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março 12, 2026

Butterfly (2025)

 


Título original: Papillon
Direção: Florence Miailhe
Sinopse: Um homem judeu norte-africano de meia-idade, ao nadar no mar, é tomado por memórias do seu passado como nadador olímpico, antes e depois da Segunda Guerra Mundial.


Dentro do universo da animação contemporânea, poucos trabalhos recentes conseguem chamar tanta atenção à primeira vista quanto Butterfly (Papillon), de Florence Miailhe. E, curiosamente, talvez poucos também revelem com tanta clareza o abismo que pode existir entre uma proposta estética fascinante e uma experiência emocional que simplesmente não se sustenta.

Inspirado na vida do nadador franco-argelino Alfred Nakache, sobrevivente do Holocausto, o curta constrói sua narrativa a partir de um gesto simples: um homem nadando no mar enquanto memórias emergem, conectando infância, glória esportiva e trauma histórico . Essa estrutura, que aposta na fluidez das lembranças como extensão do próprio elemento água, é, sem dúvida, uma escolha elegante. O problema é que essa elegância rapidamente se transforma em distanciamento.

O grande trunfo do filme está na sua forma. Miailhe utiliza sua já conhecida técnica de pintura animada sobre vidro, criando imagens que parecem constantemente em mutação, como se cada frame estivesse vivo e prestes a desaparecer . É um trabalho artesanal impressionante, quase hipnótico em alguns momentos. As cores acompanham as fases da vida do protagonista, variando entre tons mais luminosos na juventude e paletas mais densas e opacas nos períodos de dor, numa tentativa clara de traduzir emoção através da imagem.

Mas é justamente aí que começa o problema. Toda essa beleza visual parece funcionar como uma camada que afasta o espectador em vez de aproximá-lo. Os personagens são pouco definidos, quase dissolvidos na própria estética, o que dificulta qualquer conexão mais profunda. Em vez de sentir a trajetória de Nakache, o que se percebe é uma sucessão de quadros bonitos, mas frios.

A decisão de contar uma história tão pesada de forma fragmentada e quase abstrata também cobra seu preço. O filme evita explicações diretas e aposta em uma narrativa impressionista, construída por associações e sensações . Em teoria, isso poderia resultar em algo poético e poderoso. Na prática, porém, o curta parece mais preocupado em manter sua proposta artística do que em comunicar sua própria história. O impacto emocional, que deveria ser devastador considerando o contexto histórico, acaba diluído.

Outro ponto que enfraquece o conjunto é o ritmo. Com cerca de 15 minutos, Butterfly parece, paradoxalmente, longo demais para o que entrega. As transições entre memórias se repetem de forma previsível, e o filme entra num ciclo de contemplação que, longe de aprofundar o drama, acaba tornando a experiência arrastada. A sensação é de estar diante de algo que insiste em ser significativo, mas que nunca encontra o caminho para realmente tocar.

Isso não significa que o curta seja vazio. Há momentos em que a proposta funciona, especialmente quando imagem e som se alinham para sugerir a passagem do tempo e o peso da memória. A água, como símbolo central, é bem explorada e carrega uma ideia interessante de continuidade entre vida, dor e sobrevivência. Mas essas qualidades aparecem de forma isolada, sem conseguir sustentar o todo.

Talvez o maior problema de Butterfly seja justamente sua ambição de ser mais sensorial do que narrativo. Ao abrir mão de uma construção emocional mais clara, o filme acaba se tornando uma experiência distante, quase impessoal, mesmo tratando de uma história profundamente humana. E isso é frustrante, porque o material base tinha potencial para algo muito mais impactante.

No fim, o que fica é a impressão de um curta tecnicamente admirável, visualmente único, mas emocionalmente raso. Um daqueles casos em que o cinema encanta os olhos, mas esquece de atingir o coração. E, quando isso acontece, por mais bonito que seja, dificilmente permanece.