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março 11, 2026

Arco (2025)

 


Título original: Arco
Direção: Ugo Bienvenu
Sinopse: Um menino de 10 anos, de um futuro distante e pacífico, acidentalmente viaja de volta ao ano 2075 e descobre um mundo em perigo. À medida que Arco desenvolve uma amizade com uma jovem chamada Iris, eles se unem e, junto com seu robô cuidador Mikki, partem em uma jornada para conduzir Arco de volta para casa.


Quando o cinema de animação realmente encontra uma voz própria, ele deixa de parecer apenas um desenho em movimento e passa a soar como um pequeno milagre visual. É exatamente isso que acontece em Arco, dirigido por Ugo Bienvenu. Em seu primeiro longa-metragem, o cineasta francês entrega uma obra de ficção científica delicada, emotiva e profundamente inventiva, uma experiência que mistura imaginação infantil com reflexões surpreendentemente maduras sobre futuro, memória e amizade. O resultado é um daqueles raros filmes que parecem ter sido feitos com a liberdade criativa de um artista que simplesmente decidiu desenhar seus sonhos na tela.

A história é aparentemente simples, mas carregada de possibilidades. O jovem Arco, um garoto de dez anos que vive em um futuro extremamente distante, usa um traje especial que permite viajar no tempo. Em sua primeira tentativa, algo dá errado e ele acaba caindo literalmente do céu no ano de 2075. Lá conhece Iris, uma menina que vive praticamente sozinha em um mundo dominado por tecnologia, mudanças climáticas e adultos distantes. Juntos, os dois tentam encontrar uma forma de fazer Arco voltar para casa. O enredo poderia ser apenas mais uma aventura infantil de ficção científica, mas o filme transforma essa premissa em algo muito mais amplo, explorando amizade, solidão e esperança em um planeta que parece constantemente à beira de perder o rumo.

O que imediatamente chama atenção é a animação absolutamente lindíssima. Há uma beleza sincera em cada cenário, em cada movimento dos personagens e em cada cor espalhada pela tela. A estética mistura traços simples com um uso expressivo de cores vibrantes, criando imagens que lembram tanto quadrinhos europeus quanto a tradição do anime. Não é por acaso que muitos críticos apontam influências que vão desde artistas de ficção científica como Moebius até o imaginário de Hayao Miyazaki. O próprio diretor tem origem nos quadrinhos e na ilustração, e essa formação se percebe em cada enquadramento, que parece ter sido cuidadosamente desenhado como se fosse uma página de graphic novel em movimento.

Mas o mais curioso em Arco é como ele parece misturar referências aparentemente incompatíveis e ainda assim funcionar perfeitamente. Existe ali algo do espírito aventureiro de De Volta Para o Futuro, especialmente nessa ideia de viagem temporal conduzida por pura curiosidade juvenil. Ao mesmo tempo, o filme mergulha numa estética musical e visual que lembra experiências mais experimentais da animação japonesa, evocando inevitavelmente Interstella 5555: The 5tory of the 5ecret 5tar 5ystem, a famosa animação associada ao duo Daft Punk. É uma combinação improvável, quase uma bagunça estilística, mas uma bagunça muito boa. Parece um anime perdido produzido por algum estúdio francês com orçamento modesto e imaginação infinita.

Essa mistura cultural cria algo extremamente singular. Há momentos em que o filme parece um conto futurista melancólico, quase contemplativo. Em outros, vira uma aventura leve e colorida cheia de energia juvenil. E em certos trechos, simplesmente se entrega à pura contemplação visual, como se a narrativa abrisse espaço para que o espectador apenas absorvesse aquele mundo imaginado. Essa liberdade narrativa é um dos maiores encantos da obra.

A relação entre Arco e Iris também funciona com enorme sensibilidade. Não há sentimentalismo exagerado nem diálogos artificiais. Os dois personagens se conectam de forma natural, como crianças que descobrem no outro um companheiro improvável em meio a um mundo meio estranho. O filme entende perfeitamente como retratar a infância sem transformá-la em caricatura. A amizade dos dois é o coração emocional da história, e é ela que conduz o espectador pela narrativa.

Outro aspecto encantador é o mundo futurista que o filme constrói. O ano de 2075 mostrado aqui não é apenas uma distopia tecnológica. Há drones, robôs e hologramas, mas também um sentimento constante de melancolia ambiental, uma sensação de que a humanidade perdeu alguma coisa essencial ao longo do caminho. Ainda assim, o filme nunca se torna pessimista. Pelo contrário, ele sugere que a esperança pode vir justamente das novas gerações que ainda enxergam o mundo com curiosidade e imaginação.

É impossível ignorar também a trilha sonora e o ritmo quase musical de certas sequências. Em alguns momentos, o filme parece realmente se aproximar da linguagem de um videoclipe futurista, algo que faz sentido considerando o histórico de Bienvenu trabalhando com música e cultura pop. Essas passagens reforçam a sensação de que estamos vendo uma obra que mistura cinema, quadrinhos, anime e música eletrônica num único organismo criativo.

Talvez o mais impressionante seja perceber que tudo isso nasce de um primeiro longa-metragem. Muitos diretores passam anos tentando encontrar uma identidade visual e narrativa. Aqui ela surge já completamente formada. Arco não tenta seguir tendências nem imitar o estilo das grandes animações industriais. Ele simplesmente existe à sua maneira, como um pequeno universo independente dentro do cinema de animação contemporâneo.

Ao final da jornada, fica a sensação rara de ter assistido a algo genuinamente especial. Um filme que olha para o futuro sem perder a ternura do olhar infantil. Uma obra que mistura referências com liberdade, sem medo de parecer estranha. E acima de tudo, um lembrete de que a animação ainda é capaz de produzir imagens que fazem o espectador sentir algo verdadeiro. Em tempos de produções cada vez mais calculadas e previsíveis, Arco surge como um arco-íris inesperado no céu do cinema. E às vezes é exatamente isso que a arte precisa ser.