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março 21, 2026

Ben-Hur (1925)

 


Título original: Ben-Hur: A Tale of the Christ
Direção: Fred Niblo
Sinopse: Os amigos de infância Judah Ben-Hur e Messala encontram-se novamente quando adultos. Messala é um oficial romano e Ben-Hur é um judeu conquistado. Um mal-entendido durante um desfile romano faz com que Ben-Hur seja escravizado pelo agora ex-amigo e veja sua família humilhada. Este é apenas o começo da épica jornada de Ben-Hur em busca da vingança.


Falar de Ben-Hur (1925) é, antes de tudo, falar de um momento em que o cinema ainda estava descobrindo até onde podia ir. Dirigido por Fred Niblo, o filme nasce como um projeto gigantesco para a época, quase um ato de ousadia industrial, e ao mesmo tempo como uma tentativa sincera de contar uma história de fé, vingança e redenção. O resultado é curioso, porque oscila constantemente entre o deslumbramento técnico e uma certa dificuldade narrativa que impede a obra de atingir uma força emocional mais consistente.

A história acompanha Judah Ben-Hur, interpretado por Ramon Novarro, um príncipe judeu traído pelo amigo de infância Messala, vivido por Francis X. Bushman. A partir daí, o filme percorre um caminho clássico de queda e ascensão, misturando drama pessoal com pano de fundo histórico e religioso. É uma narrativa de grandes ideias, mas que, em muitos momentos, parece mais preocupada em mostrar sua grandiosidade do que em fazer o espectador sentir o peso emocional de cada acontecimento.

E essa grandiosidade é, sem dúvida, o grande trunfo e também o grande problema do filme. Com um orçamento que beirava os 4 milhões de dólares, algo absurdo para os anos 1920, a produção se tornou a mais cara do cinema mudo . Isso está visível em cada cena. Multidões, cenários imensos, batalhas marítimas e uma recriação monumental do mundo antigo fazem com que o filme impressione ainda hoje. Não é difícil entender por que ele ajudou a consolidar a Metro-Goldwyn-Mayer como uma potência de Hollywood.

Mas o que mais chama atenção, inevitavelmente, é a famosa corrida de bigas. É o tipo de sequência que parece ter sido feita para atravessar o tempo. Filmada com dezenas de câmeras e envolvendo uma quantidade absurda de material bruto, ela foi reduzida a poucos minutos que condensam tensão, ritmo e espetáculo de forma impressionante . Mesmo hoje, há uma fisicalidade ali que muitos filmes modernos não conseguem replicar. Não é apenas grandiosa, é visceral.

Só que fora desses momentos de impacto, o filme sofre com o próprio formato. Como todo épico mudo, depende de intertítulos e expressões exageradas para transmitir emoção, e nem sempre isso funciona. Ramon Novarro tem presença e carisma, mas seu Ben-Hur às vezes parece distante, como se estivesse sempre a um passo de realmente se conectar com o público. Já Francis X. Bushman consegue imprimir uma rivalidade mais clara, embora também limitado pelas convenções da época.

Existe ainda um elemento religioso que atravessa o filme inteiro, com a presença indireta de Jesus Cristo influenciando a trajetória do protagonista. Essas passagens têm uma intenção espiritual interessante, e até ousada para a época, especialmente pelo uso de cores em algumas cenas específicas, algo ainda experimental naquele momento . No entanto, elas quebram o ritmo da narrativa e reforçam a sensação de que o filme está dividido entre dois objetivos: ser um espetáculo histórico e uma parábola religiosa.

Talvez o maior ponto de conflito esteja justamente aí. Ben-Hur quer ser tudo ao mesmo tempo. Quer emocionar, impressionar, ensinar, deslumbrar. E consegue, em partes. Há momentos em que o filme realmente alcança algo próximo do sublime, especialmente nas sequências de ação e nas composições visuais mais ambiciosas. Mas há outros em que ele se arrasta, preso a uma narrativa que parece inchada, como se o peso da produção tivesse engolido a leveza da história.

Ainda assim, é impossível ignorar sua importância. Não apenas como marco técnico, mas como símbolo de uma época em que o cinema ainda estava inventando suas próprias regras. Muitos dos caminhos que seriam explorados décadas depois já estão aqui, ainda em estado bruto, ainda imperfeitos.

Assistir a esse Ben-Hur hoje é uma experiência curiosa. Não é exatamente envolvente o tempo todo, nem emocionalmente devastador como poderia ser. Mas é fascinante. É como observar um gigante em formação, cheio de força, mas ainda aprendendo a se equilibrar. No fim das contas, é um filme que impressiona mais pela ambição do que pela execução, mais pelo que representa do que pelo que entrega plenamente. E talvez seja justamente isso que o mantém vivo até hoje.