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fevereiro 23, 2026

O Morro dos Ventos Uivantes (2026)

 


Título original: Wuthering Heights
Direção: Emerald Fennell
Sinopse: O órfão Heathcliff é acolhido ainda criança pela família Earnshaw e apaixona-se pela pequena Catherine. O afeto, embora correspondido, transforma-se num amor impossível. Tal vínculo devastador é envolto por uma atmosfera sombria e um teor dramático e audaz.


Comecei minha sessão com os olhos de quem não leu o livro, ou seja, cheguei como uma página em branco ao cinema, sem expectativas literárias pré-formadas. Isso deve ter tido um impacto positivo na minha impressão ao final do longa porque, ao comparar minhas reações com as de outros críticos que leram o livro, tem sido comum ouvir que os que leram parecem ter detestado mais do que eu. Essa falta de bagagem com a obra original talvez tenha me permitido receber o filme por aquilo que ele é, e não por aquilo que talvez me sentisse “traído” por não reconhecer.

Logo nas primeiras cenas fica claro que esta é uma versão muito, muito estranha de O Morro dos Ventos Uivantes, e eu, curiosamente, achei isso positivo. A direção de Emerald Fennell brinca com imagens e sensações em vez de simplesmente recontar a história clássica. A cinematografia mergulha em planos fechados que às vezes parecem obsessivos sobre texturas e detalhes — mãos envolvendo objetos orgânicos, chuva que molha até as emoções, suor escorrendo nas costas — como se o foco estivesse menos em contar e mais em sentir. Essa escolha visual, junto com locações e um cenário que alterna entre o gótico e o esteticamente exagerado, cria uma atmosfera única que prende o olhar, mesmo quando a narrativa perde um pouco a linha.

É importante notar que a sexualidade do filme é exagerada desde a primeira cena, e isso pode ser constrangedor dependendo de com quem você está assistindo. Há uma aposta franca e direta em imagens carregadas de desejo e sensualidade que ultrapassam o que se espera de um dramalhão romântico tradicional. Isso não significa que o filme seja pornográfico, mas sim que enfatiza o erotismo de maneira quase explícita como um elemento narrativo e estético. Essa escolha pode funcionar como uma linguagem visual para traduzir a intensidade emocional dos personagens, ou pode alienar espectadores que esperavam um romance mais clássico e contido.

Margot Robbie, como Catherine Earnshaw, traz ao papel uma presença que oscila entre o hipnótico e o impenetrável. Sua performance é cheia de nuances, e ela carrega a personagem com um misto de vulnerabilidade e força que, em muitos momentos, salva cenas que poderiam ter parecer apenas excessivas. Jacob Elordi, como Heathcliff, é um intérprete instintivo e intenso, e mesmo que sua caracterização seja alvo de debate — especialmente por não refletir algumas descrições tradicionais da obra original — ele cria um Heathcliff que vive à beira da contradição. Os dois juntos criam uma química que é tanto magnética quanto desconcertante, fazendo com que a relação deles seja um dos focos mais interessantes do filme.

A trilha sonora e a ambientação também merecem destaque. Em vez de seguir uma estética estritamente de época, há momentos em que a música e o som parecem buscar uma conexão com o público contemporâneo, criando uma ponte curiosa entre o drama gótico do século XVIII e sensibilidades modernas. Isso se encaixa no tom geral de todo o filme, que funciona menos como uma recriação fiel de um romance literário do que como uma experiência sensorial estilizada.

Tecnicamente, o filme se apoia em uma produção visual que não economiza nos detalhes de cena e figurino mesmo quando faz escolhas inesperadas ou incoerentes com a precisão histórica. A direção de arte, por exemplo, exagera contrastes e texturas até em espaços domésticos, criando ambientes que às vezes lembram mais uma fantasia teatral do que um universo realista. Essas opções estéticas reforçam a sensação de que estamos vendo um mundo à parte, quase um sonho febril, e não um retrato fiel da Inglaterra rural da época.

Narrativamente, o roteiro tenta seguir os contornos básicos da história de amor trágico entre Cathy e Heathcliff, mas se desvia frequentemente em busca de cenas e momentos que chocam ou provocam. Esse ritmo errático pode fazer com que a emoção que deveria emergir de uma tragédia apaixonada acabe sendo substituída por uma espécie de choque visual contínuo. Para alguns espectadores isso é original e audacioso; para outros parece apenas inconsistente.

No fim das contas, minha impressão é que esta adaptação de O Morro dos Ventos Uivantes funciona como uma obra cinematográfica que tem identidade própria, mas que muitas vezes se perde em seu próprio excesso de estilo em detrimento da profundidade emocional que poderia ter. Sem o peso da obra original na minha cabeça, eu consegui apreciar essa ousadia e até me divertir com a estranheza dela, mas entendo perfeitamente por que leitores fiéis do texto podem sair do cinema frustrados ou confusos. É um filme que conversa com a ideia de paixão e obsessão de forma muito crua e pouco convencional, abraçando a estranheza como estética central.

Se você vai ao cinema esperando uma adaptação fiel e tradicional de um clássico literário, provavelmente ficará perplexo. Mas se aceitar de antemão que esta é uma versão que se permite errar, chocar e extrapolar, encontrará aqui algo interessante, visualmente marcante e, acima de tudo, bastante diferente de tudo que já se viu com esse título. É esse choque entre expectativa e experiência que, para mim, faz o filme ser peculiar — nem sempre perfeito, mas sempre intrigante.