Há algo de curioso, quase inevitável, na existência de Pod Parou (2025), dirigido por Rudolf Biermann. Não se trata apenas de mais um filme europeu de comédia dramática sobre crise existencial adulta, mas de um remake direto de Druk (Another Round, 2020), aquele mesmo que ganhou o Oscar e já parecia, por si só, um comentário suficientemente completo sobre o tema que aborda. Ainda assim, Biermann decide revisitar essa ideia, agora sob uma perspectiva feminina e dentro de um contexto tcheco-eslovaco. O problema é que, ao refazer um filme tão recente e tão marcante, a comparação deixa de ser inevitável e passa a ser quase cruel.
A história acompanha Martina, vivida por Hana Vagnerová, e suas três amigas, todas professoras do ensino médio, que resolvem testar uma teoria curiosa: a de que o ser humano funciona melhor mantendo um nível constante de álcool no sangue. A partir dessa premissa, o filme se desenrola como uma mistura de leveza e descontrole, tentando equilibrar humor, drama e reflexão sobre a vida adulta.
A escolha de trocar o grupo masculino do original por quatro mulheres é, sem dúvida, a decisão mais interessante do projeto. Existe um potencial genuíno nessa mudança, especialmente quando se pensa nas pressões sociais, profissionais e emocionais que recaem sobre essas personagens. O filme até sugere esse caminho em alguns momentos, principalmente nas interações entre elas, que possuem uma naturalidade agradável, quase como se estivéssemos observando conversas reais. Há cumplicidade, ironia e até um certo cansaço silencioso que emerge aos poucos.
O problema é que Pod Parou raramente vai além dessa superfície. Ele parece confortável demais em repetir a estrutura do original, como se estivesse constantemente com medo de se afastar daquilo que já funcionou antes. E isso pesa. Em vez de reinterpretar, o filme muitas vezes apenas reproduz. A sensação é de assistir a uma versão ligeiramente deslocada, com pequenas mudanças aqui e ali, mas sem uma identidade forte o suficiente para justificar sua própria existência.
As atuações ajudam a sustentar o filme por um tempo. Hana Vagnerová conduz bem a protagonista, trazendo uma mistura de fragilidade e entusiasmo que torna sua jornada minimamente envolvente. Zuzana Bydžovská, Judit Pecháček e Alžbeta Ferencová também contribuem com performances sólidas, especialmente nos momentos em que o grupo está junto, onde o filme encontra seu melhor ritmo. Ainda assim, falta algo mais marcante, uma cena ou interpretação que realmente fique na memória depois que tudo termina.
O tom do filme oscila bastante. Em certos momentos, ele aposta em um humor leve, quase cotidiano, que funciona de maneira discreta. Em outros, tenta mergulhar em questões mais profundas sobre frustração, envelhecimento e sentido da vida. O problema é que essa transição nem sempre é bem construída. Falta impacto. Falta coragem para ir mais fundo. O que poderia ser um estudo mais incisivo sobre escapismo acaba se tornando apenas uma observação morna.
Visualmente, o filme segue uma linha bastante tradicional. Não há grandes ousadias, nem escolhas que chamem atenção de forma especial. Tudo é funcional, correto, mas também esquecível. A trilha sonora acompanha essa proposta sem grandes riscos, servindo mais como apoio do que como elemento narrativo relevante.
Outro ponto que pesa contra Pod Parou é o fato de sua premissa já não soar tão fresca quanto antes. A ideia do experimento alcoólico, que no original tinha um certo frescor e até uma dose de provocação, aqui parece mais domesticada. O filme até tenta mostrar as consequências desse comportamento, mas faz isso de maneira previsível, quase protocolar, sem realmente incomodar ou surpreender.
No fim das contas, o filme não é exatamente ruim. Ele tem momentos agradáveis, algumas interações sinceras e um elenco competente que segura a narrativa. Mas também é um filme que parece sempre à sombra de outro, incapaz de se afirmar com força própria. Falta personalidade, falta risco, falta aquela centelha que transforma uma boa ideia em algo realmente memorável.
Pod Parou é como uma conversa interessante que nunca se aprofunda de verdade. Você escuta, acompanha, até se envolve por alguns instantes, mas quando termina, a sensação que fica é de algo que poderia ter sido muito mais do que foi. E talvez esse seja o maior problema do filme: ele existe, funciona, mas nunca se justifica completamente.
.webp)