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março 29, 2026

A História do Som (2025)

 


Título original: The History of Sound
Direção: Oliver Hermanus
Sinopse: Em 1917, Lionel e David se conhecem no Conservatório de Boston, unidos pelo amor à música folk. Anos depois, eles se reencontram e partem juntos em uma viagem pelo interior do Maine para registrar canções tradicionais de ex-soldados da Primeira Guerra. Durante essa jornada que transformará suas vidas para sempre, eles descobrem que compartilham muito mais do que a paixão pela música.


Há filmes que parecem feitos para ecoar por dentro da gente, mas acabam soando mais bonitos do que realmente profundos. A História do Som, de Oliver Hermanus, é exatamente esse tipo de obra: um filme que se constrói sobre silêncio, memória e afeto, mas que, em muitos momentos, parece mais interessado em preservar sua própria delicadeza do que em realmente nos atingir.

A história acompanha Lionel, vivido por Paul Mescal, e David, interpretado por Josh O’Connor, dois jovens que se conhecem ainda no contexto da Primeira Guerra Mundial e se reencontram depois para uma jornada bastante peculiar. Eles viajam pelo interior dos Estados Unidos, especialmente pela região rural do Maine, registrando canções folclóricas e vozes anônimas, como se estivessem tentando capturar algo que o tempo inevitavelmente apagaria . Esse ponto de partida é, por si só, extremamente bonito. Há uma poesia natural na ideia de gravar vozes esquecidas, de dar importância a histórias que nunca entrariam para os livros, e o filme entende isso muito bem.

O problema é que essa beleza conceitual nem sempre se traduz em força dramática. Hermanus, que já demonstrou sensibilidade em trabalhos anteriores, aqui opta por um caminho extremamente contido, quase tímido. Tudo parece calculado para ser sutil, elegante, contemplativo. E, de fato, há momentos em que isso funciona. Quando a música entra em cena, o filme ganha uma vida que antes parecia adormecida. As canções folclóricas, captadas de forma quase documental, carregam uma emoção genuína, como se fossem pequenas cápsulas de humanidade preservadas no tempo .

Mas entre uma música e outra, o filme se arrasta. A relação entre Lionel e David, que deveria ser o coração pulsante da narrativa, nunca atinge a intensidade que promete. Existe química entre Mescal e O’Connor, isso é inegável, mas o roteiro parece sempre hesitar em aprofundar essa conexão. Em vez de construir camadas, ele prefere sugerir, insinuar, deixar no ar. E sugestão demais, sem sustentação, acaba virando vazio.

Essa sensação de vazio não vem da falta de acontecimentos, mas da falta de impacto deles. Há separações, reencontros, cartas que não chegam, silêncios que deveriam doer mais do que doem. O filme até tenta trabalhar a ideia de memória e ausência, mostrando como certas relações ficam presas no tempo, incompletas. Só que tudo isso é tratado com uma distância emocional que impede qualquer envolvimento mais forte. Em vários momentos, parece que estamos observando a história de fora, como quem escuta uma gravação antiga sem realmente se conectar com quem está falando.

Visualmente, o filme é bonito de um jeito quase óbvio. As paisagens rurais, o inverno, a luz suave atravessando janelas e campos, tudo contribui para uma atmosfera melancólica e nostálgica. É aquele tipo de fotografia que claramente quer ser admirada, e provavelmente será. Mas há um certo excesso de “bom gosto” que pesa contra o filme. Em vez de reforçar a narrativa, essa estética polida acaba deixando tudo um pouco engessado, como se o filme tivesse medo de se sujar, de se tornar mais humano.

Essa crítica não é isolada. Parte da recepção apontou justamente essa rigidez, descrevendo o filme como excessivamente controlado e até um pouco anestesiado, como se estivesse preso à própria elegância . E isso faz sentido. Há uma diferença entre ser delicado e ser inofensivo, e A História do Som frequentemente escorrega para o segundo caso.

Ainda assim, não é um filme descartável. Há mérito no cuidado com que ele trata a música e na tentativa de conectar som e memória como formas de resistência ao esquecimento. A ideia de que registrar uma canção é também preservar uma vida inteira é poderosa. Em alguns momentos, o filme realmente toca nisso com sensibilidade, principalmente quando deixa de lado a trama romântica e se concentra nas pessoas que Lionel e David encontram pelo caminho.

No fim das contas, o que fica é uma sensação agridoce. Há um filme muito bonito aqui, cheio de intenções interessantes e com dois atores competentes segurando bem seus papéis. Mas também há uma falta de coragem narrativa, uma recusa em mergulhar mais fundo nas emoções que ele mesmo propõe explorar. O resultado é uma obra que encanta pela superfície, mas que raramente ultrapassa essa camada.

A História do Som quer ser sobre aquilo que permanece, sobre ecos do passado que insistem em sobreviver. Ironicamente, ele próprio corre o risco de se tornar apenas mais um desses ecos: bonito, distante e fácil de esquecer assim que o silêncio volta a tomar conta.