Two People Exchanging Saliva (Deux Personnes Échangeant de la Salive, 2025), dirigido por Alexandre Singh e Natalie Musteata, é daquelas experiências que parecem começar como uma provocação estética e terminam como algo muito mais profundo, quase doloroso. Ambientado em uma realidade alternativa onde o simples ato de beijar é crime punido com a morte e onde relações econômicas são mediadas por tapas no rosto, o curta constrói um universo que, à primeira vista, soa absurdo, mas que rapidamente revela sua lógica interna perturbadora e estranhamente coerente.
A história acompanha Angine, interpretada por Zar Amir Ebrahimi, uma mulher presa a uma vida vazia que encontra uma espécie de escape ao se aproximar de uma jovem vendedora em uma loja de departamentos. É dentro desse espaço artificial, quase teatral, que o filme floresce. O cenário luxuoso e ao mesmo tempo sufocante reforça a sensação de vigilância constante, como se cada gesto fosse potencialmente proibido.
O que impressiona logo de início é a escolha estética pelo preto e branco, que não serve apenas como recurso estilístico, mas como extensão direta do estado emocional das personagens. Existe uma frieza ali, uma assepsia visual que dialoga com a repressão dos corpos e dos afetos. Ainda assim, pequenos gestos ganham uma carga quase explosiva. Um olhar prolongado, uma aproximação mínima, um tapa que deixa de ser violência e passa a carregar uma ambiguidade erótica desconcertante.
E é justamente nessa ambiguidade que o filme encontra sua força. A ideia de substituir o beijo, símbolo universal de afeto, por um ato agressivo é uma inversão que poderia soar gratuita, mas aqui se transforma em linguagem. O tapa deixa de ser apenas moeda ou punição e se torna uma tentativa desesperada de contato humano. Há algo profundamente triste nisso, e o filme sabe explorar essa tristeza sem recorrer a sentimentalismos fáceis.
Muito disso se deve à atuação incrível de Zar Amir Ebrahimi. Sua Angine é uma figura que transita entre o vazio existencial e um desejo quase infantil de conexão. Ebrahimi constrói a personagem com uma delicadeza impressionante, fazendo com que cada pequeno gesto carregue uma história inteira. É o tipo de performance que sustenta o filme mesmo nos momentos mais silenciosos, quando tudo depende da presença em cena.
A relação entre as duas protagonistas se desenvolve de maneira sutil, quase clandestina, como se o próprio filme tivesse medo de ser pego em flagrante. Existe ali uma tensão constante entre desejo e repressão, e o roteiro nunca entrega essa dinâmica de forma óbvia. Pelo contrário, ele prefere sugerir, provocar, deixar lacunas. E são nessas lacunas que o espectador se envolve de verdade.
Ao mesmo tempo, o curta não abandona sua camada satírica. Há uma crítica evidente ao consumo, à artificialidade das relações sociais e a sistemas que tentam controlar até mesmo os impulsos mais básicos. Ainda que o cenário seja exagerado, a sensação é de que ele não está tão distante assim da realidade.
Não por acaso, o filme acabou sendo reconhecido com o Oscar 2026 de melhor curta-metragem, um prêmio mais do que merecido. A obra não apenas se destaca pela originalidade de sua proposta, mas pela forma como consegue equilibrar estranheza e emoção, conceito e sensibilidade.
No fim das contas, Two People Exchanging Saliva é um daqueles filmes que ficam ecoando depois que terminam. Não pela narrativa em si, que é relativamente simples, mas pela maneira como transforma um mundo absurdo em um espelho desconfortável do nosso. É um curta que entende que o cinema, às vezes, não precisa explicar tudo. Basta criar um universo onde um gesto proibido diga mais do que mil palavras e onde até um tapa possa carregar o peso de um amor impossível.
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