Assistir a Marty Supreme é um daqueles momentos em que você sai da sala querendo questionar por que gastou mais de duas horas e meia de vida naquele universo. A premissa até poderia ter sido interessante: um aspirante a campeão de tênis de mesa nos anos 1950, lutando para ser reconhecido e superar adversidades numa Nova York estilizada. Na vida real essa história pode ter um charme nerd, mas na tela aquilo que parecia promissor se desfaz num ritmo dolorosamente arrastado, numa narrativa que não consegue manter o interesse nem por sua própria conclusão.
O filme poderia ser visto como mais uma investida fracassada de glorificar um bandido simpático. Josh Safdie, que já explorou personagens moralmente dúbios em trabalhos anteriores, desta vez parece perder o foco e transformar o protagonista em uma figura que não inspira nem reflexão profunda nem empatia real. Em vez disso, ele se aproxima de um retrato exagerado do ego e arrogância que beira o irritante, algo que lembra o trabalho de Paul Thomas Anderson em Uma Batalha Após a Outra, mas sem a mesma força narrativa ou significado temático. O resultado é alguém celebrando comportamentos que não têm grande substância ou propósito além da própria exibição.
A fotografia, esperada como um dos pilares visuais do filme dado o envolvimento de Darius Khondji, é decepcionante. O que poderia ser uma estética marcante dos anos 50 filmada em 35 mm acaba soando apenas datada e confusa. Longos enquadramentos que deveriam capturar o clima da cidade ou a intensidade da obsessão do protagonista muitas vezes parecem apenas estáticos demais, sem o dinamismo ou composição visual que justificassem essa escolha. Em vez de impressionar, o olhar visual do filme tem momentos em que parece desinteressado, quase desligado da narrativa e do impacto emocional que pretendia criar.
A trilha sonora, composta por Daniel Lopatin e combinada com referências de músicas de décadas posteriores, deveria trazer textura sonora e atmosfera, mas infelizmente soa horrenda e cafona. Ao invés de complementar ou elevar as cenas, muitas vezes ela interfere na fluidez e no tom, dando a impressão de uma tentativa excessiva de dinamizar o filme sem entender onde realmente precisava de ritmo ou descanso. Essa escolha sonora acaba deixando as sequências ainda mais tediosas, contribuindo para um ritmo que tropeça sem encontrar conexão com o público.
E a temática? Para dizer o mínimo, ela se desenrola de maneira entediante. A obsessão de Marty Mauser em ser o melhor jogador vira um arco narrativo que se repete sem grande variação, e boa parte dos conflitos parecem mais postiços do que organicamente relevantes. Mesmo para quem pode ter um interesse no submundo do esporte ou em estudos de personagens excêntricos, o filme não encontra um modo interessante de explorar essas ideias. Em muitos momentos ele parece mais preocupado em mostrar uma série de eventos do que realmente construir qualquer significado profundo a partir deles.
Quanto à atuação de Timothée Chalamet, que tem sido amplamente elogiada por muitos críticos e já está sendo cotada como um dos grandes trabalhos de sua carreira, eu realmente não achei nada extraordinário no que vi. É claro que ele entrega uma presença de tela intensa e um personagem marcante de certa forma, mas isso não se traduz automaticamente em um desempenho que mereça ser elevado a alturas além da conta. O filme parece pedir que admiremos o protagonista mesmo quando ele age com arrogância extrema, como se isso por si só fosse uma qualidade cativante. Em vez disso, para mim ficou a sensação de que Chalamet interpreta uma versão grandiosa de si mesmo, um sujeito cuja maior característica é justamente sua autoconfiança exacerbada e muitas vezes irritante. Se ele de fato for premiado com o Oscar por esse trabalho, vai parecer um desperdício, porque a sensação é de que grandes talentos foram exigidos para sustentar um material que, em essência, não oferece grande profundidade dramática.
No fim, enquanto algumas pessoas possam argumentar que Marty Supreme tem qualidades estéticas ou performáticas, a experiência que fica é de um filme extremamente tedioso, com ritmo ruim e decisões artísticas que não se sustentam. Em vez de uma jornada envolvente sobre ambição e luta, o que vemos é um desfile de cenas que parecem não levar a lugar nenhum, salvo talvez a ideia superficial de “grandeza” sem significado real. É uma produção que parecia ter potencial para algo especial, mas que no resultado final se perde em sua própria grandiloquência vazia.
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