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março 19, 2026

Parque das Almas (2022)

 


Título original: Lélekpark
Direção: Illés Horváth, Róbert Odegnál
Sinopse: Uma jovem detetive e um policial prestes a se aposentar precisarão confrontar seus traumas do passado para desvendar o misterioso caso de um homem que acordou dentro de um zoológico, sem roupas, ao lado de crocodilos.


Há algo de curioso em Parque das Almas (no original Lélekpark): a premissa, por si só, já carrega um potencial quase irresistível. Um homem acorda nu entre crocodilos em um zoológico, sem memória dos últimos anos, enquanto uma jovem detetive e um policial veterano mergulham em um caso que parece apontar para um culto misterioso. É o tipo de ponto de partida que poderia render um thriller psicológico inquietante, daqueles que exploram a fragilidade da mente e o peso do passado. Mas o filme dirigido por Illés Horváth e Róbert Odegnál parece incapaz de sustentar a própria ideia que propõe, como se tivesse medo de ir fundo demais no que ele mesmo sugere.

A narrativa se arrasta em uma estrutura que mistura investigação policial com elementos místicos, mas nunca encontra um equilíbrio convincente entre esses dois polos. O roteiro parece constantemente hesitar, como se não soubesse se quer ser um suspense procedural ou uma reflexão filosófica sobre consciência e sofrimento, conceito que o próprio filme menciona de forma superficial. Esse conflito interno não gera complexidade, mas sim dispersão. O espectador percebe rapidamente que há algo desalinhado, como se cada cena puxasse para uma direção diferente sem jamais construir um caminho sólido.

O problema se agrava porque o filme insiste em criar uma atmosfera de mistério sem oferecer ferramentas reais para que esse mistério se torne envolvente. Em vez de tensão, o que se sente é uma espécie de vazio dramático. As revelações não impactam, os enigmas não instigam e os personagens parecem caminhar em círculos, repetindo emoções sem evolução. A ideia do culto, que poderia ser o coração perturbador da história, surge mais como um recurso genérico do que como algo realmente desenvolvido. Falta densidade, falta construção, falta risco.

No centro disso tudo estão as performances, especialmente de László Attila Horváth e Viktória Staub, que até tentam dar algum peso emocional à narrativa. Há momentos em que se percebe esforço, principalmente na tentativa de transmitir traumas e conflitos internos, mas o texto nunca colabora. Os personagens são escritos de forma rasa, presos a arquétipos que não evoluem. O policial cansado e a jovem determinada são figuras conhecidas, mas aqui não ganham nenhuma camada adicional que os torne memoráveis.

Visualmente, o filme até apresenta alguns lampejos interessantes. O cenário do zoológico, por exemplo, tem um potencial simbólico evidente, quase como uma metáfora óbvia para aprisionamento e desorientação. Em alguns momentos, a ambientação contribui para um clima ligeiramente estranho, mas isso nunca se transforma em linguagem cinematográfica consistente. São ideias soltas, imagens que sugerem mais do que realmente constroem. A sensação é de um projeto que tenta parecer maior do que é, mas sem os recursos narrativos ou estéticos para sustentar essa ambição.

Também pesa o fato de que a duração enxuta, cerca de 75 minutos, não é aproveitada com eficiência. Em vez de concisão, o filme parece curto e arrastado ao mesmo tempo, uma combinação difícil de alcançar, mas que aqui se concretiza. Há cenas que se prolongam sem necessidade e outras que passam rápido demais, impedindo qualquer envolvimento real. É como se o ritmo fosse constantemente sabotado por decisões equivocadas de montagem e condução dramática.

Talvez o mais frustrante seja perceber que havia um caminho possível. A ideia de memória fragmentada, aliada a um ambiente estranho e a um culto enigmático, poderia render algo genuinamente perturbador ou ao menos intrigante. Mas Parque das Almas escolhe o caminho mais seguro e, paradoxalmente, o mais vazio. Ele não abraça o absurdo da própria premissa nem mergulha de verdade no psicológico de seus personagens. Fica preso em uma zona morna, onde nada é suficientemente ruim para ser caótico, mas também nada é bom o bastante para ser interessante.

No fim, o filme deixa uma sensação de desperdício. Não pela falta de recursos, já que é claramente uma produção modesta, mas pela falta de direção criativa. É um daqueles casos em que a ideia parece muito mais interessante do que o resultado final. E talvez seja exatamente isso que mais incomoda: a impressão constante de que algo poderia ter sido feito, mas simplesmente não foi.