Páginas

março 25, 2026

Parasita (2019)

 


Título original: 기생충 
Direção: Bong Joon-ho
Sinopse: Toda a família de Ki-taek está desempregada, vivendo num porão sujo e apertado. Uma obra do acaso faz com que o filho adolescente da família comece a dar aulas de inglês à garota de uma família rica. Fascinados com a vida luxuosa destas pessoas, pai, mãe, filho e filha bolam um plano para se infiltrarem também na família glamorosa, um a um. No entanto, os segredos e mentiras necessários à ascensão social custarão caro a todos.


Falar de Parasita é, inevitavelmente, falar de um daqueles raros momentos em que o cinema deixa de ser apenas uma boa história bem contada e passa a funcionar como um retrato quase cirúrgico da sociedade. Bong Joon-ho, que já vinha construindo uma carreira sólida e inquieta dentro do cinema sul-coreano, aqui atinge um ponto de maturidade impressionante, criando um filme que é ao mesmo tempo simples de acompanhar e profundamente complexo naquilo que sugere. A história, centrada na família de Ki-taek, vivendo em um porão apertado e insalubre, e sua infiltração na casa de uma família rica, poderia facilmente cair em algo previsível, mas o diretor transforma essa premissa em um jogo constante de tensão, humor e desconforto.

O que mais chama atenção logo de início é como o filme se constrói de maneira quase invisível. Não há pressa, mas também não há desperdício. Cada cena parece carregar uma pequena engrenagem que vai se encaixando na seguinte, criando uma progressão que prende sem precisar recorrer a exageros. A primeira metade é quase uma comédia, com situações absurdas e uma sensação de leveza que beira o cínico. A família Kim, interpretada por Song Kang-ho, Choi Woo-sik e Park So-dam, entre outros, se infiltra na vida dos Park com uma naturalidade que chega a ser divertida, mas sempre existe algo errado no ar, uma sensação de que aquilo não pode terminar bem.

Bong Joon-ho trabalha com contrastes de forma brilhante, mas nunca de maneira óbvia. A casa da família rica, com seus espaços amplos, linhas limpas e uma organização quase estéril, não é apenas um cenário bonito, mas um símbolo claro de distância social. Já o porão da família pobre, com suas janelas ao nível da rua e sua constante exposição à sujeira e ao caos urbano, transmite uma sensação de confinamento que vai muito além do físico. Não é só onde eles vivem, é o lugar que ocupam no mundo. E o mais interessante é que o filme nunca transforma isso em discurso explícito. Tudo está ali, mas cabe ao espectador sentir.

Conforme a narrativa avança, o tom vai mudando de maneira quase imperceptível. O que antes parecia apenas um jogo de enganação passa a revelar camadas mais sombrias, e o filme começa a se inclinar para algo mais próximo do suspense, até tocar em momentos de verdadeiro choque. Essa transição é talvez o maior trunfo de Parasita. Ele nunca se fixa em um único gênero, e essa instabilidade mantém o espectador constantemente atento, sem saber exatamente o que esperar. Não é à toa que o filme foi descrito como uma mistura de comédia, drama e thriller social, conseguindo equilibrar todos esses elementos com uma precisão rara.

O elenco funciona como um organismo único. Song Kang-ho, que já é um rosto recorrente no cinema de Bong, entrega uma atuação cheia de nuances, alternando entre o cômico e o melancólico com uma naturalidade impressionante. Mas o que realmente se destaca é o conjunto. Não há um personagem que pareça deslocado ou mal desenvolvido. Cada membro das duas famílias tem sua função dentro da história, e todos contribuem para esse jogo de aparências e tensões que vai se intensificando.

Outro ponto forte do filme está na forma como ele lida com moralidade. Não existem vilões claros, nem heróis fáceis de admirar. A família pobre mente, manipula e invade a vida alheia, mas faz isso movida por necessidade. Já a família rica não é cruel de forma direta, mas vive em uma bolha de privilégio que os torna quase indiferentes ao mundo ao redor. Essa ambiguidade é o que torna o filme tão desconfortável e, ao mesmo tempo, tão real. Como o próprio Bong Joon-ho já sugeriu, os personagens vivem em uma zona cinzenta, onde ninguém é completamente inocente ou culpado.

E então vem o impacto final, que não depende apenas de um acontecimento específico, mas de tudo o que foi construído até ali. O filme vai acumulando pequenas tensões, pequenas humilhações, pequenos sinais de desigualdade, até que tudo explode de uma maneira inevitável. Não é um choque gratuito, mas sim a consequência lógica de um sistema que já estava condenado desde o início. E talvez seja justamente isso que torna Parasita tão poderoso. Ele não oferece soluções, não aponta caminhos fáceis, apenas expõe uma realidade que é ao mesmo tempo específica da Coreia do Sul e universal.

O reconhecimento que o filme recebeu não veio por acaso. Ao se tornar o primeiro longa em língua não inglesa a vencer o Oscar de Melhor Filme, além de conquistar prêmios de direção e roteiro, Parasita não apenas marcou a história do cinema, mas também mostrou que histórias locais podem ter um alcance global quando são contadas com honestidade e precisão.

No fim, Parasita é daqueles filmes que continuam ecoando muito depois dos créditos finais. Não por ser difícil de entender, mas justamente pelo contrário. Ele é direto, acessível e até divertido em muitos momentos, mas carrega uma carga tão grande de significado que cada cena parece crescer com o tempo. É um cinema que entretém, incomoda e provoca na mesma medida, sem nunca parecer forçado ou pretensioso. E talvez seja justamente essa naturalidade em lidar com algo tão complexo que o torna tão memorável. Não é apenas um grande filme, é um daqueles raros casos em que tudo parece estar exatamente no lugar certo, como se qualquer mudança mínima fosse suficiente para quebrar o equilíbrio delicado que o sustenta.