Páginas

dezembro 27, 2025

Mickey 17 (2025)

 


Título original: Mickey 17
Direção: Bong Joon-Ho
Sinopse: Mickey faz parte de um programa espacial de colonização e sempre é enviado para missões perigosas, quase suicidas. Se morrer, ele é clonado e boa parte de suas memórias são recuperadas. Mas, após seis mortes, ele começa a entender o porquê de seu cargo nunca ter sido ocupado antes.


Quando finalmente terminei de assistir a Mickey 17, de Bong Joon-ho (depois que quase um ano enrolando - e nunca dei a mínima para assistir a Parasita também até hoje), tive a sensação de ter perdido mais de duas horas da minha vida. O filme que prometia ser uma ficção científica provocadora e original acabou se revelando um amontoado de ideias mal costuradas que não funcionam juntas, uma narrativa que tropeça em cada cena tentando ser engraçada, crítica social e grandiosa ao mesmo tempo, sem realmente entregar nada de memorável. A premissa, baseada no romance Mickey7, de Edward Ashton, gira em torno de um homem descartável chamado Mickey Barnes, interpretado por Robert Pattinson, que morre repetidas vezes em missões perigosas para uma corporação de colonização espacial e é clonado com suas memórias restauradas a cada vez. Apesar de haver potencial nessa ideia de um personagem que é literalmente reinventado a cada morte para enfrentar tarefas suicidas em um planeta gelado, a adaptação de Bong transforma isso em um desfile de cenas que parecem pendurar em qualquer conceito antes mesmo de explorá-lo adequadamente. 

A fotografia de Darius Khondji e o design industrial dos cenários tentam transmitir um mundo futurista ameaçador, mas acabam se tornando pano de fundo frio e indiferente para um roteiro que não sabe para onde caminhar. A edição, que poderia ao menos dar ritmo ao conjunto, muitas vezes deixa o filme estagnado em longas sequências onde diálogos expositivos se arrastam sem propósito claro e sem engajamento emocional. As tentativas de humor são forçadas, com piadas que soam deslocadas e uma voz narrativa em off que repete o óbvio em vez de acrescentar profundidade ao protagonista. Os efeitos visuais e o CGI, longe de impressionar, servem apenas para preencher espaço enquanto o enredo oscila entre subtramas que nunca se entrelaçam de forma satisfatória. 

A presença de Robert Pattinson, que encarna tanto a versão 17 quanto a 18 de Mickey, não salva a narrativa cansativa. O ator tenta dar nuances diferentes às duas versões do mesmo personagem, mas sua performance acaba sendo engolida por um roteiro que parece mais interessado em variações de morte e clonagem do que em desenvolver qualquer arco dramático coerente. Em vez de explorar a complexidade de duas personalidades divergentes coexistindo, o filme se perde em clichês de ficção científica e em justificativas narrativas que não levam a lugar algum. 

O que torna Mickey 17 ainda mais difícil de engolir é o desperdício de um elenco que poderia render momentos mais interessantes, se tivesse algo realmente substancial para trabalhar. Mark Ruffalo, cuja presença no elenco já era motivo de preocupação pessoal para mim, entrega um personagem grotesco e caricatural, exagerado ao ponto de se tornar irritante e distrair da história principal. Sua interpretação vai na contramão do que se espera de um vilão ou antagonista complexo, transformando-se em uma figura que só reforça o tom caótico do filme. Naomi Ackie, outro nome que me desagradou profundamente neste contexto, tem uma participação que deveria ser forte, mas que acaba se diluindo em meio ao caos geral da narrativa, sem conseguir imprimir qualquer impacto real na trama ou nas motivações de Mickey. 

A própria estrutura de Mickey 17 é um problema. Ao tentar misturar comédia, drama existencialista, crítica social e aventura espacial, o filme perde sua identidade e se torna uma colcha de retalhos mal costurada. Cada vez que parece estar caminhando para um desenvolvimento interessante, ele muda de direção abruptamente, deixando pistas e subtramas pelo caminho que nunca são concluídas de maneira satisfatória. O resultado é um filme que parece mais preocupado em mostrar que tem “coisas acontecendo” do que em construir uma história coerente e envolvente. 

E isso fica claro na maneira como o roteiro explora temas que poderiam ser fascinantes, como a exploração do valor da vida humana, a crítica à exploração capitalista e as implicações éticas da clonagem. Em vez de aprofundar qualquer uma dessas ideias, Bong Joon-ho dispersa sua atenção em conceitos paralelos que não se conectam organicamente. A sensação ao final da projeção é de frustração, porque por trás de cada cena mal executada parece haver uma ideia melhor e mais interessante que jamais foi desenvolvida. 

O ritmo irregular, a construção narrativa confusa e a falta de foco tornam Mickey 17 um filme frustrante de assistir. Há momentos em que você suspeita que algo relevante está prestes a acontecer, mas logo a trama retorna para giros narrativos óbvios ou para a repetição de situações que já perderam o impacto original. Detalhes como os chamados “creepers”, criaturas alienígenas que deveriam introduzir perigo e mistério, em vez disso se tornam apenas mais um elemento desconexo em meio a um mar de imagens sem significado. 

No fim das contas, Mickey 17 é um projeto que provavelmente ficará esquecido apesar do nome do diretor e das expectativas que cercavam seu lançamento. A dificuldade de manter um tom consistente, a apresentação de personagens que nunca se tornam verdadeiramente interessantes e a maneira como o enredo tropeça em suas próprias ambições fazem com que este seja um dos filmes mais decepcionantes que vi em muito tempo. Não há nada aqui que se encaixe de forma satisfatória, nem um arco emocional que prenda, nem uma reflexão que valha a pena levar para casa. A impressão que fica é de um filme repleto de boas intenções mal realizadas, um espetáculo visual vazio que, mesmo com um elenco conhecido e um diretor talentoso em seu histórico, não encontra nenhuma razão convincente para existir. 

Se você estiver em busca de uma ficção científica que mexa com suas ideias ou personagens cativantes, Mickey 17 simplesmente não entrega. Em vez de provocar ou emocionar, ele apenas arrasta sua audiência por terrenos narrativos desgastados, preenchidos por performances irritantes e um roteiro que parece ter sido construído sem direção clara. É difícil encontrar um único aspecto que salve este filme da monotonia e da confusão, e ele ficará, na minha memória, como um daqueles raros casos em que o nome de um diretor renomado não é suficiente para justificar o tempo que se passa na sala escura do cinema.