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novembro 09, 2024

A Favorita (2018)

 


Título original: The Favourite
Direção: Yorgos Lanthimos
Sinopse: Na Inglaterra do século XVIII, Sarah Churchill, a Duquesa de Marlborough (Rachel Weisz) exerce sua influência na corte como confidente, conselheira e amante secreta da Rainha Ana (Olivia Colman). Seu posto privilegiado, no entanto, é ameaçado pela chegada de Abigail (Emma Stone), nova criada que logo se torna a queridinha da majestade e agarra com unhas e dentes a oportunidade única.


Yorgos Lanthimos sempre teve uma abordagem peculiar ao cinema, marcada por um estilo excêntrico e um humor ácido que atinge os limites do desconforto. Em A Favorita (The Favourite), ele se aventurou no terreno da comédia dramática histórica, buscando explorar os meandros da corte britânica do início do século XVIII. O que poderia ser um retrato divertido e ácido do jogo político e das relações de poder dentro da realeza, é, no entanto, um filme que, apesar de momentos brilhantes, acaba se perdendo por conta de escolhas de direção questionáveis e um excesso de firulas visuais que, em última instância, acabam prejudicando a experiência.

O que realmente se destaca em A Favorita, e de longe o que mantém o filme equilibrado, são as performances excepcionais de seu elenco. Olivia Colman, que interpreta a excêntrica Rainha Ana, brilha intensamente, entregando uma atuação de camadas profundas. Sua interpretação da monarca fragilizada, emocionalmente instável, e ao mesmo tempo estrategicamente manipuladora, é sem dúvida o grande trunfo do filme. Colman transmite uma humanidade impressionante, em meio à arrogância e loucura de sua personagem, e é impossível desviar o olhar enquanto ela toma a tela com uma mistura de vulnerabilidade e poder.

Mas Colman não está sozinha nessa grandiosa exibição de talento. Rachel Weisz, que interpreta a ambiciosa Lady Sarah Churchill, nunca envelhece, e aqui, mais uma vez, oferece uma atuação impecável. Sua química com Colman é fantástica, especialmente no jogo de poder e manipulação que elas travam, quase como duas peças de um xadrez emocional. Emma Stone, por sua vez, traz uma sensualidade fria e traiçoeira como Abigail Hill, a terceira peça nesse triângulo de ambição e manipulação. Stone, sempre talentosa, surpreende ao dar vida a uma personagem que, à primeira vista, poderia ser uma caricatura, mas que ela constrói com uma certa dignidade e um leve tom de melancolia.

Os homens, no entanto, são uma comédia à parte. Em A Favorita, não há espaço para figuras masculinas que não sejam reduzidas a estereótipos de tolos, ou pior, de retardados. O papel de Nicholas Hoult, como o egocêntrico e volúvel Robert Harley, é um dos maiores exemplos dessa caracterização. Sua atuação, embora em um papel cômico, é sensacional, conseguindo equilibrar o ridículo com um toque de humanização que jamais o torna apenas uma piada. A cariação de Hoult é precisa, como se o ator soubesse exatamente onde colocar cada exagero para fazer seu personagem funcionar dentro do tom do filme. Ele é, sem dúvida, um dos grandes responsáveis por trazer um alívio cômico necessário à narrativa, e sua performance, ao lado das de Weisz e Stone, forma o pilar que mantém A Favorita de pé.

Falando do roteiro, é impossível não destacar as tiradas de humor extremamente afiadadas que permeiam o filme. Lanthimos e seu roteirista, Tony McNamara, criam uma dinâmica entre as personagens que flutua com uma montanha-russa emocional. O humor, muitas vezes negro, é instantaneamente cortado por momentos de dor, solidão e decepção. A transição de risos para silêncios constrangedores é feita com uma precisão impressionante, e a mistura de comicidade e tragédia parece refletir a verdadeira natureza de um jogo político tão implacável quanto o da corte britânica do período.

Contudo, o que poderia ter sido uma experiência cinematográfica realmente memorável é ofuscado pela direção excessivamente estilizada de Lanthimos. Desde o início, o filme se perde na busca por uma estética moderna que não serve ao propósito da história. Lanthimos parece se inspirar em Maria Antonieta (2006), de Sofia Coppola, e na tentativa de se distanciar da típica cinematografia histórica, ele insere uma série de firulas visuais que, embora ousadas, acabam mais atrapalhando do que acrescentando. A fotografia é saturada de lentes grande angulares, que dão uma sensação desconfortável e excessivamente estilizada às cenas. Essas lentes, frequentemente usadas para capturar os rostos das personagens de forma distorcida, criam uma espécie de desconexão com a realidade da época e do cenário, afastando o espectador da imersão desejada.

Além disso, os tilts de câmera em 360 graus e os enquadramentos atípicos parecem mais um artifício visual para chocar do que uma escolha narrativa que realmente acrescentasse à trama. O uso dessas técnicas, que se distanciam do convencional, pode ser visto como uma tentativa de modernizar o gênero, mas, sem o suporte de um roteiro subversivo como o de Maria Antonieta, essas escolhas acabam ficando vazias e artificiais. Em alguns momentos, Lanthimos parece estar mais preocupado com sua estética visual do que com a construção das relações interpessoais e do desenvolvimento da história. A direção aqui, de fato, prejudica o material que tinha em mãos, transformando o filme em algo que se perde em sua própria complexidade visual, quando deveria ser mais focado no conteúdo humano e nas dinâmicas de poder entre suas personagens.

A montagem também é um ponto delicado. Embora o filme tenha uma cadência própria, por vezes as transições entre cenas são abruptas, e a fluidez da narrativa é interrompida por escolhas editoriais que não contribuem para o ritmo da história. Lanthimos parece querer criar um senso de desconforto contínuo, mas, ao invés disso, ele acaba criando um distanciamento emocional, que nos impede de nos conectar com a profundidade da trama.

Em resumo, A Favorita é um filme que brilha, mas apenas parcialmente. O que poderia ser um retrato afiado e vibrante da realeza inglesa se transforma, nas mãos de Lanthimos, em uma obra que se perde em seu próprio excesso visual e estilístico. As atuações excepcionais, com destaque para Olivia Colman, Rachel Weisz e Emma Stone, são os verdadeiros pontos altos, enquanto a direção e as escolhas visuais, longe de agregar ao filme, fazem com que o espectador se sinta desconectado da narrativa. Lanthimos, ao tentar ser moderno, acaba deixando para trás a força de seu enredo e o poder de seus personagens. E, no fim, o filme deixa uma sensação de que o que poderia ter sido uma grande obra, com mais equilíbrio, ficou apenas como uma promessa frustrada de uma história ainda mais impactante.

novembro 08, 2024

A Música de John Williams (2024)

 


Título original: Music by John Williams
Direção: Laurent Bouzereau
Sinopse: Suas composições inesquecíveis são parte essencial de alguns dos mais adorados filmes da nossa época ao longo de uma carreira que se estende por décadas. Veja e ouça a história do maestro John Williams, com as percepções de cineastas, músicos e outros profissionais que ele inspirou, completados por uma rara visão dos bastidores da produção da história do cinema.


A Música de John Williams, dirigido por Laurent Bouzereau, é um documentário detalhado que examina a vida e obra de um dos compositores mais renomados do cinema. A obra explora desde a juventude de Williams, sua formação musical e as primeiras influências, até sua consolidação como o "maestro de Hollywood" em trilhas icônicas para filmes como Star Wars, Tubarão e Harry Potter. Com a ajuda de relatos de colaboradores próximos e um vasto acervo de imagens de arquivo, incluindo vídeos fornecidos por Steven Spielberg, Bouzereau mergulha no impacto cultural da música de Williams, mas comete alguns deslizes que o tornam um documentário aquém do seu potencial.

O diretor, conhecido por realizar documentários que exploram o processo criativo de lendas do cinema, adota uma abordagem formal e convencional que, apesar de informativa, acaba sendo pouco inventiva. A estrutura do filme é rigorosamente linear e didática, com entrevistas que reforçam a importância de Williams na história do cinema, mas que raramente oferecem uma perspectiva mais aprofundada ou inovadora. Isso deixa o documentário com um tom um tanto sisudo, o que pode frustrar espectadores que esperavam uma abordagem mais dinâmica para uma personalidade tão vibrante quanto Williams.

Além disso, o documentário não aproveita ao máximo a diversidade do repertório musical de Williams. Embora a trilha sonora seja composta por suas próprias músicas, A Música de John Williams recorre repetidamente a temas consagrados como Star Wars e E.T., o que cria uma sensação de repetição e limita a oportunidade de explorar composições menos conhecidas que também merecem destaque. Há uma exploração superficial de suas técnicas criativas e sua habilidade de adaptar estilos musicais conforme a exigência narrativa, mas o documentário acaba restringindo sua paleta sonora, o que é uma pena para uma obra sobre um artista de tamanha versatilidade.

A parte dedicada à juventude de Williams, no entanto, é um ponto alto. Bouzereau examina as raízes musicais do compositor e seus primeiros passos na carreira, inclusive sua resistência inicial em entrar para o mundo do cinema. Williams, que começou no jazz, encontra no cinema uma nova expressão para sua criatividade, o que marca o início de uma jornada que mudaria para sempre o som da sétima arte. A narrativa sobre essa fase da vida de Williams revela um lado menos conhecido de sua personalidade, mostrando o quanto o compositor se considera um eterno aprendiz, sempre buscando evoluir e adaptar suas técnicas para se manter relevante em um setor em constante mudança.

Outro aspecto interessante do documentário é o destaque para o processo colaborativo de Williams com diretores como Spielberg e George Lucas. Spielberg, que também atua como produtor do filme, descreve sua relação com Williams como uma “irmandade” – uma parceria de longo prazo que permitiu a criação de obras musicais que são praticamente sinônimos de suas respectivas franquias e personagens​. No entanto, mesmo essas entrevistas são um tanto formais, deixando de lado uma análise mais emotiva ou uma exploração mais íntima da relação criativa entre compositor e diretor.

Em suma, A Música de John Williams é uma homenagem justa a um compositor cuja música definiu gerações, mas que deixa a desejar pela abordagem convencional e pela subutilização de um repertório tão vasto. Bouzereau oferece uma visão instrutiva da vida e da carreira de Williams, mas o documentário poderia ter sido mais ousado, refletindo a inovação e a grandiosidade da música de seu homenageado. Para os fãs de Williams, o filme é uma celebração bem-vinda de sua obra, mas talvez careça da profundidade e originalidade que tornariam essa experiência realmente inesquecível.

novembro 07, 2024

Feios (2024)

 


Título original: Uglies
Direção: McG
Sinopse: Em um futuro distópico que impõe rígidos padrões de beleza, uma adolescente aguardando sua cirurgia plástica obrigatória sai em busca da amiga desaparecida.


No filme Feios (Uglies, 2024), dirigido por McG e baseado na obra de Scott Westerfeld, vemos mais um exemplo do que parece ser a marca registrada dos lançamentos de ficção científica da Netflix: uma premissa intrigante com potencial, mas que se dissolve em efeitos visuais de baixa qualidade e uma abordagem rasa de temas complexos. A história, ambientada em um futuro distópico, propõe uma sociedade onde todos passam por uma cirurgia estética aos 16 anos para se tornarem "Pretties" — pessoas visualmente ideais, vivendo uma vida utopicamente livre de conflitos. No entanto, a execução do filme acaba frustrando expectativas, com CGI tão rudimentar que, por vezes, parece que estamos assistindo a uma animação mal-feita.

O filme é estrelado por Joey King como Tally Youngblood, uma jovem ansiosa pela transformação que a tornará uma "Pretty". No entanto, sua jornada toma outro rumo quando descobre segredos obscuros sobre o procedimento. King é também produtora executiva, mas mesmo seu envolvimento não conseguiu elevar o filme acima de suas limitações. Em um filme sobre beleza e padronização, era de se esperar que as "Pretties" fossem visualmente impactantes, mas o casting deixa a desejar — os personagens “bonitos” se destacam pela falta de apelo estético, talvez devido a um orçamento insuficiente para contratar um elenco que realmente refletisse o ideal de beleza que o roteiro critica.

McG, conhecido por uma direção estilizada e dinâmica, como em As Panteras Detonando, tenta aplicar uma energia similar aqui, com cenas de ação e elementos de ficção científica, como hoverboards e tecnologia futurista. Contudo, em Feios, esses momentos caem no exagero e, junto com os efeitos visuais fracos, parecem deslocados, quase risíveis, especialmente em comparação com filmes lançados recentemente. A proximidade com A Substância, outra obra de 2024 que explora a pressão pela perfeição estética, torna a comparação inevitável, destacando ainda mais as falhas de Feios em lidar com esse tema. Enquanto A Substância mergulha em uma análise mais profunda e complexa, Feios passa uma impressão de superficialidade, com diálogos pouco inspirados e uma narrativa previsível, focando-se em reviravoltas que soam forçadas e inconsistentes com o desenvolvimento dos personagens.

Esse é um típico filme voltado para adolescentes, focado em uma trama ágil e efeitos chamativos, mas com profundidade zero. O roteiro não explora adequadamente as questões éticas e filosóficas que uma sociedade obcecada pela perfeição estética poderia levantar. O tema, que poderia ser uma crítica contundente à cultura da aparência e à pressão para se conformar a padrões de beleza, acaba se perdendo em clichês e soluções fáceis. Assim, a complexidade do mundo distópico proposto por Westerfeld fica diluída em uma adaptação que parece mais preocupada em preencher os requisitos de uma ficção adolescente comum do que em entregar uma mensagem impactante.

É difícil prever para onde a Netflix levará essas produções de qualidade duvidosa, mas Feios é um exemplo de como uma adaptação literária pode falhar ao não capturar a profundidade e o impacto da obra original. Entre atuações que não se destacam, visuais que deixam a desejar e uma trama que não se sustenta, o filme acaba se tornando uma experiência frustrante, reafirmando a necessidade de um cuidado maior ao transpor temas complexos para o cinema.

novembro 06, 2024

A Flor do Buriti (2023)

 


Título original: Crowrã
Direção: Renée Nader Messora, João Salaviza
Sinopse: Em 1940, duas crianças do povo indígena Krahô encontram na escuridão da floresta um boi perigosamente perto da sua aldeia. Era o prenúncio de um violento massacre, perpetuado pelos fazendeiros da região. Em 1969, durante a Ditadura Militar, o Estado Brasileiro incita muitos dos sobreviventes a integrarem uma unidade militar. Hoje, diante de velhas e novas ameaças, os Krahô seguem caminhando sobre sua terra sangrada, reinventando diariamente as infinitas formas de resistência. 


A Flor do Buriti (2023), dirigido por Renée Nader Messora e João Salaviza, propõe uma abordagem original e profundamente introspectiva sobre a vida do povo indígena Krahô, que vive no cerrado brasileiro. O filme, uma coprodução entre Brasil e Portugal, constrói um relato que mistura a ficção e o documentário, uma característica comum no trabalho da dupla de diretores. Essa narrativa híbrida explora o passado, o presente e os desafios futuros enfrentados pelos Krahô, num registro quase todo falado no idioma krahô. Essa decisão é não só louvável por sua autenticidade cultural, mas também estabelece uma conexão direta com a própria identidade do povo retratado.

O título A Flor do Buriti faz referência ao buriti, uma palmeira característica do cerrado e um símbolo cultural dos Krahô. A flor do buriti é utilizada como um elemento metafórico no filme, representando a resistência e a vitalidade da comunidade. Embora o filme explore a resiliência dessa comunidade, ele também evoca traumas históricos, como o massacre dos Krahô por fazendeiros na década de 1940, uma memória que ecoa e se entrelaça na identidade dos personagens. Esse enredo nos leva a uma reflexão sobre a violência histórica e os impactos dessa herança sobre as gerações atuais​.

A direção de Messora e Salaviza é detalhada e imersiva, apresentando uma narrativa visual que imita o estilo documental, criando uma autenticidade inegável. A imersão dos diretores nas aldeias Krahô por mais de um ano permitiu uma representação fiel, sem intenções de glamourizar ou simplificar a experiência de vida desse povo. Esse tom documental funciona como um forte alicerce para o filme, trazendo uma seriedade e uma sobriedade adequadas ao tema. No entanto, essa escolha por um tom mais documental contribui também para o ritmo lento do filme. Com 123 minutos de duração, o filme se arrasta, exigindo bastante paciência do espectador, que é confrontado com longos momentos de contemplação e cenas prolongadas que buscam refletir o tempo do cerrado e da vida indígena. Esse ritmo, enquanto convida à contemplação, pode ser um empecilho para alguns, tornando a experiência cansativa​.

Além disso, a montagem de A Flor do Buriti se torna um dos pontos mais problemáticos da produção. A estrutura temporal confusa e a falta de marcos visuais claros deixam o espectador sem uma sensação clara de quando cada cena se passa, o que prejudica a narrativa. Embora alguns elementos sutis – como cédulas de cruzeiro e um cartão de identificação dos anos 1970 – tentem situar o espectador no tempo, eles são poucos e não suficientemente marcantes. Esse problema se agrava com a ausência de mudanças visíveis na aparência dos personagens e na paisagem, já que as cenas se desenrolam quase inteiramente em meio à floresta, sem sinais óbvios de passagem do tempo, o que dificulta ainda mais a compreensão do desenrolar dos eventos.

Apesar dos problemas de ritmo e montagem, o filme traz um mérito notável: a escolha de usar amplamente o idioma krahô, que reforça a autenticidade cultural da produção e a torna um poderoso tributo à língua e às tradições dessa comunidade. Os diálogos em krahô, além de honrar a língua, carregam nuances que não seriam capturadas da mesma forma em português. Esse recurso permite que o filme funcione como um registro de uma cultura ameaçada, um testemunho da riqueza e complexidade da língua e da identidade Krahô, estabelecendo um elo entre as gerações antigas e as novas​.

No geral, A Flor do Buriti representa um esforço significativo do cinema nacional para capturar a realidade de uma das comunidades indígenas brasileiras, e é uma proposta inovadora nesse sentido. Messora e Salaviza entregam uma obra visualmente densa e ideologicamente relevante, que exige do público um olhar atento e paciente. Embora seus problemas técnicos impeçam a fluidez narrativa, o filme se destaca pela profundidade do tema e pela coragem de apresentar uma realidade invisibilizada e complexa. É uma obra que, apesar de suas limitações, merece atenção pelo compromisso com a verdade e pela valorização da cultura indígena, mesmo que sua experiência cinematográfica nem sempre seja fácil de acompanhar.

novembro 05, 2024

Rivais (2024)

 



Título original: Challengers
Direção: Luca Guadagnino
Sinopse: Tashi Duncan, atleta prodígio do tênis que se tornou treinadora, é uma força da natureza que não pede desculpas por seu jogo dentro e fora da quadra. Casada com um campeão que tem acumulado apenas derrotas nos últimos jogos, a estratégia de Tashi para a redenção de seu marido toma um rumo surpreendente quando ele deve enfrentar o fracassado Patrick nas quadras. Patrick foi o melhor amigo de seu marido, e é ex-namorado de Tashi. Quando o passado e o presente entram em colisão, e as tensões aumentam, Tashi deve se perguntar qual será o custo dessa vitória.


Rivais é uma obra peculiar e ambiciosa de Luca Guadagnino, que explora as tensões emocionais e físicas de um triângulo amoroso ambientado no competitivo mundo do tênis. A trama gira em torno de Tashi (Zendaya), uma ex-estrela do tênis que, ao se ver impossibilitada de competir devido a uma lesão, se torna treinadora e esposa de Art (Mike Faist). A relação do casal complica-se ainda mais com a entrada de Patrick (Josh O’Connor), antigo amigo e amante de Tashi, trazendo à tona uma rivalidade marcada por ressentimento e desejo. A narrativa se constrói sobre esse conflito, alternando entre o passado e o presente, com flashbacks revelando as camadas emocionais dos personagens ao longo dos anos. Este é um filme que, ao mesmo tempo em que exala uma intensidade febril, desafia o público com seu ritmo ora eletrizante, ora lento, oferecendo uma experiência que oscila entre o cativante e o frustrante.

Guadagnino traz sua assinatura visual inconfundível e senso estético ao filme, mas Rivais se destaca por ser uma verdadeira montanha-russa, como se dirigido por dois diretores diferentes. No começo, o filme é feroz e impactante, com sequências que estabelecem de imediato a intensidade da história e das relações entre os personagens. A tensão sexual e o jogo psicológico entre Tashi, Art e Patrick são introduzidos com cenas eletrizantes, muitas vezes filmadas de forma íntima e detalhada, quase colocando o espectador dentro das quadras ou dos quartos. O impacto visual desses momentos é evidente, e Guadagnino utiliza uma técnica de câmera ousada, que valoriza o movimento e a fisicalidade dos personagens, especialmente nas cenas de tênis, onde a energia e o foco são quase palpáveis​.

Contudo, essa mesma intensidade inicial cede lugar a um ritmo mais lento em certas partes do filme, especialmente nas cenas de diálogos longos e introspectivos, que podem testar a paciência de alguns espectadores. É como se o filme alternasse entre picos de energia e momentos de estagnação narrativa, uma estrutura que desafia o público a acompanhar essa variação de ritmos. Este contraste abrupto de cadências faz o filme parecer dividido entre o impulso de ser uma narrativa ágil e a vontade de aprofundar-se no drama emocional dos personagens, uma oscilação que, embora estilisticamente interessante, compromete a coesão da experiência. A longa duração de Rivais (mais de duas horas) intensifica essa sensação, sugerindo que o roteiro poderia ter sido condensado para manter o ritmo, talvez reduzido para algo entre 90 e 100 minutos, o que traria mais fluidez à história​.

Zendaya, que interpreta a complexa Tashi, tem aqui uma oportunidade de explorar uma personagem multifacetada e psicologicamente intensa. Porém, sua performance divide opiniões. Muitos espectadores podem questionar o alarde em torno de sua atuação, pois, embora sua presença magnética funcione bem em alguns momentos, sua interpretação peca por uma falta de expressividade emocional. Em cenas que exigem intensidade, Zendaya muitas vezes parece travada, com uma expressão que varia pouco, tornando difícil acreditar nas nuances de sua personagem. Essa falta de variação emocional pode dificultar a conexão do público com sua jornada pessoal e com os dilemas internos que Tashi enfrenta​.

Em contraste, Mike Faist e Josh O’Connor entregam atuações marcantes e genuínas. Faist, como Art, consegue trazer uma evolução clara ao personagem: seu comportamento e expressões faciais transformam-se ao longo do tempo, de um jovem confiante e cheio de esperança a um homem desgastado, com a dureza de quem viveu experiências dolorosas. Josh O’Connor, no papel de Patrick, também desenvolve um arco interessante, começando como uma figura alegre e espontânea e terminando como um rival exausto e emocionalmente abalado. A química entre Faist e O’Connor é palpável, e ambos conseguem imprimir em seus personagens uma carga emocional autêntica, explorando as fragilidades e os ressentimentos que surgem ao longo dos anos.

A edição é um dos pontos altos de Rivais, especialmente nas cenas de tênis, onde o trabalho de cortes rápidos e ângulos estratégicos cria uma experiência quase visceral. A montagem dessas partidas é dinâmica e precisa, acompanhando o ritmo frenético dos jogos e aumentando a tensão com cortes que enfatizam o esforço físico e o cansaço dos jogadores. É uma edição que não apenas reflete a intensidade dos confrontos, mas também intensifica a percepção do espectador sobre as rivalidades em jogo. Guadagnino e sua equipe fazem um uso magistral dos ângulos e dos tempos de corte para transmitir a exaustão e a agressividade das partidas, ao ponto de quase transformar o tênis em um personagem do filme​.

Além disso, a trilha sonora composta por Trent Reznor e Atticus Ross é um dos grandes destaques. Conhecidos por suas composições atmosféricas e envolventes, Reznor e Ross criam um ambiente sonoro que complementa perfeitamente a tensão e o drama do filme. A música acompanha os altos e baixos emocionais dos personagens, acentuando momentos de silêncio e introspecção e destacando as cenas de maior conflito. A combinação entre a trilha sonora e os efeitos de som — que capturam desde os impactos das raquetes até o som abafado dos passos — cria uma atmosfera imersiva que coloca o espectador no centro da ação.

O design de som é igualmente impressionante, com uma atenção aos detalhes que enriquece a experiência audiovisual. A mixagem de som é tão precisa que se tem a sensação de estar em uma partida real, ouvindo cada detalhe dos movimentos dos jogadores. Essa engenharia de som envolvente transforma as partidas de tênis em cenas que vão além do simples esporte, tornando-se quase metáforas para os confrontos emocionais entre os personagens. É um trabalho de som que merece destaque e que ajuda a elevar o filme, colocando-o entre as produções mais bem realizadas tecnicamente deste ano​.

O roteiro de Rivais, escrito por Justin Kuritzkes, é ambicioso em sua tentativa de aprofundar as complexidades emocionais dos personagens e de explorar temas como o ego, a competição e o desejo. A narrativa é estruturada de forma a misturar o passado e o presente, alternando entre os primeiros dias da relação entre Tashi, Art e Patrick e os desdobramentos do relacionamento quando todos estão mais velhos e emocionalmente desgastados. Essa estrutura fragmentada, embora interessante, acaba sendo prejudicada pela falta de coesão em algumas partes, que parecem mais preenchimento do que realmente essenciais para a trama.

A ambição do roteiro é louvável, mas a falta de um ritmo consistente e as transições abruptas entre cenas de alta intensidade e momentos introspectivos podem criar uma sensação de irregularidade. É como se o roteiro estivesse dividido entre ser uma narrativa de tensão romântica e uma análise profunda dos traumas e da competição que corroem os personagens. Essa dualidade faz com que o filme oscile entre ser uma história de rivalidade esportiva e uma análise psicológica, sem se comprometer inteiramente com nenhum dos dois​.

Rivais é um filme que, apesar de suas falhas, traz muitos elementos dignos de apreciação. A direção ousada de Guadagnino, a cinematografia de Mukdeeprom, a trilha envolvente de Reznor e Ross, e o design de som são aspectos que elevam a experiência cinematográfica, tornando o filme um espetáculo técnico. Contudo, a falta de coesão no ritmo e a performance limitada de Zendaya comprometem a profundidade emocional da trama, fazendo com que o filme pareça dividido entre suas intenções e sua execução.

Se Guadagnino tivesse optado por um estilo mais conciso e focado, talvez o filme pudesse atingir todo o seu potencial. Rivais oferece momentos de grande impacto e um visual atraente, mas se perde em sua própria ambição de ser mais do que uma história de rivalidade amorosa. É um filme que deixa o público com a sensação de que, embora tenha alcançado grandes alturas em certos momentos, poderia ter sido ainda mais memorável se tivesse se comprometido com uma narrativa mais equilibrada e menos fragmentada.

novembro 04, 2024

Apocalipse Z: O Princípio do Fim (2024)

 


Título original: Apocalipsis Z: El Principio del Fin
Direção: Carles Torrens
Sinopse: Quando um tipo de raiva que transforma as pessoas em criaturas agressivas se espalha pelo planeta, Manel se isola em casa com seu gato, confiando em sua inteligência para sobreviver; mas logo eles precisam sair em busca de comida, por terra e por mar, esquivando-se de muitos perigos.

Apocalipse Z: O Princípio do Fim (Apocalipsis Z: El Principio del Fin, 2024), dirigido por Carles Torrens e inspirado no livro de Manel Loureiro, é uma adição curiosa e divertida ao gênero de filmes de zumbis. Este filme espanhol-galego mistura idiomas, do galego ao português, e traz um toque aleatório à conhecida narrativa de apocalipse zumbi, com momentos de tensão e sobrevivência isolados de grandes cenas de ação ou efeitos visuais extravagantes.

A trama acompanha o protagonista, interpretado por Francisco Ortiz, que se isola em casa com seu gato enquanto um vírus devastador se espalha, levando a humanidade à beira da extinção. Em vez de se focar em hordas de mortos-vivos, o filme escolhe um caminho mais introspectivo, explorando o impacto psicológico sobre o protagonista, especialmente após a recente perda de sua parceira. O resultado é uma abordagem mais próxima de um thriller psicológico do que um filme de terror tradicional, enfatizando o isolamento e a luta silenciosa por sobrevivência em um mundo agora despovoado e hostil.

Tecnicamente, o filme aposta em uma direção econômica e um roteiro sólido de Ángel Agudo, com cenas menos carregadas de efeitos especiais e mais focadas na construção de atmosfera. A fotografia, liderada por Edu Canet e Elías M. Félix, é eficaz em destacar a desolação do ambiente, refletindo tanto a ameaça física quanto o desespero silencioso de uma Espanha devastada. A trilha sonora de Federico Jusid complementa bem o tom sombrio e lento, mantendo o espectador tenso, mas sem apelar para os sustos fáceis ou truques visuais que costumam dominar o gênero.

O filme, surpreendentemente agradável para quem busca entretenimento sem pretensões, mantém-se dentro de uma zona de conforto no que se refere à história de apocalipse. Embora seja “mais do mesmo” no sentido de seguir alguns clichês de narrativas pós-apocalípticas, ele consegue ser refrescante justamente pelo seu ritmo cadenciado e pelo distanciamento dos exageros comuns em produções hollywoodianas ou sul-coreanas. Contudo, o fato de ser o primeiro de uma trilogia levanta questionamentos: embora funcione bem como uma obra isolada, não fica claro se há conteúdo suficiente para sustentar mais filmes sobre essa jornada específica.

No final, Apocalipse Z: O Princípio do Fim se destaca não pela inovação, mas pelo bom uso do que já é familiar ao público do gênero. É um filme para quem gosta de zumbis, mas com um toque mais reflexivo e intimista, sendo tanto divertido quanto surpreendente em sua proposta de um apocalipse zumbi no sul da Europa. A adaptação do material de Loureiro, embora limitada, abre espaço para uma experiência que não é grandiosa, mas suficientemente cativante para uma noite de entretenimento leve e tenso. Para os que apreciam o gênero, esta é uma obra que oferece mais pelo tom do que pela ação, agradando pelo inesperado charme em meio ao conhecido.

A Sorridente Madame Beudet (1923)

 


Título original: La Souriante Madame Beudet
Direção: Germaine Dulac
Sinopse: Um dos primeiros filmes consideravelmente feministas, A Sorridente Madame Beudet é a história de uma mulher "amorosamente-inteligente" presa em um casamento. O marido costuma fazer uma estúpida brincadeira em que ele põe um revólver sem balas na sua cabeça e ameaça atirar em si mesmo. Um dia, enquanto o marido está longe, ela coloca as balas no revólver.


Ao visitar o cinema de vanguarda dos anos 1920, poucos filmes têm o peso histórico e a ousadia estética de A Sorridente Madame Beudet. Dirigido por Germaine Dulac, uma das pioneiras do cinema surrealista e feminista, o filme nos transporta ao mundo de uma mulher presa em um casamento infeliz. Embora o filme seja lembrado principalmente por seu estilo inovador e seus temas progressistas, ele nos deixa também com uma sensação de que, apesar do experimentalismo, a narrativa parece excessivamente restrita, quase presa em si mesma.

A Sorridente Madame Beudet é um retrato íntimo de Madame Beudet (interpretada por Germaine Dermoz), uma mulher de classe média aprisionada em um casamento sem amor com Monsieur Beudet (interpretado por Alexandre Arquillière). A trama é aparentemente simples: enquanto Madame Beudet sonha em se libertar das amarras domésticas e emocionais, Monsieur Beudet, uma figura rude e insensível, insiste em sufocar esses desejos, muitas vezes zombando dela ou realizando atos irritantemente triviais, como fingir ameaçá-la com uma arma, que ele mantém em uma gaveta.

Esse jogo de poder entre o casal se intensifica quando Madame Beudet, em um ato de rebeldia silenciosa, decide sabotar a arma, alterando-a para disparar de verdade. O filme então constrói uma tensão crescente sobre essa arma — um verdadeiro “chekhoviano” que se desenrola diante dos nossos olhos.

Tecnicamente, Germaine Dulac utiliza com maestria o que viria a ser reconhecido como características distintivas do cinema impressionista francês. A fotografia, assinada por Paul Parguel, explora um jogo de luz e sombra cuidadosamente elaborado, com enquadramentos e ângulos de câmera que frequentemente se aproximam dos rostos dos personagens. Esse recurso, em especial, transforma o rosto de Madame Beudet em uma tela para suas angústias internas, destacando-se na maneira como a câmera examina suas emoções — sejam elas de frustração, resignação ou sonho.

Dulac também inova ao utilizar efeitos ópticos para representar os desejos reprimidos de sua protagonista. Em diversas cenas, vemos a subjetividade de Madame Beudet projetada através de distorções visuais e de sequências oníricas que se misturam à realidade. Esses elementos fazem parte de um movimento estético que buscava traduzir a vida interior dos personagens sem depender de diálogos extensos ou de um enredo complexo. A diretora leva o espectador para dentro da mente de Madame Beudet, em imagens que ecoam a profundidade de sua frustração.

Apesar da estética inovadora e dos temas progressistas, A Sorridente Madame Beudet apresenta limitações que se tornam evidentes na lentidão de sua narrativa. Dulac, ao focar em um estudo de personagem, parece por vezes obcecada em repetir os mesmos temas sem avançar significativamente na construção emocional. Isso faz com que o filme, em certos momentos, pareça menos uma narrativa envolvente e mais uma série de quadros belamente compostos, mas desconectados de uma progressão dramática mais coesa.

Os gestos simbólicos, como o hábito de Monsieur Beudet de brincar com a arma descarregada e a atitude de Madame Beudet ao manipulá-la para que se torne perigosa, são explorados com tanta insistência que acabam se tornando previsíveis. É como se o filme, ao repetir esses gestos e olhares, subestimasse a capacidade do espectador de captar o cerne da questão logo nas primeiras cenas. Em um curta-metragem, esse tipo de repetição talvez não causasse tanta estranheza, mas em uma obra com a duração de um longa mais substancial, essa insistência torna-se exaustiva e pode até alienar o espectador.

Por outro lado, não se pode negar o impacto cultural que o filme teve. Dulac, uma das raras mulheres a trabalhar na direção cinematográfica na década de 1920, abordou A Sorridente Madame Beudet como uma metáfora para a opressão feminina. Ela revela, de maneira sutil e poética, os efeitos psicológicos da reclusão e do desdém a que as mulheres estavam sujeitas em casamentos infelizes. Madame Beudet não é uma personagem revolucionária em atos grandiosos, mas em sua frustração silenciosa, ela representa a resistência feminina de uma forma que muitas outras obras da época não conseguiam ou ousavam mostrar.

Aqui, a diretora também faz uso de uma sensibilidade singular ao tratar da monotonia do cotidiano burguês, usando enquadramentos claustrofóbicos e cenários fechados para simbolizar a prisão em que Madame Beudet vive. Os trajes e adereços da protagonista são despojados de adornos, refletindo seu estado emocional e sua falta de esperança. Esse nível de atenção ao detalhe é um mérito inquestionável de Dulac, que confere à personagem uma humanidade tangível, ainda que limitada pela época em que foi concebida.

Apesar das limitações que a narrativa oferece, não há dúvida de que A Sorridente Madame Beudet ocupa um lugar significativo na história do cinema. Ele precede obras de outras diretoras e cineastas que explorariam as tensões psicológicas femininas, como Chantal Akerman e até Agnès Varda. Embora o filme não tenha o poder de cativar com a mesma intensidade que algumas dessas obras posteriores, é inegável que Germaine Dulac abriu portas importantes com essa narrativa.

Dulac desenvolve uma crítica ao modelo de casamento e à sociedade patriarcal de uma maneira quase subversiva para a época, algo que talvez passe despercebido à primeira vista. Não obstante, o filme carece de uma profundidade que sustente a atenção do público contemporâneo. As nuances da rebelião de Madame Beudet são repetidas em ciclos que acabam desgastando a percepção de urgência emocional que a obra tenta incutir.

A obra de Dulac, portanto, tem seu valor mais histórico do que propriamente narrativo. Se A Sorridente Madame Beudet não brilha como um triunfo cinematográfico perene, ele definitivamente serve como um registro da luta feminista de sua época e da coragem de uma cineasta que desafiava as convenções de um mundo dominado por homens. É uma peça para ser admirada por seus feitos técnicos e sua ousadia, mas que talvez não sobreviva à prova do tempo da mesma forma que outras obras-primas do cinema mudo.

novembro 03, 2024

Eu Sou Racista? (2024)

 


Título original: Am I Racist?
Direção: Justin Folk
Sinopse: Um comentador político de extrema direita, cria um documentário falso sobre diversidade, equidade e práticas de inclusão de uma perspectiva de direita.


Eu Sou Racista? (Am I Racist?, 2024), dirigido por Justin Folk e estrelado por Matt Walsh, é uma tentativa infeliz de mocumentário que explora o movimento de diversidade, equidade e inclusão (DEI) nos Estados Unidos. Ao longo dos seus 101 minutos, o filme é uma montanha-russa de constrangimentos e falhas monumentais, de modo que, ao final, parece mais um dos piores filmes da década. Longe de ser provocativo ou satírico, ele se perde em piadas sem graça, atuações forçadas e uma abordagem que insulta a inteligência do público ao invés de engajá-lo em uma reflexão genuína. Desde o primeiro ato, até o momento em que os créditos surgem como uma verdadeira libertação, o filme é uma obra que melhor seria esquecida.

A proposta inicial é seguir Walsh, que se infiltra em workshops e espaços DEI para, teoricamente, desmascarar o que ele considera uma cultura de “vitimização”. A ideia em si, apesar de controversa, poderia ter gerado um conteúdo inteligente e irônico. No entanto, o roteiro se resume a ataques superficiais e caricaturas rasteiras, que passam longe de qualquer coisa minimamente engraçada ou instigante. O enredo falha em construir uma narrativa coesa, soando como uma coleção de cenas desconectadas. Enquanto Walsh assume o papel de um “treinador de DEI” que tropeça em suas próprias palavras, a câmera documenta sua falta de jeito e suas tentativas desajeitadas de “desconstruir” o que ele considera os excessos do “woke”.

Ao contrário do que se espera de um mocumentário, o tom do filme é insuportavelmente literal. Em vez de criar uma atmosfera em que o público pudesse questionar as situações mostradas, o filme entrega suas “piadas” sem qualquer sutileza. Piadas de humor ácido podem ser eficazes em sátiras, mas aqui tudo é superficial e forçado. Não há construção de situações cômicas autênticas, apenas um desdobramento constrangedor de clichês e estereótipos.

O roteiro, escrito e estrelado por Matt Walsh, é uma das piores coisas que se poderia imaginar em um projeto cinematográfico. As falas de Walsh são simplistas, e as “punchlines” são praticamente inexistentes. É como assistir a um monólogo de piadas ruins, e as tentativas de Walsh de representar um personagem atrapalhado e perdido no mundo DEI não só são patéticas, como beiram o ofensivo em várias passagens. Sua performance é rígida e desprovida de qualquer carisma, transformando o protagonista em uma figura quase insuportável de se acompanhar.

A atuação de Walsh, além de tecnicamente fraca, revela uma falta de entendimento do que faz uma sátira ser eficaz. Seu personagem, ao invés de ser um espelho cômico e exagerado de um ponto de vista crítico, é apenas uma figura desastrada que tenta forçar o riso com caretas e falas construídas de forma absolutamente antinatural. Em comparação com outros mocumentários de qualidade, que utilizam sutileza e inteligência para criar humor e reflexão, Eu Sou Racista? parece uma paródia de si mesmo.

Justin Folk, na direção, faz escolhas que não auxiliam a narrativa. A cinematografia é genérica e carece de inventividade visual, algo essencial para mocumentários, que muitas vezes aproveitam ângulos e edições para brincar com a ideia de documentário. Em vez disso, Folk parece seguir uma fórmula básica, que não oferece nada de novo ao gênero. Há pouca ou nenhuma intenção artística nas escolhas de câmera e edição, e a montagem é feita de maneira apática, sem ritmo ou timing cômico.

A estética do filme é tão sem vida quanto sua narrativa, e a falta de criatividade nas transições e nos enquadramentos faz com que ele se arraste como uma série de entrevistas mal conduzidas. Folk parece não ter noção de como manter a atenção do público ou como explorar o potencial do gênero. Em vez disso, entrega um produto audiovisual tedioso, que não prende o olhar ou a mente.

O filme apresenta um desfile de personagens “woke”, representados de maneira tão distorcida que se tornam irreconhecíveis como seres humanos. Esses personagens, de professores universitários a escritores de livros sobre diversidade, são retratados como caricaturas sem profundidade, o que evidencia a falta de complexidade do roteiro. Seria até risível, se não fosse trágico, ver autores de livros sobre inclusão serem transformados em alvos fáceis para as piadas rasas e sem inspiração de Walsh e Folk.

Esses personagens de esquerda são desenhados para representar um “outro” demonizado, e suas ideias são reduzidas a clichês e frases prontas. No entanto, ao invés de causar humor ou reflexão, esses retratos unidimensionais só servem para alienar o público. Em muitos momentos, o filme perde a oportunidade de criar uma verdadeira sátira sobre os excessos de ambos os lados da política, preferindo apostar em uma abordagem reducionista que beira o insulto. É uma escolha que não só empobrece a narrativa, como faz o filme parecer uma propaganda ideológica mal disfarçada.

É necessário falar sobre o que talvez seja a característica mais insuportável do filme: seu humor. As “piadas” de Eu Sou Racista? são repetitivas, mal formuladas e, acima de tudo, sem graça. É um humor tão forçado que se torna exaustivo, como se cada cena tentasse provar algo sem nunca conseguir. Quando um filme depende tanto de uma única linha ideológica e, mesmo assim, falha em ser engraçado, o resultado é um verdadeiro desastre cômico.

As tentativas de criar humor ao ridicularizar conceitos DEI e o movimento woke são tão forçadas que é difícil imaginar alguém rindo espontaneamente durante a exibição. Não há uma construção gradual de piadas, nem um desenvolvimento que faça o público se envolver. Em vez disso, cada tentativa de humor parece uma martelada que esmaga qualquer possibilidade de simpatia. Mesmo em mocumentários que têm como objetivo ridicularizar, é necessário haver uma espécie de camaradagem ou identificação com o protagonista. Aqui, no entanto, Walsh faz com que o público torça pelo fim rápido dessa experiência.

O que poderia ser um mocumentário intrigante e provocador sobre o movimento DEI e as dinâmicas atuais da cultura americana se transforma em uma obra ofensivamente ruim. Eu Sou Racista? falha em todos os aspectos, desde a execução do conceito até a construção dos personagens e o desenvolvimento do enredo. Este é o tipo de filme que não só fracassa em seu objetivo, mas que também deixa uma marca negativa no gênero. Ao assistir, fica claro que, longe de propor uma reflexão sobre o momento atual, o filme existe apenas como uma tentativa de validação para um público específico, sem qualquer contribuição significativa para o debate cultural.

Em resumo, Eu Sou Racista? é uma experiência dolorosa de assistir, um dos piores filmes que tive a infelicidade de ver na vida.

novembro 02, 2024

O Som do Silêncio (2020)

 


Título original: Sound of Metal
Direção: Darius Marder
Sinopse: Um jovem baterista teme por seu futuro quando percebe que está gradualmente ficando surdo. Duas paixões estão em jogo: a música e sua namorada, que é integrante da mesma banda de heavy metal. Essa mudança drástica acarreta em muita tensão e angústia na vida do baterista, atormentado lentamente pelo silêncio.


O Som do Silêncio (Sound of Metal, 2020) exige uma dissecação atenta ao som, ao jogo de expressões e à mensagem central que Darius Marder e sua equipe tentam imprimir. O filme foca em Ruben (Riz Ahmed), um baterista que perde a audição de forma repentina e precisa aprender a viver em um mundo onde o som começa a lhe escapar. Em um primeiro olhar, temos aqui um filme que busca originalidade e sensibilidade, mas, sob uma observação mais crítica, há escolhas narrativas e de caracterização que destoam do enredo principal, o que acaba prejudicando a profundidade da narrativa.

Riz Ahmed é, de longe, o coração e o cérebro deste filme. Ruben, seu personagem, é denso, autêntico e se constrói na tela de maneira surpreendente, com uma atuação cheia de nuances que ressoam nos pequenos gestos, olhares e, principalmente, na relação emocional com a surdez e o abandono que sente diante de sua nova condição. Ahmed sabe trazer à tona a dor e o desespero de Ruben sem escorregar em uma teatralidade exasperada; ao contrário, é seu controle e sua sensibilidade que nos prendem à sua jornada. Ruben perde mais que sua audição; ele perde sua conexão com o que define sua identidade. A atuação de Ahmed é profunda e crível e entrega ao público uma jornada de transformação brutal e realista.

Se Riz Ahmed brilha com uma entrega completa, Olivia Cooke está, mais uma vez, envolta em sua habitual inexpressividade. Como Lou, sua parceira, Cooke aparece com uma entrega monocromática e sem alma, que nos faz questionar o porquê de sua presença em cenas cruciais. Em outras produções, como Bates Motel e A Casa do Dragão, Cooke também faz o que pode ser considerado uma interpretação mínima, sem complexidade nem magnetismo, o que novamente se reflete em O Som do Silêncio. Ela representa pouco ou quase nada da tensão, amor ou dor que sua personagem deveria sentir diante da perda auditiva do parceiro, o que acaba reduzindo sua importância no contexto do enredo e faz com que a relação entre Lou e Ruben careça de profundidade emocional. Sua presença parece supérflua, e é como se, ao seu lado, Riz Ahmed tivesse que carregar o peso dramático do filme sozinho.

No entanto, mesmo com algumas falhas no elenco, O Som do Silêncio encontra grandeza no seu design de som, um dos pontos mais fortes e inovadores da produção. O som é tratado como personagem e elemento narrativo, e a partir do momento em que Ruben começa a perder sua audição, o filme transforma o som em uma experiência subjetiva e envolvente para o espectador. A transição entre o som completo e o silêncio absoluto, passando por ruídos abafados e distorcidos, oferece uma imersão única e dolorosa, o que possibilita ao público sentir na pele o que Ruben experimenta. É um design de som impressionante e inédito, que não só complementa a narrativa, mas também a aprofunda, ao ponto de o silêncio e o barulho se tornarem o alicerce psicológico da trama. Essa escolha de narrativa sonora não é apenas uma escolha estética, mas uma decisão criativa que coloca o público na posição de Ruben, tornando-nos não só observadores, mas participantes.

Porém, é na representação da colônia de surdos que o filme dá uma guinada desconcertante e incômoda. Quando Ruben é levado para uma comunidade surda com filosofia própria e regras inflexíveis, percebe-se o tom panfletário que o filme busca imprimir, como se esse “orgulho surdo” fosse uma barreira superior à luta individual do personagem. Ruben é tratado com certa hostilidade, quase como um “desertor” quando decide explorar uma cirurgia para tentar recuperar a audição. Esse grupo, que inicialmente parecia acolhedor e protetor, assume uma postura rígida, recusando-se a aceitar que alguém em sua condição possa querer outra saída. Ao fazer essa escolha, o filme soa como um manifesto indireto que busca “ensinar” o espectador a aceitar a deficiência como algo a ser exaltado e não como algo a ser superado. Essa ênfase no “orgulho surdo” transforma o filme em um recado social quase opressor e politicamente correto ao extremo, o que soa excessivo e desnecessário. Como se, para Ruben, lutar pelo direito de ouvir novamente fosse uma afronta à identidade dessa comunidade. Há algo profundamente desconfortável e contraditório nessa imposição, como se qualquer tentativa de transcender essa realidade fosse uma traição à coletividade.

Esse tom panfletário não só incomoda, mas também desvia o filme de sua essência, transformando o processo de perda e adaptação de Ruben em um palco para um debate social excessivamente ideológico. Ao invés de uma exploração genuína da surdez e de suas implicações individuais, o filme acaba por pintar a minoria como um ideal a ser glorificado e protegido, passando uma mensagem de que aceitar a deficiência e abraçá-la é a única via correta. Esse tipo de abordagem, que vai além do necessário, politiza a história de uma maneira redundante e desvia a atenção da experiência real do protagonista, e transforma uma questão individual em uma missão coletiva, limitando a visão do espectador sobre a multiplicidade de caminhos e escolhas pessoais.

O Som do Silêncio tinha potencial para ser uma obra-prima no tratamento de temas como surdez e identidade pessoal, mas o filme tropeça em sua tentativa de exaltar uma única filosofia de aceitação e abraçar uma minoria de forma excessivamente panfletária. No entanto, a brilhante atuação de Riz Ahmed e o design de som inovador e envolvente não são suficientes para esconder a narrativa politizada que interrompe o fluxo natural da trama. Em suma, é um filme que tenta inovar e provocar, mas que, ao impor uma visão única e excluidora sobre a perda auditiva, termina por afastar o espectador de uma história que deveria ser universal, tornando-se uma experiência que, embora relevante e necessária, é comprometida por escolhas de abordagem e interpretação.

Não Se Mexa (2024)

 


Título original: Don't Move
Direção: Brian Netto, Adam Schindler
Sinopse: Uma mulher em luto é injetada com uma substância paralisante. Agora, ela precisará escapar de um assassino impiedoso antes de perder completamente os movimentos.


Não Se Mexa (Don't Move), filme de suspense da Netflix dirigido por Adam Schindler e Brian Netto, propõe um cenário perturbador: uma protagonista paralisada e à mercê de um serial killer nas profundezas de uma floresta isolada. A trama, que tem como ponto central Iris (Kelsey Asbille), capturada e imobilizada por Richard (Finn Wittrock), poderia ter sido explorada com nuances psicológicas e dilemas de sobrevivência. No entanto, o filme cai em armadilhas previsíveis e limitações técnicas que prejudicam o desenvolvimento e afastam a obra da potencial inovação.

O enredo começa com uma promessa. Iris, em meio ao luto pela perda do filho, encontra Richard em um penhasco, onde o serial killer a aborda com um discurso falso sobre suicídio e sofrimento emocional, uma “isca” para capturá-la. Assim que consegue convencê-la a descer com ele, Richard a captura e a submete a uma injeção de um composto que induz paralisia temporária. Aqui, o que poderia ter sido um estudo psicológico de um predador e sua presa se resume a uma perseguição desajeitada, com momentos previsíveis de “quase fuga”, um efeito repetitivo que impede a criação de tensão real.

Schindler e Netto, que já dirigiram produções menores de terror, pecam ao explorar a premissa sem adicionar camadas ou mesmo originalidade ao vilão e à narrativa. Com a direção repartida entre duas pessoas, esperava-se talvez uma soma de perspectivas que trouxesse inovação ou, ao menos, uma abordagem esteticamente interessante, o que não se concretiza. Schindler e Netto mantêm um ritmo lento, sem variar ou elevar a intensidade dos momentos-chave, resultando em cenas repetitivas e muitas vezes aborrecidas.

O roteiro de Não Se Mexa, escrito por T.J. Cimfel e David White, é repleto de clichês. Richard é retratado como o típico serial killer sem motivações, caracterizado por falas e ações previsíveis e sem um arco que gere complexidade. Seu comportamento estereotipado torna difícil para o espectador vê-lo como uma ameaça convincente. O roteiro também falha em explorar o potencial dramático e psicológico de uma protagonista que lida com uma condição tão extrema quanto a paralisia, perdendo a oportunidade de evocar a claustrofobia e a vulnerabilidade de alguém indefeso diante de uma ameaça mortal.

Finn Wittrock, conhecido principalmente por papéis em produções de Ryan Murphy como American Horror Story, mantém aqui sua expressão típica e uma entrega superficial. Sua interpretação em Não Se Mexa reflete o que já se tornou um problema comum com os "discípulos" de Murphy, como Nicholas Alexander Chavez (o Lyle Menendez de Monstros) e Evan Peters (com sua dezena de personagens também de American Horror Story e o Dahmer de Monstro), ambos igualmente explorados mais pela aparência e carisma do que pela profundidade dramática em produções similares. Wittrock, como Chavez e Peters, parece ter sido escolhido mais por seu visual do que por um potencial de atuação cativante, resultando em uma performance que acrescenta pouco ao personagem.

Como Richard, Wittrock luta para transmitir a intensidade necessária para um vilão ameaçador. Suas falas e atitudes são quase caricaturais, carecendo de uma autenticidade ou de uma complexidade que pudesse transformar Richard em um antagonista verdadeiramente aterrorizante. Em vez disso, ele se encaixa no estereótipo de “vilão de produção genérica” – alguém cujo passado ou motivações nunca são explorados e cujas ações parecem servir mais ao enredo do que a uma psicologia plausível.

Visualmente, Não Se Mexa é um filme que oferece muito pouco. A cinematografia é correta, mas sem qualquer traço de inventividade que poderia transformar a floresta em um cenário claustrofóbico ou misterioso. Os efeitos visuais são igualmente desleixados, com momentos que comprometem a credibilidade, especialmente em cenas em que a paralisia de Iris deveria ser demonstrada com maior impacto. A trilha sonora, por sua vez, é excessivamente usada para tentar forçar uma tensão que o roteiro e a atuação não conseguem sustentar, resultando em uma sobrecarga sonora que mais incomoda do que aumenta o suspense​.

Além disso, a montagem falha em construir um ritmo adequado. Em vez de criar uma tensão crescente, os cortes são previsíveis e não permitem uma conexão emocional com os personagens ou com a situação extrema de Iris. Há também uma inconsistência visual em algumas cenas, que parecem desconexas e comprometem o ritmo do filme.

A premissa de uma personagem paralisada à mercê de um assassino tinha um potencial psicológico e físico imenso para o horror e o suspense. No entanto, a maneira como Não Se Mexa aborda o conceito falha em manter o espectador engajado. A própria ideia de paralisia – algo que poderia induzir uma sensação de terror profundo no espectador – é tratada de forma tão inconsistente que parece mais um detalhe secundário do que o elemento central do horror.

Há uma cena, por exemplo, em que uma fila de formigas começa a caminhar sobre o corpo imóvel de Iris, algo que, em mãos mais criativas, poderia simbolizar o desespero de estar preso em um corpo inerte. Em vez de expandir esse tipo de exploração psicológica, o filme cai na sequência rotineira de perseguição e fuga. Para piorar, o vilão não demonstra qualquer método realista ou estratégia inteligente, o que torna sua ameaça mais aborrecida que aterrorizante.

Ao final, Não Se Mexa não passa de mais uma tentativa frustrada de thriller psicológico que, na prática, se torna apenas um passatempo fácil e esquecível. Com uma premissa interessante desperdiçada por uma execução fraca e previsível, o filme falha em sustentar uma atmosfera de tensão. Não há impacto emocional ou psicológico – apenas uma sucessão de cenas previsíveis e uma atuação que em nenhum momento acrescenta algo memorável ao personagem de Wittrock.

Não Se Mexa é mais um exemplo das produções descartáveis da Netflix que tentam aproveitar o gênero de terror sem oferecer uma abordagem nova ou cativante.

novembro 01, 2024

O Aprendiz (2024)

 


Título original: The Apprentice
Direção: Ali Abbasi
Sinopse: O Aprendiz acompanha a ascensão da carreira de um dos maiores empresários dos Estados Unidos e o 45º Presidente do país, Donald Trump. A trama segue um jovem Trump (Sebastian Stan) na cidade de Nova Iorque entre os anos 70 e 80, tentando erguer um novo império de negócios imobiliários, além de sua relação com o advogado Roy Cohn (Jeremy Strong). Entre elos de poder, amizades e o sentimento de mentor-protegido, o filme narra a história das origens de uma importante dinastia americana.


O Aprendiz (2024), dirigido por Ali Abbasi, entrega uma experiência intensa e envolvente ao explorar a complexa relação entre Donald Trump e seu mentor, Roy Cohn, durante as décadas de 1970 e 1980. A narrativa desenrola-se de maneira que destaca a transformação de Trump de um jovem ambicioso para um magnata polêmico, bem como a influência crucial de Cohn em seu desenvolvimento, tanto pessoal quanto profissional.

Sebastian Stan, em uma atuação surpreendentemente convincente, interpreta Trump com uma profundidade que humaniza o personagem sem suavizar suas características controversas. Mesmo sem o uso de próteses exageradas, Stan capta a essência de Trump, utilizando gestos e nuances vocais que são quase caricaturais, mas nunca artificiais. É um trabalho que supera expectativas, transformando o que poderia ser um "imitar" em uma imersão genuína no personagem, ao ponto de nos fazer acreditar que estamos assistindo ao verdadeiro Trump.

Por outro lado, Jeremy Strong oferece uma interpretação contida e, a princípio, apenas satisfatória de Roy Cohn, um papel que inicialmente não se destaca. Contudo, ao longo do filme, ele se aprofunda, evoluindo ao passo que a relação mentor-aprendiz se intensifica. A escolha de Strong para o papel traz um toque interessante, dado que ele é amplamente conhecido por interpretar outro "Roy" em Succession, o que pode provocar estranhamento inicial. Porém, ele supera essa familiaridade, entregando uma performance que se desenvolve com complexidade, especialmente nos momentos em que Cohn é retratado como frágil e quase indefeso, uma reviravolta que reflete a inversão de poder entre ele e Trump conforme a história avança.

A estrutura visual do filme merece atenção especial. A fotografia granulada remete aos filmes dos anos 70, evocando a atmosfera da época, enquanto a qualidade da imagem gradualmente melhora à medida que os personagens progridem no tempo. Esse recurso estético sugere uma trajetória de amadurecimento, como se estivéssemos assistindo ao crescimento gradual de Trump ao longo dos anos. As câmeras na mão e a escolha de enquadramentos próximos ajudam a criar a sensação de documentário, dando uma autenticidade que transporta o espectador para o coração dos bastidores do poder. Esse efeito visual é enriquecido pela edição sofisticada, que habilmente intercala momentos da vida de Trump sem recorrer a datas explícitas na tela, um trabalho de sutileza e habilidade que reforça o realismo da narrativa.

A trilha sonora é outro aspecto notável. As músicas cuidadosamente selecionadas refletem as várias épocas em que a história se passa, em conjunto com uma trilha original que sustenta o tom e a intensidade emocional das cenas. A escolha de músicas ajuda a contextualizar a transformação cultural de Nova York, assim como o impacto da ascensão de Trump e de sua contribuição para a revitalização da cidade.

Por trás dessas camadas visuais e auditivas, o roteiro é robusto e oferece nuances que exploram as contradições de ambos os personagens. O filme é fiel ao seu título: enquanto jovem, Trump é quase ingênuo, absorvendo os ensinamentos de Cohn, que, com o tempo, vai se mostrando menos implacável, vulnerável mesmo. O próprio título do filme ressoa ironicamente, pois Trump começa como aprendiz, mas é ele quem “supera” seu mentor, assumindo plenamente o papel que Cohn antes ocupava. A questão da imparcialidade é, sem dúvida, um ponto debatido: o filme é ambíguo o suficiente para deixar ao espectador a interpretação sobre o quão "vilão" Trump de fato é, especialmente em uma produção onde o ex-presidente já criticou publicamente, o que naturalmente acentua o interesse pela veracidade da representação.

Embora o estilo de Abbasi, visto em Holy Spider e Border, seja mais discreto neste trabalho, ele ainda estabelece um ritmo que mantém o espectador preso, ao mesmo tempo em que permite que as performances centrais floresçam. Não há uma ênfase visual excêntrica; ao contrário, Abbasi adota uma abordagem quase transparente, onde a força do filme recai sobre o roteiro e a interação entre Stan e Strong, que carregam as camadas emocionais e a profundidade da narrativa. A ambientação de uma Nova York em transformação, de um lugar perigoso e decadente a um centro seguro e em expansão imobiliária, evoca ainda mais a influência de Trump no cenário urbano e social, especialmente com a entrada posterior do prefeito Giuliani (sua administração foi de 1994 a 2001 e, por coincidência, também foi advogado de Donald Trump). Esse pano de fundo histórico, juntamente com a caracterização detalhada dos locais icônicos como a Trump Tower, contribui para uma recriação fascinante de uma época marcante.

Em conclusão, O Aprendiz é uma obra que desafia a percepção pública sobre figuras históricas controversas e apresenta uma interpretação cativante de uma relação complexa e transformadora. O filme acerta ao equilibrar o drama pessoal com a evolução pública dos personagens, entregando um retrato que é tanto uma viagem no tempo quanto uma análise introspectiva de poder e influência. A performance de Stan como Trump é uma lembrança de que, na arena política, o "aprendiz" muitas vezes se torna o verdadeiro mestre.

Alien: Romulus (2024)

 


Título original: Alien: Romulus
Direção: Fede Álvarez
Sinopse: Enquanto vasculham as profundezas de uma estação espacial abandonada, um grupo de jovens colonizadores espaciais se depara com a forma de vida mais aterrorizante do universo.


Em Alien: Romulus, dirigido por Fede Álvarez, fica claro que a franquia Alien está se desgastando em tentativas frustradas de se manter relevante. Para um diretor conhecido por seus filmes de terror B, voltados ao público que busca sustos baratos e tramas previsíveis, tentar assumir o comando de uma obra icônica como Alien é, no mínimo, uma aposta arriscada e que, neste caso, falhou. Álvarez, que até então se destacava em produções de terror com orçamento limitado e estética rasa, tentou transformar Alien: Romulus em uma experiência de horror, mas sem a atmosfera densa e envolvente que o gênero thriller, ao qual a série pertence, exige. O resultado é um filme que se arrasta em clichês, com cenas que, ao invés de gerarem suspense, entediam o espectador com a falta de criatividade e inovação.

A trama de Romulus gira em torno de uma colônia espacial e seus habitantes, que, claro, são confrontados pelo terror alienígena de sempre. Contudo, a execução dessa história é insípida e carece de originalidade, transformando o enredo em um desfile de lugares-comuns. Com personagens mal desenvolvidos e uma história que parece reciclada de outros filmes, o roteiro é pouco convincente. A premissa da colônia humana, que poderia ter enriquecido o universo da franquia, soa inverossímil e mal elaborada. Não há profundidade na exploração desse ambiente, e o que se vê é apenas uma repetição dos elementos que já foram abordados em outros filmes, sem qualquer inovação. A tal colônia espacial parece um cenário genérico, tão descartável quanto os próprios personagens.

Sobre os aspectos visuais, há uma divisão entre os efeitos mecatrônicos do alien, que são bem executados, e os efeitos digitais de recriação do rosto de Rook, que parecem tirados de uma produção de baixo orçamento. Para um filme de uma franquia que marcou a história do cinema de ficção científica, é surpreendente ver efeitos visuais tão aquém das expectativas. A qualidade é inconsistente, o que acaba prejudicando a experiência. Enquanto o alien em si tem uma representação satisfatória, outras partes dos efeitos visuais são tão fracas que fazem com que o filme pareça mais uma produção barata, voltada para o público que consome terror sem se importar com qualidade técnica. É uma falha gritante para uma franquia que sempre foi sinônimo de inovação e excelência visual.

David Jonsson, que interpreta o robô Andy, é outro ponto baixo do filme. A ideia de retratar dilemas de IA poderia ser interessante, ainda mais considerando o contexto atual de crescente desconfiança em relação à inteligência artificial, mas a atuação de Jonsson é desastrosa. Sua interpretação é forçada, sem nuances, e ele transmite ao personagem uma artificialidade que não parece intencional. Andy se torna uma caricatura de robô, com diálogos que tentam parecer profundos, mas soam absurdamente artificiais e desinteressantes. Em vez de agregar complexidade à trama, Andy torna-se mais um elemento risível em um filme já sobrecarregado de cenas sem propósito.

A trilha sonora, por sua vez, é uma das maiores decepções. Em um filme de thriller espacial, onde o som é crucial para criar a tensão e o desconforto necessários, a trilha sonora é banal, completamente esquecível e sem alma. A música passa despercebida, sem conseguir elevar as cenas ou aumentar o suspense. É uma trilha que poderia muito bem pertencer a qualquer filme genérico de terror, e não a uma obra da franquia Alien. Esse descuido com a ambientação sonora enfraquece ainda mais a atmosfera, tornando o filme mais um exercício de paciência do que uma experiência de imersão.

Fede Álvarez parece não entender a profundidade e a complexidade do universo Alien, e o filme é uma prova disso. Ele trata Romulus como se fosse mais um terror slasher de baixo custo, com sustos fáceis e sem um desenvolvimento significativo. É como se ele acreditasse que o público da franquia se contentaria com o mínimo, como acontece com os espectadores de terror B, que buscam apenas uma diversão rápida e descompromissada. No entanto, Alien sempre foi mais do que isso: é um thriller psicológico, uma obra que exige uma construção cuidadosa da tensão e do suspense, elementos que Álvarez claramente não conseguiu dominar aqui.

Em resumo, Alien: Romulus é uma adição desnecessária e decepcionante à franquia. Apesar de não ser o pior da série, é um filme que dificilmente será lembrado com carinho pelos fãs do original de Ridley Scott. Ele é longo, arrastado, com um ritmo que se perde na tentativa de recriar uma atmosfera de terror que simplesmente não funciona. A direção de Álvarez falha em quase todos os aspectos, transformando o que deveria ser um thriller espacial em um filme barato, destinado a um público que não exige muito mais do que sangue e efeitos simplórios. É uma pena ver uma franquia tão icônica sendo reduzida a isso, e para os fãs de verdade, o original de 1979 continua sendo o único Alien que realmente vale a pena.