O documentário Mr. Nobody Against Putin (2025), dirigido por David Borenstein e pelo próprio professor russo Pavel Talankin, parte de uma premissa extremamente poderosa. A ideia de acompanhar um professor que decide registrar, por dentro, o funcionamento de um sistema educacional transformado em ferramenta de propaganda estatal é, por si só, material de sobra para um grande documentário político. O filme acompanha Talankin, funcionário de uma escola primária na pequena cidade de Karabash, nos montes Urais, que passa a registrar secretamente as mudanças na educação russa após a invasão da Ucrânia em 2022, quando programas de “educação patriótica” começam a transformar o cotidiano escolar em um palco de nacionalismo e militarização.
Talankin não é exatamente um dissidente clássico. Ele é um funcionário escolar comum, um tipo meio brincalhão e querido pelos alunos, alguém que jamais imaginaria estar envolvido em algo que pudesse ser chamado de ativismo político. O que torna sua jornada interessante é justamente essa posição de “ninguém”, alguém que não pretende liderar uma revolução, mas que acaba se vendo moralmente incapaz de ignorar o que está acontecendo ao seu redor. Conforme a guerra avança e o governo russo intensifica a retórica patriótica nas escolas, ele passa a filmar cerimônias, aulas, eventos e discursos que gradualmente transformam o ambiente educacional em algo próximo de um campo de formação ideológica.
O material captado por Talankin ao longo de cerca de dois anos é, sem dúvida, o grande trunfo do filme. Há algo perturbador em observar crianças participando de atividades cada vez mais militarizadas, professores repetindo slogans oficiais e eventos escolares que lembram mais um ritual político do que um ambiente pedagógico. Algumas das cenas mais fortes surgem justamente da banalidade. Não há violência explícita ou confrontos dramáticos. O que vemos é um cotidiano aparentemente normal sendo lentamente tomado por símbolos patrióticos, discursos de guerra e a constante ideia de que o dever cívico é defender o país a qualquer custo. Esse tipo de registro direto tem um valor histórico enorme, pois mostra como a propaganda funciona não apenas em discursos grandiosos, mas nas pequenas rotinas da vida diária.
O problema é que, apesar dessa premissa extraordinária, Mr. Nobody Against Putin raramente consegue transformar seu material em uma narrativa realmente envolvente. O filme parece confiar demais na força da ideia inicial e acaba se acomodando em uma estrutura repetitiva. Muitas cenas seguem o mesmo padrão: eventos escolares filmados por Talankin, comentários em voz over sobre sua frustração e novas situações que reiteram o mesmo ponto sobre a presença da propaganda no sistema educacional.
Essa repetição começa a pesar ao longo da projeção. O documentário tem cerca de noventa minutos, mas em vários momentos dá a sensação de estar girando em torno da mesma observação. A cada nova sequência percebemos novamente que a escola está sendo usada para reforçar valores nacionalistas, mas o filme raramente avança para reflexões mais profundas ou para novos caminhos narrativos. Há momentos em que parece faltar um olhar mais incisivo da direção para organizar o material e encontrar uma progressão dramática mais clara.
Outro elemento que contribui para essa sensação é a própria narração de Talankin. Como ele também é personagem central da história, seu relato em primeira pessoa tenta dar unidade ao filme. Em certos momentos isso funciona bem, principalmente quando ele expressa dúvidas morais ou medo das consequências de seu trabalho. Porém, em outros trechos, a narração acaba apenas reforçando aquilo que já está evidente nas imagens, o que contribui para a sensação de repetição.
Isso não significa que o documentário seja desinteressante. Pelo contrário. O acesso que o protagonista teve ao interior da escola é impressionante e oferece um retrato raro da realidade russa contemporânea. O fato de Talankin ter registrado esse material enquanto ainda vivia no país e corria risco real de punição dá ao filme um peso ético considerável. Não se trata apenas de um registro jornalístico, mas de um gesto de coragem pessoal. Há momentos em que o espectador percebe claramente que aquela câmera pode custar a liberdade de quem está atrás dela.
Também chama atenção a atmosfera melancólica que se instala conforme o filme avança. Talankin demonstra um carinho genuíno pelos alunos e pela própria escola. Ver esse ambiente se transformar gradualmente em um espaço dominado por discursos de guerra cria um sentimento de perda silenciosa. O que antes era apenas um lugar comum da infância passa a carregar uma carga ideológica pesada, e o documentário consegue capturar essa mudança de forma bastante clara.
Mesmo assim, fica a impressão de que Mr. Nobody Against Putin tinha potencial para ser muito mais impactante. A premissa é excelente, o acesso ao material é raro e a história pessoal do protagonista é forte. Mas o resultado final nunca alcança totalmente a força dramática que essas peças prometiam. O filme informa, documenta e denuncia, mas raramente empolga ou surpreende.
No fim das contas, a obra funciona mais como um testemunho importante do que como um grande documentário cinematográfico. É um registro valioso de um momento histórico e da coragem de um funcionário escolar comum que decidiu olhar para a realidade com honestidade. Só que, cinematograficamente falando, a experiência acaba sendo mais interessante em teoria do que na prática. Uma ideia poderosa que, infelizmente, se repete mais do que evolui.
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