Há algo curioso — e até um pouco desconcertante — em assistir a Super Mario Galaxy: O Filme, dirigido por Aaron Horvath e Michael Jelenic, quando se está completamente deslocado do universo que o filme tenta celebrar com tanta insistência. E talvez esse seja o ponto de partida mais honesto para falar dessa animação: a sensação constante de que ela conversa com um público muito específico, quase fechado em si mesmo, e que deixa de lado quem não compartilha dessa bagagem afetiva.
Entendo completamente que é um filme para quem tem a nostalgia de ter jogado “Mario Bros” nos anos 80 e 90. Não foi a minha realidade. Sempre fui avesso a vídeo games e, com exceção dos jogos de Pokémon em diversos consoles, nunca joguei Mario Bros e conheço os personagens somente por ter jogado Super Smash Bros, desde o Nintendo 64, passando pelo GameCube até o Wii. E eu sempre jogava contra o Mario. Eu era sempre o Mewtwo ou o Pikachu querendo destruir o Bowser. Então, foi uma experiência inusitada. Existe quase um estranhamento ao tentar absorver um filme que claramente espera de você um tipo de envolvimento emocional que simplesmente não está ali.
Ainda assim, seria injusto não reconhecer que, tecnicamente, a animação em si é muito bem executada. Há um cuidado evidente com texturas, iluminação e fluidez de movimento. Os mundos são vibrantes, cheios de detalhes, com cores que saltam da tela de forma quase agressiva. Inclusive ouso dizer que, em vários momentos, o nível visual supera produções recentes de estúdios como Pixar e Disney, que parecem ter entrado em uma certa zona de conforto nos últimos anos. Aqui, há energia, há dinamismo, há uma tentativa constante de impressionar visualmente. E isso funciona.
O problema é que o filme parece acreditar que isso basta.
A narrativa é simples a ponto de parecer quase automática. Personagens entram em cena já estabelecidos, com relações pré-definidas que o filme não se preocupa em construir. Mario, Luigi, Peach, Bowser, Yoshi, Toad. Todos ali, como peças de um tabuleiro que já deveria ser conhecido pelo espectador. Não há esforço em apresentar quem são essas figuras para quem não tem intimidade com esse universo. É como se o filme dissesse, sem rodeios: ou você já ama isso, ou vai ficar de fora.
E isso fica ainda mais evidente nas escolhas estéticas que apelam diretamente para a nostalgia. As sequências em 8-bit que surgem ao longo do filme são, sem dúvida, um agrado claro aos fãs mais antigos. Elas funcionam como pequenas piscadelas cúmplices, como se o filme estivesse constantemente dizendo “lembra disso?”. Para quem viveu essa época, imagino que haja um encanto genuíno aí. Mas, para quem não tem esse vínculo, essas cenas soam mais como interrupções curiosas do que como momentos realmente emocionantes.
No final das contas, ainda assim, é um filme para nostálgicos dos jogos. Isso se demonstra bem nessas inserções retrô e em toda a estrutura da narrativa, que mais parece uma sequência de fases do que uma história propriamente dita. Para quem não é nostálgico, a nova geração, eu simplesmente não sei o que eles sabem sobre Mario e Luigi e Yoshi e Peach e Toad, mas parece que funciona muito bem com essa nova geração, uma vez que eles estavam extasiados com o filme. E talvez esse seja o maior paradoxo da obra: ela não se preocupa em explicar, mas ainda assim conquista.
Outro ponto que pesou bastante na experiência foi o fato de este ter sido meu primeiro filme dublado em quase 20 anos. Eu não sabia mais o que era isso. E confesso que tive limitações em entender muitas falas. Ao contrário da generalidade das redes sociais, eu acho dublagem péssima e a dublagem brasileira querendo incorporar gírias de “periferia” mais péssimas ainda. Há um esforço evidente de modernização da linguagem, mas que muitas vezes soa artificial, deslocado e até cansativo. Em vez de aproximar, acaba criando uma barreira adicional.
E isso é particularmente problemático em um filme que já depende tanto de conexão emocional prévia. Quando o texto não ajuda, quando as falas não convencem, o pouco que poderia surgir de envolvimento acaba se dissipando rapidamente.
Curiosamente, mesmo com todos esses problemas, há momentos pontuais de charme. Algumas interações entre os personagens funcionam, especialmente quando o filme desacelera um pouco e deixa de lado a necessidade constante de espetáculo. E, de forma totalmente pessoal, há um carinho inesperado pelo Yoshi, que talvez seja o único elemento que realmente desperta algum tipo de simpatia genuína.
Mas são momentos isolados em um conjunto que, no geral, não consegue se sustentar para quem está fora da bolha.
No final, uma animação que não me tocou, mesmo eu sendo uma cria dos anos 1980. Mas acredito que tocou à maioria, visto o tanto de arrecadação que esse filme teve. E isso é importante dizer. O sucesso comercial não é um acidente. Existe algo ali que conversa fortemente com o público. Só não conversa comigo.
Enfim, não sou gamer, não gosto de vídeo games, é uma coisa desde criança. Nunca teve apelo para mim. Sempre fui uma criança de enfiar a cara em livros. Então, mesmo mais de 30 anos depois, “Super Mario” não tem nenhuma afinidade emocional ou sentimental comigo. E isso faz toda a diferença aqui.
Porque, no fim das contas, Super Mario Galaxy: O Filme não é exatamente um filme que tenta conquistar novos públicos. Ele reforça um vínculo que já existe. Ele alimenta uma memória coletiva. Ele celebra um passado que, para muitos, é fundamental.
Mas, para quem olha de fora, ele se resume a isso: uma vitrine visualmente impressionante, barulhenta, acelerada e, acima de tudo, distante. Uma animação qualquer. Mas eu gosto do Yoshi.
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