Dirigido por Harry Lighton em sua estreia no cinema, Pillion (2025) é um daqueles filmes que parecem determinados a provocar reações fortes no público. Inspirado no romance Box Hill, de Adam Mars-Jones, o longa acompanha a relação entre Colin, um rapaz tímido e socialmente deslocado, e Ray, um misterioso motociclista que o introduz a uma dinâmica sexual baseada em dominação e submissão. No papel de Colin está Harry Melling, enquanto Ray é interpretado por Alexander Skarsgård. A produção britânico-irlandesa estreou no Festival de Cannes de 2025 e rapidamente ganhou notoriedade por seu tema provocativo e por tratar abertamente de um relacionamento BDSM entre os dois protagonistas.
A história começa de forma relativamente simples. Colin vive com os pais nos arredores de Londres, trabalha aplicando multas de estacionamento e tenta levar uma vida tranquila cantando em um quarteto de pub. Um encontro casual com Ray muda completamente seu cotidiano. O motociclista o convida para uma relação que rapidamente ultrapassa o campo do desejo ocasional e se transforma em uma estrutura rígida de submissão, na qual Colin passa a obedecer ordens, dormir no chão e desempenhar tarefas domésticas em troca da atenção do parceiro.
Embora o filme seja vendido como uma mistura de romance, humor negro e drama psicológico, a experiência de assisti-lo tende a ser bastante desconfortável. Pillion insiste em mergulhar o espectador em uma dinâmica de poder que, em vez de provocar reflexão ou complexidade emocional, frequentemente soa apenas desagradável. O longa parece fascinado pela ideia de submissão extrema e, em vários momentos, trata situações de humilhação como se fossem algo bonito, quase poético. Essa escolha narrativa acaba criando um estranhamento que não é necessariamente produtivo. Em vez de explorar as contradições humanas de seus personagens, o filme muitas vezes parece apenas contemplar o sofrimento e a degradação como se fossem elementos românticos.
Também não ajuda o fato de que a narrativa é bastante arrastada. Com pouco mais de uma hora e quarenta minutos, a história avança lentamente, repetindo variações da mesma dinâmica entre os protagonistas. Muitas cenas parecem prolongadas além do necessário, criando uma sensação de estagnação dramática. A tentativa de transformar o relacionamento em uma jornada de autodescoberta acaba se diluindo em sequências que insistem no mesmo tipo de interação, sem realmente levar a trama para novos lugares.
Apesar dessas limitações, o filme tem alguns pontos que merecem destaque. O principal deles é a atuação de Harry Melling. O ator, conhecido por muitos anos pelo papel de Dudley na série de filmes de Harry Potter, entrega aqui uma performance surpreendentemente sensível. Seu Colin é um personagem frágil, inseguro e profundamente carente de afeto, e Melling consegue transmitir essas nuances com naturalidade. Há momentos em que seu olhar ou sua postura corporal dizem mais sobre o personagem do que qualquer diálogo. É justamente essa vulnerabilidade que sustenta boa parte do interesse dramático do filme.
Infelizmente, o mesmo não pode ser dito de Alexander Skarsgård. Seu Ray deveria ser uma figura magnética, alguém capaz de exercer fascínio e domínio ao mesmo tempo. No entanto, o ator parece passar boa parte do tempo como um boneco inexpressivo. Sua atuação é rígida, quase mecânica, e raramente transmite a complexidade emocional que o personagem aparentemente exige. Em vez de um líder carismático ou ameaçador, Ray acaba parecendo apenas uma presença vazia em cena. Isso prejudica profundamente a dinâmica central da história, já que todo o conflito depende da relação entre os dois personagens.
Visualmente, o filme até tenta construir uma atmosfera específica, explorando ambientes urbanos noturnos e o universo dos clubes de motociclistas. No entanto, essa ambientação raramente se transforma em algo realmente envolvente. O cenário existe mais como pano de fundo do que como elemento dramático ativo, o que contribui para a sensação de monotonia.
No fim das contas, Pillion é um filme que claramente deseja ser provocador e ousado, mas que acaba se perdendo em sua própria proposta. Ao tentar transformar uma relação marcada por humilhação e submissão em algo esteticamente belo, o longa acaba criando uma experiência muitas vezes desagradável de assistir. Mesmo com a entrega sincera de Harry Melling, o resultado geral fica comprometido por um ritmo arrastado, uma dinâmica repetitiva e uma atuação central que simplesmente não convence.
É um daqueles casos em que a provocação parece existir mais como intenção do que como resultado artístico. E quando o choque se esgota, sobra apenas um filme longo demais para uma ideia que nunca chega realmente a justificar sua própria existência.
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