Existe algo quase melancólico em assistir a Indiana Jones e a Relíquia do Destino, mas não necessariamente pela despedida de Harrison Ford do personagem que interpretou durante mais de quatro décadas. A melancolia vem principalmente da sensação de que este filme não precisava existir da maneira como foi concebido. James Mangold assume a direção no lugar de Steven Spielberg e tenta construir uma aventura que funcione ao mesmo tempo como continuação, homenagem e encerramento, mas o resultado é uma produção grandiosa demais para uma história que, no fundo, parece ter muito pouco a dizer. É um filme bobo, exagerado e frequentemente cansativo, que tenta recuperar a magia das aventuras anteriores através da nostalgia, mas quase sempre deixa evidente que está tentando demais.
A abertura, ambientada no final da Segunda Guerra Mundial, deveria funcionar como uma espécie de reencontro com o Indiana Jones clássico. O personagem aparece mais jovem graças a uma extensa operação de rejuvenescimento digital realizada pela Industrial Light & Magic, com aproximadamente 25 minutos do filme mostrando Harrison Ford digitalmente rejuvenescido. Só que o efeito é justamente um dos maiores problemas da produção. O CGI é horrendo. Em vez de fazer Ford parecer simplesmente mais jovem, o resultado muitas vezes faz ele parecer um boneco, uma representação artificial de Harrison Ford correndo, lutando e fazendo as mesmas expressões que conhecemos de décadas atrás. Há uma estranheza permanente naquele rosto excessivamente liso, especialmente nos olhos, que denuncia o efeito a todo instante. A tecnologia utilizada é impressionante do ponto de vista do trabalho necessário para produzi-la, mas o que aparece na tela é muito menos convincente. A intenção era fazer o espectador acreditar que estava vendo o Indiana Jones dos anos 1980, mas frequentemente parece que estamos olhando para uma versão digital do personagem.
Quando a história finalmente chega a 1969 e Ford aparece com sua idade real, o filme melhora consideravelmente. Não porque a aventura se torne subitamente extraordinária, mas porque o ator consegue devolver ao personagem uma humanidade que os efeitos digitais haviam retirado. Existe um certo cansaço em seu Indiana Jones, uma tristeza relacionada à passagem do tempo e ao afastamento de Marion, e Ford consegue transmitir isso com uma naturalidade que nenhum recurso visual seria capaz de reproduzir. É provavelmente aí que está o elemento mais interessante de Relíquia do Destino: não na tentativa de fazer Indiana Jones voltar a ser jovem, mas na possibilidade de mostrar o que aconteceu com ele depois que a juventude acabou.
A trama gira em torno da anticítera, um mecanismo atribuído a Arquimedes capaz de provocar alterações na própria estrutura do tempo. Indiana acaba envolvido na busca pelo objeto ao lado de Helena Shaw, interpretada por Phoebe Waller-Bridge, enquanto o vilão Jürgen Voller, vivido por Mads Mikkelsen, pretende utilizar o artefato para interferir na história. A premissa é típica da franquia, que sempre encontrou objetos históricos ou religiosos para transformar em motores de aventuras impossíveis. O problema é que desta vez tudo parece mais calculado e menos espontâneo. A Anticítera até oferece possibilidades interessantes, mas o roteiro frequentemente trata suas ideias com uma simplicidade excessiva, transformando conceitos potencialmente fascinantes em desculpas para outra perseguição, outra explosão e outra sequência de ação.
E são justamente essas sequências que revelam outro problema. Mangold sabe filmar ação, mas Relíquia do Destino raramente possui a clareza visual dos melhores momentos da franquia. A perseguição pelas ruas de Tânger, por exemplo, é gigantesca, barulhenta e cheia de acontecimentos, mas também é longa demais e visualmente confusa. Há tantos veículos, personagens, cortes e efeitos digitais acontecendo simultaneamente que o espectador começa a perceber mais o tamanho da produção do que o perigo da situação. A aventura deveria provocar entusiasmo, mas muitas vezes provoca apenas cansaço. O filme também possui uma sequência subaquática e outras cenas de perseguição que apostam mais na quantidade de acontecimentos do que na criatividade.
Phoebe Waller-Bridge é uma presença simpática como Helena, trazendo uma energia mais irreverente para acompanhar o personagem de Ford. Ela funciona especialmente bem quando o filme permite que a relação entre os dois seja construída com humor e conflito. Ainda assim, Helena parece muitas vezes uma personagem criada para manter Indiana em movimento, e não alguém que realmente consiga escapar da sombra gigantesca do protagonista. Mads Mikkelsen, por sua vez, faz o possível com um vilão que poderia ser muito mais interessante. Voller possui uma conexão direta com o passado de Indiana e uma obsessão bastante adequada ao tema do filme, mas o roteiro não explora essa relação com a profundidade necessária.
Também existe uma insistência quase desconfortável em transformar a despedida de Ford em um evento histórico. A trilha de John Williams ajuda bastante a recuperar a identidade da série, e ouvir novamente seus temas associados a Indiana Jones traz uma emoção genuína. Williams compôs a trilha de todos os filmes da franquia desde Os Caçadores da Arca Perdida, e seu trabalho aqui funciona como uma espécie de fio condutor entre diferentes épocas do personagem. O problema é que a música frequentemente parece carregada de uma nostalgia que o próprio filme não consegue sustentar. É como se a trilha lembrasse ao espectador o tempo inteiro que aquilo deveria ser emocionante.
A fotografia também procura reproduzir o aspecto clássico da franquia, alternando grandes paisagens, ambientes históricos e cenas noturnas com uma estética de aventura tradicional. Porém, a quantidade de efeitos digitais faz com que muitas dessas imagens percam a textura e o peso físico que tornavam os filmes antigos tão divertidos. Relíquia do Destino parece grande demais, limpo demais e artificial demais. Há momentos em que tudo parece ter sido construído dentro de um computador, justamente o contrário da sensação de perigo concreto que fazia as primeiras aventuras funcionarem tão bem.
Isso não significa que o filme seja completamente desprovido de qualidades. Harrison Ford continua sendo Indiana Jones, e basta ele colocar o chapéu e olhar para a câmera com aquela expressão característica para a memória afetiva assumir o controle. Há também algumas boas interações entre os personagens e momentos em que a história consegue recuperar o espírito aventureiro da série. O problema é que esses momentos aparecem cercados por uma quantidade exagerada de ação, efeitos visuais e nostalgia programada.
No fim, Indiana Jones e a Relíquia do Destino parece menos uma nova aventura e mais uma tentativa de impedir que o personagem envelheça. E essa é justamente a ironia mais interessante do filme. A melhor coisa que ele poderia fazer seria aceitar a passagem do tempo, tanto para Indiana quanto para Harrison Ford. Quando finalmente faz isso, existe emoção e até certa beleza. Quando tenta voltar artificialmente ao passado, o resultado é estranho, frio e frequentemente ridículo. O rejuvenescimento digital que deveria ser um triunfo tecnológico acaba sendo uma distração, enquanto o próprio Ford, com sua idade real, oferece uma atuação muito mais expressiva e verdadeira.
James Mangold entrega uma aventura competente em vários aspectos, mas também excessivamente longa, barulhenta e dependente de efeitos visuais. Falta aquela simplicidade que fazia Indiana Jones parecer um homem comum colocado em situações extraordinárias. Aqui, quase tudo é extraordinário o tempo inteiro, e justamente por isso pouco parece realmente especial. O filme quer ser épico, emocionante, divertido e definitivo ao mesmo tempo, mas acaba sendo principalmente uma produção gigantesca tentando convencer o público de que ainda existe uma necessidade de continuar uma história que já havia encontrado seu encerramento.
Indiana Jones merecia uma despedida mais simples e mais humana. Harrison Ford, por sua vez, merecia que sua presença fosse valorizada sem a necessidade de transformá-lo digitalmente em um boneco de décadas atrás. No final, a verdadeira aventura não está em voltar no tempo, mas em aceitar que ele passou. E Relíquia do Destino só parece compreender isso quando finalmente abandona o espetáculo e deixa Indiana Jones ser, simplesmente, um homem envelhecido tentando descobrir se ainda existe algum lugar para ele no mundo.
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