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janeiro 18, 2026

Hamnet: A Vida Antes de Hamlet (2025)

 


Título original: Hamnet
Direção: Chloé Zhao
Sinopse: Um dos mais importantes escritores do cânone ocidental, William Shakespeare vive uma tragédia ao lado de sua esposa Agnes quando o casal perde o filho de 11 anos para uma das várias pragas que assolaram o século XVI. Hamnet era o nome do menino. Explorando os temas da perda e da morte, o filme acompanha a rotina e o dia a dia de uma família, as alegrias e as tristezas de viver numa pequena vila na Inglaterra do passado e a história de amor poderosa que inspirou a criação da peça Hamlet.


Desde o início, Zhao aposta na estética sensorial. A câmera de Łukasz Żal privilegia tons terrosos e uma fotografia que pretende ser orgânica, muitas vezes se aproximando da natureza como se ela fosse personagem e espelho das emoções internas dos protagonistas. A trilha de Max Richter tenta dar suporte a esse universo emocional, com passagens que flutuam entre os momentos de silêncio e as elevações dramáticas, mas em vez de construir nuances, muitas vezes se acumula e empurra a narrativa para um lugar excessivamente expectante, como se nos lembrasse o tempo todo que ali há tristeza para ser sentida.

A história começa com um equilíbrio calmo: a infância dos filhos, a vida familiar em uma pequena comunidade rural, a relação de Agnes com a natureza e sua conexão quase mítica com o mundo ao redor. Jessie Buckley e Paul Mescal entregam performances intensas, e em muitos momentos é impossível negar o carisma e a entrega dos dois. Buckley tem cenas poderosas em que tenta expressar, com o corpo e o rosto, o peso da perda que se avizinha, e Mescal tenta carregar Shakespeare como alguém dividido entre o mundo literário e as exigências da vida familiar. Ainda assim, a relação entre eles às vezes se apoia demais em momentos de sofrimento explícito e menos em verdades comportamentais mais sutis, o que deixa a impressão de que a atuação oscila entre visceral e artificiosa.

Quando o ponto de virada chega — a doença e a morte de Hamnet — o filme abraça o melodrama com unhas e dentes. A sequência é longa e insistente, quase teatral de tão crua, como se fosse desenhada mais para arrancar lágrimas do que para explorar as verdadeiras implicações da perda. É aqui que Hamnet demonstra seu maior problema: a tendência de empurrar o espectador para sentir em vez de permitir que ele descubra por conta própria. A tristeza ganha muitos gritos e poucos suspiros, muitos climas e poucos detalhes que realmente amarram o público ao arco emocional da personagem.

A adaptação de Zhao tenta ser fiel ao livro em muitos aspectos, mas a maneira como essa fidelidade se traduz na tela é desigual. Por um lado, há cenas de grande beleza, como encontros em meio à floresta e momentos em família que parecem capturar um tempo quase eterno de calma. Por outro lado, a montagem e o ritmo se perdem quando o foco transita para a dor aberta, criando uma sensação de longa duração que pesa mais pelo exagero dramático do que pela profundidade. 

A ideia de ligar diretamente a dor pessoal de Shakespeare à criação de Hamlet é ambiciosa e traz questões interessantes. O filme tenta oferecer uma interpretação que humaniza o gênio por trás de uma das maiores peças de todos os tempos, mas esse esforço se perde em escolhas narrativas que exageram no sofrimento explícito e em cenas que parecem mais penduradas em técnicas emocionais familiares do que em uma construção dramática orgânica. A sensação de manipulação emocional é real em alguns momentos, porque o filme recorre a artifícios cinematográficos previsíveis em vez de confiar em suas próprias imagens e performances mais contidas para gerar conexão genuína.

Tecnicamente, a produção acerta em alguns pontos de ambientação e em cenas que exploram o espaço físico e social do período retratado. Os figurinos, a direção de arte e certos cortes de montagem dão verossimilhança ao mundo do século XVII. A direção de Zhao tende a favorecer cenas amplas e contemplativas, e isso funciona quando se trata de refletir sobre o universo natural e a vida antes da tragédia. Contudo, quando a narrativa exige um mergulho mais íntimo, a câmera muitas vezes recua para planos que exageram ou dramatizam em vez de revelar verdade emocional.

No fim das contas, Hamnet: A Vida Antes de Hamlet é um filme que tenta ser grandioso no que deveria ser simples. A proposta de transformar uma história de amor e perda em explicação para uma obra-prima da literatura é interessante, mas a execução cinematográfica tropeça em escolhas que deixam o espectador à distância. É um filme cheio de intenções nobres, com performances de alto nível e visuais bonitos, mas que falha em transformar esses elementos em uma experiência narrativa harmoniosa. Fica a impressão de uma obra que se esforça demais para ser sentida intensamente e acaba não sendo tão memorável quanto sua inspiração original.

Se o objetivo era tocar o coração profundamente através da dor e da arte, Hamnet certamente tenta com todas as suas forças, mas nem sempre o resultado compensa. A história pode ser digna de reflexão, mas o caminho escolhido para contar essa história pode deixar muitos espectadores mais exaustos do que verdadeiramente movidos.