Desde que eu soube do projeto fiquei meio cético porque Richard Linklater nunca foi um dos meus diretores favoritos e, pra ser franco e sem rodeios, detesto o diretor. Sua fama de fazer filmes “conversacionais” e andar em círculos pela narrativa sempre me entediou. Blue Moon parecia mais do mesmo: um diretor que transforma qualquer coisa em diálogo interminável. A informação básica é que o filme se passa, em grande parte, na noite em que o compositor Lorenz Hart presencia a estreia de Oklahoma! e desfia memórias e ressentimentos num bar em Nova York, dialogando com gente que entra e sai daquela roda de conversas intermináveis.
Logo de cara você percebe que a estrutura é essencialmente teatral. Não no bom sentido cinematográfico, mas no sentido literal do teatro: um lugar fechado, personagens falando, falando e falando. Pra quem, como eu, detesta teatro, isso já prepara o terreno para um suplício. E não importa o quanto as câmeras circulem, como a fotografia tenta dar alguma dinâmica de ambiente e como a edição tenta mascarar essa sensação de “peça filmada” toda hora, Blue Moon nunca escapa da impressão de que é tudo gente falando com pouca coisa acontecendo de verdade.
O filme investe pesado no fato de que Hart é uma figura histórica interessante para quem conhece aquele circuito da Broadway, Rodgers e Hammerstein, os musicais antigos e tal, mas pra mim isso foi um convite ao tédio. O roteiro é um festival de monólogos que se arrastam e conversas autorreferenciais sobre o ofício da escrita, sobre a própria vida, sobre o teatro e sobre a frustração de não ter sido mais celebrado pelo seu trabalho que hoje é estudado em círculos muito específicos. E aqui entra outro ponto pessoal e inescapável: gosto muito de Ethan Hawke, mas aqui ele não está nada demais e justamente porque o foco é ele falando, falando e falando sobre coisas que pouco me interessam. Mesmo conhecendo minimamente a história dos musicais clássicos, como as obras de Rodgers e Hammerstein II, eu fiquei rolando os olhos, torcendo para o filme acabar. Mesmo sendo fã dessas músicas, aqui parece que a história em si importa menos do que a peregrinação verbal do personagem.
Hawke, que já fez performances que considero muito superiores, se esforça pra dar vida ao Hart introspectivo e frustrado, mas a forma como sua personagem é construída e exibida acaba sendo um obstáculo narrativo. Ele segura o filme nas costas, isso sim, sem dúvida técnica nenhuma, mas isso não basta quando tudo gira em torno de um falatório que pouco evolui. Há momentos em que a câmera tenta se afastar, tenta usar espaços de bar, pequenas reviravoltas em que outros personagens aparecem, como o papel de Margaret Qualley ou algumas aparições de Andrew Scott no papel de Richard Rodgers, mas nada disso acrescenta ação convincente à narrativa.
Do ponto de vista artístico, Linklater e o roteirista Robert Kaplow demonstram conhecimento e certo carinho pela época e pelos personagens, mas esse tipo de homenagem tende a ser mais um reflexo para quem já é entusiasta do tema do que uma construção cinematográfica envolvente. A trilha sonora e a ambientação até funcionam como adereços, o design de produção tenta recriar a atmosfera dos anos 40 e a fotografia tem seus lampejos, mas nada disso transforma a longa sequência dialogada em algo minimamente dinâmico ou emocionalmente cativante.
Existe um público que adora esse tipo de estudo de personagem em tempo real. Eu entendo isso, e em outras mãos talvez funcionasse melhor. Para alguém que enxerga o cinema como uma experiência narrativa e emotiva em movimento, Blue Moon é quase um convite pra cochilar. A narração introspectiva sobre arte e criação pode soar profunda em teoria, mas na prática se arrasta como se estivesse pedindo ao espectador que sacrifique paciência e interesse a cada diálogo. Pra mim, o filme vira um labirinto verbal sem saída, uma peça interminável sem o calor que a intimidade teatral deveria oferecer.
Em resumo, mesmo com esforços técnicos respeitáveis e uma atuação esforçada de Hawke, Blue Moon sucumbe à sua própria paixão por si mesmo. Eu saí do cinema com a clara impressão de que Linklater gastou mais tempo apreciando seus próprios diálogos do que realmente contando uma história que pudesse captar minha atenção. Olhando pra trás, lembro principalmente de um filme que fala demais sobre teatro e arte enquanto esquece de transformar isso em cinema de verdade. Se a moda agora é celebrar qualquer coisa que pareça introspectiva, então talvez este filme encontre sua audiência. Pra mim, que não tenho paciência com esse tipo de abordagem, Blue Moon é um saco do começo ao fim.
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