É curioso como alguns filmes conseguem chegar ao público carregando consigo uma história quase tão improvável quanto a que contam na tela. Coyote vs. Acme é exatamente esse tipo de caso. Um filme que ficou anos engavetado, parecia destinado a desaparecer e finalmente encontrou seu caminho até os cinemas em 2026. E existe uma ironia perfeita nisso, porque estamos falando de um personagem que passou décadas sendo esmagado, explodido, enganado e humilhado pelos produtos da ACME e que finalmente decide enfrentar a empresa responsável por todas as suas desgraças.
Eu esperava pouco. Muito pouco, na verdade. E talvez essa seja uma das maiores surpresas da experiência, porque Coyote vs. Acme é absolutamente sensacional. Não é apenas uma comédia nostálgica tentando explorar a memória afetiva de quem cresceu assistindo aos Looney Tunes. É um filme que entende seus personagens e, principalmente, entende que por trás de toda aquela loucura existe uma história muito humana sobre alguém que passou a vida inteira sendo tratado como o problema.
Sempre me identifiquei com o Coyote. E sempre o achei injustiçado. Existe algo particularmente melancólico naquele personagem que simplesmente não consegue vencer, não importa quanto tente. Ele planeja, pesquisa, compra os produtos mais absurdos da ACME, prepara suas armadilhas e, no instante seguinte, tudo dá errado. O Papa-Léguas escapa, Coyote sofre as consequências e nós rimos. O filme pega justamente essa velha piada e pergunta se talvez tenhamos passado décadas rindo da pessoa errada.
Dirigido por Dave Green, o longa acompanha Wile E. Coyote entrando em uma batalha judicial contra a ACME depois de tantos produtos defeituosos destruírem sua vida. Para isso, ele conta com o advogado Kevin Avery, vivido por Will Forte, enquanto John Cena interpreta o advogado da poderosa empresa. A partir daí, o que parecia uma premissa absurda se transforma em uma divertida comédia jurídica, mas também em uma história sobre amizade, injustiça e pessoas tentando ser ouvidas.
Will Forte funciona muito bem porque não transforma Kevin em um herói perfeito. Ele é inseguro, desacreditado e precisa recuperar a própria confiança. A relação que desenvolve com Coyote dá ao filme uma dimensão emocional que eu sinceramente não esperava encontrar. John Cena também se diverte bastante como o advogado da ACME, equilibrando o exagero necessário para uma produção desse tipo com uma atuação que nunca deixa o personagem cair completamente na caricatura.
Mas o grande astro continua sendo Coyote. O filme respeita a essência do personagem e entende que ele não precisa falar o tempo inteiro para ser engraçado. Seus olhares, movimentos e expressões continuam carregando aquela linguagem dos desenhos clássicos. E é justamente aí que o longa acerta em cheio.
Também fiquei muito surpreso com a maneira como a animação 3D é utilizada. Ela é bem sutil. Coyote e os demais personagens continuam parecendo desenhos, mas estão muito mais integrados ao mundo real do que em muitos filmes que tentaram fazer essa mistura. Para mim, Coyote vs. Acme é muito melhor que Uma Cilada Para Roger Rabbit. Não pela importância histórica, que pertence ao clássico de Robert Zemeckis, mas porque aqui a integração entre os dois mundos parece mais natural e menos preocupada em mostrar o próprio virtuosismo técnico.
A fotografia de Brandon Trost ajuda bastante nesse resultado, utilizando iluminação, perspectiva, sombras e interação física para fazer os personagens animados realmente parecerem parte daquele ambiente. O filme não precisa ficar o tempo inteiro lembrando que existe uma tecnologia por trás daquilo. Ela simplesmente funciona.
Mas o que mais me conquistou foi a crítica social. Coyote vs. Acme fala sobre grandes corporações, desigualdade de forças e pessoas que não conseguem ser ouvidas simplesmente porque não possuem dinheiro ou influência. E faz isso sem transformar a história em um discurso pesado.
É também uma excelente crítica aos julgamentos precoces. Coyote passou décadas sendo visto como um sujeito obcecado e responsável pelos próprios fracassos. O filme nos obriga a olhar novamente para essa história e perguntar se ele realmente era o culpado por tudo aquilo. É um tapa na cara de quem julga os outros sem conhecer o contexto.
E essa ideia funciona porque Coyote não é transformado em santo. Ele continua sendo Coyote. Continua cometendo erros e tomando decisões questionáveis. A diferença é que, pela primeira vez, alguém está disposto a ouvi-lo.
O roteiro de Samy Burch consegue equilibrar humor, aventura, crítica social e emoção sem esquecer que, acima de tudo, estamos diante de uma história dos Looney Tunes. A trilha de Steven Price acompanha bem essa mistura, enquanto a montagem mantém o filme movimentado, principalmente nas sequências de humor físico.
A única coisa que realmente me impede de considerar o filme completamente perfeito é o ritmo em alguns poucos momentos. Há cenas que se esticam um pouco além do timing ideal, quando poderiam terminar alguns segundos antes. É um detalhe pequeno, mas perceptível justamente porque o restante funciona tão bem.
No fim, Coyote vs. Acme é uma das maiores surpresas que tive com um filme desse tipo. Eu esperava pouco e encontrei algo absolutamente sensacional. É nostálgico sem viver apenas da nostalgia, engraçado sem ser infantil e crítico sem perder a leveza.
Sempre achei o Coyote injustiçado. Depois desse filme, acho ainda mais.
E talvez essa seja sua maior vitória. Pela primeira vez, ele deixa de ser apenas a piada e passa a ser o protagonista da própria história. Depois de décadas caindo de penhascos e sendo vítima das próprias armadilhas, finalmente chegou o momento de alguém ouvir o seu lado.
Quase perfeito. E, para um personagem que passou a vida inteira perdendo, já é uma vitória e tanto.
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