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dezembro 27, 2025

Mickey 17 (2025)

 


Título original: Mickey 17
Direção: Bong Joon-Ho
Sinopse: Mickey faz parte de um programa espacial de colonização e sempre é enviado para missões perigosas, quase suicidas. Se morrer, ele é clonado e boa parte de suas memórias são recuperadas. Mas, após seis mortes, ele começa a entender o porquê de seu cargo nunca ter sido ocupado antes.


Quando finalmente terminei de assistir a Mickey 17, de Bong Joon-ho (depois de quase um ano enrolando - e nunca dei a mínima para assistir a Parasita também até hoje), tive a sensação de ter perdido mais de duas horas da minha vida. O filme que prometia ser uma ficção científica provocadora e original acabou se revelando um amontoado de ideias mal costuradas que não funcionam juntas, uma narrativa que tropeça em cada cena tentando ser engraçada, crítica social e grandiosa ao mesmo tempo, sem realmente entregar nada de memorável. A premissa, baseada no romance Mickey7, de Edward Ashton, gira em torno de um homem descartável chamado Mickey Barnes, interpretado por Robert Pattinson, que morre repetidas vezes em missões perigosas para uma corporação de colonização espacial e é clonado com suas memórias restauradas a cada vez. Apesar de haver potencial nessa ideia de um personagem que é literalmente reinventado a cada morte para enfrentar tarefas suicidas em um planeta gelado, a adaptação de Bong transforma isso em um desfile de cenas que parecem pendurar em qualquer conceito antes mesmo de explorá-lo adequadamente. 

A fotografia de Darius Khondji e o design industrial dos cenários tentam transmitir um mundo futurista ameaçador, mas acabam se tornando pano de fundo frio e indiferente para um roteiro que não sabe para onde caminhar. A edição, que poderia ao menos dar ritmo ao conjunto, muitas vezes deixa o filme estagnado em longas sequências onde diálogos expositivos se arrastam sem propósito claro e sem engajamento emocional. As tentativas de humor são forçadas, com piadas que soam deslocadas e uma voz narrativa em off que repete o óbvio em vez de acrescentar profundidade ao protagonista. Os efeitos visuais e o CGI, longe de impressionar, servem apenas para preencher espaço enquanto o enredo oscila entre subtramas que nunca se entrelaçam de forma satisfatória. 

A presença de Robert Pattinson, que encarna tanto a versão 17 quanto a 18 de Mickey, não salva a narrativa cansativa. O ator tenta dar nuances diferentes às duas versões do mesmo personagem, mas sua performance acaba sendo engolida por um roteiro que parece mais interessado em variações de morte e clonagem do que em desenvolver qualquer arco dramático coerente. Em vez de explorar a complexidade de duas personalidades divergentes coexistindo, o filme se perde em clichês de ficção científica e em justificativas narrativas que não levam a lugar algum. 

O que torna Mickey 17 ainda mais difícil de engolir é o desperdício de um elenco que poderia render momentos mais interessantes, se tivesse algo realmente substancial para trabalhar. Mark Ruffalo, cuja presença no elenco já era motivo de preocupação pessoal para mim, entrega um personagem grotesco e caricatural, exagerado ao ponto de se tornar irritante e distrair da história principal. Sua interpretação vai na contramão do que se espera de um vilão ou antagonista complexo, transformando-se em uma figura que só reforça o tom caótico do filme. Naomi Ackie, outro nome que me desagradou profundamente neste contexto, tem uma participação que deveria ser forte, mas que acaba se diluindo em meio ao caos geral da narrativa, sem conseguir imprimir qualquer impacto real na trama ou nas motivações de Mickey. 

A própria estrutura de Mickey 17 é um problema. Ao tentar misturar comédia, drama existencialista, crítica social e aventura espacial, o filme perde sua identidade e se torna uma colcha de retalhos mal costurada. Cada vez que parece estar caminhando para um desenvolvimento interessante, ele muda de direção abruptamente, deixando pistas e subtramas pelo caminho que nunca são concluídas de maneira satisfatória. O resultado é um filme que parece mais preocupado em mostrar que tem “coisas acontecendo” do que em construir uma história coerente e envolvente. 

E isso fica claro na maneira como o roteiro explora temas que poderiam ser fascinantes, como a exploração do valor da vida humana, a crítica à exploração capitalista e as implicações éticas da clonagem. Em vez de aprofundar qualquer uma dessas ideias, Bong Joon-ho dispersa sua atenção em conceitos paralelos que não se conectam organicamente. A sensação ao final da projeção é de frustração, porque por trás de cada cena mal executada parece haver uma ideia melhor e mais interessante que jamais foi desenvolvida. 

O ritmo irregular, a construção narrativa confusa e a falta de foco tornam Mickey 17 um filme frustrante de assistir. Há momentos em que você suspeita que algo relevante está prestes a acontecer, mas logo a trama retorna para giros narrativos óbvios ou para a repetição de situações que já perderam o impacto original. Detalhes como os chamados “creepers”, criaturas alienígenas que deveriam introduzir perigo e mistério, em vez disso se tornam apenas mais um elemento desconexo em meio a um mar de imagens sem significado. 

No fim das contas, Mickey 17 é um projeto que provavelmente ficará esquecido apesar do nome do diretor e das expectativas que cercavam seu lançamento. A dificuldade de manter um tom consistente, a apresentação de personagens que nunca se tornam verdadeiramente interessantes e a maneira como o enredo tropeça em suas próprias ambições fazem com que este seja um dos filmes mais decepcionantes que vi em muito tempo. Não há nada aqui que se encaixe de forma satisfatória, nem um arco emocional que prenda, nem uma reflexão que valha a pena levar para casa. A impressão que fica é de um filme repleto de boas intenções mal realizadas, um espetáculo visual vazio que, mesmo com um elenco conhecido e um diretor talentoso em seu histórico, não encontra nenhuma razão convincente para existir. 

Se você estiver em busca de uma ficção científica que mexa com suas ideias ou personagens cativantes, Mickey 17 simplesmente não entrega. Em vez de provocar ou emocionar, ele apenas arrasta sua audiência por terrenos narrativos desgastados, preenchidos por performances irritantes e um roteiro que parece ter sido construído sem direção clara. É difícil encontrar um único aspecto que salve este filme da monotonia e da confusão, e ele ficará, na minha memória, como um daqueles raros casos em que o nome de um diretor renomado não é suficiente para justificar o tempo que se passa na sala escura do cinema. 

dezembro 26, 2025

Jay Kelly (2025)

 


Título original: Jay Kelly
Direção: Noah Baumbach
Sinopse: O astro do cinema Jay Kelly confronta seu passado e seu presente em uma jornada caótica pela Europa com seu dedicado agente. Ao longo do caminho, os dois precisam confrontar os relacionamentos com pessoas queridas e o legado que vão deixar.


O novo filme de Noah Baumbach, Jay Kelly, é uma obra que conversa diretamente com o público sobre fama, arrependimento e o instinto humano de buscar significado na própria vida, ainda que Baumbach nem sempre consiga equilibrar todos os elementos que coloca em cena. A trama segue um veterano astro de cinema que viaja pela Europa reflexivo, em grande parte num road movie intimista que parece um espelho das ansiedades de Hollywood sobre envelhecer sob os holofotes. A forma como o diretor e roteirista estrutura a narrativa é típica de seus trabalhos mais pessoais, misturando humor e melancolia de maneira por vezes bem-sucedida e em outras nem tanto. 

Visualmente o filme é seguro e agradável. A cinematografia de Linus Sandgren, feita em 35 mm, confere uma textura levemente nostálgica que combina com o tema de revisitar o passado e confrontar escolhas. As paisagens europeias, alternando Itália, França e Inglaterra, tornam-se quase personagens por si só, refletindo os estados de espírito do protagonista. A trilha sonora de Nicholas Britell se insere de maneira discreta, escolhendo momentos mais sutis em vez de puxar emocionalmente cada cena, o que em muitos momentos contribui para que o filme se sustente por seus próprios méritos. 

No centro de tudo está George Clooney, interpretando um personagem que curiosamente lhe dá a chance de dialogar com sua própria carreira e imagem pública. Apesar de ele estar interpretando “a si mesmo” aqui, e de o roteiro até brincar com essa linha tênue entre personagem e celebridade, Clooney traz ao papel o carisma e a confiança de sempre, equilibrando vulnerabilidade e leveza sem soar caricatural. Essa capacidade de manter o público conectado ao personagem mesmo quando a narrativa traça caminhos previsíveis é talvez a melhor coisa que o filme tem a oferecer. 

A relação entre Kelly e seu amigo e gerente Ron, vivido por Adam Sandler, é o coração emocional da história. Aqui é necessário dizer que, pessoalmente, nunca fui fã de Sandler em qualquer papel que ele interprete, e isso não muda só porque neste filme ele faz uma expressão mais dramática ou chorosa que a crítica tem exaltado de maneira exagerada. A maneira como alguns analistas colocam a atuação dele num patamar absurdamente alto, como se fosse material para Oscar, me parece exagero. Ele não é um ator de grande profundidade e isso continua evidente, ainda que aqui ele tente algo mais contido do que em outras performances anteriores. Não vou ficar elevando a performance ao nível que muitos parecem querer pintar por aí, porque não vejo o material dele ser assim tão transformador. 

O roteiro busca equilibrar sátira e sinceridade, olhando criticamente para os excessos de Hollywood enquanto tenta ser uma reflexão honesta sobre arrependimentos e relações pessoais. Em vários momentos a história se torna didática demais, guiando o espectador a sentimentos óbvios em vez de permitir que se desenvolvam de forma orgânica. Isso acaba deixando algumas tramas secundárias meio soltas e a construção emocional nem sempre atinge a profundidade que suas ambições sugerem. Há sequências, como a homenagem-surpresa incorporada ao filme que usa trechos da carreira de Clooney para evocar emoções reais, que funcionam de maneira comovente e criativa, mas outros segmentos parecem tropeçar em clichês próprios do gênero. 

No conjunto, Jay Kelly é envolvente em suas melhores partes e um pouco irregular no andamento geral, um filme que se beneficia muito da presença de Clooney e que, mesmo com elementos interessantes e uma sensibilidade humana palpável, às vezes parece hesitar entre ser uma comédia leve, um drama reflexivo ou uma sátira mordaz de Hollywood. Isso faz com que o impacto emocional não seja tão forte quanto poderia, ainda que cenas isoladas realmente toquem o espectador de maneira sincera. 

A conclusão do filme reafirma a dualidade do personagem principal: a luta entre manter a persona pública e confrontar as próprias falhas em relações pessoais. É um desfecho que dá alguma satisfação e oferece reflexões válidas sobre prioridades e escolhas ao longo da vida. Mesmo que Jay Kelly não seja um Baumbach impecável, nem um estudo de personagem definitivo, ele tem momentos que valem a pena e serve como um lembrete de que até as figuras mais brilhantes podem sentir o peso do tempo e do que ficou por dizer ou fazer. 

No fim das contas, o filme acaba funcionando melhor como peça de discussão do que como experiência totalmente satisfatória por si só. É um projeto ambicioso, com bons elementos visuais, um protagonista carismático no centro e momentos sinceros, mas é eclipsado por uma escrita que oscila entre o afetado e o genuíno, e por atuações que nem sempre compensam essas oscilações.

Blue Moon (2025)

 


Título original: Blue Moon
Direção: Richard Linklater
Sinopse: Na noite de 31 de março de 1943, o lendário letrista Lorenz Hart confronta sua autoconfiança abalada no bar Sardi's, enquanto seu antigo colaborador Richard Rodgers comemora a estreia de seu inovador musical de sucesso, "Oklahoma!".


Desde que eu soube do projeto fiquei meio cético porque Richard Linklater nunca foi um dos meus diretores favoritos e, pra ser franco e sem rodeios, detesto o diretor. Sua fama de fazer filmes “conversacionais” e andar em círculos pela narrativa sempre me entediou. Blue Moon parecia mais do mesmo: um diretor que transforma qualquer coisa em diálogo interminável. A informação básica é que o filme se passa, em grande parte, na noite em que o compositor Lorenz Hart presencia a estreia de Oklahoma! e desfia memórias e ressentimentos num bar em Nova York, dialogando com gente que entra e sai daquela roda de conversas intermináveis.

Logo de cara você percebe que a estrutura é essencialmente teatral. Não no bom sentido cinematográfico, mas no sentido literal do teatro: um lugar fechado, personagens falando, falando e falando. Pra quem, como eu, detesta teatro, isso já prepara o terreno para um suplício. E não importa o quanto as câmeras circulem, como a fotografia tenta dar alguma dinâmica de ambiente e como a edição tenta mascarar essa sensação de “peça filmada” toda hora, Blue Moon nunca escapa da impressão de que é tudo gente falando com pouca coisa acontecendo de verdade.

O filme investe pesado no fato de que Hart é uma figura histórica interessante para quem conhece aquele circuito da Broadway, Rodgers e Hammerstein, os musicais antigos e tal, mas pra mim isso foi um convite ao tédio. O roteiro é um festival de monólogos que se arrastam e conversas autorreferenciais sobre o ofício da escrita, sobre a própria vida, sobre o teatro e sobre a frustração de não ter sido mais celebrado pelo seu trabalho que hoje é estudado em círculos muito específicos. E aqui entra outro ponto pessoal e inescapável: gosto muito de Ethan Hawke, mas aqui ele não está nada demais e justamente porque o foco é ele falando, falando e falando sobre coisas que pouco me interessam. Mesmo conhecendo minimamente a história dos musicais clássicos, como as obras de Rodgers e Hammerstein II, eu fiquei rolando os olhos, torcendo para o filme acabar. Mesmo sendo fã dessas músicas, aqui parece que a história em si importa menos do que a peregrinação verbal do personagem.

Hawke, que já fez performances que considero muito superiores, se esforça pra dar vida ao Hart introspectivo e frustrado, mas a forma como sua personagem é construída e exibida acaba sendo um obstáculo narrativo. Ele segura o filme nas costas, isso sim, sem dúvida técnica nenhuma, mas isso não basta quando tudo gira em torno de um falatório que pouco evolui. Há momentos em que a câmera tenta se afastar, tenta usar espaços de bar, pequenas reviravoltas em que outros personagens aparecem, como o papel de Margaret Qualley ou algumas aparições de Andrew Scott no papel de Richard Rodgers, mas nada disso acrescenta ação convincente à narrativa.

Do ponto de vista artístico, Linklater e o roteirista Robert Kaplow demonstram conhecimento e certo carinho pela época e pelos personagens, mas esse tipo de homenagem tende a ser mais um reflexo para quem já é entusiasta do tema do que uma construção cinematográfica envolvente. A trilha sonora e a ambientação até funcionam como adereços, o design de produção tenta recriar a atmosfera dos anos 40 e a fotografia tem seus lampejos, mas nada disso transforma a longa sequência dialogada em algo minimamente dinâmico ou emocionalmente cativante.

Existe um público que adora esse tipo de estudo de personagem em tempo real. Eu entendo isso, e em outras mãos talvez funcionasse melhor. Para alguém que enxerga o cinema como uma experiência narrativa e emotiva em movimento, Blue Moon é quase um convite pra cochilar. A narração introspectiva sobre arte e criação pode soar profunda em teoria, mas na prática se arrasta como se estivesse pedindo ao espectador que sacrifique paciência e interesse a cada diálogo. Pra mim, o filme vira um labirinto verbal sem saída, uma peça interminável sem o calor que a intimidade teatral deveria oferecer.

Em resumo, mesmo com esforços técnicos respeitáveis e uma atuação esforçada de Hawke, Blue Moon sucumbe à sua própria paixão por si mesmo. Eu saí do cinema com a clara impressão de que Linklater gastou mais tempo apreciando seus próprios diálogos do que realmente contando uma história que pudesse captar minha atenção. Olhando pra trás, lembro principalmente de um filme que fala demais sobre teatro e arte enquanto esquece de transformar isso em cinema de verdade. Se a moda agora é celebrar qualquer coisa que pareça introspectiva, então talvez este filme encontre sua audiência. Pra mim, que não tenho paciência com esse tipo de abordagem, Blue Moon é um saco do começo ao fim.

dezembro 23, 2025

Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria (2025)

 


Título original: If I Had Legs I'd Kick You
Direção: Mary Bronstein
Sinopse: À beira de um colapso, Linda precisa lidar com a doença grave da filha, o marido ausente, uma pessoa desaparecida e uma relação cada vez mais absurda com seu terapeuta.


Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria chega como um desses filmes que prometem mexer com o espectador pela intensidade visceral de sua narrativa e pela maneira como escolhe focar quase exclusivamente em uma só personagem e seu colapso emocional. A cineasta Mary Bronstein constrói aqui uma experiência cinematográfica que valoriza sentimentos brutos e situações cotidianas extremadas até o limite, mas essa decisão acaba sendo ao mesmo tempo sua maior virtude e sua maior falha. A trama acompanha Linda, uma mãe e terapeuta cujo mundo desaba — literalmente e figurativamente — enquanto tenta cuidar de sua filha gravemente doente, lidar com um casamento desgastado e manter alguma sanidade em meio ao caos que toma conta de sua vida. 

Rose Byrne encarna Linda com uma entrega impressionante, trazendo uma mistura de exaustão, raiva e vulnerabilidade que nunca permite que o público relaxe. A atuação dela é, sem dúvida, o coração pulsante do filme, um ponto de luz em uma narrativa que não facilita nem ao menos um momento de alívio emocional confortável. A câmera frequentemente se aproxima demais de seu rosto, como se quisesse registrar cada sensação física de nervosismo, suor e frustração, aproximando também o público de um estado quase claustrofóbico. Essa escolha estética costuma funcionar ao consciencializar a plateia sobre o desespero interno de Linda, mas ao mesmo tempo pode se tornar cansativa, pois a intensidade constante tira a possibilidade de nuances mais sutis. 

A forma como Bronstein usa o espaço físico para refletir o colapso emocional da protagonista é um elemento que merece destaque. O filme começa com o teto do apartamento de Linda desabando, um choque literal que simboliza tudo o que está por vir. O quarto de motel onde ela se refugia torna-se uma espécie de prisão com sua iluminação dura e paredes sem personalidade, um lugar que parece agravar sua angústia em vez de oferecer descanso. A montagem acompanha esse ritmo acelerado de infortúnios e pequenas tragédias, compondo sequências que mais parecem ataques de ansiedade do que cenas convencionais de narrativa tradicional.

Apesar dessa construção potente, o roteiro mantém certa ambiguidade prejudicial em torno das motivações e complexidades internas da personagem. A escolha de não mostrar o rosto da filha até praticamente o final reforça a ideia de que a história é menos sobre uma doença específica e mais sobre o peso simbólico da maternidade e da responsabilidade inescapável, mas isso também deixa o público sem um ponto emocional concreto para ancorar suas reações. Em vez de mergulhar em nuances, Bronstein parece se satisfazer em empilhar problemas como se cada novo revés carregasse o mesmo peso dramático, e essa repetição acaba diminuindo o impacto de conflitos que poderiam ser mais explorados em profundidade. 

No elenco há surpresas curiosas, como a presença de Conan O’Brien em um papel dramático como o terapeuta de Linda, trazendo uma mistura de estranheza e afastamento que sublinha a incapacidade dele de oferecer suporte real. A interação entre Byrne e O’Brien é uma das poucas janelas em que o filme parece respirar um pouco, colocando em cena momentos de frustração que muitas vezes resultam em humor negro involuntário enquanto expõem a incapacidade de comunicação entre adultos que deveriam oferecer apoio mútuo. Já o personagem de A$AP Rocky surge como um contraponto inesperado, uma espécie de presença externa que poderia significar esperança ou apenas mais uma obrigação emocional, e embora haja momentos em que isso funcione, muitas vezes essas cenas se arrastam sem aprofundar verdadeiramente o arco. 

Tecnicamente, a trilha sonora e o design de som têm um papel importante ao intensificar a experiência sensorial. Ritmos repetitivos, ruídos incômodos e silêncios desconfortáveis trabalham juntos para manter o público em um estado de alerta nervoso, refletindo o estado mental de Linda de forma eficaz. Essa escolha sonora, assim como o uso insistente de closes e enquadramentos apertados, cria um ritmo que parece hesitar entre uma comédia dramática e um thriller psicológico, mas nem sempre consegue equilibrar esses tons de maneira satisfatória. 

No conjunto, Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria é um filme que se destaca pela coragem de explorar temas difíceis sem oferecer atalhos reconfortantes. A intenção de trazer à tona o peso da maternidade, a frustração com sistemas falhos e a luta interna de uma mulher em colapso é admirável e rende momentos de verdadeira intensidade dramática. No entanto, a maneira como essa jornada é construída — com uma acumulação de eventos e sensações que parecem competir por atenção — pode deixar muitos espectadores mais exaustos do que envolvidos emocionalmente. A performance de Rose Byrne se sobressai sem dúvida, mas o filme ao redor dela nem sempre encontra o equilíbrio certo entre provocação e conexão humana, resultando em uma obra que impressiona mais pelo esforço e pela ambição do que pela eficácia geral. 

Se você procura uma experiência cinematográfica que vai além do entretenimento fácil e não teme confrontar desconforto e confusão, esta obra pode ser interessante. Mas é preciso estar preparado para momentos que se estendem sem oferecer alívio e para um passeio cinematográfico que mais provoca e desafia do que comove com graça ou insight profundo.

dezembro 22, 2025

Avatar: Fogo e Cinzas (2025)

 


Título original: Avatar: Fire and Ash
Direção: James Cameron
Sinopse: Após a devastadora guerra contra a RDA e a perda de seu filho mais velho, Jake Sully e Neytiri enfrentam uma nova ameaça em Pandora: o Povo das Cinzas, uma tribo Na'vi violenta e sedenta por poder, liderada pela implacável Varang. A família de Jake deve lutar por sua sobrevivência e pelo futuro de Pandora em um conflito que os leva aos seus limites emocionais e físicos.


O novo Avatar: Fogo e Cinzas chega aos cinemas como o terceiro capítulo da saga que James Cameron inaugurou em 2009, trazendo Sam Worthington e Zoe Saldaña de volta a Pandora para mais uma batalha em nome da família Sully e da cultura Na’vi. A produção é visualmente imponente e chega com um status quase de evento cinematográfico, estreando em dezembro de 2025 e já acumulando cifras de bilheteria que o colocaram entre os maiores sucessos do ano em mercados como a China, Índia e globalmente. 

O filme se apoia fortemente na continuidade emocional e narrativa estabelecida em O Caminho da Água, lidando com as consequências da morte de Neteyam e apresentando a família Sully num universo cada vez mais hostil. Essa repetição de temas e a forma como a trama se desenrola, no entanto, são dois dos pontos mais criticados por quem esperava uma evolução mais ousada da franquia. 

Do ponto de vista técnico, é inevitável começar pela direção de Cameron e pelo trabalho de efeitos visuais. Pandora continua a ser um dos mundos mais impressionantes já renderizados no cinema. Cada plano parece ter sido cuidadosamente composto para revelar texturas, profundidade e uma paleta de cores que explora intensamente os extremos entre os ambientes aquáticos, florestais e vulcânicos. A captura de movimento segue sendo exemplar, com performances que se traduzem de forma convincente nas criaturas Na’vi e nas interações entre humano e avatar. A sensação de presença física no cenário é um dos maiores trunfos visuais da franquia.

Apesar de todo esse cuidado técnico, a fluidez e a coerência narrativa deixam a desejar. A história volta a girar em torno de conflitos clássicos entre natureza e colonização, desta vez incorporando um novo grupo antagonista — o Povo das Cinzas liderado pela feroz Varang — e os remanescentes humanos liderados por Quaritch, agora num avatar mais híbrido. A proposta de explorar uma nova cultura dentro de Pandora tinha potencial para infundir o enredo com novidades, mas acaba se esbarrando em uma estrutura que parece reciclar conflitos e cenas semelhantes às já vistas em filmes anteriores. 

A construção dos personagens e suas jornadas emocionais também peca. A intenção de abordar o luto de Neytiri e a desconexão entre Jake e seus outros filhos soa promissora no papel, mas na prática isso nunca se materializa de maneira satisfatória. As falas muitas vezes soam genéricas e os arcos ficam truncados, deixando a sensação de que cenas poderiam ser mais curtas, mais diretas e garantir mais densidade dramática. Vários momentos que deveriam ter impacto emocional acabam diluídos ao longo de três horas e quinze minutos de projeção. 

O desempenho do elenco é um dos poucos aspectos que ainda sustenta alguma empatia por parte do espectador. Zoe Saldaña entrega uma atuação visceral como Neytiri, carregada de dor e determinação. Sam Worthington mantém a familiaridade e a presença firme de Jake Sully, embora sua jornada aqui careça de nuances novas. Oona Chaplin, como Varang, traz energia e ameaça física, mas sua personagem é subutilizada em termos de desenvolvimento psicológico, o que transforma uma vilã potencialmente interessante em pouco mais do que um rosto marcante em meio a cenas de ação. 

Se a franquia sempre foi conhecida por sua tecnologia de ponta em efeitos e uma ambição quase científica na criação de mundos, Fogo e Cinzas frequentemente parece um exercício de estilo desconectado de uma narrativa que realmente justifique sua extensão. Situações previsíveis se alternam com sequências tão grandiosas que quase compensam a fragilidade da história, mas isso não basta para sustentar o interesse durante todo o tempo de duração. 

Em termos de ritmo, o filme falha em balancear ação e introspecção. Sequências explosivas e vertiginosas aparecem ao lado de diálogos que soam arrastados, e a tentativa de equilibrar conteúdo emocional com espetáculo visual nunca alcança uma verdadeira harmonia. Mesmo o clímax, que deveria ser o ponto mais arrebatador, acaba por remeter a soluções já utilizadas em filmes anteriores, retirando impacto e originalidade do desfecho. 

No fim das contas, Avatar: Fogo e Cinzas se firma como um exercício de impressionar pelos olhos mais do que pelos sentimentos ou pela mente. As riquezas visuais de Pandora continuam fascinantes, e há momentos em que a grandiosidade técnica do cinema de espetáculo atinge picos admiráveis. Mas a maneira como a narrativa se apoia em estruturas repetidas e em conflitos já vistos demais compromete o potencial da obra de ser algo realmente memorável por si só. É um filme que pode até ser apreciado por fãs ardorosos da franquia e por quem deseja uma experiência visual imersiva, mas para quem busca uma história que desafie ou ressoe profundamente, há ali um certo vazio que não é preenchido nem pela magnitude das imagens.

No balanço final, é possível admirar a ambição técnica e a dedicação do elenco em dar vida a personagens complexos num universo tão vasto, mas também é difícil ignorar a sensação de que o filme se perde em sua própria grandiosidade, repetindo uma fórmula que já não surpreende e deixando a impressão de que a saga poderia ter seguido por caminhos narrativos mais ousados e satisfatórios.

dezembro 21, 2025

Lumière: A Aventura Continua! (2024)

 


Título original: Lumière, l'Aventure Continue
Direção: Thierry Frémaux
Sinopse: O diretor do Festival de Cannes, Thierry Frémaux, revela e apresenta uma centena de filmes inéditos dos irmãos Lumière. O material, que foi impecavelmente restaurado, permite uma nova e profunda exploração da história da invenção do cinema, buscando trazer à luz novos detalhes sobre as origens da sétima arte.


Assistir a Lumière: A Aventura Continua! é como abrir um portal para um tempo em que o cinema estava nascendo mas já carregava em si todo o potencial de uma forma de arte que jamais deixaria de nos encantar. O filme de Thierry Frémaux não joga mão de efeitos especiais nem de narrativas complexas, ele simplesmente devolve à tela aquilo que ela sempre foi: imagens em movimento que contam, sem artifícios modernos, a vida tal como ela era e como ainda reverbera em nós. O que Frémaux reúne aqui não é ficção, e nem um ensaio teórico chato, é uma experiência visceral com o que há de mais puro no cinema. 

Ao longo de mais de cem ‘vues’, curtas filmados pelos irmãos Lumière e seus operadores no fim do século XIX e começo do XX, somos transportados para ruas cheias de vida, estações de trem cheias de pressa, cafés onde parisienses caminham sem pressa e cenas familiares que parecem capturar a própria essência da humanidade. A montagem desses fragmentos restaurados com cuidado quase amoroso por Frémaux é acompanhada por sua narração suave, que nunca se impõe. Ela nos guia com uma intimidade quase de convívio entre amigos, explicando contextos e deixando espaço para que cada imagem ressoe por si só. 

Uma das grandes belezas do filme está na sua simplicidade. Não há grandiosos discursos sobre teoria cinematográfica nem análises que façam o espectador se sentir excluído por não dominar jargões técnicos. Ao contrário, o filme nos lembra que o cinema começou como uma janela para o mundo. Em poucos segundos é possível ver crianças brincando, trabalhadores saindo de fábricas, mares e estradas, a vida acontecendo em suas sutilezas. E tudo isso soa hoje não como curioso, mas profundamente comovente, porque percebemos ali elementos eternos da experiência humana. 

A trilha sonora escolhida – uma seleção de peças de Gabriel Fauré, compositor contemporâneo da época em que os filmes foram rodados – dá ao conjunto uma textura sensorial que complementa a imagem sem jamais dominá-la. Essa música, às vezes melancólica, às vezes cheia de leveza, faz com que a cada corte de cena o espectador sinta que está participando de uma memória coletiva, e não apenas consumindo um registro histórico.

Frémaux não se limita a uma sequência cronológica previsível, ele agrupa essas imagens por temas e sensações, permitindo que o público faça conexões entre cenas aparentemente simples e a narrativa maior da evolução do cinema. Ao ver um trem chegando à estação ou um grupo de pessoas atravessando uma rua, sentimos que a linguagem cinematográfica já estava ali, em cada enquadramento, em cada gesto capturado pela lente primitiva da câmera. A magia do movimento estava presente desde o início, e Frémaux nos mostra isso sem didatismo, mas com a sensibilidade de quem ama profundamente esse meio de expressão. 

Esse segundo volume, como ele mesmo já explicou em entrevistas, é uma continuação orgânica do primeiro trabalho homônimo lançado em 2016. Aqui, ao invés de se apoiar unicamente na nostalgia, Frémaux nos convida a refletir sobre o que essas imagens significam para nós hoje. Muitos desses momentos são tão autênticos e espontâneos que nos fazem reconhecer ali traços da vida contemporânea. Há humor em gestos casuais, poesia na rotina e uma verdade crua que transcende a distância temporal de mais de um século. 

O filme ainda funciona como uma aula de história do cinema sem que jamais pareça uma. Ele não pesa na mão com datas ou nomes difíceis, ele simplesmente coloca diante de nós aquilo que os irmãos Lumière captaram com a sua câmera, lembrando que o cinema nasceu de um desejo simples: mostrar o mundo. É por isso que Lumière: A Aventura Continua! não é apenas um documentário para cinéfilos ou historiadores. É uma obra que pode tocar qualquer pessoa que já tenha sentido o arrepio de ver uma história ganhar vida na tela. 

No final, quando as imagens cessam e a tela fica escura, a sensação que fica é de ter terminado uma conversa íntima com o tempo. O que parecia distante e esquecido retorna com uma clareza impressionante e nos lembra que, desde o primeiro clique da câmera dos Lumière até os filmes mais ousados de hoje, o cinema sempre foi um espelho de quem somos. A aventura não apenas continua, ela nos alcança e nos transforma. 

Lumière! A Aventura Começa (2016)

 


Título original: Lumière! L'Aventure Commence
Direção: Thierry Frémaux
Sinopse: Em março de 1895, os irmãos Louis e Auguste Lumière eternizaram-se na história ao capturarem as primeiras imagens em movimento no aparelho que haviam inventado: o cinematógrafo. Neste documentário são contempladas algumas de suas obras, os primeiros passos dados para o nascimento da sétima arte.


Escrever sobre Lumière! A Aventura Começa exige, antes de tudo, reconhecer que se trata de uma experiência cinematográfica diferente daquela que a maioria das pessoas imagina quando pensa em “filme”. Não há personagens ficcionais, nem conflitos dramáticos tradicionais. O que existe nessa obra de Thierry Frémaux é uma celebração das origens da imagem em movimento, um convite para voltarmos à infância do cinema e escutarmos a voz que acompanha cada sequência como um guia atento e apaixonado. 

O documentário de Frémaux, cineasta francês também conhecido por sua longa ligação com o Festival de Cannes, é estruturado a partir de uma impressionante seleção de curtas dos irmãos Auguste e Louis Lumière, que juntos foram protagonistas da invenção do cinematógrafo em 1895. Ao reunir cerca de 100 dessas “vistas” restauradas em 4K e reorganizá-las por temas e maneiras de olhar o mundo, ele constrói uma narrativa que é ao mesmo tempo histórica e estética. É como se, ao assistir, o espectador tivesse diante de si páginas muito antigas de um livro ainda vivo, onde cada enquadramento, cada movimento de câmera serve como testemunho de que o cinema, desde o início, tinha a ambição de capturar a vida em sua multiplicidade. 

O valor do documentário está nessa capacidade de transformar registros simples em algo universalmente encantador. Há cenas curiosas de trabalhadores saindo de uma fábrica, momentos engraçados como o jardineiro sendo molhado por um regador, ou a energia súbita de uma locomotiva chegando à estação. Esses fragmentos de menos de um minuto ganham densidade quando alinhados à narração de Frémaux, que não impõe uma ordem cronológica rígida, mas antes convida o espectador a perceber padrões, contextos e a genialidade técnica que já estava presente nos primeiros anos do cinema. A ideia não é tanto informar com precisão enciclopédica, mas permitir que cada um experimente a sensação de se encontrar cara a cara com os primórdios da arte cinematográfica. 

Do ponto de vista técnico, o filme impressiona pelo cuidado com a restauração dos materiais. Ver imagens filmadas no final do século XIX com qualidade que nos permite distinguir gestos, expressões e espaços é uma experiência que mistura espanto e nostalgia. É fácil esquecer que, naquela época, as câmeras eram pesadas, os rolos de filme muito curtos, e que muitas das tomadas surgiam de experimentos práticos ou do acaso. Mesmo assim, o conjunto revela que já havia atenção à composição, à profundidade de campo e até aos primeiros ensaios de movimento de câmera. Frémaux e seus colaboradores de montagem conseguiram equilibrar a sequência dessas imagens de forma que elas fluam sem cansar, alternando cenas contemplativas com outras de ritmo mais dinâmico. 

A narração em off de Frémaux funciona como um fio que liga o público ao passado e ao presente. Sua voz não impõe uma interpretação única, mas frequentemente celebra a inventividade dos Lumière, conduzindo o espectador a enxergar detalhes que, de outra forma, passariam despercebidos. Ele respeita a obra dos irmãos com reverência, como se cada cena fosse um pequeno milagre de luz e movimento. Essa postura didática torna o filme acessível mesmo para quem não é cinéfilo fervoroso, pois há nesse olhar um equilíbrio entre o entusiasmo culto e um convite genuíno à contemplação. 

Mas Lumière! A Aventura Começa não é apenas um manual de história do cinema. Ele também é um lembrete emocional de que o cinema nasceu da simples vontade de observar o mundo. Ao longo dos 90 minutos, a obra provoca reflexões sobre o tempo, a memória e a maneira como registramos nossas vidas. Assistir aos primeiros filmes dos Lumière é testemunhar a vida cotidiana de outra era, com suas paisagens urbanas, seus objetos em movimento, seus rostos curiosos encarando a câmera. Essa viagem temporal tem uma força própria, capaz de sensibilizar mesmo aqueles menos interessados em teoria cinematográfica. 

No fim, o filme de Frémaux é mais do que um documentário sobre cinema. Ele é um convite para redescobrir a maravilha de olhar, de perceber o mundo em movimento e de reconhecer que aquilo que hoje tomamos como garantido começou com curiosidade e ousadia. Ao revisitarmos os primeiros passos da imagem em movimento, lembramos que o cinema é, acima de tudo, um espelho da vida, uma arte que desde seu nascimento se preocupa em fazer o público sentir, pensar e se encantar. Lumière! A Aventura Começa é, portanto, um tributo que honra essas origens e convida cada espectador a reencontrar nelas um pouco da sua própria relação com o cinema. 

dezembro 20, 2025

Sirāt (2025)

 


Título original: Sirāt 
Direção: Oliver Laxe
Sinopse: Pai e filho chegam a uma rave nas montanhas do sul do Marrocos. Ambos estão em busca de Mar — filha e irmã —, que desapareceu meses antes em uma dessas festas intermináveis. Cercados por música eletrônica e por uma sensação crua e desconhecida de liberdade, eles distribuem a foto da jovem repetidas vezes. A esperança vai se apagando, mas os dois persistem e seguem um grupo de frequentadores rumo a uma última festa no deserto. Conforme avançam por esse cenário escaldante, a jornada os obriga a confrontar seus próprios limites.


O mais recente filme de Oliver Laxe, Sirāt, chega com um histórico de aclamação e prêmios que, à primeira vista, parece promissor demais para um espectador exigente. Estreando na competição principal do Festival de Cannes de 2025 e agraciado com o Prêmio do Júri, Sirāt constrói sua narrativa a partir de uma paisagem quase mítica e de uma proposta temática ambiciosa que une estrada, música eletrônica e meditações existenciais em meio à vastidão do deserto do Marrocos. 

O ponto de partida é simples e universal: um pai, Luis (Sergi López), e seu filho, Esteban (Bruno Núñez Arjona), cruzam as áridas montanhas em busca de Mar, a filha e irmã desaparecida após sumir em uma rave perdida no deserto. A escolha de ambientar o drama em meio a festas techno, com luzes pulsantes, caixas de som gigantescas e um grupo de “raveiros” que oferecem tanto companhia quanto confusão, tinha tudo para ser uma metáfora potente sobre os limites da alma humana e a busca por significado. Quando a câmera de Mauro Herce capta a poeira levantada pelo vento sob um céu imenso e opressor, a imagem é de impressionante beleza bruta e visualmente é inegavelmente marcante. 

Essa ambição estética e sensorial, porém, é ao mesmo tempo um dos maiores problemas da obra. Embora a fotografia em 16 mm confira textura e profundidade às imagens, o uso excessivo de planos contemplativos e longos silêncios funciona menos como uma escolha poética e mais como uma espécie de autoindulgência que testa a paciência de quem assiste. Em vez de aprofundar o drama emocional dos personagens, muitas sequências parecem prolongar o vazio que o próprio deserto simboliza, sem construir uma narrativa envolvente ou empática.

A trilha sonora de Kangding Ray, elogiada pela crítica especializada e pelo design de som de Laia Casanova, é outra peça que deveria integrar o filme ao espectador de modo hipnótico, fazendo com que o ritmo do relato se fundisse ao pulsar das batidas techno e ao vento incessante do deserto. Em seus melhores momentos, esses elementos criam atmosfera e conferem ao ambiente uma presença quase cinematográfica que parece transcender a história em si. No entanto, fala-se mais em sensação do que em conteúdo. Aquilo que deveria ser uma ponte entre o público e o que se passa na tela muitas vezes soa como distração estilística diante de uma trama que se perde em derivações e abstrações. 

Esse problema se agrava nas escolhas narrativas do roteiro escrito por Laxe e Santiago Fillol. A jornada de Luis e Esteban, que poderia ter servido de eixo para um drama humano consistente e comovente, acaba diluída enquanto o filme se transforma num desfile de encontros e episódios que nem sempre se conectam de maneira satisfatória. Para um espectador que espera uma evolução emocional clara, o caminho aqui parece mais um deserto sem trilha definida. A promessa de profundidade existencial e reflexão sobre limites humanos fica muitas vezes na superfície, sem que as situações vividas pelo pai e pelo filho se traduzam em verdadeiras transformações ou revelações significativas. 

Outro aspecto que divide é o elenco e a condução das performances. Sergi López entrega uma presença firme e visceral, com nuances que tentam equilibrar a determinação do pai e o desespero diante da ausência de respostas. Bruno Núñez Arjona também se mostra convincente como um garoto que oscila entre curiosidade e exaustão física e emocional. No entanto, a aparente intenção de misturar atores profissionais com não profissionais, criando um realismo quase documental, em vez de aproximar o espectador parece gerar uma distância desconfortável. Os personagens que cruzam o caminho de Luis e Esteban — o grupo de raveiros e marginalizados — muitas vezes parecem caricaturas estilizadas em vez de figuras complexas com as quais se poderia empatizar.

A crítica internacional, que no geral celebrou Sirāt como uma obra profunda e até revolucionária, parece ter sido mais influenciada pela ousadia formal e pela estética singular do filme do que por sua capacidade de contar uma história que realmente conecte emocionalmente. Há quem veja na película uma metáfora sobre o estado do mundo moderno, a crise climática, as fronteiras físicas e espirituais, ou a condição humana diante do caos global. Essas leituras, embora intelectualmente estimulantes, não substituem a necessidade de uma narrativa que faça sentido no plano emocional e dramático. 

A sensação que fica ao final é a de que Sirāt se esforça demasiado para ser um misto de meditação estética, road movie espiritual e comentário social, sem se comprometer verdadeiramente com nenhuma dessas vertentes. O resultado é uma experiência cinematográfica extensa e visualmente rica que, paradoxalmente, esvazia o que deveria ser o centro mais humano da história: o vínculo entre um pai e seu filho frente à perda e à desesperança. É uma obra que pode impressionar à primeira vista, mas que se revela, para muitos espectadores, uma viagem longa demais por um deserto de ideias repetidas e um ritmo que confunde o contemplativo com o redundante. 

No fim das contas, Sirāt se esforça para ser um filme grandioso e profundo, mas acaba tropeçando na própria ambição. Em vez de construir um relato emocionalmente envolvente, a produção de Oliver Laxe prefere se perder em suas próprias areias, oferecendo ao público uma miragem de cinema intenso que, para alguns, pode parecer distante e insatisfatória quando a luz forte do deserto cede espaço ao vazio narrativo.

dezembro 18, 2025

Frankenstein (2025)


Título original: Frankenstein
Direção: Guillermo del Toro
Sinopse: Dr. Victor Frankenstein, um cientista brilhante, mas egoísta, dá vida a uma criatura em um experimento monstruoso que acaba levando à ruína tanto do criador quanto de sua trágica criação.


Desde os primeiros minutos, Frankenstein se apresenta como uma obra que sabe muito bem o que quer ser visualmente. Guillermo del Toro parte de um material centenário, o romance de Mary Shelley, e impregna a narrativa com sua assinatura estética: um gótico luxuoso que evoca tanto o horror clássico quanto uma espécie de fábula sombria sobre criação e abandono. O design de produção é um dos elementos mais fortes do filme. Os cenários do laboratório de Victor Frankenstein e das paisagens em que a história se desenrola têm uma textura física impressionante, fruto de sets construídos de verdade e de uma direção de arte que privilegia o concreto em vez do digital. Esse compromisso com a materialidade aparece nos detalhes das paredes, nas ferragens que cercam os experimentos e nas roupas que parecem ter uma vida própria, tudo moldado com uma intenção tátil que lembra filmes de fantasia mais do que meros filmes de horror. 

A câmera, muitas vezes em movimento fluido, acompanha os personagens em planos que exploram a profundidade de campo e a vastidão dos ambientes. Essa escolha de filmar quase como se estivesse “esculpindo” a cena, com amplas lentes que abraçam espaço e figura humana ao mesmo tempo, cria uma sensação de teatralidade e, ao mesmo tempo, de claustrofobia emocional. A fotografia investe em contrastes fortes entre luz e sombra, com uma paleta onde vermelhos profundos e negros intensos retornam como motivos visuais recorrentes, sugerindo tanto o sangue quanto o desconforto moral presente na história. 

No centro desse grande aparato estético estão as performances de Oscar Isaac como Victor Frankenstein e Jacob Elordi como a criatura. Isaac assume o cientista com um misto de grandiosidade e vulnerabilidade, exibindo uma obsessão que beira a mania, sem jamais perder completamente o traço humano que torna seu personagem crível. Há momentos em que sua determinação soa exagerada, como se carregasse camadas de ambição que por vezes sobrepujam o desenvolvimento orgânico da história, mas isso faz parte da proposta de Del Toro de retratar um homem que quer se igualar aos deuses. Elordi, por sua vez, entrega uma interpretação fisicamente exigente e emocionalmente carregada, escondendo grande parte de sua expressão sob próteses e maquiagem, mas deixando transparecer uma sensibilidade surpreendente nos olhos e nos gestos mais sutis. Há sequências em que a criatura é tocante e quase poética em sua busca por conexão, em outras ela se torna assustadora justamente por nos lembrar de quão solitário pode ser alguém sem pertencimento. 

A trilha sonora de Alexandre Desplat merece um parágrafo à parte. Sua música não tenta assustar de maneira óbvia como em muitos filmes de horror convencionais, mas trabalha com texturas melódicas e instrumentações que acompanham o ritmo emocional da cena. Cordas tensas, coro sutil e momentos de silêncio absoluto se alternam e contribuem para que o filme não se torne um espetáculo apenas visual, mas algo que envolve também o campo sonoro de forma expressiva e elegante. 

Apesar de todos esses méritos técnicos e artísticos, Frankenstein não escapa de problemas que o impedem de ser uma obra incontestável. A narrativa, em alguns momentos, se arrasta, comprometida por um ritmo que privilegia a contemplação visual mais do que o avanço dramático. Enquanto certas sequências ganham densidade e impacto, outras parecem prolongar sem necessidade cenas que pouco acrescentam ao desenvolvimento dos personagens ou ao arco principal. Isso cria um efeito de vaivém que, para um público acostumado a estruturas narrativas mais enxutas, pode parecer arrastado e até descompensado. 

Há também certa sensação de que o filme, em sua ambição de abraçar tudo que representa o mito de Frankenstein, acaba por diluir alguns temas mais profundos. A obra de Shelley é uma meditação poderosa sobre responsabilidade, isolamento e as consequências de ultrapassar limites éticos, mas aqui esses temas às vezes ficam enterrados sob o peso da estética e das grandes cenas visuais. Ainda assim, em muitas passagens, a reflexão sobre o que significa ser humano e sobre como a sociedade reage ao estranho e ao diferente emerge com força, especialmente nas interações mais calmas entre a criatura e personagens secundários que não o rejeitam imediatamente. 

Em termos de efeitos, a aposta no prático em vez de uma dependência excessiva de CGI se alterna com momentos digitais que nem sempre se integram de maneira orgânica. Certas sequências que envolvem fauna e ambientes naturais carregam um visual artificial que contrasta com a tangibilidade presente nos sets e nas maquiagens, criando uma dissonância que pode distrair espectadores atentos a detalhes técnicos. 

O elenco de apoio, incluindo Mia Goth e Christoph Waltz, contribui com performances que adicionam camadas ao mosaico emocional do filme, embora alguns desses personagens fiquem subdesenvolvidos em prol da relação central entre criador e criatura. Essa escolha narrativa reafirma o compromisso de Del Toro com um olhar íntimo sobre seus protagonistas, mas à custa de potencialmente deixar menos espaço para arcos secundários que enriqueceriam o universo. 

No final das contas, Frankenstein é um filme de contrastes. Ele impressiona visualmente, emociona em muitos momentos e demonstra uma sensibilidade notável para temas humanos profundos. Ao mesmo tempo, sua narrativa poderia ser mais focada e algumas escolhas estéticas, apesar de belas, carecem de economia dramática. Há uma sensação de que Del Toro despejou toda sua paixão e toda sua imaginação nesse projeto que ele esperou a vida toda para realizar, e isso se sente de forma palpável em cada cena. 

Essa ambição é ao mesmo tempo a maior força e a maior limitação da obra. Frankenstein tem cenas e sequências que ficarão na memória de quem aprecia cinema intenso e bem trabalhado, mas também pede paciência e vontade de se deixar levar por um ritmo que nem sempre recompensa na mesma medida. É um filme que encanta e frustra, que eleva e por vezes tropeça, mas que jamais passa despercebido — e justamente por isso merece ser visto, debatido e sentido, mesmo que não se torne a adaptação definitiva do clássico. 

Depois da Caçada (2025)

 


Título original: After the Hunt
Direção: Luca Guadagnino
Sinopse: Uma professora universitária, conhecida por seu rigor acadêmico e dedicação aos alunos, tem seu mundo virado de cabeça para baixo quando sua protegida faz uma acusação grave contra um colega do mesmo departamento.


Depois da Caçada, dirigido por Luca Guadagnino e estrelado por Julia Roberts, Ayo Edebiri e Andrew Garfield, é um filme que realmente provoca e incomoda de um jeito que poucos dramas modernos conseguem. A história gira em torno de Alma Imhoff, uma professora de filosofia em uma universidade do tipo Ivy League, cuja vida tranquila e respeitável se transforma completamente quando sua aluna prodígio Maggie Price a acusa de uma traição profissional e moral ao apontar que um colega próximo foi responsável por um grave abuso. O roteiro de Nora Garrett constrói uma trama que parece, à primeira vista, simples, mas que na medida em que avança revela camadas de ambiguidade, culpa e verdade que se confundem numa reflexão constante sobre ética, poder e relações humanas. 

A paixão de Guadagnino pelo visual e pela criação de atmosferas está presente em cada quadro. A cinematografia de Malik Hassan Sayeed capta com precisão o ambiente acadêmico de Yale e seus corredores, salas de aula e bibliotecas como se fossem personagens por si só, lugares onde ideias e tensões se acumulam de maneira quase palpável. A forma como a câmera observa os personagens dialoga com a maneira que o diretor quer que vejamos esse universo de intelectuais: como um labirinto elegante, repleto de nuances, mas sem soluções fáceis. Essa escolha refletida nos enquadramentos e na iluminação cria uma sensação constante de que há sempre mais sob a superfície do que aquilo que é dito em voz alta. 

Julia Roberts é o centro dessa narrativa complicada. Sua Alma é ao mesmo tempo forte e frágil, convincente tanto na retórica vigorosa diante de seus pares quanto nos momentos de dúvida silenciosa. Roberts encontra uma profundidade emocional com poucos diálogos, usando mais o olhar e pequenas inflexões de voz para transmitir um turbilhão interno que, muitas vezes, fala mais alto do que qualquer explosão dramática. É um papel que, em mãos menos competentes, poderia deslizar para a caricatura da intelectual que se perde em seus próprios pensamentos, mas Roberts mantém a personagem enraizada na humanidade, no peso de decisões que nenhum de nós gostaria de tomar. 

A presença de Ayo Edebiri como Maggie traz um contraste vital. Maggie é ao mesmo tempo vulnerável e assertiva, um jovem com claras ambições que enfrenta suas próprias contradições e dores. Sua acusação contra Hank (interpretado por Garfield com aquele carisma inquietante que sempre entrega nuances) não é tratada apenas como um ponto de virada na trama, mas como um espelho para o espectador refletir sobre poder, privilégio e a dificuldade de se ter certeza em questões que raramente são preto no branco. A relação entre Alma e Maggie, cheia de admiração, inveja e ressentimento, é um dos eixos que dá ritmo ao filme, e a química entre Roberts e Edebiri é um dos pontos mais vivos dentro de uma narrativa muitas vezes lenta e deliberada. 

O roteiro de Garrett opta por uma ambiguidade que pode irritar ou fascinar, dependendo do envolvimento de quem assiste. Em vez de apresentar respostas claras, o filme investe em dúvidas e incertezas, empurrando o espectador para questionar não só os personagens, mas também suas próprias ideias preconcebidas sobre culpa, suspeita e verdade. A cena final, particularmente ousada ao quebrar a quarta parede e refletir sobre a própria construção narrativa, é um gesto que pode ser visto como intelectualmente sincero ou como um truque desnecessário, mas certamente confirma a intenção autoral de não entregar conforto fácil.

Essa insistência em complexidade faz com que Depois da Caçada não seja um filme para todos. A trilha sonora de Trent Reznor e Atticus Ross é densa e, em alguns momentos, tão insistente que desafia a sutileza emocional que o resto do filme pede. Essa música, combinada com uma edição que gosta de divagar em olhares longos e momentos aparentemente banais, pode fazer o ritmo parecer arrastado para espectadores acostumados com narrativas mais diretas. Mesmo assim, há um mérito nessa aposta: ela cria uma experiência que obriga atenção e reflexão, ao invés de apenas entreter. 

Algumas vezes o filme parece tropeçar em sua própria ambição, tentando abarcar temas amplos demais sem necessariamente aprofundar todos eles com a mesma eficácia. Mas essa tentativa de discutir moralidade, cancelamento, gênero e poder dentro de um contexto tão claustrofóbico de academia é, em si, uma escolha corajosa que poucos diretores teriam a ousadia de enfrentar de forma tão direta. A narrativa não oferece soluções, nem mesmo um veredito sobre a culpabilidade de Hank ou as motivações de Maggie, e isso pode ser visto como insuficiente ou como uma representação honesta da vida real, onde respostas simples são raras. 

No fim das contas, Depois da Caçada se posiciona como um drama que privilegia questionamentos sobre clareza moral em detrimento de conclusões fáceis. É um filme que se apoia em performances fortes, especialmente de Roberts, e em uma direção que privilegia sensações e atmosferas ao invés de uma narrativa tradicionalmente fluida. Ao deixar muitas questões no ar, Guadagnino entrega um trabalho que pode ser frustrante e inspirador ao mesmo tempo, um filme que não se contenta em apenas contar uma história, mas quer conversar com quem o assiste, provocar dúvidas e, acima de tudo, insistir que a verdade, em muitos casos, nunca é tão linear quanto parece.