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março 12, 2026

Retirement Plan (2024)

 


Título original: Retirement Plan
Direção: John Kelly
Sinopse: Desiludido com sua vida, Ray sonha com a beleza e a alegria que encontrará na aposentadoria.


Retirement Plan, dirigido por John Kelly, é daqueles curtas que parecem simples demais à primeira vista, mas que carregam uma inquietação silenciosa que vai crescendo aos poucos, quase sem que a gente perceba. Em apenas sete minutos, o filme constrói uma reflexão sobre o tempo, as promessas que fazemos a nós mesmos e, principalmente, sobre essa ilusão confortável de que “depois eu faço”.

A história acompanha Ray, um homem de meia-idade que passa boa parte do tempo imaginando tudo o que fará quando finalmente se aposentar. A voz de Domhnall Gleeson conduz o filme inteiro, funcionando como uma espécie de fluxo de pensamento contínuo. E talvez esteja aí uma das maiores forças do curta. Não há grandes diálogos, não há reviravoltas narrativas, apenas essa lista de desejos sendo construída pouco a pouco, como se fosse uma conversa interna que todos nós já tivemos em algum momento da vida.

O roteiro, escrito pelo próprio Kelly ao lado de Tara Lawall, aposta em algo extremamente reconhecível. Não são sonhos grandiosos ou impossíveis. Pelo contrário, são coisas pequenas, cotidianas, até banais. Conversar com um amigo, ter hobbies, aproveitar melhor o tempo. Essa escolha torna o filme quase desconfortável, porque não há distância entre o espectador e o personagem. A lista de Ray poderia facilmente ser a de qualquer um de nós.

Visualmente, o curta segue uma linha minimalista muito consciente. A animação é simples, com poucos movimentos e um estilo quase estático, o que poderia soar limitado em outras mãos, mas aqui funciona como parte essencial da proposta. Kelly não quer impressionar pelo virtuosismo técnico, e sim pelo que está sendo dito. Essa contenção estética faz com que cada pequeno detalhe ganhe peso, e o tempo, tema central da obra, pareça escorrer diante dos olhos do espectador.

Há também um cuidado interessante na forma como o filme lida com o envelhecimento. Sem dramatizações exageradas, acompanhamos a passagem do tempo de maneira quase imperceptível, até que, quando nos damos conta, já é tarde demais. Esse recurso narrativo é simples, mas extremamente eficaz, reforçando a ideia de que a vida não costuma anunciar suas mudanças com alarde.

A narração de Gleeson merece destaque especial. Sua voz carrega um equilíbrio muito bonito entre humor e melancolia. Em alguns momentos, há leveza, quase um tom de autoironia. Em outros, surge uma tristeza contida, como se o personagem já soubesse, no fundo, que está adiando demais aquilo que realmente importa. Essa dualidade sustenta o curta emocionalmente do início ao fim.

Outro ponto interessante é como o filme dialoga com uma ansiedade muito contemporânea. Vivemos cercados por possibilidades, listas, metas e planos futuros, mas, paradoxalmente, isso muitas vezes nos paralisa. Retirement Plan capta exatamente essa sensação de estar sempre se preparando para viver, sem de fato viver.

Mesmo com essa carga reflexiva, o curta não se torna pesado. Há um humor sutil que atravessa toda a narrativa, principalmente na forma como os planos de Ray entram em contraste com a realidade. Esse equilíbrio impede que o filme caia em um tom excessivamente pessimista, mantendo uma certa delicadeza que o torna ainda mais impactante.

No fim, Retirement Plan funciona quase como um espelho incômodo, mas necessário. Não é um filme sobre aposentadoria, no sentido literal, mas sobre adiamento, sobre expectativas e sobre o perigo de transformar a vida em um rascunho eterno. E o mais curioso é que ele não precisa de grandes cenas, nem de complexidade narrativa para atingir esse efeito. Basta uma ideia simples, bem executada, e uma honestidade rara.

É o tipo de curta que termina rápido, mas fica ecoando por muito tempo depois. E talvez essa seja sua maior qualidade. Ele não oferece respostas, não tenta ensinar nada de forma direta, mas planta uma dúvida persistente. Afinal, quantas coisas você também está deixando para depois, como se o tempo fosse garantido?