Páginas

março 12, 2026

Two People Exchanging Saliva (2025)

 


Título original: Deux Personnes Échangeant de la Salive
Direção: Alexandre Singh, Natalie Musteata
Sinopse: Em uma sociedade onde beijar é punido com a morte e as pessoas pagam por coisas recebendo tapas no rosto, Angine, uma mulher infeliz, faz compras compulsivamente em uma loja de departamentos. Lá, ela se encanta por uma vendedora brincalhona. Apesar da proibição do beijo, as duas se aproximam, despertando as suspeitas de uma colega ciumenta.


Two People Exchanging Saliva (Deux Personnes Échangeant de la Salive, 2025), dirigido por Alexandre Singh e Natalie Musteata, é daquelas experiências que parecem começar como uma provocação estética e terminam como algo muito mais profundo, quase doloroso. Ambientado em uma realidade alternativa onde o simples ato de beijar é crime punido com a morte e onde relações econômicas são mediadas por tapas no rosto, o curta constrói um universo que, à primeira vista, soa absurdo, mas que rapidamente revela sua lógica interna perturbadora e estranhamente coerente.

A história acompanha Angine, interpretada por Zar Amir Ebrahimi, uma mulher presa a uma vida vazia que encontra uma espécie de escape ao se aproximar de uma jovem vendedora em uma loja de departamentos. É dentro desse espaço artificial, quase teatral, que o filme floresce. O cenário luxuoso e ao mesmo tempo sufocante reforça a sensação de vigilância constante, como se cada gesto fosse potencialmente proibido.

O que impressiona logo de início é a escolha estética pelo preto e branco, que não serve apenas como recurso estilístico, mas como extensão direta do estado emocional das personagens. Existe uma frieza ali, uma assepsia visual que dialoga com a repressão dos corpos e dos afetos. Ainda assim, pequenos gestos ganham uma carga quase explosiva. Um olhar prolongado, uma aproximação mínima, um tapa que deixa de ser violência e passa a carregar uma ambiguidade erótica desconcertante.

E é justamente nessa ambiguidade que o filme encontra sua força. A ideia de substituir o beijo, símbolo universal de afeto, por um ato agressivo é uma inversão que poderia soar gratuita, mas aqui se transforma em linguagem. O tapa deixa de ser apenas moeda ou punição e se torna uma tentativa desesperada de contato humano. Há algo profundamente triste nisso, e o filme sabe explorar essa tristeza sem recorrer a sentimentalismos fáceis.

Muito disso se deve à atuação incrível de Zar Amir Ebrahimi. Sua Angine é uma figura que transita entre o vazio existencial e um desejo quase infantil de conexão. Ebrahimi constrói a personagem com uma delicadeza impressionante, fazendo com que cada pequeno gesto carregue uma história inteira. É o tipo de performance que sustenta o filme mesmo nos momentos mais silenciosos, quando tudo depende da presença em cena.

A relação entre as duas protagonistas se desenvolve de maneira sutil, quase clandestina, como se o próprio filme tivesse medo de ser pego em flagrante. Existe ali uma tensão constante entre desejo e repressão, e o roteiro nunca entrega essa dinâmica de forma óbvia. Pelo contrário, ele prefere sugerir, provocar, deixar lacunas. E são nessas lacunas que o espectador se envolve de verdade.

Ao mesmo tempo, o curta não abandona sua camada satírica. Há uma crítica evidente ao consumo, à artificialidade das relações sociais e a sistemas que tentam controlar até mesmo os impulsos mais básicos. Ainda que o cenário seja exagerado, a sensação é de que ele não está tão distante assim da realidade.

Não por acaso, o filme acabou sendo reconhecido com o Oscar 2026 de melhor curta-metragem, um prêmio mais do que merecido. A obra não apenas se destaca pela originalidade de sua proposta, mas pela forma como consegue equilibrar estranheza e emoção, conceito e sensibilidade.

No fim das contas, Two People Exchanging Saliva é um daqueles filmes que ficam ecoando depois que terminam. Não pela narrativa em si, que é relativamente simples, mas pela maneira como transforma um mundo absurdo em um espelho desconfortável do nosso. É um curta que entende que o cinema, às vezes, não precisa explicar tudo. Basta criar um universo onde um gesto proibido diga mais do que mil palavras e onde até um tapa possa carregar o peso de um amor impossível.