A sequência Zootopia 2 chega quase uma década depois do sucesso estrondoso do primeiro filme, tentando revisitar o universo da metrópole habitada por animais que conquistou o público em 2016. Dirigido por Jared Bush e Byron Howard, o longa retoma os personagens Judy Hopps e Nick Wilde, novamente dublados por Ginnifer Goodwin e Jason Bateman, agora trabalhando juntos como policiais enquanto investigam um caso envolvendo uma misteriosa serpente chamada Gary De’Snake, personagem interpretado por Ke Huy Quan. Na história, a dupla acaba sendo incriminada e precisa atravessar diferentes regiões da cidade para provar sua inocência e capturar o verdadeiro responsável pelo caos que se instala na metrópole.
O problema é que, apesar da escala maior e da evidente ambição da produção, a sensação constante é de um projeto que existe mais pela necessidade industrial de continuar uma franquia lucrativa do que por uma verdadeira inspiração criativa. O primeiro Zootopia funcionava justamente porque parecia uma surpresa. Misturava investigação policial com sátira social e humor de forma leve e inteligente. Já aqui, a impressão é de que quase tudo foi reciclado, ampliado ou esticado sem que houvesse realmente algo novo a dizer. O filme tenta repetir a fórmula da dupla improvável que aprende a confiar um no outro, mas esse arco dramático já foi resolvido antes e retorna agora com uma artificialidade que torna muitas cenas previsíveis.
Visualmente, é impossível negar que a animação continua impressionante. A tecnologia da Walt Disney Animation Studios evoluiu bastante desde o primeiro filme, e a cidade de Zootopia surge ainda mais detalhada, cheia de pequenas piadas visuais e texturas sofisticadas. Os ambientes continuam criativos, com bairros que refletem diferentes climas e habitats animais, e há momentos em que a câmera virtual percorre esses cenários com uma fluidez que lembra superproduções de ação. O problema é que toda essa sofisticação técnica parece existir quase como distração. Quanto mais o filme aposta em perseguições frenéticas, explosões e sequências espetaculares, mais evidente se torna o vazio da narrativa.
A relação entre Judy e Nick, que antes era o coração emocional da história, aqui parece presa a diálogos repetitivos. O roteiro insiste em reforçar conflitos que não soam naturais, como se a trama precisasse inventar obstáculos artificiais apenas para movimentar a história. Isso enfraquece o ritmo do filme e faz com que vários momentos que deveriam ser engraçados ou emocionantes soem apenas mecânicos. O humor também sofre. A espontaneidade do primeiro filme dá lugar a piadas que parecem calculadas demais, muitas delas dependentes de referências internas ou de personagens secundários que entram e saem da trama sem deixar impressão duradoura.
O elenco de vozes continua competente. Ginnifer Goodwin mantém o entusiasmo incansável de Judy Hopps, enquanto Jason Bateman ainda consegue extrair certo carisma do cinismo relaxado de Nick Wilde. Entre os novos nomes, Ke Huy Quan traz uma energia curiosa ao personagem da serpente Gary, mas o roteiro nunca decide exatamente se ele deve ser um vilão ameaçador, uma figura cômica ou apenas um dispositivo de trama. Participações de nomes conhecidos como Idris Elba e Shakira aparecem mais como acenos ao público do que como elementos realmente importantes para a história.
O curioso é que, enquanto muitos espectadores e críticos elogiaram a continuação e o filme se tornou um gigantesco sucesso comercial, arrecadando mais de 1,8 bilhão de dólares no mundo todo, esse triunfo de bilheteria parece reforçar justamente a sensação de que Hollywood está cada vez mais dependente de propriedades já estabelecidas. A indústria celebra números e recordes, mas a criatividade parece cada vez mais comprimida entre expectativas de franquia e estratégias de marketing.
No fim das contas, Zootopia 2 não é um desastre técnico. A animação é refinada, os personagens continuam simpáticos e há energia suficiente para manter o público infantil entretido. Mas o filme carrega um problema difícil de ignorar: ele nunca justifica realmente sua existência. Falta surpresa, falta risco e, principalmente, falta aquele encanto que fazia o primeiro filme parecer especial. O resultado é uma sequência que funciona como espetáculo visual, mas que deixa a sensação de que estamos apenas revisitanto um mundo que já disse tudo o que tinha para dizer. Em vez de expandir Zootopia, o filme apenas circula em volta dela, como um passeio longo demais por uma cidade que perdeu parte da sua magia.
.webp)