Confesso que escrever sobre Pecadores é quase um exercício de resistência. O novo filme de Ryan Coogler chega cercado de expectativas, seja pelo nome do diretor, seja pelo retorno da parceria com Michael B. Jordan, mas tudo isso se dissolve rapidamente em algo que parece não saber o que quer ser. Desde os primeiros minutos, fica clara a sensação de estar diante de um reboot piorado de Um Drink no Inferno, só que sem o charme, sem o senso de diversão e sem a consciência do próprio exagero que tornavam o filme de 1996 minimamente interessante dentro da sua proposta. Aqui, o que sobra é apenas uma colagem desajeitada de ideias já vistas, mal costuradas e, pior, sem personalidade.
O filme começa tentando se vender como um drama criminal com tintas sociais, algo que até faria sentido dentro da filmografia de Coogler, mas essa intenção logo se perde em uma narrativa enfadonha, arrastada e sem qualquer poder de envolvimento. Nada avança de forma natural. As cenas se acumulam sem ritmo, sem tensão e sem propósito claro, como se o roteiro estivesse sempre prometendo uma virada que nunca chega de maneira satisfatória. Quando essa virada finalmente acontece, o longa simplesmente se transforma em uma coisa bizarra do nada, daquelas mudanças de tom que dão vergonha alheia e fazem o espectador se perguntar se está assistindo ao mesmo filme. Tenho verdadeiro horror a esse tipo de decisão, quando a obra abandona qualquer lógica interna e aposta no choque gratuito, achando que estranheza por si só é sinônimo de ousadia.
Se a narrativa já é problemática, a experiência sonora consegue ser ainda pior. A trilha sonora de Pecadores é uma agressão constante, berrando no ouvido do espectador como se quisesse forçar uma intensidade que o filme jamais alcança por mérito próprio. As músicas escolhidas são todas daquele tipo que me causa rejeição imediata, inseridas sem sutileza, sem respiro e sem qualquer preocupação em dialogar com as cenas. Em vez de criar atmosfera, a trilha apenas cansa, irrita e contribui para tornar a sessão ainda mais exaustiva. Há momentos em que parece que o filme tenta compensar o vazio de ideias aumentando o volume da música, como se isso pudesse esconder a falta de conteúdo.
Michael B. Jordan, normalmente um ator competente dentro de certos limites, aqui entrega talvez uma das piores atuações de sua carreira. E o problema se agrava pelo fato de ele interpretar irmãos gêmeos. A proposta até poderia render algo interessante, mas o resultado é desastroso. Os dois personagens são idênticos em tudo: no jeito de falar, de andar, de reagir e de expressar emoções, que já são praticamente inexistentes. A atuação é tão ruim e tão sem nuances que a solução encontrada pelo filme foi vestir um de vermelho e outro de azul, como se o espectador precisasse de um código de cores para não se perder. Isso não apenas subestima quem assiste, como escancara a incapacidade do ator e da direção de criar personagens minimamente distintos. Em vez de um jogo de espelhos ou conflitos internos, temos apenas Michael B. Jordan em dobro, repetindo os mesmos vícios e a mesma falta de expressão.
O restante do elenco infelizmente não ajuda em nada. Todos parecem deslocados, apáticos, como se estivessem apenas cumprindo tabela. Não há química, não há presença, não há vida em cena. Cada diálogo soa artificial, cada interação parece ensaiada demais e, ao mesmo tempo, vazia. É um desfile de rostos sem emoção, sem carisma e sem qualquer impacto dramático. Em nenhum momento surge um personagem que desperte interesse ou curiosidade. O filme inteiro se torna um grande nada, uma sucessão de cenas que existem apenas para preencher tempo, sem deixar marcas ou provocar reflexões.
Ryan Coogler, que em outros trabalhos demonstrou alguma habilidade em lidar com temas mais densos e personagens em conflito, aqui parece completamente perdido. A direção não consegue dar unidade ao material, nem controlar o tom da narrativa. O que poderia ser um filme provocador se transforma em um amontoado de referências mal digeridas, com decisões estéticas questionáveis e uma condução preguiçosa. Falta pulso, falta clareza e, principalmente, falta propósito. Tudo soa como uma tentativa frustrada de ser estiloso, moderno e impactante, mas sem entender o básico: contar uma boa história.
Ao final, Pecadores se consolida como uma experiência cansativa, irritante e completamente dispensável. Não há um único elemento que se salve, nem mesmo como entretenimento despretensioso. É enfadonho do início ao fim, com uma sensação constante de tempo perdido. Sem medo de exagerar, posso dizer que é, até agora, o pior filme de 2025 que vi, daqueles que já garantem presença certa quando chegar a hora de listar os maiores desastres do ano. Um filme que tenta ser muita coisa ao mesmo tempo e não consegue ser absolutamente nada. Nota zero.
.webp)