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janeiro 14, 2026

Valor Sentimental (2025)

 


Título original: Sentimental Value
Direção: Joachim Trier
Sinopse: O reencontro das irmãs Nora e Agnes com seu pai distante, o carismático diretor Gustav, é marcado por uma proposta: Nora é convidada a estrelar o que seria o filme de retorno do outrora renomado cineasta. Quando Nora declina o papel, ela descobre que Gustav o entregou a uma jovem estrela de Hollywood, ambiciosa e cheia de entusiasmo. As duas irmãs são, então, obrigadas a lidar com a complicada relação paterna, agora intensificada pela presença inesperada dessa atriz americana inserida bem no centro de suas complexas dinâmicas familiares.


O último filme de Joachim Trier, Valor Sentimental (Sentimental Value, 2025), chegou ao circuito internacional com uma reputação de profundidade emocional e uma aura de obra madura sobre laços familiares e reconciliação. A sinopse oficial o apresenta como um drama centrado nas irmãs Nora e Agnes, que enfrentam a volta de seu pai, um cineasta outrora respeitado chamado Gustav, após a morte da mãe, e a tentativa dele de fazer um filme autobiográfico que, de alguma forma, cure as feridas do passado. O problema, para mim, é que a promessa de profundidade oferecida pela crítica e pelo material de divulgação simplesmente não se reflete no que vemos na tela. Parece que está tudo ali, exposto de forma quase didática, sem nuances verdadeiras ou camadas a serem descobertas pelo espectador. Você não precisa pensar nas entrelinhas porque não há entrelinhas de fato, apenas emoções à mostra e conflitos que se resolvem como em manual de direção de drama.

A primeira coisa que chama atenção é a previsibilidade do roteiro. Desde os primeiros minutos, quando somos apresentados à família dilacerada, já é possível antecipar cada reviravolta e conclusão emocional que o filme tenta alcançar. A tentativa de explorar a memória e o impacto que o passado tem sobre o presente é clara, mas o modo como Trier e seu corroterista constroem esses temas é literal demais, sem sutileza ou poesia. Ao contrário do que se espera de um drama que pretende ser “profundo”, as motivações e reações dos personagens são entregues de forma tão explícita que a surpresa narrativa se perde logo cedo, deixando o público mais entediado do que reflexivo.

Outro elemento que decepciona é a tal da “Casa” que a crítica e o material promocional vendem como um quase personagem por si só. A casa onde grande parte da trama se desenrola parecia em teoria um espaço carregado de memórias e simbolismo, um relicário de todos os ressentimentos e amores que moldaram a família Borg. Na prática, entretanto, ela nunca convence. O que deveria ser um lugar denso e vividamente integrado ao drama acaba parecendo cenário de teatro mal planejado, um local de passagem onde as pessoas apenas se movem e conversam. Não há textura, nem sensação de lar, nem a estranheza palpável de um lugar que guarda lembranças dolorosas. A economia de recursos faz com que a casa nunca seja mais do que um pano de fundo estático, e isso empobrece a proposta de Trier de fazer do espaço um elemento ativo na narrativa.

As atuações, que poderiam ser um dos pilares mais fortes do filme, apresentam contrastes marcantes. Stellan Skarsgård, no papel de Gustav, está correto em sua performance, mas “bom” parece ser o limite da sua contribuição aqui. Ele transmite a figura de um homem autorreferencial, alguém que sempre vê o mundo através de suas próprias lentes, mas isso não é novidade no repertório do ator e não chega a se destacar como algo memorável. A sua performance é quase indistinguível de muitas outras em sua filmografia, sem aquele lampejo de algo maior ou mais perturbador que ele alcançou em filmes mais antigos como Dogville de Lars von Trier, onde havia uma intensidade e um peso dramático que aqui simplesmente não se materializam. A ausência de uma presença mais marcante enfraquece o núcleo dramático da narrativa.

Por outro lado, Renate Reinsve, como Nora, é realmente o ponto mais interessante do filme. Ela carrega o peso emocional da personagem com um domínio de expressões faciais e olhares que dizem muito mais do que as próprias palavras em um roteiro que insiste em ser explícito demais. Reinsve tem a habilidade de comunicar conflitos internos sutis apenas com a mudança de um olhar, e isso frequentemente mantém a atenção quando tudo ao redor parece cansativo. Elle Fanning, no papel de uma estrela americana inserida na dinâmica familiar, também entrega uma performance delicada e impressionante, sobretudo pelo desafio de interpretar alguém quase sem expressão marcada, algo que exige muito mais controle e precisão do que simplesmente dramatizar emoções intensas. Esses desempenhos são, sem dúvida, as partes mais interessantes de Valor Sentimental.

O grande problema do filme, além da previsibilidade do roteiro, é o ritmo. A sensação constante é de que se está assistindo a algo excessivamente alongado. A narrativa arrasta-se de uma cena para a outra com uma lentidão que parece deliberada, mas que, em vez de criar imersão, provoca uma luta constante contra o tédio. Fiquei continuamente olhando o relógio, esperando que algo realmente envolvente acontecesse, mas isso raramente ocorreu. O filme parece querer ser contemplativo, mas o resultado é redundante, como se cada momento já tivesse sido antevisto nas cenas anteriores, sem oferecer novidade ou surpresa. Depois de menos de meia hora, dá para sentir que o final é previsível, e essa sensação só se intensifica com o passar dos minutos, colocando o público em uma espécie de transe desinteressado que dificilmente se dissipa.

Dito isso, Valor Sentimental tenta, de várias maneiras, explorar temas profundos como memória, arte e relações familiares. Há momentos em que a ideia de confrontar traumas do passado através da criação artística poderia ser instigante. Existem cenas pontuais em que a interação entre os atores traz alguma vida à tela, e pequenos gestos ou nuances emocionais conseguem breves lampejos de interesse. Mas o conjunto nunca atinge o impacto que pretende, porque tudo está disposto de forma linear e desprovida de mistério ou força narrativa. A “profundidade” falada pelas críticas e pelo material promocional existe apenas na superfície, e não há real substância que ressoe além do imediatismo da cena.

No fim, Valor Sentimental termina como um filme que se leva a sério demais sem oferecer ao público uma razão convincente para entrar nessa seriedade. A proposta pode soar honesta e cheia de boas intenções, e alguns atores realmente se destacam em meio a diálogos e situações que, em teses, deveriam emocionar. Entretanto a execução não acompanha a ambição, resultando em uma experiência longa, tediosa e previsível. É um filme que parece mais preocupado em comunicar sua mensagem claramente demais do que em provocar reflexão ou conexão real com quem assiste. Se há valor sentimental aqui, ele está mais nas performances individuais do que na obra como um todo.