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setembro 19, 2026

Do Outro Lado do Pavilhão (2025)

 


Título original: Do Outro Lado do Pavilhão
Direção: Emília Silveira
Sinopse: O documentário dá voz a mulheres marginalizadas pelo sistema penal. Érica e Núbia se conhecem na prisão e criam um laço que ultrapassa as grades. Em liberdade condicional, relatam abusos, celas superlotadas e a perda da identidade feminina. Sem advogados, enfrentam essa rotina com coragem e humor. Suas histórias revelam a realidade do encarceramento feminino no Brasil.


Há filmes que precisam de grandes recursos para provocar reflexão e há outros que conseguem fazer isso simplesmente colocando pessoas diante da câmera e permitindo que contem suas próprias histórias. Do Outro Lado do Pavilhão, dirigido por Emília Silveira, pertence claramente ao segundo grupo. O documentário acompanha Érica e Núbia, duas mulheres que se conheceram durante o período em que estiveram presas e que mantiveram o vínculo depois de deixarem o sistema penitenciário. A partir das experiências das duas, o filme procura mostrar que a prisão não termina necessariamente quando os portões se abrem. Muitas das marcas deixadas pelo encarceramento continuam presentes na vida de quem tenta reconstruir a própria trajetória fora das grades.

Com cerca de 71 minutos, o longa é bastante enxuto e não tenta transformar sua proposta em algo maior do que ela realmente é. Emília Silveira concentra praticamente toda a narrativa nas duas protagonistas, que falam sobre as condições enfrentadas durante o período de prisão, os abusos, a superlotação, as privações e a perda progressiva da própria identidade. O interesse do documentário está justamente nessa proximidade. Em vez de transformar Érica e Núbia em meras estatísticas de um problema social, a câmera procura conhecê-las como pessoas, com suas lembranças, frustrações, dificuldades e também momentos de humor.

Essa escolha dá ao filme uma humanidade importante. As duas não aparecem apenas como vítimas de uma estrutura, mas como mulheres tentando seguir em frente em circunstâncias bastante difíceis. Existe uma diferença significativa entre simplesmente falar sobre o sistema prisional e permitir que pessoas que passaram por ele contem aquilo que viveram. Do Outro Lado do Pavilhão funciona melhor quando deixa que essa experiência seja transmitida diretamente pelas protagonistas, sem a necessidade de explicar o tempo todo aquilo que o espectador já consegue compreender a partir de seus relatos.

A direção de Emília Silveira é discreta e privilegia os depoimentos. A fotografia de Dennis Meier Junior acompanha esse caminho com imagens que procuram aproximar o espectador das personagens, enquanto a montagem de Vinícius Nascimento, João Felipe Freitas e Xavi Cortés mantém o filme relativamente direto. Há também momentos em que Érica e Núbia participam de pequenas encenações, recurso que ajuda a trazer para a tela algumas lembranças e situações relacionadas às suas experiências. Não se trata de uma reconstrução grandiosa, mas de uma maneira simples de complementar aquilo que é contado verbalmente.

A estrutura, porém, também revela algumas limitações. Como o filme depende muito da fala das protagonistas, determinadas passagens acabam ficando repetitivas e algumas ideias poderiam ter sido desenvolvidas com maior profundidade. A produção apresenta questões importantes sobre encarceramento feminino, ressocialização, desigualdade e abandono social, mas nem sempre consegue explorar todas elas de maneira igualmente consistente. Em alguns momentos, parece haver mais interesse em apresentar uma tese do que em desenvolver organicamente aquilo que as próprias personagens oferecem.

Esse é provavelmente o principal problema de Do Outro Lado do Pavilhão. Existe material humano suficiente para construir um documentário ainda mais envolvente, mas a duração reduzida e uma estrutura bastante convencional acabam limitando suas possibilidades. O filme apresenta situações e reflexões relevantes, mas muitas vezes apenas passa por elas antes de seguir adiante. 

Ainda assim, há uma qualidade importante na maneira como o documentário evita transformar sofrimento em espetáculo. A experiência das protagonistas é difícil, mas o filme não depende de imagens chocantes ou de uma exploração exagerada da dor para provocar impacto. Existe espaço inclusive para momentos de descontração, especialmente na relação entre Érica e Núbia. Essa amizade construída dentro de um ambiente tão hostil acaba se tornando um dos elementos mais interessantes da produção, justamente porque dá ao filme uma dimensão que vai além da denúncia.

O título também funciona como uma espécie de síntese da proposta. O pavilhão não representa apenas o espaço físico da prisão, mas uma barreira que continua existindo de outras formas depois da saída. O passado acompanha as personagens, seja pelas dificuldades econômicas, pela falta de oportunidades ou pela ausência de uma rede de apoio capaz de facilitar a reconstrução da vida. A liberdade, portanto, aparece como algo mais complexo do que simplesmente estar fora de uma cela.

É um tema que merece atenção e que ganha relevância justamente por ser apresentado através de experiências individuais. O documentário não pretende oferecer uma solução para o problema do encarceramento feminino, nem teria condições de fazê-lo em pouco mais de uma hora. Seu mérito está em abrir espaço para que duas mulheres contem o que viveram e mostrem como determinadas consequências permanecem mesmo depois do cumprimento da pena.

Do Outro Lado do Pavilhão não é um dos melhores documentários brasileiros, mas é adequado e enxuto. Sua importância está muito mais no assunto que escolhe abordar e na oportunidade que oferece às suas protagonistas do que em uma linguagem cinematográfica especialmente inventiva. Há boas escolhas de direção, montagem e fotografia, mas nenhuma delas chega a transformar o filme em uma experiência documental excepcional.

No fim, o longa funciona porque Érica e Núbia conseguem sustentar a narrativa com suas personalidades e experiências. São elas que dão ao filme seu verdadeiro sentido e impedem que a produção se transforme apenas em uma sucessão de informações sobre o sistema penitenciário. Mesmo com algumas limitações e uma abordagem que poderia aprofundar melhor determinadas questões, Do Outro Lado do Pavilhão cumpre sua proposta com seriedade, objetividade e sensibilidade. É um documentário simples, direto e necessário, que encontra sua maior força justamente naquilo que tem de mais básico: ouvir quem passou pelo outro lado das grades.