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março 20, 2026

As Loucuras (2025)

 


Título original: Las Locuras
Direção: Rodrigo García
Sinopse: Seis mulheres unidas por uma "amiga" em comum: a loucura. E receber a visita dela significa escancarar a realidade, tomar decisões ousadas e ter a vida transformada.


As Loucuras (2025), dirigido por Rodrigo García, é daqueles filmes que parecem simples à primeira vista, mas vão se abrindo aos poucos, quase como uma conversa íntima que começa tímida e termina expondo feridas profundas. Não é um filme que grita, não é um filme que tenta te convencer à força. Ele te puxa devagar, com calma, até que você percebe que já está completamente envolvido naquele universo emocional fragmentado.

A proposta narrativa é curiosa. O longa se constrói como um mosaico de histórias, acompanhando diferentes mulheres em momentos de ruptura, todas atravessadas por pressões sociais, familiares e internas que vão se acumulando até transbordar . Existe uma sensação constante de limite, como se cada personagem estivesse prestes a cruzar uma linha invisível entre o controle e o colapso. E o mais interessante é que o filme nunca trata isso de forma caricata ou exagerada. Pelo contrário, há uma naturalidade desconcertante em como essas “loucuras” se manifestam.

O roteiro do próprio García evita amarrar tudo de maneira convencional. Não há uma estrutura clássica com começo, meio e fim bem definidos para cada arco. Em vez disso, as histórias se conectam mais por sentimento do que por narrativa direta. Essa escolha poderia facilmente resultar em algo confuso, mas aqui funciona porque o filme entende que o elo entre essas mulheres não é um evento específico, mas sim uma experiência compartilhada de sufocamento emocional. É como se todas estivessem vivendo versões diferentes da mesma crise.

O desempenho do elenco é, sem exagero, o coração do filme. Cassandra Ciangherotti, especialmente, carrega uma intensidade impressionante na pele de Renata, uma personagem que já começa a história em um estado de fragilidade evidente, em prisão domiciliar após um colapso mental . Há algo nos seus silêncios que diz mais do que qualquer diálogo. Naian González Norvind e Adriana Barraza também entregam performances muito humanas, sem qualquer traço de artificialidade, como se estivéssemos assistindo pedaços reais de vida sendo capturados pela câmera.

E talvez seja justamente aí que o filme mais acerta. Ele não tenta explicar demais. Não há diagnósticos fáceis, não há moral da história mastigada. O que existe é uma observação sensível dessas personagens lidando com expectativas que vêm de todos os lados. Família, sociedade, relações afetivas, autocobrança. Tudo pesa. Tudo acumula. E em algum momento, inevitavelmente, explode.

Visualmente, o filme acompanha essa proposta com uma abordagem discreta, mas muito eficiente. A câmera parece sempre próxima demais, quase invasiva, como se estivesse tentando captar algo que as personagens não conseguem expressar em palavras. Não há grandes exibicionismos estéticos. A fotografia prefere tons mais neutros, ambientes cotidianos, reforçando a ideia de que essas histórias poderiam estar acontecendo em qualquer lugar, com qualquer pessoa. E isso torna tudo ainda mais incômodo, porque aproxima demais da realidade.

Outro ponto interessante é como o tempo é tratado. A narrativa se passa em um único dia, mas a sensação é de que estamos vendo anos de desgaste emocional condensados em poucas horas . Essa compressão do tempo dá ao filme uma urgência silenciosa. Nada parece apressado, mas tudo parece prestes a desmoronar.

O texto também flerta com uma crítica sutil à forma como a sociedade encara a saúde mental, especialmente quando se trata de mulheres. Existe uma linha tênue entre o que é considerado comportamento aceitável e o que é rapidamente rotulado como “loucura”. O filme não oferece respostas, mas levanta perguntas incômodas, daquelas que ficam ecoando depois que os créditos sobem.

Se há alguma fragilidade, talvez esteja justamente na natureza fragmentada da obra. Nem todas as histórias têm o mesmo impacto, e algumas parecem mais desenvolvidas do que outras. Em certos momentos, dá vontade de permanecer mais tempo com determinadas personagens, de explorar melhor suas trajetórias. Mas, curiosamente, essa sensação de incompletude também dialoga com o próprio tema do filme. Afinal, vidas reais raramente têm resoluções perfeitas.

No fim das contas, As Loucuras é um filme que encontra sua força naquilo que não diz, nos espaços vazios, nos silêncios, nos olhares perdidos. É uma obra que exige paciência, mas recompensa com uma experiência emocional honesta e, em muitos momentos, desconfortavelmente familiar. Não é um filme para todos, nem tenta ser. Mas para quem se permite entrar nesse fluxo fragmentado de sentimentos, ele revela algo raro: a beleza caótica de pessoas tentando, à sua maneira, não desmoronar completamente.