiro.

Antártida possui problemas de roteiro, algumas situações pouco desenvolvidas e uma protagonista que não consegue acompanhar a força de seus colegas de elenco. Também há momentos em que a mensagem social é apresentada de maneira excessivamente didática. Mas existe uma produção cuidadosa, uma ambientação visual bastante convincente, uma atmosfera interessante e, principalmente, uma Andréa Beltrão excelente. É um filme irregular, mas competente, que merece ser avaliado pelo conjunto e não reduzido aos seus tropeços. Não é uma obra-prima nem pretende ser, porém tampouco merece ser tratado como um desastre. Entre seus acertos e limitações, Antártida acaba sendo uma experiência nacional bastante válida, justamente por tentar fazer algo diferente dentro de um cinema que nem sempre se permite sair dos caminhos mais conhecidos.