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maio 05, 2005

Meu Amor de Verão (2004)

 


Título original: My Summer of Love
Direção: Paweł Pawlikowski
Sinopse: Tamsin e Mona são duas garotas que se conhecem durante o verão e criam uma amizade que logo se torna uma relação mais íntima. Essa relação incomoda algumas pessoas, principalmente Phil, irmão de Mona, que se converteu ao cristianismo.


A história é simples: duas pessoas se apaixonam e enfrentam problemas para levar seu amor adiante. Bem banal, não? Ah, essas duas pessoas são do mesmo sexo. Ah, claro, estou falando de O Segredo de Brokeback Mountain. Não, não estou. É a história de duas meninas do interior da Inglaterra que se conhecem num verão. Esse é Meu Amor de Verão.

Ao contrário do que o título (tanto o brasileiro quanto o original) nos indica, Meu Amor de Verão não é ‘mais um filme de amor, só que com duas pessoas do mesmo sexo’. Para isso existe o filme da Montanha lá que todos já estão cansados de ouvir falar (ou talvez de ver). Em um certo dia, a jovem Mona, infeliz no amor, encontra Tamsin. E é daí em diante que o filme se mostra bem mais verossímil do que o longa badalado de Ang Lee.

O relacionamento das duas vai se aprofundando de forma gradual, lenta, mas não menos envolvente. Tudo é ainda mais alavancado pelo fato de Mona ser uma menina pobre que não tem pais e mora com seu irmão (Paddy Considine, bem conhecido aqui pelo seu trabalho em Terra de Sonhos), um recém-convertido a ‘Jesus’, enfim, fanático religioso. Ao conhecer o mundo de Tamsin, ela fica encantada. Não só com as coisas, mas com a garota também, obviamente.

A vida de Tamsin, apesar de parecer fácil, não é das melhores. Ela é considerada garota-problema no internato onde estuda e está em casa naquele verão pois havia sido suspensa. Além disso, conforme ficamos sabendo, sua irmã morreu de anorexia.

Apesar das duas serem completamente o oposto uma da outra, elas se amam. E esse amor tem direito a tudo, até mesmo a frases do tipo ‘nós nunca nos separaremos’, mostra como o amor e a admiração influenciam na personalidade das pessoas envolvidas – geralmente na de atitude mais servil – isso sendo exemplificado pelos momentos em que a comportada Mona ‘se rebela’, e mais coisas do gênero. Enfim, muitos clichês. Sim, clichês, mas inseridos de forma bem crível em uma paisagem interiorana lindíssima. É exatamente aí que mora o bom conteúdo de Meu Amor de Verão: na credibilidade dos fatos e, principalmente, em um final ao menos ‘interessante’. Bem, eu achei fantástico.

Esse longa tem o que falta a O Segredo de Brokeback Mountain, que é a credibilidade àquele amor proposto na tela. Enquanto o primeiro fracassa nesse ponto, esse pequeno filme britânico consegue cativar, talvez por ser tão simples como é.

outubro 08, 2004

Maldito Coração (2004)

 


Título original: The Heart Is Deceitful Above All Things
Direção: Asia Argento
Sinopse: O garoto Jeremiah vivia feliz na estabilidade financeira e emocional dos pais adotivos. Mas sua mãe biológica, Sarah, pediu sua guarda de volta e jogou-o, aos sete anos, num mundo que ele não queria conhecer: bebidas, amantes, drogas e violência sexual. Até que seus avós maternos, extremistas religiosos, levam-no por um outro caminho, só um pouco menos maluco. Sarah, porém, na ânsia de destruir sua vida, não hesitará em destruir a de seu filho, se puder. Enganoso é o coração, mais que tudo. Quem poderá compreendê-lo?


Pais adotivos carinhosos, "de mentira", ou uma mãe insana, "de verdade". Ou ainda pior... "avós" fanáticos religiosos? É nesse confronto de ambientes e pessoas tão diferentes que o pequeno Jeremiah é colocado desde seus sete anos de idade. Baseado uma autobiografia que algum tempo depois veio se mostrar uma farsa, Maldito Coração é um tapa na cara não só na dita "moralidade", mas também nos faz pensar se sabemos realmente o que é o ‘certo’ para uma pessoa em formação.

O ponto forte do filme não é somente sua história, de certa forma perversa, mas certamente suas atuações. No papel principal, da mãe completamente insana, mas que às vezes cremos que está realmente interessada em tratar bem seu filho (somente no início do filme, claro), após tirar seu filho do aconchego da casa de seus pais adotivos, está a conhecida Asia Argento (Terra dos Mortos, Triplo X), que também dirigiu e adaptou o roteiro das histórias ‘autobiográficas’ de J.T. LeRoy. Ela confere uma interpretação pavorosa – no bom sentido – de Sarah, a mãe biológica de Jeremiah que insiste em tirar ele ‘do bom caminho’ por diversas vezes durante sua vida. Este menino, por sua vez, é muito bem feito primeiramente por Jimmy Bennett (O Expresso Polar, Horror em Amityville – e dos ainda inéditos Firewall e Poseidon). Está sempre passando uma imagem de que está sendo jogado de ‘um adulto para outro’.

Eis então que seus avós – extremamente religiosos – o levam pra casa deles,  onde Jeremiah se sente completamente deslocado. Ao passo que eles (e seus outros filhos, por sua vez, tios de Jeremiah, porém, crianças também) usam passagens da Bíblia para se referir a qualquer assunto, o menino revida cantando Sex Pistols, “eu sou o anticristo”, e por aí vai. Vale notar que os avós são interpretados por ninguém menos que Ornella Muti e Peter Fonda. E vemos também a primeira aparição de John Robinson em telas brasileiras depois de participar do aclamado Elefante, que lançou não só ele, mas todos os adolescentes participantes do anonimato ao estrelato.

Isso é certamente um dos pontos mais interessantes de Maldito Coração: as participações especiais em pequenos, minúsculos papéis. Além dos já citados, ainda temos Marilyn Manson (quase irreconhecível sem a maquiagem costumeira), Michael Pitt, que, mesmo aparecendo pouco, sempre consegue conferir a dramaticidade essencial a qualquer personagem e Winona Ryder, como uma psicóloga... insana, por assim dizer.

No final das contas o resultado é um longa bem pesado. Funciona principalmente até o final do segundo ato, mas a fórmula de criança-espancada-e-nada-mais não é pretexto o suficiente pra aguentar todo o tempo de projeção. Por fim essa conjunção de drogas, sexo, pedofilia, prostituição, punk rock e uma criança vestida de mulher (é, até isso) cansam psicologicamente o espectador. Mas é nada mais nada menos do que uma representação da realidade que acontece por aí e somente fingimos que não sabemos que acontece.