É incrível perceber como a maioria dos filmes dos anos 90 envelheceu mal. Da Magia à Sedução, dirigido por Griffin Dunne em 1998, é um daqueles casos em que a distância de quase três décadas não apenas evidencia algumas escolhas datadas, mas também faz parecer ainda mais estranha a combinação de elementos que o filme tenta colocar na mesma história. Com Sandra Bullock e Nicole Kidman interpretando as irmãs Sally e Gillian Owens, a produção mistura bruxaria, romance, comédia, drama familiar, suspense policial e uma dose de terror sobrenatural. O problema é que essa mistura nunca encontra um equilíbrio convincente.
Para começar, é preciso admitir uma coisa: detesto filme de magia, fantasia ou romance. E este aqui é tudo isso junto. Portanto, já existe uma enorme dificuldade de identificação com a proposta desde o princípio. Ainda assim, seria possível reconhecer qualidades em uma obra mesmo quando seu gênero não agrada. O problema é que Da Magia à Sedução não consegue superar a própria artificialidade. É um filme bem bobo e estúpido, que parece acreditar o tempo todo que está sendo encantador, divertido e excêntrico, quando muitas de suas situações simplesmente provocam uma enorme vontade de revirar os olhos.
A história acompanha Sally e Gillian, duas irmãs descendentes de uma longa linhagem de mulheres consideradas bruxas. A família carrega uma maldição que faz com que qualquer homem que se apaixone por uma mulher Owens esteja condenado a morrer. Sally tenta justamente escapar dessa herança e levar uma vida aparentemente normal, enquanto Gillian assume uma postura muito mais livre e impulsiva. Quando o relacionamento de Gillian com Jimmy Angelov, interpretado por Goran Višnjić, termina de maneira trágica, as duas acabam recorrendo aos conhecimentos mágicos da família e desencadeiam uma série de acontecimentos cada vez mais absurdos.
A premissa até poderia render uma fantasia divertida, mas o roteiro parece incapaz de decidir que filme pretende ser. Em determinados momentos, existe uma tentativa de comédia leve e quase adolescente. Em outros, a história entra em situações de violência, abuso, morte, possessão e sobrenatural. Depois, tudo volta para o romance como se nada tivesse acontecido. Essa mudança constante de tom é um dos maiores problemas da produção. O filme não estabelece uma atmosfera própria, apenas pula de uma situação para outra esperando que o espectador aceite tudo como parte de uma grande brincadeira.
Sandra Bullock e Nicole Kidman são provavelmente o principal motivo pelo qual a produção consegue permanecer minimamente interessante. As duas têm presença suficiente para dar alguma personalidade às irmãs, especialmente porque Sally e Gillian possuem temperamentos bastante diferentes. Bullock tenta fazer de Sally uma personagem mais contida, enquanto Kidman se diverte um pouco mais com a extravagância de Gillian. Dianne Wiest e Stockard Channing também ajudam como as excêntricas tias Jet e Frances, personagens que parecem ter saído de outro filme e entrado neste por engano.
Visualmente, Da Magia à Sedução possui uma característica curiosa. A casa da família Owens é, de longe, um dos elementos mais interessantes de toda a produção. O cenário foi construído especialmente para o filme e recebeu enorme atenção na criação de seus interiores, com objetos, plantas, móveis e detalhes que procuram transformar a residência em uma espécie de extensão da personalidade daquela família. É um ambiente bonito, carregado e exagerado, exatamente como o filme parece querer ser. A fotografia de Andrew Dunn também aproveita bem essa atmosfera, utilizando uma aparência típica do cinema fantástico dos anos 90, com iluminação suave e uma paleta que tenta transformar praticamente tudo em algo mágico.
Mas existe uma diferença enorme entre ter uma aparência característica e conseguir transformar essa aparência em cinema envolvente. Da Magia à Sedução frequentemente parece mais preocupado em criar uma estética de catálogo do que em construir uma história realmente interessante. A trilha sonora de Alan Silvestri, acompanhada por várias canções pop, reforça essa sensação de produção feita para criar uma determinada atmosfera comercial. Em vez de deixar as cenas respirarem, a música muitas vezes parece dizer ao espectador exatamente o que deveria sentir.
O romance entre Sally e o policial Gary Hallet, vivido por Aidan Quinn, também não ajuda muito. O relacionamento tenta funcionar como contraponto à maldição familiar, mas acaba sendo apenas mais uma camada de uma história já excessivamente carregada. Existe ainda a tentativa de discutir independência feminina, violência contra a mulher, preconceito e a relação entre as mulheres da família. São temas potencialmente interessantes, mas tratados de maneira superficial diante da quantidade de elementos que o roteiro tenta administrar.
E talvez esse seja o maior problema de Da Magia à Sedução: nada parece ter peso suficiente. A morte, a violência, a magia, a maldição, a possessão e o romance aparecem, desaparecem e reaparecem conforme a conveniência do roteiro. Até mesmo os momentos que deveriam ser dramaticamente importantes são frequentemente acompanhados por uma leveza que impede qualquer envolvimento maior. O filme quer ser sombrio e engraçado ao mesmo tempo, romântico e assustador, familiar e sobrenatural. No fim, fica uma mistura bastante estranha.
Griffin Dunne, que já havia demonstrado talento como ator e também tinha experiência anterior na direção, conduz tudo com alguma competência visual, mas não consegue resolver os problemas fundamentais do material. Há movimentação de câmera, bons cenários e efeitos que pertencem claramente ao período em que o filme foi produzido, mas falta uma identidade mais forte por trás de toda essa decoração. É um filme que parece muito preocupado em ser charmoso, mas cujo charme envelheceu de maneira particularmente difícil.
Assistir a Da Magia à Sedução hoje também produz uma sensação curiosa de distância temporal. O que em 1998 provavelmente parecia uma combinação moderna de fantasia, romance e comédia atualmente soa exageradamente artificial. Os figurinos, os cabelos, a trilha sonora, os diálogos e principalmente a maneira como os personagens encaram determinadas situações deixam muito evidente o quanto o cinema comercial dos anos 90 tinha uma linguagem própria. E, neste caso, não é uma linguagem que tenha envelhecido bem.
No fim das contas, Da Magia à Sedução é exatamente o tipo de filme que confirma por que determinados gêneros simplesmente não funcionam comigo. Magia, fantasia e romance já não estão entre as minhas preferências, e juntar os três em uma única produção certamente não ajudou. Apesar de contar com duas ótimas atrizes, cenários muito bem construídos e alguns momentos visualmente interessantes, existe pouco aqui capaz de compensar um roteiro confuso, uma mistura de tons que raramente funciona e uma história que leva a sério demais uma quantidade enorme de situações completamente absurdas. É um filme bem bobo e estúpido, que hoje parece muito mais um retrato de seu próprio período do que uma obra capaz de continuar encantando. E talvez essa seja justamente a melhor maneira de resumir a experiência: Da Magia à Sedução não conseguiu fazer a magia sobreviver ao tempo.
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