O novo filme de Noah Baumbach, Jay Kelly, é uma obra que conversa diretamente com o público sobre fama, arrependimento e o instinto humano de buscar significado na própria vida, ainda que Baumbach nem sempre consiga equilibrar todos os elementos que coloca em cena. A trama segue um veterano astro de cinema que viaja pela Europa reflexivo, em grande parte num road movie intimista que parece um espelho das ansiedades de Hollywood sobre envelhecer sob os holofotes. A forma como o diretor e roteirista estrutura a narrativa é típica de seus trabalhos mais pessoais, misturando humor e melancolia de maneira por vezes bem-sucedida e em outras nem tanto.
Visualmente o filme é seguro e agradável. A cinematografia de Linus Sandgren, feita em 35 mm, confere uma textura levemente nostálgica que combina com o tema de revisitar o passado e confrontar escolhas. As paisagens europeias, alternando Itália, França e Inglaterra, tornam-se quase personagens por si só, refletindo os estados de espírito do protagonista. A trilha sonora de Nicholas Britell se insere de maneira discreta, escolhendo momentos mais sutis em vez de puxar emocionalmente cada cena, o que em muitos momentos contribui para que o filme se sustente por seus próprios méritos.
No centro de tudo está George Clooney, interpretando um personagem que curiosamente lhe dá a chance de dialogar com sua própria carreira e imagem pública. Apesar de ele estar interpretando “a si mesmo” aqui, e de o roteiro até brincar com essa linha tênue entre personagem e celebridade, Clooney traz ao papel o carisma e a confiança de sempre, equilibrando vulnerabilidade e leveza sem soar caricatural. Essa capacidade de manter o público conectado ao personagem mesmo quando a narrativa traça caminhos previsíveis é talvez a melhor coisa que o filme tem a oferecer.
A relação entre Kelly e seu amigo e gerente Ron, vivido por Adam Sandler, é o coração emocional da história. Aqui é necessário dizer que, pessoalmente, nunca fui fã de Sandler em qualquer papel que ele interprete, e isso não muda só porque neste filme ele faz uma expressão mais dramática ou chorosa que a crítica tem exaltado de maneira exagerada. A maneira como alguns analistas colocam a atuação dele num patamar absurdamente alto, como se fosse material para Oscar, me parece exagero. Ele não é um ator de grande profundidade e isso continua evidente, ainda que aqui ele tente algo mais contido do que em outras performances anteriores. Não vou ficar elevando a performance ao nível que muitos parecem querer pintar por aí, porque não vejo o material dele ser assim tão transformador.
O roteiro busca equilibrar sátira e sinceridade, olhando criticamente para os excessos de Hollywood enquanto tenta ser uma reflexão honesta sobre arrependimentos e relações pessoais. Em vários momentos a história se torna didática demais, guiando o espectador a sentimentos óbvios em vez de permitir que se desenvolvam de forma orgânica. Isso acaba deixando algumas tramas secundárias meio soltas e a construção emocional nem sempre atinge a profundidade que suas ambições sugerem. Há sequências, como a homenagem-surpresa incorporada ao filme que usa trechos da carreira de Clooney para evocar emoções reais, que funcionam de maneira comovente e criativa, mas outros segmentos parecem tropeçar em clichês próprios do gênero.
No conjunto, Jay Kelly é envolvente em suas melhores partes e um pouco irregular no andamento geral, um filme que se beneficia muito da presença de Clooney e que, mesmo com elementos interessantes e uma sensibilidade humana palpável, às vezes parece hesitar entre ser uma comédia leve, um drama reflexivo ou uma sátira mordaz de Hollywood. Isso faz com que o impacto emocional não seja tão forte quanto poderia, ainda que cenas isoladas realmente toquem o espectador de maneira sincera.
A conclusão do filme reafirma a dualidade do personagem principal: a luta entre manter a persona pública e confrontar as próprias falhas em relações pessoais. É um desfecho que dá alguma satisfação e oferece reflexões válidas sobre prioridades e escolhas ao longo da vida. Mesmo que Jay Kelly não seja um Baumbach impecável, nem um estudo de personagem definitivo, ele tem momentos que valem a pena e serve como um lembrete de que até as figuras mais brilhantes podem sentir o peso do tempo e do que ficou por dizer ou fazer.
No fim das contas, o filme acaba funcionando melhor como peça de discussão do que como experiência totalmente satisfatória por si só. É um projeto ambicioso, com bons elementos visuais, um protagonista carismático no centro e momentos sinceros, mas é eclipsado por uma escrita que oscila entre o afetado e o genuíno, e por atuações que nem sempre compensam essas oscilações.
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