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março 02, 2026

Embaixo da Luz de Neon (2025)

 


Título original: Come See Me in the Good Light
Direção: Ryan White
Sinopse: Em uma história íntima e alegre de amor diante da perda, as poetas Andrea Gibson e Megan Falley encontram força, e hilaridade inesperada, naquele que pode ser o último ano juntas.


No documentário Embaixo da Luz de Neon, dirigido por Ryan White, existe uma intenção clara de construir um retrato íntimo sobre a vida e os últimos anos da poeta norte-americana Andrea Gibson. A obra acompanha Gibson e sua companheira, a escritora Megan Falley, durante o período em que a poeta enfrenta um diagnóstico de câncer considerado incurável. O filme tenta transformar essa experiência dolorosa em uma reflexão sobre amor, mortalidade e arte, costurando cenas do cotidiano do casal com leituras de poemas e momentos de intimidade doméstica.

Na superfície, o projeto parece promissor. A premissa é a de acompanhar um casal de artistas enquanto lidam com a fragilidade da vida e com a proximidade da morte, um terreno que o cinema documental já explorou muitas vezes, mas que ainda pode render obras profundamente humanas. O problema é que o filme de Ryan White acaba preso justamente nessa familiaridade excessiva. Desde os primeiros minutos, fica evidente que o documentário se apoia em um tema batido, daqueles que parecem ter sido reciclados inúmeras vezes no circuito de festivais: a jornada inspiradora de alguém que enfrenta uma doença terminal. Em vez de encontrar um ponto de vista novo ou uma abordagem realmente particular, a narrativa segue uma cartilha previsível que já foi vista em dezenas de produções semelhantes.

White opta por um estilo extremamente íntimo, acompanhando Andrea Gibson em consultas médicas, conversas em casa, leituras de poesia e momentos aparentemente espontâneos da vida cotidiana. A câmera está sempre muito próxima, como se quisesse transmitir a sensação de que o espectador faz parte daquela convivência. Em teoria, essa proximidade deveria gerar empatia e profundidade emocional. Na prática, no entanto, o filme parece repetir indefinidamente as mesmas situações: conversas sobre o estado de saúde, reflexões sobre a vida, pequenos momentos domésticos, leituras de poemas e novas conversas sobre o estado de saúde. O ciclo se repete tantas vezes que, em certo ponto, o espectador passa a sentir que já viu tudo aquilo antes.

Esse problema se torna ainda mais evidente na duração do documentário. Com pouco mais de uma hora e quarenta minutos, o filme parece absurdamente longo para aquilo que realmente tem a dizer. Não se trata de uma história complexa, nem de um retrato que precise de muitas camadas narrativas para se sustentar. Pelo contrário, a sensação é de que o material poderia facilmente ser reduzido a metade do tempo sem perder absolutamente nada. O resultado final transmite a impressão de que o documentário entra em um loop narrativo interminável, revisitando as mesmas ideias e emoções até que elas percam completamente o impacto.

A responsabilidade por isso recai, em grande parte, sobre o trabalho de edição. Em teoria, a montagem deveria organizar os acontecimentos de maneira a criar progressão dramática. Aqui, porém, ela parece simplesmente acumular cenas semelhantes, como se qualquer momento capturado pela câmera fosse automaticamente digno de permanecer no corte final. O filme insiste em mostrar repetidas interações entre Gibson e Falley, momentos de humor ou ternura que inicialmente funcionam, mas que se tornam cada vez mais redundantes conforme se repetem. O resultado é um ritmo arrastado que transforma uma história potencialmente comovente em uma experiência cansativa.

Nem mesmo o uso da poesia de Andrea Gibson consegue salvar a narrativa desse desgaste. Os poemas aparecem ao longo do filme como comentários sobre os acontecimentos, tentando dar uma dimensão artística à história. Em alguns momentos, essa estratégia funciona, especialmente quando os versos dialogam diretamente com a fragilidade da vida e com o medo da morte. Mas o documentário usa esse recurso tantas vezes que ele também acaba se tornando previsível. Cada leitura de poema surge quase como um marcador emocional programado, sinalizando ao público que aquele é o momento de sentir algo profundo.

Isso não significa que o filme seja completamente vazio. Existem instantes genuínos de humanidade, especialmente quando Gibson demonstra humor diante da própria situação ou quando o casal conversa sobre memórias e inseguranças. Esses fragmentos têm uma honestidade que poderia sustentar um retrato muito mais poderoso. O problema é que eles ficam soterrados por uma estrutura narrativa repetitiva e por uma insistência em prolongar a experiência muito além do necessário.

Também chama atenção a maneira como o documentário parece constantemente buscar um tom inspirador, quase edificante, como se estivesse preocupado em transformar cada momento em uma lição sobre a vida. Essa abordagem acaba diluindo a complexidade da situação real. A doença, o medo e a vulnerabilidade aparecem filtrados por uma estética sentimental que transforma o drama em algo excessivamente polido.

No fim das contas, Embaixo da Luz de Neon revela um paradoxo curioso. Trata-se de um filme feito com boas intenções e protagonizado por pessoas claramente carismáticas e autênticas. Mas essas qualidades não são suficientes para sustentar uma obra tão longa e repetitiva. O que poderia ser um retrato sensível sobre amor e mortalidade acaba se transformando em um documentário que gira em círculos, preso a um tema já explorado inúmeras vezes e prejudicado por um trabalho de edição que parece incapaz de enxugar sua própria narrativa.

Talvez a história de Andrea Gibson merecesse um filme mais direto, mais concentrado e menos preocupado em transformar cada instante em uma epifania. Porque, quando a câmera finalmente se afasta de sua insistência em repetir as mesmas situações, fica claro que havia ali uma história simples e humana. Infelizmente, o documentário prefere prolongá-la até que ela se torne exaustiva, como uma conversa que já disse tudo o que tinha a dizer muito antes de terminar.