O que mais chama atenção num primeiro olhar para Drácula de Bram Stoker é como tudo ali parece saído de um palco gigante e barroco. A direção de Coppola é apaixonada por texturas e performances maiores que a vida. Cada personagem entra em cena com uma energia teatral tão evidente que mais parece estar se apresentando para plateias do que falando para uma câmera. Essa escolha estética poderia soar exagerada ou caricata, mas, no contexto geral da obra, encaixa-se como uma expressão consciente de um universo que não segue as leis do realismo cotidiano. Essa teatralidade dá ao filme uma sensação de rito, de espetáculo ritualístico onde as emoções são ampliadas, quase operísticas, funcionando muito bem na composição geral do filme.
Visualmente, Coppola e seu time de colaboradores – especialmente o diretor de fotografia Michael Ballhaus – criam uma Transilvânia e um Londres vitoriano que lembram cenários de teatro iluminados com cores intensas e contrastes profundos. A fotografia e a cenografia não tentam ser discretas, ao contrário, abraçam um romantismo gótico cheio de sombras densas, cores saturadas e enquadramentos que parecem composições de pintura. A iluminação dramática, as paisagens escuras e as construções imponentes transformam cada cena num quadro cuidadosamente composto.
Também é impossível falar do impacto sensorial do filme sem mencionar os figurinos de Eiko Ishioka, que ganharam o Oscar justamente por sua originalidade e poder visual. Os trajes são extravagantes e transbordam personalidade, desde a armadura vermelha de Drácula até os vestidos de Mina e Lucy, cada peça parece ter uma história própria e falar sobre seus personagens tanto quanto seus diálogos. Essa atenção ao figurino reforça a sensação do filme como uma peça de teatro muito bem filmada, onde cada elemento visual contribui para a construção daquele mundo fantástico.
No centro desse espetáculo está Gary Oldman como o Conde Drácula. Sua performance é entregue em grandes pinceladas dramáticas que beiram o exagero, mas que carregam uma intensidade emocional inegável. Ele alterna entre formas antigas e jovens com uma habilidade impressionante, fazendo do Drácula uma figura ao mesmo tempo ameaçadora e tragicômica. Seu olhar, suas transições e sua presença imponente são quase caricaturais, mas é essa caricatura que o torna memorável e fascinante.
Winona Ryder, no papel de Mina Murray e Elisabeta, também herda esse estilo amplo de atuação. Ela encarna suas personagens com paixão e um toque de dramatização que poderia soar forçado em outro contexto, mas aqui funciona como parte de um todo coeso. A relação entre Drácula e Mina não é apenas uma história de terror, é uma espécie de tragédia romântica filmada com grandiloquência, uma paixão que parece arrancada de um palco shakespeariano mergulhado em névoa e sangue.
Outros membros do elenco, como Anthony Hopkins no papel de Van Helsing e até mesmo Keanu Reeves como Jonathan Harker, mergulham nessa estética performática. As atuações não são contidas ou naturais, elas oscilam entre o intenso e o estilizado, o que pode desarmar espectadores acostumados ao realismo moderno. No entanto, é justamente esse exagero que contribui para a sensação de que estamos assistindo a um teatro gótico gigantesco projetado em cena.
Tecnicamente, o filme também brilha. Coppola fez a opção de recusar muitos dos efeitos digitais que começavam a emergir na época e investiu em efeitos práticos, cenários elaborados e truques de câmera que dialogam com a história do cinema em si. Essa escolha dá ao filme uma textura única, quase artesanal, como se fosse um artefato físico em vez de uma criação inteiramente digital.
A trilha sonora de Wojciech Kilar complementa essa jornada com uma profundidade dramática que guia o espectador por picos emocionais e abismos sombrios, reforçando o tom de fábula gótica. A música não apenas acompanha, mas amplifica o que está em cena, beirando o operístico em momentos chave.
O resultado final é uma obra que pode confundir quem procura um horror tradicional, mas que encanta quem se deixa levar pela intensidade visual, sonora e emocional da proposta. A narrativa, com sua mistura de horror, romance e lenda, é costurada por sequências que parecem respirarem uma vida própria, como se cada cena fosse um ato de uma peça épica.
Drácula de Bram Stoker é, acima de tudo, a materialização de um cinema apaixonado, um filme que não se esconde atrás de sutilezas ou moderação. Há nesta produção um compromisso com o exagero que nasce da coragem de Coppola em abraçar a teatralidade como forma de arte. Assistir a este filme é como ser convidado para uma montagem grandiosa onde tudo é maior, mais escuro, mais colorido e mais emocionante do que se poderia esperar. É essa intenção audaciosa, essa vontade de criar não apenas um filme, mas uma experiência estética completa, que o mantém vivo na memória dos espectadores e o coloca entre as versões mais inesquecíveis do mito de Drácula no cinema.
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