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outubro 25, 2024

Nossa Hospitalidade (1923)

 


Título original: Our Hospitality
Direção: Buster Keaton, John G. Blystone
Sinopse: Na viagem de volta para sua cidade natal, Willie McKay se apaixona pela jovem Virginia, sem saber que ela é de uma família inimiga da sua, os Canfield. Como em sua terra a hospitalidade é um valor muito prezado, ele decide se instalar na casa dos Canfield, que se veem obrigados a tratá-lo da melhor forma.


Nossa Hospitalidade (Our Hospitality), de 1923, é uma das grandes comédias do cinema mudo, estrelada, co-dirigida e co-roteirizada por Buster Keaton, com o auxílio de John G. Blystone. Em uma obra em que a sátira e a inteligência cênica são a base de cada cena, o filme não apenas exibe o talento físico e humorístico de Keaton, como também traz uma notável habilidade narrativa que confere profundidade a essa comédia de erros. O longa subverte o gênero de comédia slapstick, geralmente dominado por situações grotescas e simplórias, ao explorar uma situação cômica de maneira engenhosa e extremamente bem orquestrada. Trata-se de uma peça de entretenimento cativante e que se destaca como um marco da inovação técnica e do desenvolvimento de linguagem visual no cinema.

A trama gira em torno de Willie McKay (interpretado por Keaton), um jovem herdeiro de uma família do norte que, após anos fora, retorna ao sul dos Estados Unidos para reclamar sua herança. A volta, no entanto, coloca-o no caminho da família Canfield, seus rivais históricos, e sua jornada é marcada pela tradição de uma rixa ancestral entre os dois clãs. O enredo, aparentemente simples, logo se transforma em um engenhoso jogo de vida e morte quando Willie percebe que é um alvo dos Canfield, embora a ironia maior esteja na política de hospitalidade dos sulistas: eles não podem matá-lo enquanto ele estiver sob o teto da família.

Keaton utiliza o embate entre famílias como ponto de partida para explorar as tensões e os equívocos, estabelecendo um ritmo narrativo que beira a perfeição. O desenvolvimento da trama é feito com uma cuidadosa combinação de comédia e suspense. Cada cena é montada para provocar o riso, mas também carrega a tensão de que algo pode dar terrivelmente errado. A progressão dos eventos é calculada para prender a atenção do público, com momentos que refletem o talento de Keaton em mesclar diferentes tons – algo ainda raro na época.

Um dos maiores trunfos de Nossa Hospitalidade é sua fotografia elaborada e a ousadia técnica, realizada sob a supervisão do diretor de fotografia Gordon Jennings. Em vez de simplesmente filmar cenas de perseguição cômicas em cenários teatrais – como era típico do cinema mudo – Keaton e sua equipe optaram por locações externas e por inovadoras sequências com truques de câmera. A riqueza dos planos é notável, e as cenas externas captam a ambientação rústica do sul dos Estados Unidos do século XIX, enriquecendo a experiência visual. Em uma das cenas mais memoráveis, vemos Keaton em uma sequência sobre um trem precário, a cavalgada descontrolada de uma locomotiva, que oferece momentos de puro êxtase cômico. O trem – ou melhor, a locomotiva antiquada – é quase um personagem à parte, permitindo a criação de gags visuais únicas.

Keaton, famoso por sua precisão e pelo perfeccionismo nas sequências físicas, levou esses conceitos ao extremo em Nossa Hospitalidade. Não só as cenas de perigo são coreografadas com uma precisão milimétrica, como a câmera capta cada detalhe de suas acrobacias com clareza, mostrando o completo controle que o ator e cineasta tinha sobre o ambiente. A iluminação e a disposição de câmera reforçam a fluidez da comédia física, permitindo que o espectador visualize cada movimento e gesto, como se estivesse presenciando uma dança cuidadosamente ensaiada.

O timing cômico é um dos pontos altos do filme. Keaton faz uso de sua “cara de pedra” icônica para pontuar as cenas, oferecendo um contraste hilário entre a expressão impassível de seu personagem e as situações absurdas em que ele se encontra. A comicidade surge tanto do inesperado quanto da previsibilidade de certas situações. Por exemplo, mesmo sabendo que Willie será perseguido pelos Canfield, o público ainda é surpreendido pela criatividade com que Keaton se esquiva e se coloca em situações cada vez mais difíceis de escapar.

Keaton subverte as expectativas dos espectadores não apenas com suas acrobacias, mas com pausas dramáticas e expressões mínimas que aumentam a tensão e a comicidade em igual medida. Diferentemente de outros humoristas de sua época, ele explora ao máximo o cenário e os objetos ao seu redor, criando um humor baseado na interação física com o ambiente. Em uma das sequências, ele se aproveita da casa dos Canfield como um campo de batalha particular, contornando seus oponentes com uma agilidade que beira o surreal.

Embora a direção seja creditada tanto a Keaton quanto a Blystone, é inegável que a assinatura criativa de Keaton permeia todo o filme. A fluidez com que as cenas se desenrolam e a atenção aos detalhes físicos e visuais demonstram o controle de Keaton sobre a produção. Blystone, que trouxe uma abordagem mais formal para a estrutura do filme, parece ter sido uma ótima escolha para equilibrar o estilo ousado de Keaton, tornando a narrativa coesa e permitindo que a comédia nunca ultrapasse o ponto do exagero. É uma parceria que funcionou bem e rendeu um dos filmes mais completos da carreira de Keaton.

A trilha sonora original é ausente devido à época, mas as partituras que acompanham exibições modernas são criadas para refletir o tom leve e, ao mesmo tempo, a tensão. O acompanhamento musical ajuda a capturar a intensidade dos momentos de perseguição, complementando a tensão cômica com uma atmosfera de diversão, mas também de urgência. Esse tipo de trilha adiciona uma camada emocional que, embora não presente na estreia original do filme, enriquece a experiência para o público moderno.

Nossa Hospitalidade se destaca como um exemplo da habilidade de Keaton em elevar a comédia física a um novo patamar. Keaton transformou o que poderia ser apenas uma sequência de gags em uma narrativa envolvente e coerente. Ele mostra como o cinema pode ser uma arte visual que transcende a palavra falada, usando a expressividade do corpo e a mise-en-scène para comunicar a profundidade e o humor de suas cenas.

O impacto de Nossa Hospitalidade pode ser visto em comédias posteriores que exploraram a ideia de rivalidades familiares, jogos de gato e rato e personagens presos em situações impossíveis. A obra influenciou diretamente gerações de comediantes, desde Chaplin e Harold Lloyd até nomes como Jacques Tati, que explorariam o uso do ambiente para o humor de maneira semelhante. Keaton não só deixou sua marca como um mestre da comédia física, mas também como um cineasta inovador que elevou o gênero com técnicas cinematográficas audaciosas e uma abordagem cuidadosa à narrativa.

Nossa Hospitalidade é uma obra-prima de inovação e humor, que transcende o tempo e permanece relevante até hoje. Keaton entrega um espetáculo visual e cômico que desafia o espectador a acompanhar sua jornada absurda e perigosa, mas sem nunca perder o humor sutil e engenhoso que marca sua atuação. É uma aula de técnica, timing e criatividade, que mantém seu status como uma das grandes obras do cinema mudo. Mais do que um filme de época, é um clássico atemporal que exemplifica o poder do cinema em unir arte e entretenimento.

Aftersun (2022)

 


Título original: Aftersun
Direção: Charlotte Wells
Sinopse: Em um resort decadente, Sophie, de 11 anos, aproveita o raro tempo com seu pai amoroso e idealista, Calum. Vinte anos depois, as lembranças de Sophie de suas últimas férias se tornam um retrato poderoso e doloroso do relacionamento deles.


Aftersun (2022) é um filme marcante e introspectivo, que representa a estreia de Charlotte Wells como diretora de longa-metragem, e foi aclamado por seu tratamento sensível e poético das memórias e das nuances de um relacionamento pai e filha. A obra é ambientada em um cenário à beira-mar nos anos 1990, em que Calum (Paul Mescal) e sua filha Sophie (Frankie Corio) passam férias em um resort modesto na Turquia. Embora o filme aborde momentos aparentemente comuns e rotineiros, é na simplicidade dessas cenas que Aftersun encontra uma maneira de tecer uma narrativa rica em simbolismo e profundidade emocional, transformando essas férias de verão em um retrato vívido de saudade e lembranças fragmentadas.

Charlotte Wells traz uma linguagem cinematográfica delicada e introspectiva, e essa qualidade é refletida na maneira como a diretora estrutura a narrativa. A trama não segue um roteiro de conflito convencional, mas, ao invés disso, aposta em uma construção sutil e sensorial, focada mais nas emoções latentes e nas memórias difusas de Sophie, que, ao revisitar essas recordações anos mais tarde, tenta compreender aspectos que talvez não percebera na infância.

O roteiro de Wells é notável por sua capacidade de dizer muito com pouco, empregando silêncios significativos, pausas prolongadas e diálogos econômicos para compor um retrato discreto do relacionamento entre pai e filha. A comunicação entre Calum e Sophie é cheia de olhares, sorrisos e momentos de ternura que nunca chegam ao melodrama, o que transmite ao filme uma qualidade quase documental e reforça sua autenticidade. Aqui, as palavras não ditas são tão importantes quanto as que ouvimos, e é na falta de clareza sobre as emoções de Calum que a narrativa ganha ainda mais complexidade.

As atuações de Paul Mescal e Frankie Corio são, sem dúvida, o coração de Aftersun. Mescal, que já havia demonstrado grande talento em Normal People, aqui se supera ao encarnar um personagem que, em muitos aspectos, é um mistério para o público. Calum é um pai amoroso e presente, mas há momentos em que ele parece distante, imerso em seus próprios pensamentos e lutas pessoais. Mescal transmite essa dualidade com maestria, equilibrando momentos de leveza e de afeto com cenas em que uma melancolia palpável transparece de maneira quase imperceptível, revelando suas vulnerabilidades e questionamentos internos.

Frankie Corio, em sua estreia no cinema, interpreta Sophie com uma naturalidade impressionante, criando uma personagem curiosa e vivaz, que observa o mundo ao seu redor com a inocência e o fascínio de uma criança, mas também com uma sensibilidade que sugere uma maturidade em desenvolvimento. A dinâmica entre Mescal e Corio é sincera e envolvente, e a química entre eles faz com que o vínculo entre pai e filha seja retratado de forma autêntica, transmitindo ao público uma sensação de proximidade com os personagens.

Aftersun é um filme visualmente belo, que se beneficia da fotografia de Gregory Oke para capturar a intensidade emocional dos momentos mais sutis. A câmera de Oke adota uma abordagem intimista, frequentemente mantendo os personagens em closes suaves e focando nos detalhes — os gestos de Sophie, o olhar distante de Calum, as paisagens ensolaradas do resort. O resultado é uma atmosfera que transporta o espectador para a década de 1990, evocando a sensação de nostalgia por meio de uma estética que parece emular a textura granulada de uma filmagem caseira, uma escolha que se encaixa perfeitamente na temática do filme.

A trilha sonora também merece destaque. Ao incorporar músicas da época e trabalhar com sons ambientes que parecem comuns e familiares, como o som do mar e da natureza ao redor, a direção sonora contribui para a sensação de imersão e para o tom melancólico da narrativa. Esses elementos auditivos adicionam uma camada emocional sutil à obra, fazendo com que o filme se desenrole de maneira quase meditativa, permitindo que o espectador sinta a passagem do tempo e a efemeridade das memórias.

Aftersun trata-se, acima de tudo, de uma reflexão sobre memória e o impacto das pequenas interações e gestos do passado na construção de nossa identidade. Sophie, que já adulta tenta entender as complexidades do pai e desse verão em particular, revisita os eventos como uma tentativa de reconstruir a figura de Calum. Essa busca é tocante, pois revela o esforço universal de capturar o que é efêmero e de preencher as lacunas da lembrança com significados que talvez nem estivessem lá originalmente.

Charlotte Wells escolhe, com sensibilidade, não revelar abertamente os traumas ou dificuldades de Calum, permitindo que o público preencha essas lacunas, da mesma forma que a memória de Sophie tenta reconstruir um passado incompleto. Ao final do filme, resta uma sensação de mistério, pois há muito sobre Calum que permanece não dito e desconhecido, refletindo a própria natureza das memórias infantis, que são inevitavelmente parciais e idealizadas.

Aftersun é um filme de belas imagens e atuações comoventes, mas que pode não conquistar todos os públicos devido ao seu ritmo contemplativo e à ausência de uma trama mais definida. A escolha de focar em fragmentos de uma relação pode ser interpretada como algo que tanto acrescenta quanto limita a obra. Há uma leveza que permeia o filme, mas a ausência de conflitos ou de uma estrutura narrativa mais delineada pode deixar a experiência um tanto vaga, dependendo da expectativa de quem assiste.

Para aqueles que buscam uma narrativa introspectiva e que apreciam o cinema de sensações, Aftersun é uma experiência visual e emocional que ressoa além da tela, mas, para outros, a falta de um desenvolvimento mais profundo dos conflitos pode dificultar a imersão plena. Ao fim, o filme se destaca pelo seu olhar sensível sobre o poder das lembranças, que, ainda que sejam fragmentadas, têm um peso imensurável em nossas vidas.

Em última análise, Aftersun é uma jornada pelos recônditos da memória e uma celebração dos momentos que, embora fugazes, moldam quem somos. A abordagem de Wells pode dividir opiniões, mas sua capacidade de capturar a beleza e a tristeza da passagem do tempo é inegável.

outubro 24, 2024

Boy Erased: Uma Verdade Anulada (2018)

 


Título original: Boy Erased
Direção: Joel Edgerton
Sinopse: O jovem Jared, de apenas 19 anos, mora em uma pequena cidade conservadora do Arkansas. Ele é gay e filho de um pastor da Igreja Batista. Em um certo momento de sua vida, Jared é confrontado pela família e precisa escolher entre arriscar perdê-la ou entrar em um programa de terapia que busca tentar "curar" sua homossexualidade.


Boy Erased: Uma Verdade Anulada, dirigido por Joel Edgerton e lançado em 2018, é um drama pesado que aborda um tema sensível e pouco explorado no cinema: a chamada “terapia de conversão” para jovens LGBTQIA+. Baseado nas memórias de Garrard Conley, o filme mergulha na trajetória de Jared (Lucas Hedges), um jovem forçado a participar de um programa que promete "curar" a homossexualidade. Embora a intenção do filme seja louvável, sua execução apresenta alguns problemas que enfraquecem seu impacto emocional e narrativo.

A escolha de Joel Edgerton para a direção é interessante, já que o próprio cineasta também atua no filme como Victor Sykes, o diretor do programa de conversão. Além disso, ele escreveu o roteiro, adaptando o livro de Conley. Isso demonstra uma intenção clara de controle autoral, o que muitas vezes pode enriquecer uma obra. No entanto, nesse caso, a direção e o roteiro de Edgerton resultam em uma abordagem que, embora respeitosa e atenta ao tema, acaba sendo excessivamente contida. Há uma falta de profundidade emocional em vários momentos em que a narrativa poderia e deveria nos fazer sentir o desespero e a confusão de Jared, mas ao invés disso, o filme se apoia em uma sobriedade quase fria que impede o espectador de se envolver por completo.

Lucas Hedges, como protagonista, entrega uma performance introspectiva e vulnerável. É claro que Hedges está se esforçando para capturar as nuances de um jovem em conflito consigo mesmo e com a expectativa religiosa de sua família, mas sua atuação parece contida demais. Essa escolha pode ter sido proposital para refletir a repressão emocional de Jared, mas acaba por criar uma barreira entre o personagem e o público. Em um filme cujo tema central é tão intenso e pessoal, essa distância emocional enfraquece o apelo do drama. Hedges já havia demonstrado seu talento em filmes como Manchester à Beira-Mar (2016), mas aqui ele parece preso a um roteiro que não lhe permite explorar toda a complexidade de seu personagem.

Nicole Kidman e Russell Crowe, que interpretam os pais de Jared, são outros pontos centrais do filme. Kidman, especialmente, oferece uma performance sólida como Nancy, uma mãe dividida entre o amor pelo filho e a pressão de suas crenças religiosas. Kidman traz uma sensibilidade genuína à personagem, especialmente em cenas que exigem um toque mais humano e contido. Crowe, por outro lado, está em uma interpretação mais rígida como o pai pastor de Jared, Marshall. Embora ele capture bem a severidade e a inflexibilidade do personagem, falta uma dimensão que nos faça acreditar em sua luta interna; sua figura representa o conservadorismo religioso, mas sem dar muitas camadas que expliquem o porquê de sua transformação final. A interação entre os pais e Jared parece fragmentada, e o arco de redenção e aceitação de Nancy e Marshall não é totalmente explorado, o que poderia ter dado uma força adicional ao filme.

A cinematografia de Eduard Grau merece destaque por seu uso consciente de tons frios e ambientes opressivos, que refletem a jornada emocional do protagonista. Em cenas que se passam no centro de conversão, as cores se tornam ainda mais desbotadas, remetendo à sensação de sufocamento e ao apagamento de identidade que o processo implica. No entanto, esse recurso visual acaba parecendo um pouco repetitivo e não evolui ao longo do filme, o que diminui seu impacto. A trilha sonora de Danny Bensi e Saunder Jurriaans também segue uma linha mais contida e tenta acompanhar a repressão e tensão internas de Jared, mas, assim como a direção de Edgerton, ela evita picos emocionais, tornando o filme, em certos pontos, excessivamente monocórdico.

O filme procura estabelecer um discurso de resistência e de aceitação da identidade pessoal em oposição à repressão e ao controle, mas o faz com um cuidado excessivo, quase temeroso. Embora isso possa ter sido uma escolha consciente para evitar um tom melodramático, acaba deixando o filme pouco memorável. Em uma narrativa que poderia abalar profundamente o espectador, Boy Erased parece hesitante em ir além da superfície do sofrimento de Jared. Existem momentos de tensão e até de certo desespero, como nas sessões do centro de conversão, mas eles são diluídos por uma direção que hesita em explorar mais visceralmente a brutalidade e o impacto psicológico desse processo.

Outro aspecto que merece menção é o elenco de apoio, composto por nomes como Xavier Dolan, Troye Sivan e Flea. Embora esses atores ofereçam breves momentos que refletem a diversidade de pessoas afetadas pela terapia de conversão, seus personagens são pouco desenvolvidos e acabam apenas sugerindo histórias mais profundas que nunca são plenamente exploradas. Isso é um ponto fraco, pois um pouco mais de atenção a esses indivíduos poderia ter enriquecido o contexto e dado mais peso à narrativa.

Em suma, Boy Erased: Uma Verdade Anulada é uma tentativa honesta de explorar um tema relevante e pouco discutido, mas se perde em uma abordagem excessivamente controlada. Ao final, o filme transmite uma sensação de cautela que vai de encontro à própria essência do que deveria ser um grito de liberdade e aceitação. Edgerton demonstra boas intenções e compromisso com o tema, mas não entrega uma obra que realmente desafie ou emocione profundamente o espectador.

outubro 23, 2024

Machete (2010)

 


Título original: Machete
Direção: Robert Rodriguez, Ethan Maniquis
Sinopse: Machete (Danny Trejo) é um ex agente federal mexicano e foi contratado por um homem misterioso (Jeff Fahey) para assassinar um importante político americano. Mas ele também se tornou alvo de outro matador e agora o que parecia ser uma simples e rentável missão, transformou-se num sanguinária trama de conspiração contra o povo mexicano. Machete não vai deixar por menos, quer vingança e para isso conta com seu velho amigo "O Padre" (Cheech Marin).


Machete (2010), dirigido por Robert Rodriguez e Ethan Maniquis, é uma experiência cinematográfica que parece ter sido feita para ser controversa e explosiva. O filme é uma homenagem direta ao cinema “grindhouse” dos anos 70, aquela era de produções exageradas, de baixo orçamento, repletas de violência gráfica e ação extravagante. Rodriguez, ao lado de Maniquis, traz ao público um longa que abraça a estética desse cinema transgressor, porém com uma abordagem moderna e um elenco repleto de estrelas, misturando elementos de sátira, humor e crítica social de maneira propositalmente exagerada e cômica. No entanto, ao tentar equilibrar essa combinação de intenções, Machete acaba escorregando em sua própria ambição e perde o foco em diversos momentos.

O protagonista é Machete Cortez, interpretado pelo icônico Danny Trejo, que traz toda a sua persona austera e intimidadora para o papel. Um ex-federal mexicano em busca de vingança contra um cartel de drogas e políticos corruptos, Machete é o herói sombrio que está disposto a lutar por justiça, mas com uma abordagem que transborda violência e humor sombrio. Danny Trejo, que possui um histórico colaborativo com Rodriguez, personifica com intensidade o estereótipo do anti-herói durão e inflexível, cujo carisma reside mais na brutalidade do que nas palavras. Sua presença é de fato cativante, mas a profundidade do personagem se limita a uma série de clichês que eventualmente se tornam previsíveis e cansativos.

No campo técnico, Rodriguez utiliza vários recursos de edição e fotografia para simular uma aparência de filme antigo e desgastado, com filtros que fazem o filme parecer mais envelhecido e estilizado. A fotografia de Jimmy Lindsey usa tons sépia e uma iluminação propositalmente saturada para reforçar o clima grindhouse, enquanto a montagem é acelerada e repleta de cortes bruscos, um tributo evidente ao estilo de cinema que Rodriguez homenageia. Essas escolhas, embora estilisticamente coerentes, às vezes caem no risco de serem vistas como uma “piada interna” que não atinge a universalidade de uma audiência mais ampla, especialmente quando o estilo visual acaba ofuscando o conteúdo.

A trilha sonora, composta por Chingon (a banda de Robert Rodriguez), faz um excelente trabalho ao intensificar as cenas de ação com uma pegada western e latina. A música desempenha um papel fundamental em criar a atmosfera do filme, proporcionando uma fusão de rock e influências mexicanas que conferem ao filme um tom ainda mais excêntrico e característico. No entanto, ao longo da narrativa, a trilha se torna repetitiva e não consegue sustentar o ritmo frenético que as cenas exigem. Eventualmente, a música, embora bem executada, não consegue acompanhar o excesso visual e a saturação de temas.

No elenco de apoio, temos uma série de rostos familiares que parecem ter se divertido interpretando esses papéis absurdos e caricatos. Jessica Alba, como a agente de imigração Sartana Rivera, e Michelle Rodriguez, como Luz, trazem uma dualidade feminina interessante ao filme, mas suas personagens são desenvolvidas superficialmente, quase como arquétipos em vez de indivíduos com motivações reais. Steven Seagal, por sua vez, aparece como o vilão Torrez, e seu desempenho parece mais uma paródia de si mesmo, com diálogos exagerados e uma performance que mistura vilania com uma dose de autodepreciação. Essa escolha reforça o tom de sátira, mas a falta de seriedade faz com que o vilão perca a gravidade e o impacto que deveria ter em um filme com uma proposta de ação intensa.

Outro ponto interessante, embora mal-executado, é a tentativa do roteiro de abordar temas políticos e sociais. Rodriguez e Maniquis introduzem elementos como a imigração e a corrupção política em um esforço de satirizar a complexa relação entre os Estados Unidos e o México. No entanto, essa crítica social, ao invés de funcionar como um comentário relevante, acaba sendo diluída pela abordagem cômica e exagerada. Em vez de instigar reflexões, a narrativa fica tão centrada na violência e na estética que a crítica soa superficial e quase desrespeitosa, tratando assuntos complexos de maneira caricatural e com pouca profundidade.

Além disso, é preciso reconhecer que o ritmo do filme é um dos maiores desafios. Com a quantidade de subtramas, personagens e exageros visuais, Machete em diversos momentos parece perder o fôlego. A falta de consistência na narrativa enfraquece o impacto das cenas de ação e torna difícil para o público se conectar com o personagem principal e com a jornada de vingança que ele deveria estar realizando. Essa desconexão, associada ao humor irregular, faz com que o filme, que inicialmente promete uma explosão de entretenimento e exagero, acabe se arrastando e perdendo o seu próprio propósito.

Ao final, Machete é um filme que se destaca pela tentativa audaciosa de homenagear o cinema grindhouse, mas falha em alcançar um equilíbrio entre forma e conteúdo. Robert Rodriguez e Ethan Maniquis criam um espetáculo visual e um universo onde a violência e a sátira andam de mãos dadas, mas a falta de uma narrativa coesa e de personagens realmente envolventes faz com que o filme, em última análise, não passe de uma coleção de cenas grotescas, sem o impacto emocional que poderia ter atingido se a trama fosse um pouco mais focada. A experiência de assistir Machete é como estar em uma montanha-russa que, depois do terceiro loop, começa a cansar, deixando uma sensação de desgaste e exagero.

Robô Selvagem (2024)

 


Título original: The Wild Robot
Direção: Chris Sanders
Sinopse: Um robô – unidade ROZZUM 7134, abreviadamente “Roz” – naufraga em uma ilha desabitada e deve aprender a se adaptar ao ambiente hostil, gradualmente construindo relacionamentos com os animais da ilha e se tornando o pai adotivo de um filhote de ganso órfão.


Robô Selvagem (The Wild Robot, 2024), dirigido por Chris Sanders, é uma animação que, visualmente, traz um mundo belamente pintado à mão, lembrando o estilo de clássicos de animação como Meu Vizinho Totoro, de Miyazaki, e até Bambi, com um olhar nostálgico e detalhado sobre a natureza. A protagonista, Roz, uma unidade ROZZUM 7134, desperta na costa de uma ilha após um naufrágio e embarca em uma jornada de adaptação ao ambiente selvagem, além de cuidar de um filhote de ganso, Brightbill. Enquanto busca sobreviver, ela cria laços com os animais locais, enfrentando desafios da vida na natureza, como tempestades e invernos rigorosos, em um tom mais cru e menos infantilizado do que muitas animações familiares.

A semelhança com WALL-E é inevitável. Ambas as produções apresentam robôs de aparência humanizada que despertam em um cenário desolado e têm de aprender a sobreviver em um ambiente novo, desenvolvendo uma conexão emocional com seres não humanos. Contudo, Robô Selvagem não consegue atingir o mesmo nível de envolvimento emocional que WALL-E oferece. A estrutura narrativa de Robô Selvagem se arrasta em alguns momentos, levando a uma sensação de cansaço para o público adulto, que, embora admire a técnica e o trabalho visual, pode sentir que a história falta substância e frescor para mantê-los engajados do início ao fim. O filme quer desesperadamente ser tão tocante quanto WALL-E, mas perde o impacto ao falhar em transmitir o mesmo encanto genuíno.

Apesar da falta de inovação narrativa, o trabalho visual do filme merece destaque. A DreamWorks Animation, nos últimos anos, tem explorado um estilo mais artístico e menos geométrico em suas produções, e Robô Selvagem leva essa estética a um novo patamar. Cada cena é cuidadosamente pintada, com efeitos de luz e textura que lembram pinturas tradicionais, harmonizando céu, árvores e até efeitos climáticos com o restante do cenário. Essa abordagem pintada, combinada com a decisão de manter os animais como animais – sem os tornar totalmente antropomórficos – adiciona um toque de autenticidade que é raro em animações atuais. A equipe de Sanders trabalhou para que cada espécie tivesse olhos e expressões características, evitando o uso de olhos tipicamente humanos, o que ajuda a preservar a “magia” da floresta, contribuindo para uma atmosfera rica e coerente com o ambiente natural.

A performance de Lupita Nyong’o como a voz de Roz é um dos elementos mais elogiados do filme, com sua interpretação capturando a curiosidade e a evolução emocional de uma inteligência artificial em meio a um ecossistema selvagem. A escolha de elenco, que inclui Catherine O'Hara, Bill Nighy e Pedro Pascal, também oferece um peso dramático, dando às criaturas vozes únicas e interessantes. Porém, mesmo com um elenco estelar, o ritmo lento e os diálogos pouco memoráveis deixam a desejar, dificultando a construção de uma conexão mais profunda com os personagens. A imersão no cenário é visualmente impressionante, mas a história e as interações não alcançam a mesma profundidade, tornando-se pouco cativantes.

Em resumo, Robô Selvagem é uma experiência visual impressionante, que reforça a capacidade de DreamWorks em criar mundos atraentes e distintos, mas carece de um enredo inovador que prenda a atenção do público além da estética. A tentativa de criar um filme reflexivo, ao estilo de WALL-E, não atinge a mesma sofisticação narrativa, deixando a sensação de uma imitação que, embora bela, é monótona. Para quem não é fã de animações e busca algo mais dinâmico, Robô Selvagem pode parecer lento e até enfadonho, uma obra visualmente bela, mas sem a profundidade que a premissa promete.

outubro 22, 2024

A Caravana Gloriosa (1923)

 


Título original: The Covered Wagon
Direção: James Cruze
Sinopse: Duas caravanas de vagões convergem no que é agora Kansas City, e combinam-se para o caminho ao oeste, para o Oregon. Na sua busca, os peregrinos experimentarão o calor do deserto, a neve das montanhas, a fome, e o ataque dos índios. Para complicar ainda mais a situação, desenvolve-se um triângulo amoroso, já que a bela Molly deve escolher entre Sam, um bruto, e Will, o afoito capitão da outra caravana. Poderá Will superar o seu passado escondido e conquistar o coração de Molly?


Para discutir A Caravana Gloriosa (The Covered Wagon, 1923), de James Cruze, é necessário mergulhar no cenário do cinema americano dos anos 1920 e refletir sobre o impacto da obra como um dos primeiros épicos de faroeste da história. Com uma produção grandiosa para a época e uma narrativa ambiciosa, o filme se propôs a retratar as dificuldades e heroísmos dos pioneiros que, em grandes caravanas, cruzaram as vastidões inexploradas do Oeste americano em busca de uma nova vida. No entanto, apesar de seu pioneirismo, o filme tem limitações técnicas e narrativas que hoje o tornam datado e monótono para os padrões contemporâneos.

James Cruze almejava com A Caravana Gloriosa fazer uma crônica visual dos Estados Unidos do século XIX, capturando o espírito de aventura e sacrifício dos primeiros colonizadores. Em termos de escopo, o filme alcança isso ao apresentar vastas paisagens naturais, filmadas ao ar livre em locais no Utah e Nevada. Para a época, essa abordagem ao realismo foi uma decisão audaciosa, com Cruze optando por filmar em espaços amplos, o que enriqueceu o filme em termos visuais. As imagens das caravanas percorrendo cenários inóspitos realmente transmitem a sensação de isolamento e luta enfrentada pelos personagens, evocando uma aura épica.

No entanto, mesmo com essa imponência visual, a narrativa do filme é, em muitos pontos, rasa e superficial. A trama central — um romance previsível entre os personagens Will Banion (interpretado por J. Warren Kerrigan) e Molly Wingate (Lois Wilson) — pouco explora a complexidade dos conflitos e personalidades desses indivíduos. Além disso, o enredo se limita a abordar de forma simplista os desafios dos pioneiros, focando excessivamente no romance e deixando de lado os aspectos mais profundos do conflito humano com a natureza e as dificuldades do percurso. Esse tratamento plano dos personagens e dos temas torna a experiência do espectador hoje menos envolvente, enfraquecendo o impacto emocional que o filme poderia ter.

Para 1923, A Caravana Gloriosa impressionou pela qualidade de sua produção. A obra utilizou centenas de figurantes e cavalos, além de caravanas construídas especialmente para as filmagens, o que ajudou a criar uma sensação de autenticidade. A direção de fotografia de Karl Brown fez bom uso da luz natural, destacando o céu vasto e a topografia dos cenários para transmitir a grandiosidade do Oeste americano. Em uma das cenas mais memoráveis, Cruze orquestra a travessia de um rio pelas caravanas, um feito impressionante em termos técnicos, pois envolveu a movimentação de um grande número de pessoas, animais e veículos em águas profundas e de forte correnteza. Essa sequência específica ainda é admirada como um dos pontos altos do filme, pela precisão técnica e pelo impacto visual.

Contudo, esses triunfos técnicos são contrabalançados por limitações de ritmo e estrutura narrativa. A trama é lenta, e muitas das cenas se prolongam sem acrescentar ao desenvolvimento dos personagens ou à progressão da história. Em vez de criar uma narrativa mais coesa, Cruze parece se concentrar em capturar momentos que, embora visualmente impactantes, se tornam repetitivos. Para um público moderno, isso pode fazer com que o filme pareça arrastado, com uma falta de tensão e de reviravoltas que mantenham o interesse ao longo de sua duração.

Ainda que A Caravana Gloriosa tenha sido aclamado como um dos primeiros grandes épicos do cinema americano, a sua recepção e o seu lugar no cânone cinematográfico mudaram com o tempo. Se, em seu lançamento, a obra foi celebrada pela ousadia de Cruze em filmar em locais externos e utilizar recursos técnicos avançados para a época, hoje sua simplicidade narrativa e personagens bidimensionais a tornam menos atrativa. A falta de desenvolvimento nos arcos dos personagens e a ausência de conflitos mais profundos deixam claro que, embora Cruze estivesse comprometido com a grandiosidade visual, ele não priorizou a construção de uma história envolvente e psicologicamente rica.

Além disso, a perspectiva heroica dos pioneiros, amplamente vista na época como um tema inspirador, hoje é interpretada com um olhar mais crítico. A história ignora as complexidades étnicas e os impactos reais da expansão para o Oeste sobre as populações nativas. Esse ponto de vista reducionista pode ser desconfortável para espectadores contemporâneos, que esperam uma abordagem mais completa e respeitosa de períodos históricos tão carregados de conflitos sociais e éticos.

A Caravana Gloriosa é um filme que merece reconhecimento pelo que representou no contexto do cinema dos anos 1920 e pelo pioneirismo de James Cruze ao criar uma produção de grande escala sobre o faroeste. As paisagens grandiosas e o esforço técnico envolvido fazem dele uma peça histórica importante e um marco da evolução técnica no cinema mudo. No entanto, para os olhos de hoje, seu valor é mais histórico do que artístico ou emocional. Falta à obra o vigor e a profundidade de narrativa que poderiam torná-la atemporal.

Em resumo, A Caravana Gloriosa é um épico de seu tempo, que, embora tenha pavimentado o caminho para futuros westerns, hoje se mostra uma experiência menos cativante e, em muitos aspectos, limitada. Seu lugar na história do cinema é seguro, mas seu impacto emocional já não resiste ao teste do tempo.

Moonage Daydream (2022)

 


Título original: Moonage Daydream
Direção: Brett Morgen
Sinopse: Contado através de imagens sublimes e caleidoscópicas, imagens de arquivo pessoal, performances inéditas e ancorado pela própria música e palavras de David Bowie, o filme convida o público a mergulhar no mundo único que é “Bowie”.


Moonage Daydream, dirigido por Brett Morgen, é mais do que um documentário sobre David Bowie; é uma celebração imersiva do artista como figura mitológica da cultura pop. Neste filme, Morgen não segue uma estrutura biográfica convencional. Em vez disso, ele cria um fluxo de imagens, sons e entrevistas, que parece nos transportar para a mente caleidoscópica de Bowie, buscando captar o impacto cultural, emocional e estético que ele gerou e ainda gera. Ao mergulhar na experiência de assistir a este filme, o público é convidado a abandonar expectativas e embarcar numa viagem psicodélica que, em muitos aspectos, ressoa com a complexidade do próprio Bowie.

Em Moonage Daydream, Morgen utiliza uma montagem experimental que costura imagens de shows, entrevistas, performances e cenas abstratas. A narrativa fragmentada que ele apresenta evita a linha cronológica convencional e aposta em uma estrutura que reflete a maneira não linear e multifacetada com que Bowie via o mundo e a si mesmo. A montagem reforça essa ideia: cenas de diferentes décadas se intercalam, dissolvem-se e se transformam em uma narrativa sensorial que não obedece ao tempo. Esse recurso dá ao filme um ritmo próprio, que mais parece uma sequência de sonhos, lembrando o fluxo de consciência — um movimento visual e auditivo que lembra as transformações constantes que Bowie passava como artista e como pessoa.

A montagem é cuidadosamente pensada para criar uma atmosfera psicodélica, evocando diretamente o rock dos anos 70 e 80 e o cenário alternativo da época. A abordagem de Morgen é desconcertante, mas eficaz: não há uma tentativa de entender Bowie por completo, mas sim de explorar seus fragmentos, suas camadas e personas. Em vez de respostas, o público encontra perguntas, como se o próprio Bowie fosse um enigma a ser desvendado. Morgen consegue capturar esse espírito, criando uma experiência que se assemelha a uma performance de arte ao invés de um documentário tradicional.

Visualmente, Moonage Daydream é um espetáculo. O filme utiliza uma paleta de cores saturada, intensificada por efeitos que lembram os videoclipes icônicos de Bowie e as apresentações ao vivo que marcaram sua carreira. A fotografia, repleta de sobreposições e transições lisérgicas, trabalha para levar o público a uma imersão que representa a própria essência visual de Bowie. Cenas de shows, vídeos de época, animações e experimentações visuais se misturam, criando uma sensação de constante mutação, evocando o estilo camaleônico pelo qual Bowie ficou famoso.

Cada cena é uma composição estética que reflete a capacidade de Bowie de se reinventar. Morgen recria a atmosfera visual das décadas de 70 e 80 com um toque moderno, mas que respeita a estética original do artista. Em vários momentos, o filme parece mais um vídeo-arte, onde formas e cores expressam emoções mais do que palavras poderiam. Essa abordagem se destaca especialmente em cenas que enfatizam a fase Ziggy Stardust, onde Bowie mescla o glam rock com elementos futuristas. A estética psicodélica também está presente, principalmente na forma como o diretor trabalha com luzes e sombras, realçando a teatralidade e o senso performático de Bowie.

A trilha sonora, composta pela música de Bowie, é o verdadeiro coração de Moonage Daydream. A sonorização do filme é tratada com um cuidado excepcional, criando uma experiência imersiva que faz o espectador sentir-se em um show ao vivo, especialmente em salas de cinema com som de alta qualidade. Cada música é cuidadosamente inserida para evocar emoções específicas e para sublinhar momentos-chave da narrativa visual. As músicas não apenas acompanham as imagens, mas dialogam com elas, criando uma narrativa complementar.

Além das canções, Morgen inclui declarações de Bowie ao longo do filme, o que serve como um fio condutor. Nessas falas, Bowie expõe reflexões sobre arte, vida, fama e morte, oferecendo ao espectador vislumbres do homem por trás da persona. Essa escolha traz uma intimidade inesperada ao filme, já que, mesmo sem pretender ser um retrato intimista, Moonage Daydream revela nuances da filosofia de vida do artista.

Brett Morgen não tenta "humanizar" David Bowie, e essa é uma das escolhas mais ousadas e bem-sucedidas do filme. Em vez de explorar as vulnerabilidades e fraquezas do artista, Morgen parece mais interessado em celebrar sua grandiosidade e mistério. Bowie surge como um mito, uma entidade que transcende definições simples, refletindo a multiplicidade de um artista que sempre foi maior do que a vida. Moonage Daydream é um tributo à persona pública, à figura que encantou e intrigou milhões de pessoas ao redor do mundo. A decisão de não expor a vida pessoal de Bowie intensifica essa aura mítica, oferecendo ao público uma visão do que ele representava, ao invés de quem ele era.

Moonage Daydream não é um documentário para todos. É uma obra para os fãs, para aqueles que estão dispostos a abrir mão de uma narrativa convencional e se deixar levar por uma experiência sensorial intensa. O filme celebra a essência de Bowie como um camaleão da cultura pop, capturando sua energia em um formato que desafia as convenções do cinema biográfico. Morgen cria uma experiência audiovisual que faz jus ao caráter vanguardista de Bowie, construindo um retrato que é tão complexo, enigmático e mutável quanto o próprio artista.

O filme de Morgen não busca responder todas as questões sobre Bowie, mas sim amplificar o mistério e a magia que ele trouxe ao mundo. Ao final, o público pode até sair com mais perguntas do que respostas, mas também com uma compreensão mais profunda do impacto de Bowie — uma figura cuja existência mudou o panorama cultural e que, por meio deste filme, continua a desafiar e inspirar.

outubro 21, 2024

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014)

 


Título original: Hoje Eu Quero Voltar Sozinho
Direção: Daniel Ribeiro
Sinopse: Leonardo é um adolescente cego que tenta lidar com a mãe superprotetora ao mesmo tempo em que busca sua independência. Quando Gabriel chega na cidade, novos sentimentos começam a surgir em Leonardo, fazendo com que ele descubra mais sobre si mesmo e sua sexualidade.


Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, dirigido por Daniel Ribeiro em 2014, é um marco do cinema brasileiro contemporâneo. A obra ganhou visibilidade internacional por abordar temas complexos, como a deficiência visual e a descoberta da sexualidade, com uma sensibilidade rara de se encontrar em dramas adolescentes. O filme oferece um olhar honesto e delicado sobre as primeiras experiências amorosas e as nuances de crescer em um mundo onde a diferença ainda é motivo de estigmatização. Daniel Ribeiro transforma uma história potencialmente convencional em uma obra que celebra a autenticidade juvenil, sustentada por atuações convincentes e uma direção cuidadosa.

A história acompanha Léo (Ghilherme Lobo), um adolescente cego que enfrenta desafios cotidianos não apenas pela deficiência visual, mas também pelo desejo de encontrar independência e autoconfiança. Ele passa seus dias ao lado de sua melhor amiga, Giovana (Tess Amorim), cuja relação com Léo é de companheirismo sincero e despretensioso. No entanto, a chegada de Gabriel (Fabio Audi) provoca uma revolução no mundo de Léo. A presença de Gabriel catalisa um despertar emocional em Léo, explorando o desejo de autodescoberta e atração. Ribeiro apresenta esses sentimentos de maneira sutil, mas impactante, sem recorrer a estereótipos ou a representações exageradas. É um filme que, ao capturar o espírito da adolescência, se torna universal.

O destaque de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho reside na construção dos personagens e na forma como os atores dão vida a eles. Ghilherme Lobo entrega uma performance contida e convincente como Léo, transmitindo vulnerabilidade e inquietação interior. É notável como ele incorpora os desafios de um adolescente cego, sem nunca forçar ou dramatizar além do necessário. Em vez disso, Lobo usa a linguagem corporal de maneira sutil para representar a desconexão e o desejo de autonomia de Léo. Sua atuação confere ao personagem uma autenticidade que se torna o núcleo emocional do filme.

Tess Amorim, como Giovana, traz um contraste interessante. Ela é a amiga que, em sua própria descoberta de si mesma, enfrenta o ciúme e a insegurança que a relação de Léo com Gabriel provoca. Amorim consegue equilibrar bem a doçura com a insegurança, e sua química com Lobo faz da amizade entre Léo e Giovana um dos pilares mais emocionantes da narrativa. Fabio Audi, por sua vez, faz de Gabriel uma figura acolhedora e sutilmente enigmática. Ele é um personagem que, mesmo com menor tempo de tela, exerce uma influência significativa. Sua atuação é marcada pela simplicidade e pela leveza, essenciais para estabelecer o vínculo romântico com Léo de forma crível e respeitosa.

Daniel Ribeiro é eficiente em seu roteiro e direção, conferindo ao filme um ritmo contemplativo, porém fluido. Ele não cede à tentação de dramatizar exageradamente as adversidades de Léo ou as tensões entre os personagens. Em vez disso, Ribeiro escolhe focar nas pequenas interações, nas trocas de olhares e nas pausas que revelam mais do que qualquer diálogo. Isso é particularmente evidente na maneira como ele retrata a conexão entre Léo e Gabriel, optando por uma abordagem naturalista que permite ao espectador sentir o florescimento gradual do romance.

A escolha de Ribeiro de não utilizar a cegueira de Léo como um ponto central da trama é especialmente significativa. Em vez disso, ele trabalha com sutileza as limitações físicas do protagonista, transformando a deficiência em um elemento presente, mas que não define Léo. Assim, Ribeiro desafia o espectador a enxergar Léo como um jovem com sonhos e inseguranças universais. Isso humaniza o personagem, evitando qualquer tipo de vitimização.

A fotografia de Pierre de Kerchove é essencial para estabelecer o tom do filme. Com planos que enfatizam o ambiente cotidiano, como a escola, a casa de Léo e os espaços públicos, a câmera capta a rotina de Léo com uma simplicidade que ajuda a reforçar a naturalidade do filme. De Kerchove também usa closes de forma eficaz, especialmente nas cenas em que Léo experimenta algo novo, seja uma sensação ou um toque. Essa escolha transmite ao espectador a intensidade dessas descobertas. Os tons suaves e naturais predominam, evocando uma sensação de acolhimento e intimidade.

A direção de arte é discreta, mas eficaz. Os ambientes são domésticos e sem qualquer luxo, refletindo a classe média brasileira e contribuindo para a identificação do público com a narrativa. Os cenários têm uma leve desorganização que confere veracidade ao cotidiano dos personagens, particularmente os quartos de Léo e Giovana, cheios de elementos que remetem à adolescência. Essa simplicidade ajuda a concentrar a atenção nas dinâmicas entre os personagens e na jornada de Léo.

Outro aspecto notável de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho é sua trilha sonora, que contribui para a atmosfera emocional do filme sem nunca roubar a cena. Ribeiro escolheu canções que capturam o espírito adolescente e evocam um misto de nostalgia e desejo. A música é usada de maneira econômica, pontuando os momentos cruciais do filme, como o primeiro toque entre Léo e Gabriel. A trilha ajuda a amplificar o impacto emocional desses momentos sem apelar para o sentimentalismo.

É impossível falar sobre Hoje Eu Quero Voltar Sozinho sem mencionar sua importância na representação LGBTQIA+ no cinema brasileiro. O filme não se limita a contar uma história de amor entre dois jovens; ele aborda o tema de maneira sutil, sem transformar a orientação sexual dos personagens em um problema a ser resolvido ou em uma lição moral. Ribeiro consegue tratar o tema com naturalidade, permitindo que o romance se desenvolva como qualquer outra história de amor adolescente. Essa abordagem é um alívio bem-vindo em um contexto onde, muitas vezes, narrativas LGBTQIA+ são pautadas pelo conflito e pela rejeição.

A deficiência visual de Léo também é tratada com respeito e autenticidade. O filme é cuidadoso ao não transformar a cegueira em uma metáfora para algo maior, mas sim em uma parte do personagem que influencia, mas não define, sua jornada. Ribeiro evita os clichês comuns, optando por uma representação que celebra a normalidade de um protagonista que encontra suas próprias formas de lidar com o mundo ao seu redor.

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho é uma obra cativante que se destaca pela autenticidade e pelo respeito com que aborda temas sensíveis. A atuação de Ghilherme Lobo, o roteiro sensível de Daniel Ribeiro e a abordagem sutil de temas complexos fazem deste filme um exemplo de como o cinema pode abordar a adolescência e a descoberta de maneira honesta e tocante. A simplicidade e a sinceridade com que Ribeiro conduz a narrativa permitem que o filme ressoe com qualquer espectador, independentemente de idade ou orientação. Em um gênero onde exageros são comuns, esta é uma história que se destaca por sua sutileza e impacto emocional, trazendo uma experiência genuína e profunda sobre o que significa crescer, amar e encontrar o próprio lugar no mundo.

Maníaco do Parque (2024)

 


Título original: Maníaco do Parque
Direção: Maurício Eça
Sinopse: Uma jovem jornalista ávida por um artigo que mudará sua carreira entra em rota de colisão com um violento assassino: o Maníaco do Parque.


Vamos começar (e terminar, também) pela grande falha que é Maníaco do Parque (2024), dirigido por Maurício Eça. O que poderia ser um thriller psicológico tenso e arrepiante, acaba por ser um verdadeiro festival de vergonha alheia. Aparentemente, a produção tinha bons recursos financeiros, o que faz o desastre ser ainda mais deprimente. Afinal, é como ter uma Ferrari e pilotá-la como se fosse um Fusca enferrujado. O filme tropeça em todas as suas tentativas de criar tensão, suspense ou até mesmo respeito pela história de um dos mais notórios serial killers brasileiros, Francisco de Assis Pereira. No entanto, aqui, Francisco é tratado mais como um coadjuvante de novela da tarde do que como o vilão que dominou o noticiário em 1998. E nem preciso falar do elenco e do roteiro, mas vou fazer isso mesmo assim.

Começando pela protagonista, Elena, interpretada pela Giovanna Grigio. Já aviso: se você está esperando qualquer tipo de emoção da parte dela, sugiro que vá procurar no Google as expressões faciais possíveis de um robô. Aliás, se o intuito do diretor era criar uma personagem completamente sem expressão, sem presença e sem química com o público, acertou em cheio! Desde o início, você simplesmente não acredita que Elena é uma jornalista investigativa. Na verdade, ela parece mais uma estagiária desesperada para conseguir um furo de reportagem qualquer, mesmo que isso signifique gritar com um assassino em série no meio de uma prisão (sim, isso acontece, e claro, os guardas e advogados ficam ali, estáticos, como quem assiste a um teatro de quinta categoria).

O filme tenta desesperadamente enfiar goela abaixo uma mensagem feminista, como se dissesse: "Olha, criamos uma mulher forte, que vai fazer justiça pelas vítimas". Só que o problema é que isso soa forçado e completamente desconexo com o que o filme entrega. A personagem Elena, no início, não está interessada em justiça alguma. Ela quer fama, quer ver sua matéria estampada no "Notícias Populares" (que nome esdrúxulo, diga-se de passagem). Aí, do nada, na conclusão, o filme vira a chavinha e tenta pintar Elena como uma heroína das mulheres, tudo isso envolto em um monólogo feminista ridículo. Se fosse ao menos bem-feito, mas é só um discurso barato que tenta soar inteligente, mas só consegue ser mais patético que os recortes colados na parede durante a investigação.

Ah, e o que dizer da trilha sonora? Parece que alguém teve a brilhante ideia de vasculhar o fundo do poço dos anos 90 e trazer à tona todas aquelas músicas que já deveriam estar enterradas para sempre. É de uma cafonice atroz. Cada vez que a trilha aparece, você é jogado para fora do filme, pensando que está assistindo a uma paródia mal feita. Não há uma única escolha musical que ajude na ambientação ou que eleve o suspense. Ao invés disso, temos músicas horrorosas que só fazem piorar o que já estava ruim.

Os personagens secundários também não ajudam. Mel Lisboa aparece como Martha, a irmã da protagonista, em uma participação tão apagada que demorei duas cenas para me dar conta que aquela era a "presença de Anita". Pelo visto, sua "presença" foi sugada por um buraco negro, porque não sobra nada de carisma aqui. E, claro, não poderia faltar a clássica cena em que a investigadora faz recortes e colagens na parede para solucionar o mistério. Não sei o que é pior: o fato de que essa cena ainda é usada como um recurso "inteligente" em pleno 2024 ou o quão risível ela é aqui. Elena fica ali, de frente para a parede, tentando conectar pontos óbvios, enquanto o espectador só consegue revirar os olhos.

Agora, falando sobre o vilão da história, Francisco de Assis Pereira, interpretado por Silvero Pereira. O filme, aparentemente, tentou "humanizar" o personagem. Que ideia brilhante, não é mesmo? Pegamos um dos maiores monstros da história criminal do Brasil e o transformamos em um sujeito com transtornos, mas quase inofensivo. Silvero até tenta fazer algumas caretas para parecer ameaçador, mas acaba parecendo mais um vilão de sessão da tarde do que um maníaco que aterrorizava mulheres em São Paulo. Não há um único momento em que você realmente sinta medo dele, exceto talvez quando ele faz um olhar malvado direto para a câmera — algo digno de um vilão de novela mexicana.

E, falando em momentos constrangedores, prepare-se para as aparições surreais de ícones da televisão brasileira como É o Tchan, Gugu Liberato e Gilberto Barros. Não, você não leu errado. No meio de um filme que deveria tratar sobre assassinatos brutais e um serial killer, você tem a inserção gratuita de figuras como essas, criando cenas que são pura vergonha alheia. A impressão é de que o filme estava tão desesperado para capturar a atmosfera dos anos 90 que resolveu enfiar tudo o que podia, desde programas de auditório até memes. Sim, você vai ver Gilberto Barros, o "Kasinão", em duas cenas que desafiam qualquer noção de coerência narrativa.

O roteiro não se dá ao trabalho de explicar o que Francisco fazia com suas vítimas, além de matá-las. Quem não era adulto em 1998 provavelmente assistirá ao filme sem entender absolutamente nada sobre os crimes. A sensação que fica é que o diretor e o roteirista achavam que o público já sabia de tudo e, por isso, não precisavam gastar tempo mostrando os horrores que Francisco cometeu. Só que não. O filme não explora as motivações, os detalhes dos crimes ou o impacto psicológico deles.

No final, o grande clímax do filme, o embate entre Elena e o Maníaco do Parque, deveria ser o ponto alto da trama. Mas, claro, como tudo neste filme, é uma decepção gigantesca. Elena grita, xinga, e Francisco só a encara com aquele olhar genérico de vilão barato. A cena, que poderia ser tensa e eletrizante, acaba sendo mais uma situação cômica. Pior ainda, no fim das contas, o filme tenta nos convencer que a verdadeira motivação de Elena era buscar um pai ausente, o que soa tão clichê e sem graça quanto parece. Essa tentativa de psicologizar a trama só afunda ainda mais o roteiro, que já era ruim desde o começo.

Em suma, Maníaco do Parque tinha tudo para ser um filme forte e envolvente, mas falha em praticamente tudo. Se fosse um filme B, ainda daria para perdoar algumas coisas, mas o orçamento está ali, claramente desperdiçado em uma produção sem alma e sem propósito. É uma pena, porque a história real, que causou tanto terror em São Paulo nos anos 90, merecia uma adaptação muito melhor. Mas o que temos aqui é um filme que só serve para encher o catálogo do Amazon Prime e, quem sabe, virar mais um daqueles filmes "tão ruins que são bons", para assistir num domingo à tarde e rir de nervoso.

outubro 20, 2024

Häxan: A Feitiçaria Através dos Tempos (1922)

 


Título original: Häxan
Direção: Benjamin Christensen
Sinopse: O filme é uma mistura de documentário e ficção que explora a história da feitiçaria e as perseguições de bruxas na Idade Média. O filme combina encenações dramáticas e elementos expressionistas para criticar a ignorância e a misoginia da época. Através de rituais e histeria coletiva, provoca reflexões sobre os medos que moldaram a percepção da bruxaria.


Häxan: A Feitiçaria Através dos Tempos, dirigida por Benjamin Christensen, é uma obra que se destaca como um marco no cinema mudo e um estudo fascinante sobre a feitiçaria e a histeria coletiva que dominou a Europa durante a Idade Média. Lançado em 1922, o filme é uma mistura intrigante de documentário e ficção, que visa desmistificar a percepção negativa sobre as bruxas, ao mesmo tempo em que explora as consequências da superstição e da ignorância. Contudo, apesar de suas ambições e de alguns momentos esteticamente impressionantes, a obra não consegue manter a coesão narrativa necessária para uma experiência cinematográfica verdadeiramente envolvente.

O filme é dividido em várias seções, cada uma abordando diferentes aspectos da feitiçaria, desde a sua prática até a perseguição de bruxas. Christensen utiliza uma narrativa fragmentada que pode desorientar o espectador, pois, embora cada segmento tenha seu charme, a conexão entre eles não é sempre clara. A intenção de apresentar uma história abrangente sobre a feitiçaria acaba resultando em uma construção que parece mais um desfile de visões e alegorias do que uma trama coesa. O ritmo do filme é irregular, com longos trechos que se arrastam, o que pode tornar a experiência visual cansativa.

Visualmente, Häxan é um deleite para os olhos, com uma direção de arte que captura perfeitamente a atmosfera sombria e opressiva da época. Christensen emprega uma paleta de cores em preto e branco que, embora limitada, é explorada de maneira inovadora através de sombras e contrastes fortes. O uso de iluminação dramática e composições cuidadosas contribui para o tom sinistro do filme. As encenações de rituais de bruxaria, que incluem elementos expressionistas, são particularmente marcantes, e a encenação do satanismo é uma das mais memoráveis do cinema da época.

Os efeitos especiais, ainda que rudimentares pelos padrões contemporâneos, são uma realização impressionante para o período. As transições, manipulações de câmera e técnicas de montagem, como a sobreposição de imagens, ajudam a criar um senso de sobrenaturalidade que permeia a obra. No entanto, esses momentos estonteantes são intercalados com sequências que se arrastam, onde a narrativa se perde, tornando a experiência menos envolvente.

As atuações dos atores, especialmente a de Christensen, que também se apresenta como o “Diabo”, são notáveis por sua entrega física e expressiva, mesmo em um período sem o suporte do som. Contudo, a ausência de um desenvolvimento mais profundo dos personagens resulta em uma falta de empatia por parte do público. A figura da bruxa, representada de forma quase caricatural, perde a chance de ser uma crítica mais complexa ao estigma enfrentado por essas mulheres na sociedade. As bruxas são apresentadas como figuras temíveis, mas sua humanização é negligenciada, o que torna difícil para o espectador conectar-se emocionalmente com suas histórias.

O filme aborda temas de misoginia, superstição e as consequências devastadoras da ignorância. Christensen, em sua tentativa de refletir sobre a psicologia das massas, mostra como as crenças infundadas podem levar a uma histeria coletiva, resultando em perseguições cruéis. Essa mensagem continua a ressoar em contextos contemporâneos, onde a desinformação e a manipulação da opinião pública permanecem relevantes.

Contudo, a abordagem do diretor, que oscila entre a sátira e a seriedade, pode deixar o espectador confuso quanto à sua intenção. Em algumas cenas, a representação das bruxas e do satanismo parece quase jocosa, o que pode trivializar as questões sérias que o filme pretende abordar.

Häxan: A Feitiçaria Através dos Tempos é, sem dúvida, uma obra importante na história do cinema, oferecendo uma visão única sobre a feitiçaria e suas implicações sociais. Através de uma combinação de estética impressionante e temas provocativos, o filme conquista seu lugar como um clássico cult. Entretanto, a falta de uma narrativa coesa e o ritmo irregular prejudicam a experiência geral, tornando difícil para o espectador se envolver totalmente. Com suas falhas e suas qualidades, Häxan é um estudo de caso sobre como a arte pode ser tanto um veículo de crítica social quanto uma obra de estética perturbadora, mas que não consegue elevar-se totalmente devido às suas inconsistências narrativas e de caráter. A experiência é, portanto, uma montanha-russa visual que pode cativar alguns, mas deixar outros desejando mais coesão e profundidade.

O Peso da Dor (2021)

 


Título original: Mass
Direção: Fran Kranz
Sinopse: Mass é um longa que mostra dois casais e pais em luto que, apesar de ocuparem posições distintas, lidam com uma mesma tragédia em comum, envolvendo seus filhos. Jay e Gail Perry são pais de luto pela morte de seu filho, vítima de um tiroteio na escola. Richard e Linda são os pais do agressor. Seis anos após a tragédia indescritível que destruiu suas vidas, os dois casais concordam em se encontrar e conversar em particular na tentativa de seguir em frente. Todos vivenciam sua jornada de dor, raiva e aceitação, ao ficarem cara a cara.


O Peso da Dor ("Mass", 2021), dirigido por Fran Kranz, é um poderoso drama psicológico que aborda o luto, o perdão e as complexidades emocionais que emergem do trauma. Em um formato minimalista, o filme se destaca por sua escrita incisiva e pela profundidade das performances de um elenco talentoso. Este é um filme que não apenas provoca reflexão, mas também ressoa de maneira visceral, levando o público a confrontar as dores e as fragilidades da condição humana.

A trama se concentra em um encontro entre duas famílias que foram devastadas por um ato de violência inimaginável: um tiroteio em uma escola. O roteiro, também escrito por Kranz, é notável por sua capacidade de equilibrar diálogos carregados de emoção e silêncios impactantes. A narrativa é cuidadosamente construída, permitindo que os espectadores absorvam a intensidade de cada cena. O filme se passa inteiramente em uma sala de conferências, um espaço que simboliza tanto a busca pela verdade quanto a necessidade de cura.

Os personagens principais – Jay e Gail (Jason Isaacs e Martha Plimpton) e Richard e Linda (Ann Dowd e Breeda Wool) – trazem à tela não apenas seus papéis como vítimas e perpetradores, mas também as complexidades de seus relacionamentos e as cicatrizes emocionais que cada um carrega. O tempo que eles passam juntos é uma dança delicada entre o conflito e a compreensão, onde cada palavra e cada pausa são carregadas de significados profundos.

As performances do elenco são, sem dúvida, o coração pulsante de O Peso da Dor. Jason Isaacs e Martha Plimpton oferecem atuações que capturam a dor de pais que perderam seus filhos, transmitindo uma vulnerabilidade que torna suas lutas palpáveis. A química entre os quatro atores é intensa; a tensão no ar é quase palpável, o que intensifica a experiência do espectador. Ann Dowd, em particular, se destaca em sua capacidade de expressar a culpa e o desespero de sua personagem, que é retratada como uma mãe em busca de compreensão e perdão.

A direção de Fran Kranz é sutil, mas eficaz. Ele opta por uma abordagem que privilegia a intimidade e a autenticidade, permitindo que os diálogos e as performances façam o trabalho pesado. As escolhas de câmera são deliberadas, frequentemente focando em close-ups que capturam as expressões sutis e as emoções à flor da pele. A iluminação é igualmente estratégica, usando sombras e luzes suaves para criar um ambiente claustrofóbico que reflete o estado emocional dos personagens.

O Peso da Dor aborda temas universais de perda e recuperação, enquanto examina as complexidades do perdão. A ideia de que a dor pode unir as pessoas, mesmo que através de circunstâncias trágicas, é um ponto central do filme. Kranz não fornece respostas fáceis; ao contrário, ele desafia o público a considerar a profundidade do sofrimento humano e a dificuldade de seguir em frente. O diálogo é, muitas vezes, uma reflexão sobre a impotência que muitos sentem ao tentar entender ou dar sentido a uma tragédia. Essa exploração não é apenas sobre as famílias diretamente afetadas, mas sobre a sociedade como um todo e suas falhas em lidar com a violência armada.

Além disso, o filme toca em questões sobre o luto e a maneira como diferentes pessoas reagem a ele. As interações entre os personagens revelam que o luto não é linear; ele é complexo e repleto de nuances, e as reações às tragédias podem variar imensamente. Essa representação torna O Peso da Dor um estudo significativo e perspicaz sobre a condição humana.

Em suma, O Peso da Dor é uma obra-prima cinematográfica que transcende seu tema sombrio por meio de performances excepcionais e uma narrativa envolvente. Fran Kranz consegue explorar a dor de maneira íntima e honesta, permitindo que o público não apenas observe, mas sinta a profundidade da tragédia que os personagens enfrentam. Este filme não é apenas uma exploração do luto e da perda, mas uma meditação sobre a capacidade de se conectar, mesmo nas circunstâncias mais difíceis. Em um mundo repleto de respostas fáceis e narrativas simplistas, O Peso da Dor é uma obra que desafia o espectador a mergulhar nas complexidades da dor humana, lembrando que, mesmo em meio ao sofrimento, ainda há espaço para a esperança e a compreensão.