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abril 22, 2026

Michael (2026)

 


Título original: Michael
Direção: Antoine Fuqua
Sinopse: A história da vida de Michael Jackson além da música, traçando sua jornada desde a descoberta de seu talento extraordinário como líder dos Jackson Five até o artista visionário cuja ambição criativa impulsionou uma busca implacável para se tornar o maior artista do mundo.


Há algo curioso acontecendo com a recepção de Michael (2026), dirigido por Antoine Fuqua. Ao contrário do que a esmagadora maioria dos críticos está publicando, vou discordar veementemente da impressão que eles tiveram, em comparação com a minha. Existe quase uma má vontade generalizada em aceitar o filme pelo que ele se propõe a ser. E talvez esse seja o ponto central. Michael não quer ser um estudo psicológico aprofundado, tampouco um drama biográfico convencional que disseca traumas em ritmo lento. Michael é um espetáculo visual e sonoro impressionante, é um mega videoclipe muito bem realizado, e é justamente nisso que reside sua força.

Desde os primeiros minutos, o filme deixa claro seu compromisso com o ritmo e com a experiência sensorial. A montagem é acelerada, quase pulsante, acompanhando a própria energia da carreira de Michael Jackson. A edição rápida é eficaz, o filme não se prolonga muito em dramas e atinge especialmente a nova geração, acostumada com vídeos ágeis nos seus TikTok ou Instagram. Há quem veja isso como superficialidade, mas me parece uma leitura equivocada. O filme entende o tempo em que está sendo lançado e dialoga com ele sem abandonar completamente os espectadores mais antigos. É uma obra que respira modernidade sem apagar suas raízes.

E é justamente nesse equilíbrio que o longa surpreende. O balanceamento deste filme é impressionante. Para quem foi contemporâneo de Michael, como eu, o filme sutilmente, nas entrelinhas, coloca itens e falas que remetem a eventos muito importantes da vida dele, sem ser explícito. Há sugestões discretas sobre sua infância rígida, sua adolescência moldada sob pressão e até aspectos mais delicados, como sua relação com a religião (Michael foi Testemunha de Jeová até a época de Thriller) e os primeiros contatos com medicamentos que mais tarde teriam consequências trágicas. Nada disso é jogado na cara do espectador. Está ali, para quem quiser enxergar. Já para quem não conhece profundamente sua história, o impacto vem por outro caminho. Os mais jovens certamente saem da sessão com uma impressão avassaladora sobre quem foi talvez a maior estrela pop da história da música.

Claro, nem tudo é perfeito. A meia estrela que falta para que o filme seja absolutamente irretocável está no roteiro, que é, sim, fraquinho e simplista em diversos momentos. Há uma tendência a resolver conflitos rapidamente demais, como se o filme estivesse mais interessado em seguir para a próxima performance do que em explorar as consequências dramáticas de cada situação. Mas, sinceramente, isso acaba ficando em segundo plano. Diante do espetáculo que se desenrola por pouco mais de duas horas, o roteiro não chega a incomodar de verdade. Ele cumpre sua função básica de conduzir o espectador de um ponto a outro.

E se há algo que sustenta esse espetáculo com força quase inacreditável, são as atuações. Colman Domingo, no papel de Joseph Jackson, está simplesmente aterrador. Ele não interpreta, ele encarna uma presença opressora, quase demoníaca. É o tipo de atuação que provoca reação imediata do público. Na sessão em que estive, era comum ouvir insultos e murmúrios indignados sempre que ele aparecia em cena. Isso não é algo trivial. É sinal de que o filme conseguiu estabelecer um elo emocional direto com a plateia.

Mas o grande milagre aqui atende pelo nome de Jaafar Jackson. Interpretando o próprio tio, ele atinge um nível de mimetismo que beira o inacreditável. Durante toda a exibição, a sensação não é de estar vendo um ator, mas o próprio Michael em carne e osso. Cada movimento, cada expressão facial, cada inflexão vocal parece ter sido extraída diretamente de arquivos históricos. E o mais impressionante é que não se trata apenas de imitação física. Nas cenas de estúdio, em que a voz é do próprio Jaafar, há uma entrega vocal que sustenta a ilusão de maneira impressionante. Existia uma dúvida legítima sobre sua capacidade dramática, já que não vinha de uma carreira consolidada como ator. Essa dúvida desaparece rapidamente. Ele não apenas sustenta as cenas mais emotivas, como as eleva.

Seria injusto não destacar também o trabalho do jovem Juliano Krue Valdi, que interpreta Michael na infância. Há ali um carisma natural que evita que o início do filme se torne apenas um prólogo funcional. Ele incorpora os trejeitos, o jeito de cantar e dançar com uma naturalidade que impressiona. É um primeiro ato que poderia facilmente cair no lugar-comum, mas ganha vida própria graças à sua presença.

Um ponto que certamente dividirá opiniões é a escolha de ignorar completamente as polêmicas mais pesadas da vida de Michael Jackson. O filme não toca em nenhuma delas. Para alguns, isso será visto como omissão. Para mim, é uma escolha consciente de foco. Michael é um filme feito para os fãs antigos e para criar novos fãs do artista. Ao evitar mergulhar em controvérsias que dominariam a narrativa, o longa preserva a centralidade da música, da performance e da aura quase mítica do artista. É uma abordagem que privilegia o encantamento em vez da desconstrução.

Outro aspecto interessante é a decisão ousada da Lionsgate e Universal Pictures de dividir a história em partes. O filme acompanha Michael desde os tempos dos Jackson 5 até 1988, logo após o lançamento do álbum Bad. Para muitos espectadores, inclusive na sessão em que estive, foi uma surpresa completa chegar ao clímax e ver surgir na tela a frase indicando que a história continua. Essa estratégia lembra o que vimos recentemente com Wicked, embora os contextos sejam completamente diferentes. Aqui, há um apelo global muito mais amplo. Michael Jackson transcende gerações, culturas e fronteiras de uma maneira que poucas figuras na história conseguiram.

Meu palpite é que essa decisão será acertada do ponto de vista financeiro. Ainda assim, para quem acompanha a trajetória de Michael há décadas, fica uma sensação de que essa primeira parte poderia ter sido ainda mais expansiva. Mesmo com seus 127 minutos, o filme parece enxuto demais. Há material ali para pelo menos mais uma hora de duração sem que o ritmo fosse comprometido. Para fãs de longa data, assistir a quatro horas desse universo não seria um problema. Muito pelo contrário.

E vale reforçar algo essencial. Este é um filme para ser visto na maior tela possível, com a melhor qualidade de som disponível. Não é exagero. A experiência audiovisual é parte fundamental da obra. Ver Michael em uma sala IMAX, por exemplo, é algo que transforma completamente a percepção do filme. Cada batida, cada coreografia, cada jogo de luz ganha uma dimensão quase física.

No fim das contas, Michael é um filme que talvez esteja sendo julgado por critérios que não se aplicam a ele. Não é uma biografia tradicional. Não é um drama introspectivo. É uma celebração grandiosa, energética e altamente estilizada de um artista que redefiniu o conceito de espetáculo na música. É memorável, inesquecível, assim como o biografado. E enquanto muitos se prendem ao que o filme não faz, eu prefiro valorizar com entusiasmo tudo aquilo que ele faz com uma confiança impressionante.

Agora resta esperar pela continuação. Se este primeiro capítulo já consegue capturar com tanta força a ascensão de Michael Jackson, fica a expectativa sobre como será retratada a fase mais complexa e melancólica de sua vida. E inevitavelmente surge a curiosidade. Assim como este se chama Michael, será que o próximo carregará o peso do sobrenome? Talvez Jackson. Seja qual for o título, a expectativa já está criada.