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março 28, 2026

O Calouro (1925)

 


Título original: The Freshman
Direção: Sam Taylor, Fred C. Newmeyer
Sinopse: Harold Lamb está tão entusiasmado por ter ingressado na faculdade, que tem trabalhado para ganhar dinheiro para suas pequenas despesas e aprendendo um modo especial de se apresentar como ele viu num filme. Quando ele chega à Universidade de Tate, logo se torna objeto de piadas de mau gosto e é ridicularizado. Com ajuda de uma amiga leal, a Peggy, ele se esforça e tenta solucionar o problema e faz todo o possível para ficar popular.


Falar de O Calouro é, inevitavelmente, esbarrar em um certo consenso histórico que o coloca como uma das grandes comédias do cinema mudo. Mas rever esse filme hoje, afastando-se um pouco do peso da tradição e do respeito automático aos clássicos, permite enxergar também suas limitações com mais clareza. Dirigido por Sam Taylor e Fred C. Newmeyer e estrelado por Harold Lloyd, o longa acompanha a história de um jovem universitário obcecado em se tornar popular a qualquer custo, especialmente através do futebol americano, ainda que não tenha qualquer aptidão real para isso .

A premissa é simples, quase esquemática, e gira em torno de um personagem que tenta moldar sua personalidade a partir de referências externas, como um herói fictício que ele admira. Harold Lamb, vivido por Lloyd, chega à universidade decidido a ser alguém importante, repetindo gestos, frases e até trejeitos que viu no cinema. O problema é que essa tentativa de construir uma identidade artificial o transforma justamente no oposto do que deseja: ele vira motivo de piada constante, sem sequer perceber isso por boa parte do tempo .

Esse tipo de construção narrativa tem um apelo imediato. Existe algo universal na ideia de querer pertencer, de tentar se encaixar a qualquer custo. E é justamente aí que o filme acerta com mais facilidade. Mesmo com uma estrutura bastante previsível, a história consegue estabelecer uma identificação básica com o protagonista, especialmente quando a única pessoa que realmente o enxerga de forma sincera é Peggy, interpretada por Jobyna Ralston. A relação entre os dois é simples, sem grandes nuances, mas cumpre seu papel como contraponto emocional.

O problema é que O Calouro parece confortável demais dentro dessa fórmula. A progressão dramática não surpreende em nenhum momento. Desde cedo fica claro que o personagem será humilhado, depois confrontado com a realidade, e finalmente terá uma chance de redenção. E, de fato, tudo acontece exatamente assim, com o clímax centrado na famosa partida de futebol, que se tornou uma das sequências mais lembradas do cinema mudo .

Essa sequência, aliás, é um bom exemplo da ambiguidade do filme. Por um lado, ela é dinâmica, bem encenada e demonstra um cuidado técnico impressionante para a época, especialmente no uso de multidões reais e na construção de ritmo visual. Por outro, ela se estende mais do que deveria e depende excessivamente da repetição de gags físicas. O humor de Harold Lloyd, baseado em insistência e acúmulo, aqui começa a dar sinais de desgaste.

Lloyd sempre foi visto como o “terceiro grande” do cinema mudo, atrás de Chaplin e Keaton, e isso não é por acaso. Seu estilo é mais acessível, mais direto, mas também menos inventivo. Em O Calouro, isso fica bastante evidente. Há momentos engraçados, sem dúvida, especialmente nas situações de constrangimento social, como a festa em que sua roupa começa a se desfazer aos poucos. Mas são cenas que funcionam mais pela ideia do que pela execução refinada. Falta aquele elemento de surpresa que transforma uma gag em algo realmente memorável.

Outro ponto que chama atenção é como o filme praticamente ignora qualquer aspecto mais realista da vida universitária. Não há aulas, não há estudo, não há qualquer interesse em retratar a experiência acadêmica de fato. Tudo gira em torno de popularidade, festas e esportes, como se a universidade fosse apenas um palco para essas dinâmicas superficiais . Isso não chega a ser um problema em si, mas limita bastante o alcance temático da obra.

Visualmente, o filme é competente, dentro do padrão das produções da época. A fotografia cumpre sua função, os enquadramentos são claros e funcionais, e há um bom senso de espaço nas cenas coletivas. Mas nada aqui se destaca de forma significativa. Diferente de O Homem Mosca, também estrelado por Lloyd, que possui imagens realmente icônicas, O Calouro parece mais contido, menos ousado.

O que sustenta o filme, no fim das contas, é o carisma do próprio Harold Lloyd. Seu personagem, mesmo ingênuo e por vezes irritante, ainda consegue gerar alguma empatia. Há uma energia sincera na forma como ele se entrega às situações, especialmente nas cenas físicas. Mas essa mesma ingenuidade, quando estendida demais, começa a cansar. O filme insiste em uma única ideia por tempo demais, como se tivesse dificuldade em evoluir.

Talvez o maior problema de O Calouro seja justamente esse: ele funciona, mas raramente vai além do básico. É uma comédia eficiente, com momentos pontuais de graça, mas que não se sustenta com a mesma força ao longo de toda a duração. A sensação é de estar assistindo a algo importante do ponto de vista histórico, mas não necessariamente envolvente do começo ao fim.

Não é difícil entender por que o filme foi um enorme sucesso em sua época, chegando a ser um dos maiores êxitos comerciais de Harold Lloyd . Ele conversa diretamente com um público jovem, aposta em situações simples e facilmente reconhecíveis, e entrega um final otimista e reconfortante. Mas visto hoje, sem o filtro da nostalgia ou da reverência automática, ele revela um certo desgaste.

No fim, O Calouro permanece como um registro interessante de um tipo de comédia que ajudou a moldar o cinema, mas que aqui aparece em uma forma um pouco acomodada. É um filme simpático, com boas intenções e alguns momentos inspirados, mas que nunca deixa de parecer menor do que sua própria reputação sugere.