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janeiro 16, 2026

A Única Saída (2025)

 


Título original: 어쩔수가없다
Direção: Park Chan-wook
Sinopse: Um homem é demitido da empresa de papel onde trabalhou por 25 anos. Algum tempo depois, ainda desempregado, encontra uma solução: eliminar literalmente sua concorrência.


Quando Park Chan-wook anunciou seu novo projeto, muitos imaginavam que ele fosse revisitar, de forma radical, os temas mais sombrios que marcaram sua carreira. Em vez disso, A Única Saída se apresenta como uma obra que mistura humor ácido e reflexão social sem se entregar ao cinismo vazio ou à violência gratuita. A partir de uma premissa quase absurda — um homem disposto a “eliminar a concorrência” no mercado de trabalho após perder seu emprego de 25 anos — Park constrói uma narrativa que, ao mesmo tempo em que diverte, questiona com uma sutileza cruel a lógica de um sistema que descarta o indivíduo quando ele deixa de ser produtivo.

O protagonista Man-su, vivido com uma intensidade contida por Lee Byung-hun, é o coração pulsante desse drama tragicômico. A escolha do ator é um dos pontos altos do filme, pois Lee carrega em sua presença uma combinação de dignidade e frustração que torna palpáveis as dores silenciosas de quem, de repente, se vê sem rumo e sem valor social. Ao seu lado, Son Ye-jin compõe uma figura de apoio que não apaga sua própria frustração, e a química entre os dois funciona como um espelho da tensão entre o amor familiar e o desespero social. O elenco coadjuvante — incluindo nomes como Park Hee-soon, Lee Sung-min, Yeom Hye-ran e Cha Seung-won — enriquece a trama com personagens que, cada um à sua maneira, encarnam as diversas faces da competição e da sobrevivência num mundo que parece exigir sempre mais do que oferece em troca.

Tecnicamente, a cinematografia de Kim Woo-hyung merece destaque. Ele usa enquadramentos precisos para transformar ambientes comuns — a casa de Man-su, os salões de entrevistas de emprego, as ruas da Coreia do Sul — em espaços que carregam peso emocional. Há planos que parecem observar o protagonista como se fosse uma peça num tabuleiro maior, uma escolha que reforça a sensação de insignificância diante de forças econômicas impessoais. A montagem de Kim Sang-bum e Kim Ho-bin contribui para manter o ritmo fluido, alternando entre momentos de silêncio quase constrangedor e cenas de tensão absurda que lembram o tempo cômico de uma tragédia grega.

A trilha sonora é outro elemento que merece ser mencionado. Em vez de se apoiar apenas em melodias tradicionais de suspense ou drama, A Única Saída brinca com contrastes musicais inesperados. Desde obras clássicas como Mozart até canções populares coreanas e soul americano, a música amplifica o tom ambíguo do filme: ora leve e irônica, ora dolorosamente sincera na sua capacidade de fazer o espectador sentir empatia por um homem que está à beira de perder tudo. Essa escolha sonora não é apenas ornamentação, ela molda a maneira como percebemos a jornada de Man-su enquanto ele se afunda cada vez mais em uma espiral de decisões moralmente questionáveis.

Narrativamente, Park Chan-wook evita respostas fáceis. A evolução do enredo — que poderia facilmente descambar para o melodrama ou para a comédia escrachada — se mantém equilibrada, levando o público a refletir sobre temas universais como identidade, dignidade e o preço da sobrevivência num sistema que valoriza resultado acima de humanidade. A adaptação do romance O Corte, de Donald E. Westlake, é fiel ao espírito do livro, mas Park injeta sua própria sensibilidade, explorando nuances que só o cinema consegue alcançar: a construção de empatia em poucos segundos de cena, a oposição entre um sorriso falso e um olhar verdadeiramente desesperado, a sensação de que estamos observando o auge de um colapso pessoal e coletivo ao mesmo tempo.

O filme também foi bem recebido em festivais internacionais, ganhando destaque em Veneza e sendo selecionado como representante da Coreia do Sul para concorrer ao Oscar de Melhor Filme Internacional (porém esnobado completamente pela Academia, infelizmente). Isso mostra como a obra transcende barreiras culturais, falando de algo que é, de certa forma, sentindo em muitos lugares do mundo: a precariedade das relações de trabalho e a desumanização sutil que acompanha a busca por estabilidade numa economia globalizada.

Num mundo onde o cinema muitas vezes se divide entre o escapismo puro e a crítica social óbvia, A Única Saída se destaca por encontrar um meio-termo vigoroso. É um filme que provoca risos desconfortáveis, faz o espectador pensar sobre seus próprios valores e, acima de tudo, não entrega fórmulas prontas de significado. Ele não julga em voz alta, mas nos convida a olhar para dentro de nós mesmos, a confrontar a ansiedade que sentimos quando a segurança que julgamos ter desaparece sem aviso. Park Chan-wook entrega aqui uma obra que age como um espelho distorcido e intransigente da nossa própria época, sem perder a elegância narrativa e a força emocional que marcaram sua carreira.