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março 12, 2026

Perfectly a Strangeness (2024)

 


Título original: Une Parfaite Étrangeté
Direção: Alison McAlpine
Sinopse: Sob a incandescência deslumbrante de um deserto desconhecido, três burros descobrem um observatório astronômico abandonado e o universo. Uma exploração sensorial e cinematográfica do que uma história pode ser.


Há filmes que contam histórias. Há filmes que constroem sensações. E há aqueles raríssimos que parecem existir como uma espécie de experiência quase inexplicável, como se não fossem feitos exatamente para serem entendidos, mas para serem sentidos. Perfectly a Strangeness (2024), de Alison McAlpine, pertence com tranquilidade a essa última categoria.

Rodado no deserto do Atacama, entre observatórios astronômicos reais como La Silla e Paranal, o curta parte de uma premissa tão simples quanto estranha: três burros vagam por uma paisagem árida até se depararem com estruturas humanas dedicadas a observar o cosmos. Não há diálogos, não há explicações, não há qualquer tentativa de guiar o espectador de maneira convencional. O que existe é um convite silencioso para olhar o mundo como se fosse a primeira vez.

E talvez seja justamente aí que o filme encontra sua força mais hipnótica. McAlpine, que vem da poesia antes do cinema, constrói aqui algo que se aproxima muito mais de um poema visual do que de um documentário tradicional. Cada imagem parece pensada não apenas como registro, mas como contemplação. O deserto não é só cenário, é um espaço quase metafísico, suspenso no tempo.

A fotografia de Nicolas Canniccioni é, sem exagero, deslumbrante. Há um cuidado quase obsessivo com luz, textura e profundidade. O uso de lentes anamórficas, pensado para tentar reproduzir uma espécie de “olhar animal”, cria imagens que distorcem levemente a realidade, como se estivéssemos vendo o mundo por outra consciência. E isso dialoga perfeitamente com a proposta do filme: não somos nós observando os burros, mas, de certa forma, somos convidados a imaginar como eles observam o mundo.

Existe algo profundamente curioso nessa inversão. Máquinas gigantescas, construídas para estudar o universo, são apresentadas como objetos misteriosos diante de criaturas que não compreendem sua função. E, nesse jogo, o filme parece sugerir algo desconcertante: talvez nós também não compreendamos tanto assim o que estamos vendo quando olhamos para o céu.

A trilha sonora de Ben Grossman reforça essa sensação de estranhamento constante. Fugindo completamente de qualquer padrão reconhecível, os sons parecem surgir mais como ecos do ambiente do que como música propriamente dita. Instrumentos pouco usuais criam uma paisagem sonora que é ao mesmo tempo orgânica e alienígena, como se o próprio universo estivesse emitindo ruídos.

O mais impressionante é como o filme consegue ser, ao mesmo tempo, extremamente simples e profundamente complexo. Na superfície, quase nada acontece. Três animais caminham, exploram, observam. Mas por baixo dessa simplicidade existe um jogo de ideias muito maior, envolvendo percepção, existência e o próprio ato de contar histórias. Não à toa, o curta foi descrito como uma “exploração sensorial do que uma história pode ser”.

Há também um certo humor sutil, quase imperceptível. A presença dos burros em meio àquelas estruturas tecnológicas cria um contraste que beira o absurdo. É como se o filme, em silêncio, risse da nossa necessidade de entender tudo, enquanto coloca diante de nós um universo que continua, essencialmente, inexplicável.

O reconhecimento em festivais como o Festival de Cannes 2024 e a indicação ao Oscar não parecem exageros ou acasos. Perfectly a Strangeness não é um filme que busca agradar ou entreter no sentido tradicional. Ele exige entrega, paciência e, acima de tudo, disposição para se perder.

E talvez seja exatamente isso que o torna tão especial. Em um tempo em que o cinema frequentemente se preocupa em explicar tudo, McAlpine faz o movimento contrário. Ela retira, simplifica, silencia. E nesse silêncio, cria algo que pulsa.

No fim, o curta deixa uma sensação difícil de descrever, como um sonho do qual lembramos apenas fragmentos, mas que ainda assim nos marca profundamente. Não é um filme que se assiste. É um filme que se atravessa. E quando termina, fica a impressão de que, por alguns minutos, estivemos olhando o mundo com olhos que não eram exatamente os nossos.