Há algo de profundamente revelador quando um filme consegue provocar não apenas desinteresse, mas um tipo raro de rejeição ativa, quase física. Devoradores de Estrelas, adaptação do romance de Project Hail Mary dirigida por Phil Lord e Christopher Miller, entra para um território muito específico da experiência cinematográfica: aquele em que o espectador não apenas se desconecta, mas decide abandonar a sessão. Foi exatamente isso que aconteceu aqui. Em mais de duas décadas escrevendo sobre cinema, esta foi a primeira vez que levantei da poltrona antes do final. Não por choque, não por indignação estética sofisticada, mas por puro esgotamento diante de algo que simplesmente não funciona em absolutamente nenhum nível.
E não há rodeios possíveis: é simplesmente, preto no branco, um filme péssimo. Mas péssimo em caps lock.
A proposta até poderia sugerir algo interessante. Um astronauta acorda sozinho no espaço, sem memória clara de quem é ou do que precisa fazer, enquanto uma ameaça cósmica coloca em risco a sobrevivência da humanidade. É inevitável lembrar de 2001: Uma Odisseia no Espaço, não apenas pela ambientação, mas pela tentativa de criar um senso de mistério existencial e contemplação científica. O problema é que aqui essa inspiração não passa de um esboço mal compreendido. Onde o filme de Stanley Kubrick constrói tensão através do silêncio, da imagem e da ambiguidade, Devoradores de Estrelas opta por explicar tudo, o tempo todo, de forma confusa, truncada e, pior, entediante.
O roteiro parece não saber o que quer ser. Ele se estrutura como uma sucessão de problemas técnicos que precisam ser resolvidos, mas nenhum deles carrega peso dramático real. Não há conflito verdadeiro. Não há dilema. Não há urgência emocional. Tudo soa como uma lista de tarefas, quase um manual mal adaptado para o cinema. O protagonista enfrenta obstáculos que nunca parecem realmente ameaçadores, e a narrativa se arrasta sem qualquer senso de progressão. Em vez de uma jornada, temos uma repetição de situações ocas, que se acumulam até perder completamente o sentido.
E isso nos leva ao centro do problema: não conseguimos sentir absolutamente nada pelo protagonista.
Ryan Gosling, que já construiu uma carreira baseada muito mais em presença estética do que em profundidade dramática consistente, aqui atinge um nível impressionante de apatia. Sua atuação é mecânica, sem vida, e em vários momentos dá a sensação literal de que ele está lendo as falas diretamente do roteiro, sem qualquer esforço de interpretação. Não há carisma, não há vulnerabilidade, não há humanidade. Em um filme que depende quase exclusivamente da conexão com seu personagem central, isso é fatal.
Para piorar, o filme toma decisões estéticas e narrativas que parecem mirar um público infantil, mas sem a leveza ou a criatividade que esse tipo de abordagem exige. A introdução dos alienígenas, criaturas feitas de rocha com comportamento quase cartunesco, empurra a obra para um tom que beira o constrangimento. Em vez de fascínio ou estranhamento, o que se sente é um deslocamento absurdo. A ficção científica aqui não instiga, não provoca, não encanta. Ela infantiliza.
O contraste entre a ambição aparente e a execução real é gritante. Há uma tentativa clara de criar algo grandioso, de lidar com temas cósmicos e existenciais, mas tudo é reduzido a diálogos expositivos e soluções fáceis. O filme não confia na inteligência do espectador, mas também não consegue ser acessível de forma genuína. Fica preso em um limbo narrativo que o torna cansativo e irrelevante ao mesmo tempo.
É inevitável estabelecer um paralelo com outros filmes espaciais recentes que também falharam, cada um à sua maneira. Interestelar (o filme que mais odeio na vida) sempre me pareceu um exemplo clássico de cinema cafona disfarçado de profundidade, com uma trilha que parece saída de vídeos motivacionais de redes sociais e um sentimentalismo forçado que beira o ridículo. Gravidade, por sua vez, sempre me soou como uma comédia involuntária travestida de thriller espacial. Agora, Devoradores de Estrelas se junta a esse grupo, formando uma espécie de trilogia do absurdo cósmico. Três filmes que parecem, em espírito, terem sido produzidos e dirigidos por Mel Brooks, mas sem a menor consciência de que poderiam ser encarados como paródia.
A diferença é que, enquanto Interestelar ainda tenta emocionar e Gravidade ao menos aposta na experiência sensorial, Devoradores de Estrelas não oferece nada. Não há espetáculo visual memorável, não há construção de atmosfera, não há sequer um ritmo minimamente envolvente. O tempo parece se arrastar de forma cruel, transformando cada cena em um teste de paciência.
E talvez o mais grave seja isso: o filme é profundamente desinteressante.
Não há um único momento em que a curiosidade seja despertada de verdade. As revelações não impactam. As soluções não surpreendem. As interações não convencem. Tudo soa previsível, mal articulado e, acima de tudo, irrelevante. É como assistir a um rascunho que nunca foi revisado, uma ideia que nunca encontrou sua forma.
Em determinado ponto, a experiência deixa de ser apenas ruim e passa a ser quase inacreditável. Realmente nunca tinha visto um filme tão ruim assim. E isso não é uma hipérbole jogada ao vento. É um reconhecimento honesto de que estamos diante de algo que falha de maneira tão completa que se torna difícil até encontrar parâmetros de comparação.
Talvez a melhor definição venha de um lugar inesperado. Como diria o influenciador Valter Guijhon em suas aulas de etiqueta e postura, Devoradores de Estrelas é um filme para ser visto “jamais, em hipótese alguma, é o Apocalipse!”. E raramente uma frase se encaixou tão bem.
No fim das contas, o que fica não é raiva, nem frustração criativa. É um vazio. Um silêncio desconfortável de quem percebe que perdeu tempo com algo que não tinha absolutamente nada a oferecer. Se o cinema é, em sua essência, uma experiência de conexão, aqui temos o oposto absoluto. Um filme que não se comunica, não envolve e não justifica sua própria existência.
Devoradores de Estrelas não é apenas ruim. Ele é o fundo do poço do cinema. E, sinceramente, sair da sala antes do final foi a decisão mais lúcida que essa experiência permitiu.
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