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agosto 20, 2024

Felizes Juntos (1997)

 


Título original: 春光乍洩
Direção: Wong Kar-wai
Sinopse: O casal Lai e Ho viaja de Hong Kong para a Argentina em busca de uma vida melhor. Seu relacionamento tórrido sobrevive em meio a bares de tango e salsa das calçadas de La Boca. Longe de casa, eles se sentem desesperadamente sós.


"Felizes Juntos" ("春光乍洩", 1997), dirigido pelo renomado cineasta Wong Kar-wai, é um filme que explora de forma intensa e poética os altos e baixos de um relacionamento amoroso. Situado na vibrante e ao mesmo tempo melancólica Buenos Aires, o filme se destaca por sua estética visual deslumbrante e por uma abordagem narrativa fragmentada que reflete a própria natureza caótica e imprevisível da relação entre os protagonistas. Embora apresente alguns momentos de brilho técnico e emocional, a obra, em certos aspectos, também pode parecer excessivamente estilizada, o que acaba por distanciar parte do público.

Wong Kar-wai, conhecido por seu estilo inconfundível, traz para "Felizes Juntos" uma estética visual marcante que é, sem dúvida, uma das maiores forças do filme. O uso magistral da cor e da luz transforma cada cena em uma composição visual impressionante. O filme alterna entre o preto e branco e cores saturadas, criando uma atmosfera instável que reflete a dinâmica do relacionamento conturbado de Ho Po-Wing (Leslie Cheung) e Lai Yiu-Fai (Tony Leung Chiu-wai). A cinematografia de Christopher Doyle, colaborador frequente de Wong, é fascinante e contribui para a narrativa de forma quase hipnótica.

As ruas sombrias de Buenos Aires, os quartos de hotéis mal iluminados e as vastas paisagens da Patagônia são retratadas de maneira tão íntima que se tornam extensões das emoções dos personagens. A câmera em movimento constante, muitas vezes balançando e girando, parece captar a energia nervosa e a instabilidade emocional do casal. A escolha por planos mais fechados, que focam nos detalhes das expressões faciais ou das mãos dos personagens, cria um senso de proximidade com os protagonistas, convidando o espectador a vivenciar a intensidade e a intimidade de suas dores e prazeres.

No entanto, esse estilo visual pode ser, por vezes, excessivamente estilizado. A estética, embora bela, em alguns momentos sobrecarrega a narrativa, criando uma experiência que parece mais interessada em impressionar visualmente do que em mergulhar profundamente nos conflitos emocionais dos personagens. O equilíbrio entre forma e conteúdo nem sempre é alcançado, e isso pode gerar uma sensação de distanciamento para o público, que, em vez de se envolver completamente com os personagens, se vê distraído pela complexidade visual.

A narrativa não-linear é uma característica fundamental do trabalho de Wong Kar-wai, e em "Felizes Juntos", ele utiliza essa técnica de maneira eficaz para representar o caráter volátil do relacionamento entre os dois protagonistas. A história segue os altos e baixos de Po-Wing e Yiu-Fai, dois homens de Hong Kong que viajam para a Argentina em busca de uma nova vida juntos, mas acabam se perdendo em um ciclo de brigas, reconciliações e separações. O roteiro é deliberadamente fragmentado, saltando no tempo e no espaço, o que exige do espectador uma atenção redobrada para seguir o fluxo emocional da trama.

Esse tipo de narrativa fragmentada reflete a natureza da relação em cena — um relacionamento marcado por uma contínua sensação de perda, de incerteza e de repetição. Cada vez que os personagens tentam recomeçar, parecem se encontrar no mesmo ponto de dor e de frustração. Embora essa escolha estilística seja interessante, ela também pode tornar o filme um pouco frustrante para quem espera um enredo mais linear ou tradicional. As repetições e as idas e vindas da trama podem, em certos momentos, parecer circulares, sem um progresso emocional claro.

Outro aspecto importante do roteiro é o tratamento da identidade cultural e da sensação de deslocamento. Tanto Po-Wing quanto Yiu-Fai estão longe de casa, em um país estrangeiro, e essa distância física de Hong Kong ecoa a distância emocional entre eles. A busca por um novo começo na Argentina é, em última análise, uma tentativa de fugir de seus próprios problemas pessoais, mas o filme mostra que, onde quer que estejam, eles acabam presos aos mesmos padrões destrutivos. A ideia de exílio, tanto emocional quanto geográfico, é um tema central em "Felizes Juntos", e Wong Kar-wai aborda essa questão com sensibilidade.

As atuações de Leslie Cheung e Tony Leung Chiu-wai são um dos pontos mais fortes do filme. Ambos os atores entregam performances profundamente emotivas e nuançadas, que trazem à tona a complexidade e a vulnerabilidade de seus personagens. Cheung, como Po-Wing, interpreta um homem autodestrutivo e carismático, cuja instabilidade emocional o torna ao mesmo tempo irresistível e insuportável para Yiu-Fai. Tony Leung, por sua vez, oferece uma performance contida e introspectiva como Yiu-Fai, um homem que anseia por estabilidade, mas que é constantemente puxado de volta ao caos por seu parceiro.

A química entre Cheung e Leung é palpável, e suas interações capturam tanto a paixão quanto a frustração que definem o relacionamento de seus personagens. O filme, em muitos momentos, depende exclusivamente de suas performances para transmitir a profundidade dos sentimentos em jogo, e ambos os atores estão à altura do desafio. Mesmo quando o roteiro parece se perder em sua estrutura fragmentada, são as atuações que mantêm o público engajado, oferecendo momentos de verdadeira autenticidade e dor emocional.

A trilha sonora de "Felizes Juntos" é outro elemento essencial para o sucesso do filme. Wong Kar-wai é conhecido por seu uso cuidadoso da música em seus filmes, e aqui ele mistura canções latinas, como "Cucurrucucú Paloma" de Caetano Veloso, com música instrumental suave, criando uma atmosfera emocionalmente carregada. A música latina, em particular, adiciona uma sensação de nostalgia e saudade à narrativa, reforçando o tema do exílio e da busca por pertencimento.

A escolha da música, combinada com o design sonoro minimalista, ajuda a amplificar o vazio e a solidão experimentados pelos personagens. Há uma sensação de desconexão no filme, tanto entre os personagens quanto em relação ao ambiente ao seu redor, e a trilha sonora desempenha um papel crucial em intensificar essa sensação. Cada canção parece escolhida a dedo para encapsular os sentimentos não ditos dos personagens, contribuindo para a atmosfera melancólica e introspectiva que permeia o filme.

"Felizes Juntos" é, sem dúvida, uma obra visualmente impressionante e emocionalmente intensa. Wong Kar-wai oferece um olhar introspectivo sobre um relacionamento tumultuado, explorando temas de amor, perda, exílio e desconexão. A cinematografia de Christopher Doyle é um dos maiores triunfos do filme, assim como as atuações de Leslie Cheung e Tony Leung, que trazem uma profundidade emocional essencial para a narrativa.

Contudo, o filme também tem seus desafios. Sua estrutura fragmentada e o estilo visual por vezes excessivamente estilizado podem criar uma barreira para alguns espectadores, que podem se sentir distantes ou desconectados dos personagens. Embora a beleza estética e a intensidade emocional estejam presentes, a falta de um desenvolvimento narrativo mais coeso pode enfraquecer a experiência para quem busca uma história mais linear e tradicional.

Em resumo, "Felizes Juntos" é um filme que oferece uma experiência sensorial e emocional rica, mas que pode exigir um certo esforço do espectador para penetrar em sua camada estética e encontrar a profundidade emocional subjacente. É uma obra que certamente impressiona pela sua forma, mas que, em alguns momentos, pode deixar a desejar em sua substância narrativa.

agosto 19, 2024

Uma História de Amor Sueca (1970)

 


Título original: En Kärlekshistoria
Direção: Roy Andersson
Sinopse: Dois adolescentes se apaixonam durante o verão, apesar de adultos cínicos e desaprovadores que rejeitam seu relacionamento como nada mais que amor jovem.


"Uma História de Amor Sueca" ("En Kärlekshistoria", 1970), dirigido por Roy Andersson, é frequentemente elogiado como um retrato sensível e poético do primeiro amor adolescente. Contudo, ao olharmos com mais atenção para a execução técnica e artística do filme, surgem algumas questões que colocam em dúvida sua real eficácia em transmitir a profundidade das emoções que pretende capturar.

O enredo acompanha dois jovens, Annika (Ann-Sofie Kylin) e Pär (Rolf Sohlman), que se apaixonam durante um verão na Suécia. No entanto, o que deveria ser uma jornada emocionante pelo universo do amor juvenil acaba se perdendo em uma narrativa excessivamente lenta, que falha em explorar de maneira convincente a complexidade desse tipo de relacionamento. As nuances que poderiam trazer autenticidade aos personagens e suas interações acabam sendo suprimidas por uma superficialidade emocional que limita a conexão do espectador com a história.

Do ponto de vista técnico, o filme tenta construir uma atmosfera visual que remete ao cotidiano suburbano da Suécia nos anos 1970. A cinematografia de Jörgen Persson, embora competente em alguns momentos, carece de uma linguagem mais expressiva. Muitas cenas parecem desconectadas, como se a câmera estivesse simplesmente registrando momentos aleatórios, sem uma preocupação real em moldar uma narrativa visual consistente. A paleta de cores, predominantemente pálida, contribui para a frieza emocional que permeia o filme, mas não de forma intencional. Ao contrário de criar uma sensação de melancolia ou introspecção, o efeito geral é de monotonia.

O design de som também falha em reforçar a narrativa. O uso de diálogos muitas vezes parece artificial, e a ausência de uma trilha sonora impactante deixa o filme sem ritmo ou direção emocional. A falta de atenção ao som ambiente ou a uma trilha que pudesse complementar o desenvolvimento dos personagens é notável. Em vez de dar suporte à trama, a escolha sonora mais afasta do que aproxima o público da história. Não há uma sinergia entre o que se vê e o que se ouve, e isso afeta negativamente a imersão no universo proposto pelo filme.

Roy Andersson, conhecido por seu estilo peculiar, opta por uma abordagem minimalista, mas que, neste caso, falha em capturar a vivacidade de um romance adolescente. A falta de dinamismo nas interações entre os protagonistas é evidente, e muitos dos diálogos soam rígidos e artificiais, como se os jovens estivessem recitando falas sem muita emoção ou compreensão de suas próprias experiências. Andersson parece mais interessado em explorar a frieza e a distância emocional do que a ternura e o calor do primeiro amor, o que, embora possa funcionar em outros contextos, aqui se torna um obstáculo para o envolvimento do espectador.

Além disso, o filme dedica um tempo considerável aos adultos ao redor dos protagonistas, incluindo seus pais e outros familiares. Embora essa escolha possa ter a intenção de criar um contraponto entre as desilusões dos adultos e os sonhos dos jovens, a execução acaba sendo maçante. Os adultos, em vez de serem personagens com profundidade, são apresentados de forma caricatural, quase como se fossem personagens de um filme completamente diferente. O contraste que Andersson tenta criar entre gerações não só falha, mas também interrompe o fluxo da narrativa principal, tornando o filme desarticulado e fragmentado.

As atuações dos protagonistas, Ann-Sofie Kylin e Rolf Sohlman, embora naturais em alguns momentos, carecem de intensidade emocional. A falta de expressividade dos atores principais deixa os sentimentos que eles deveriam transmitir vagos e distantes. O que deveria ser uma história envolvente de descoberta e de emoções cruas acaba se tornando uma representação apática do primeiro amor. O espectador se vê incapaz de se conectar com os personagens, que, apesar de estarem em cena quase o tempo todo, falham em criar empatia ou transmitir qualquer sentido de urgência ou paixão.

Os personagens adultos, embora em segundo plano, também não conseguem oferecer performances significativas. Em particular, a forma como os pais dos protagonistas são retratados parece mais uma sátira superficial da vida adulta do que uma representação autêntica de figuras que influenciam e moldam a vida dos adolescentes. As atuações exageradas e a falta de sutileza nos diálogos criam um distanciamento desconfortável, deixando de lado qualquer tentativa de retratar a complexidade do relacionamento entre pais e filhos.

A estrutura do filme é outro ponto que compromete sua eficácia. O ritmo é excessivamente lento, com longas sequências que não contribuem para o desenvolvimento da trama. Muitos momentos parecem desnecessários ou arrastados, dando a sensação de que o filme está se prolongando sem necessidade. A montagem, por sua vez, não colabora para melhorar esse ritmo. As transições entre cenas são abruptas, e o encadeamento das ações não parece seguir uma lógica narrativa clara. Isso resulta em uma experiência de visualização desconexa, na qual o espectador luta para manter o interesse.

"Uma História de Amor Sueca" claramente busca explorar temas como o amor, a juventude, e a passagem do tempo. No entanto, a falta de profundidade na abordagem desses temas faz com que o filme se perca em sua própria pretensão. Ao tentar ser poético e filosófico, ele acaba sendo vazio e sem propósito. O romance central, que deveria ser o coração da história, é tratado de maneira fria e sem emoção. A intenção de mostrar o contraste entre a inocência dos jovens e o desencanto dos adultos é clara, mas a execução é desastrosa.

No fim das contas, "Uma História de Amor Sueca" falha em se conectar tanto emocional quanto artisticamente com seu público. O filme, que deveria ser um retrato tocante e honesto do primeiro amor, acaba sendo uma experiência cansativa e frustrante. A narrativa desconexa, o ritmo arrastado e as atuações apáticas contribuem para uma sensação geral de superficialidade. Embora muitos vejam valor em sua estética e abordagem minimalista, é difícil ignorar a falta de envolvimento emocional e o distanciamento que ele provoca no espectador.

Para quem espera uma obra que explore com sensibilidade o amor juvenil, este filme é uma grande decepção. A abordagem fria e a falta de dinamismo transformam uma história potencialmente bela em um filme que dificilmente deixará uma impressão duradoura.

agosto 18, 2024

Close (2022)

 


Título original: Close
Direção: Lukas Dhont
Sinopse: A amizade entre dois meninos de treze anos, Leo e Rémi, acaba de repente. Sem entender o que aconteceu, Léo procura Sophie, mãe de Rémi.


Dirigido pelo cineasta belga Lukas Dhont, Close (2022) é um drama delicado e profundamente emocional que explora as nuances da amizade, identidade e luto. Com uma abordagem intimista, Dhont apresenta uma narrativa que é ao mesmo tempo devastadora e sutil, levando o espectador a uma jornada por um mundo de sentimentos não verbalizados, mas intensamente sentidos. A história gira em torno de dois garotos, Léo e Rémi, e o impacto devastador que a pressão social e os questionamentos sobre masculinidade exercem em sua amizade. Com atuações impressionantes e uma direção que valoriza o poder do silêncio, Close é um filme que toca profundamente o coração, ao mesmo tempo que desafia as expectativas do gênero.

No centro de Close está a relação entre Léo (Eden Dambrine) e Rémi (Gustav De Waele), dois meninos de 13 anos que compartilham uma amizade intensa e aparentemente inquebrável. Dhont captura a beleza e a vulnerabilidade dessa amizade com uma sensibilidade incomum. No início do filme, somos apresentados a um mundo onde os meninos são inseparáveis — eles correm pelos campos floridos, dormem na casa um do outro e compartilham um nível de intimidade que é raramente retratado em filmes sobre amizade masculina. A naturalidade dessa relação é tocante, pois não há constrangimento ou vergonha entre eles. Apenas uma profunda conexão emocional.

No entanto, conforme os meninos começam a frequentar uma nova escola, os olhares e comentários dos colegas de classe sobre a proximidade física e emocional entre eles começam a mudar a dinâmica da relação. Dhont retrata essa transição de forma gradual e dolorosa, à medida que Léo se afasta de Rémi, não por falta de afeto, mas por uma pressão silenciosa para se conformar às expectativas de masculinidade impostas pela sociedade. A amizade, antes um refúgio de segurança, torna-se uma fonte de conflito interno para Léo, que sente a necessidade de se distanciar de Rémi para evitar o julgamento alheio.

Uma das maiores forças de Close é a atuação dos dois jovens protagonistas. Eden Dambrine, no papel de Léo, entrega uma performance excepcionalmente madura para sua idade. Ele consegue expressar as emoções conflitantes de seu personagem sem a necessidade de diálogos excessivos. O olhar de Dambrine, muitas vezes carregado de culpa e dúvida, transmite uma carga emocional impressionante, especialmente nas cenas onde o silêncio e a hesitação falam mais alto do que qualquer palavra poderia. Gustav De Waele, como Rémi, também é notável em sua atuação. Ele transmite a sensibilidade e a dor do personagem com uma sutileza comovente, criando uma figura que desperta uma empatia instantânea no espectador.

A direção de Dhont valoriza o naturalismo nas atuações, permitindo que os jovens atores entreguem performances espontâneas e autênticas. O filme é pontuado por longos silêncios, onde os personagens se comunicam por meio de gestos, olhares e pequenos detalhes de linguagem corporal. Dhont evita o melodrama, optando por um retrato realista de como a tragédia e o luto afetam as crianças de maneira silenciosa, mas poderosa.

Lukas Dhont, que estreou com o aclamado Girl (2018), mostra novamente sua habilidade para explorar questões delicadas com uma sensibilidade incomum. Em Close, ele utiliza uma estética visual que complementa perfeitamente o tom emocional da narrativa. A cinematografia, assinada por Frank van den Eeden, é sutil e poética, com uma paleta de cores suaves que captura a beleza da paisagem rural belga e a tranquilidade da vida cotidiana dos meninos. As cenas nos campos de flores, onde Léo e Rémi passam grande parte de seu tempo juntos, são visualmente deslumbrantes, mas também carregadas de simbolismo — representam um espaço de liberdade que, aos poucos, é destruído pelas pressões externas.

Dhont tem uma abordagem visual minimalista, preferindo planos longos e composições cuidadosamente enquadradas que permitem que as emoções dos personagens fluam de maneira orgânica. O filme evita o excesso de diálogos expositivos, confiando na força da imagem e da atuação para comunicar os sentimentos de solidão, culpa e arrependimento que permeiam a história. Isso cria uma experiência cinematográfica introspectiva, onde o espectador é convidado a preencher as lacunas emocionais junto com os personagens.

O ponto de virada do filme ocorre quando Léo se distancia emocionalmente de Rémi, o que culmina em uma tragédia inesperada e devastadora. Dhont não se apressa em revelar os detalhes dessa tragédia, deixando o espectador vivenciar o choque e o luto de maneira gradual e profundamente sentida. A perda de Rémi afeta Léo de maneira visceral, e o filme então se transforma em uma meditação sobre o luto, a culpa e a dificuldade de lidar com emoções tão complexas na juventude.

Uma das sequências mais poderosas do filme é quando Léo tenta reprimir suas emoções, continuando com sua rotina diária e tentando fingir que nada mudou. No entanto, é evidente que a perda de Rémi o destrói por dentro, e Dhont captura esse processo de maneira profundamente comovente. Não há cenas exageradas de choro ou explosões emocionais, mas o peso do luto é palpável em cada cena, especialmente nas interações de Léo com a mãe de Rémi, interpretada de maneira sensível por Émilie Dequenne.

Um dos temas centrais de Close é a questão da masculinidade e como as normas sociais podem sufocar expressões naturais de afeto entre meninos. A sociedade espera que os meninos se comportem de maneira distante e reservada, e Dhont explora como essa pressão pode ser prejudicial, levando à repressão emocional e, em última instância, à tragédia. Léo, ao se afastar de Rémi, não o faz por falta de afeto, mas por medo de ser rotulado de forma negativa por seus colegas. Essa necessidade de conformidade acaba rompendo a ligação entre os dois e, tragicamente, leva a um fim abrupto e doloroso.

O filme, assim, oferece uma crítica sutil, mas poderosa, às expectativas de gênero e à maneira como essas normas podem impactar profundamente a vida emocional dos jovens. Dhont não oferece respostas fáceis, mas levanta questões importantes sobre como a sociedade molda o comportamento masculino desde a infância.

Close é um filme que, com sua abordagem sensível e esteticamente refinada, consegue capturar a complexidade das emoções humanas de uma maneira visceral e autêntica. Com atuações notáveis de Eden Dambrine e Gustav De Waele, e uma direção que valoriza o silêncio tanto quanto as palavras, Lukas Dhont entrega um retrato devastador de amizade, perda e luto. O filme é um estudo íntimo sobre o impacto que a pressão social pode ter sobre a juventude, especialmente em relação às questões de identidade e expressão emocional.

Apesar de sua simplicidade narrativa, Close é um filme profundamente ressonante que deixa uma marca duradoura no espectador, convidando à reflexão sobre as vulnerabilidades da juventude e os efeitos devastadores da repressão emocional. Dhont prova mais uma vez ser um cineasta habilidoso, capaz de criar histórias que, embora contidas em sua escala, têm um impacto emocional monumental.

agosto 16, 2024

A Voz Humana (2020)

 


Título original: The Human Voice
Direção: Pedro Almodóvar
Sinopse: Uma mulher observa o tempo passar enquanto permanece ao lado das malas do ex-amante (que deveria vir para buscá-las, mas nunca chega) e de um cachorro inquieto, que não entende que seu dono o deixou. Dois seres vivos encarando o abandono.


Dirigido pelo renomado cineasta espanhol Pedro Almodóvar, A Voz Humana (The Human Voice) é um curta-metragem de 30 minutos que explora temas profundos de solidão, desespero e abandono emocional. Adaptado de uma peça homônima escrita pelo dramaturgo francês Jean Cocteau em 1930, o filme é uma das incursões mais minimalistas e, ao mesmo tempo, estilisticamente ousadas de Almodóvar. Embora o curta seja uma produção visualmente impressionante, seu impacto emocional e narrativo pode deixar a desejar para quem está acostumado com os trabalhos mais expansivos e complexos do diretor.

Almodóvar é conhecido por sua paleta de cores vibrantes, cenografia minuciosa e direção de arte impecável — e A Voz Humana não foge dessa regra. O curta é visualmente um banquete para os olhos, com o diretor utilizando uma explosão de cores primárias — principalmente o vermelho, uma marca registrada em seus filmes — para criar uma atmosfera de tensão emocional que contrasta com a serenidade superficial do ambiente. A casa onde se passa a maior parte da narrativa é cuidadosamente decorada, refletindo o estado psicológico da protagonista. Cada objeto, cada peça de mobiliário parece conter significados ocultos, transformando o cenário em um reflexo do turbilhão emocional vivido pela personagem.

O uso das cores é particularmente significativo no curta, pois cria uma narrativa visual que dialoga diretamente com os sentimentos da protagonista. O vermelho, que domina muitas das cenas, simboliza não apenas paixão e desejo, mas também a raiva e o desespero que permeiam a personagem. É como se o espaço ao redor estivesse constantemente pulsando com os sentimentos reprimidos que ela tenta controlar. Almodóvar, como sempre, demonstra sua maestria em usar o cenário e a estética como uma extensão da psique de seus personagens, elevando a experiência visual para algo mais profundo.

A escolha de Tilda Swinton como a protagonista solitária e emocionalmente devastada é um dos pontos altos de A Voz Humana. A atriz britânica, sempre conhecida por sua capacidade de se transformar em qualquer papel que interpreta, entrega aqui uma performance carregada de nuances e sutilezas. A personagem, nunca nomeada no filme, enfrenta o fim de um relacionamento e passa quase todo o tempo em cena dialogando com o vazio, representado pelo telefone. Swinton consegue transmitir a profundidade do desespero e da vulnerabilidade que o texto exige, mas também inclui momentos de contenção e introspecção que tornam a personagem mais complexa.

Sua atuação é uma verdadeira aula de interpretação. Mesmo em uma narrativa tão restrita, com poucos diálogos e quase nenhum outro personagem para interagir diretamente, Swinton preenche cada cena com uma carga emocional que ressoa. Suas expressões faciais e gestos, muitas vezes mínimos, capturam o estado mental fragmentado de sua personagem — uma mulher à beira de um colapso, mas que ainda tenta manter uma fachada de dignidade e controle. O texto que ela recita ao telefone — o monólogo central da peça de Cocteau — pode ser emocionalmente desgastante e teatral por natureza, mas Swinton o transforma em algo mais introspectivo, onde cada palavra parece um esforço para lidar com a perda e o abandono.

O filme se passa quase inteiramente dentro de um apartamento moderno e luxuoso, mas que rapidamente se torna uma prisão psicológica para a protagonista. O espaço fechado contribui para a sensação de claustrofobia e isolamento que define o curta. Acompanhamos a personagem durante seu processo de luto por um amor perdido, preso em um ciclo de conversas unilaterais ao telefone, onde ela se dirige ao amante que a abandonou. O sentimento de abandono é palpável, e o filme explora como a solidão pode ser exacerbada por um ambiente aparentemente tranquilo e belo, mas que ecoa a ausência de afeto.

O telefone, um objeto central no filme, serve como um símbolo de comunicação falha. Em um mundo onde a tecnologia deveria conectar, ele aqui se transforma em um veículo de dor, já que a protagonista se vê presa a uma relação que já terminou, mas ainda tenta encontrar algum vestígio de esperança nas palavras de despedida de seu amante. Almodóvar constrói essa tensão de maneira lenta, com a ausência física do outro personagem sendo um elemento-chave na narrativa. Essa falta de interação direta amplifica a ideia de uma relação que está apenas no plano da memória e da projeção emocional, tornando o curta uma meditação sobre como lidamos com o fim das conexões humanas.

Embora o curta-metragem tenha todos os elementos técnicos e artísticos que tornaram Almodóvar um dos cineastas mais aclamados de sua geração, A Voz Humana tem limitações claras que podem afastar alguns espectadores. A narrativa é bastante restrita, centrada exclusivamente no monólogo de uma mulher solitária. A repetição de temas — desespero, solidão, amor não correspondido — pode parecer, em certos momentos, redundante. A ausência de uma variedade de personagens e de interação direta pode deixar o filme com uma sensação de estagnação, mesmo com a performance estelar de Swinton.

Além disso, para quem não está familiarizado com a obra de Cocteau, ou mesmo com o estilo mais introspectivo de Almodóvar, o filme pode parecer um exercício formal que falta em ação ou desenvolvimento. A força do curta está em sua intensidade emocional e visual, mas há quem possa achar a narrativa muito contida ou até monótona, especialmente em comparação com as tramas mais elaboradas de longas-metragens do diretor.

Uma das maiores qualidades de A Voz Humana é que ele oferece uma oportunidade para Almodóvar experimentar com a forma cinematográfica de uma maneira mais focada. Sem as camadas narrativas e as subtramas que muitas vezes definem seus filmes, ele se concentra em criar uma obra altamente estilizada, onde a emoção é o centro. Ao fazer isso, o diretor explora o poder da performance solitária e o impacto da estética no cinema de uma maneira que lembra mais uma peça de teatro filmada do que uma narrativa cinematográfica tradicional.

No entanto, ao mesmo tempo em que isso permite que Almodóvar brilhe tecnicamente, também o limita narrativamente. O curta não oferece a profundidade de enredo ou a complexidade emocional que muitos esperam de seus trabalhos. É um filme mais contido, quase um estudo de personagem, e para alguns, pode não atingir o mesmo impacto emocional que suas obras mais completas e expansivas.

The Human Voice é um curta-metragem que certamente agradará os fãs de Pedro Almodóvar e os admiradores da arte cinematográfica mais minimalista e introspectiva. Visualmente deslumbrante e com uma atuação extraordinária de Tilda Swinton, o filme se destaca por sua capacidade de transmitir emoções profundas em um curto espaço de tempo. No entanto, sua limitação narrativa e seu ritmo contido podem afastar aqueles que esperam algo mais dinâmico ou acessível. Em última análise, A Voz Humana é uma obra que, apesar de sua brevidade, ecoa os temas e a estética de Almodóvar, mas de maneira mais contida e reflexiva.

À Prova de Morte (2007)

 


Título original: Death Proof
Direção: Quentin Tarantino
Sinopse: No Texas, um grupo de amigas atrai vários olhares por onde passam. Um dos seus observadores, Stuntman Mike, dono de um carro indestrutível, segue as moças não só para lhes fazer companhia, mas para matá-las.


Quentin Tarantino, um dos cineastas mais influentes e únicos da nossa geração, criou uma obra fascinante com "À Prova de Morte" (Death Proof), um filme que presta homenagem ao gênero "exploitation" e aos clássicos de ação das décadas de 1970 e 1980. Lançado em 2007 como parte do projeto Grindhouse, ao lado de "Planeta Terror" de Robert Rodriguez, À Prova de Morte é uma celebração do estilo "grindhouse" e dos filmes de baixo orçamento que marcaram época nas salas de cinema baratas. Contudo, Tarantino dá seu toque único à obra, subvertendo convenções de gênero e oferecendo diálogos afiados e uma narrativa que desafia expectativas.

De cara, o visual do filme é um de seus aspectos mais marcantes. Tarantino recria com maestria a estética das produções grindhouse, com a película desgastada, cortes abruptos e pequenos erros propositais na edição que evocam a sensação de estar assistindo a um filme antigo em uma sala de cinema decadente. Esse recurso estilístico não é apenas um artifício para nostalgia, mas uma escolha deliberada que imerge o espectador em um universo cinematográfico particular, onde o artifício visual é parte da experiência. O uso desses elementos é essencial para capturar o espírito de um cinema mais sujo e visceral, destacando como Tarantino brinca com as expectativas e respeita as tradições dos filmes "B" dos anos 70.

A trilha sonora, uma marca registrada dos filmes de Tarantino, também não decepciona. Com um gosto musical impecável, o diretor seleciona canções de soul, rock e pop que não apenas embelezam o filme, mas também contribuem para a construção do clima das cenas. O uso da música é uma ferramenta narrativa poderosa aqui, e em À Prova de Morte ela reforça o tom irreverente, sensual e ameaçador da trama, complementando os momentos de tensão e de ação acelerada.

Como em muitos filmes de Tarantino, os diálogos são os verdadeiros protagonistas. À Prova de Morte não é uma obra marcada por longas sequências de ação explosiva, e sim por cenas que desafiam a expectativa tradicional de um thriller de perseguição. Grande parte do filme é dedicada às conversas, recheadas de referências à cultura pop, trocas afiadas e revelações sutis que nos fazem conhecer mais profundamente as personagens.

O grupo de mulheres que protagoniza o filme é composto por personagens bem distintas e carismáticas, como Jungle Julia (Sydney Tamiia Poitier) e Zoë Bell (interpretada por ela mesma, em uma performance física e destemida), que carregam consigo a força de mulheres independentes e confiantes. Essas personagens, em especial, subvertem o típico papel feminino em filmes de perseguição, geralmente relegadas a vítimas frágeis. Aqui, elas não são apenas mais espertas que o vilão; elas têm agência, são decididas e, no terceiro ato, viram o jogo com uma fúria incontrolável.

O antagonista, Stuntman Mike, interpretado por Kurt Russell, é um dos vilões mais intrigantes e perturbadores de Tarantino. Com uma mistura de charme e psicopatia, Mike se apresenta como um homem solitário e misterioso, cujo passatempo mortal envolve perseguir mulheres inocentes com seu carro "à prova de morte". Mas, o que faz de Stuntman Mike um vilão tão memorável é sua vulnerabilidade. Diferente de outros antagonistas tarantinescos, que se mantêm firmes e frios até o final, Mike perde o controle quando percebe que suas vítimas não são tão indefesas quanto ele pensava. O colapso gradual de sua confiança é uma das reviravoltas mais satisfatórias do filme.

A estrutura do filme é claramente dividida em duas partes distintas, e cada uma delas traz um tom e uma abordagem diferentes. Na primeira metade, somos introduzidos a um grupo de amigas, e a ameaça de Stuntman Mike paira sobre elas de maneira tensa e inquietante. O espectador é mantido em suspense, com uma crescente sensação de que algo horrível está prestes a acontecer. Quando a violência finalmente irrompe, é chocante, brutal e visceral, como esperado de Tarantino. Contudo, a segunda metade do filme muda completamente o tom, e agora acompanhamos um novo grupo de mulheres que desafiam diretamente o predador.

Essa reviravolta na narrativa é um dos aspectos mais intrigantes de À Prova de Morte. Enquanto a primeira metade segue um padrão de filme de terror, a segunda parte subverte o gênero completamente, transformando-se em um filme de vingança e ação empoderada. As mulheres não são mais vítimas; elas se tornam caçadoras, e a perseguição automobilística que se desenrola no terceiro ato é uma das sequências de ação mais intensas e eletrizantes do cinema recente.

E falando em ação, não podemos deixar de destacar a cena de perseguição que fecha o filme. Diferente dos blockbusters modernos, onde efeitos visuais e CGI dominam as cenas de ação, Tarantino opta por uma abordagem mais prática e autêntica. A perseguição entre o carro de Stuntman Mike e o Dodge Challenger conduzido pelas protagonistas é filmada de maneira crua, sem o uso de efeitos digitais, o que torna cada batida, derrapada e colisão ainda mais visceral e real. O fato de Zoë Bell, uma dublê profissional, estar realmente pendurada na frente do carro durante a perseguição é um feito impressionante e adiciona uma camada de perigo genuíno à sequência. A autenticidade dessas cenas é uma prova da paixão de Tarantino pelo cinema tradicional de ação, onde os dublês arriscam tudo para criar cenas de tirar o fôlego.

Mais do que apenas um filme de perseguição e vingança, À Prova de Morte é uma celebração ao cinema e à história dos filmes de ação e terror. Tarantino presta homenagem a clássicos como Vanishing Point (Corrida Contra o Destino), Bullitt e outros filmes que tornaram o carro uma extensão da narrativa de poder e violência. Ele constrói uma obra que é, ao mesmo tempo, uma carta de amor ao cinema exploitation e uma subversão inteligente dos tropos desse gênero.

À Prova de Morte é uma obra que une o melhor do estilo característico de Quentin Tarantino: diálogos afiados, personagens cativantes e ação visceral. Embora não seja um filme perfeito e sua estrutura narrativa possa parecer divisiva para alguns, ele brilha em sua homenagem ao cinema de baixo orçamento e nas suas reviravoltas empoderadoras. É um filme que abraça o caos e a violência com uma sofisticação inesperada, tornando-se uma experiência cinematográfica única e memorável.

agosto 15, 2024

Planeta Terror (2007)


Título original: Planet Terror
Direção: Robert Rodriguez
Sinopse: Uma experiência fracassada libera vírus que transforma humanos em zumbis sedentos de sangue e carnívoros. El Wray, Cherry, um médico e o xerife unem forças para sobreviver à noite, quando os mutantes ameaçam tomar a cidade e o mundo.


"Planeta Terror" (2007), dirigido por Robert Rodriguez, é uma verdadeira carta de amor ao cinema exploitation dos anos 1970 e 1980. Parte do projeto Grindhouse — uma colaboração entre Rodriguez e Quentin Tarantino, que também incluiu o filme À Prova de MortePlaneta Terror eleva o gênero a novos patamares, misturando terror, ação, humor negro e uma estética propositalmente suja e desgastada, que captura a essência das produções de baixo orçamento das décadas passadas. Apesar de seu visual intencionalmente "defeituoso", o filme é tecnicamente impecável e artisticamente ousado, resultando em uma obra tão divertida quanto envolvente.

A trama de Planeta Terror gira em torno de uma infestação de zumbis em uma pequena cidade americana, após um vazamento de gás químico letal. A história acompanha um grupo de sobreviventes improváveis, liderados pela ex-dançarina de striptease Cherry Darling (Rose McGowan) e o misterioso El Wray (Freddy Rodríguez), enquanto tentam escapar do caos apocalíptico. O enredo, em sua essência, é uma mistura de diversos clichês e exageros do gênero, mas Rodriguez utiliza esses elementos de forma consciente, criando uma narrativa que, ao mesmo tempo em que abraça o absurdo, nunca perde o ritmo e mantém o espectador cativado do início ao fim.

O roteiro, também escrito por Rodriguez, é recheado de diálogos afiados e sarcásticos, que oferecem tanto alívio cômico quanto momentos de tensão bem equilibrados. A história não tem a pretensão de ser complexa ou profunda — e isso é justamente o que a torna tão eficaz. Planeta Terror reconhece sua própria falta de seriedade e abraça o exagero em todos os aspectos, criando uma experiência cinematográfica intensa e absurdamente divertida.

Um dos aspectos mais marcantes de Planeta Terror é sua estética visual. Robert Rodriguez opta por um estilo propositalmente imperfeito, recriando com exatidão a experiência das antigas salas de cinema "grindhouse". O filme é intencionalmente desgastado, com cortes abruptos, falhas de projeção e até uma cena "perdida", o que contribui para sua autenticidade como uma homenagem ao cinema B. A paleta de cores é suja e saturada, refletindo o caos da narrativa e a degradação do mundo ao redor dos personagens.

Rodriguez, que também atua como diretor de fotografia e editor, demonstra um controle absoluto sobre os aspectos técnicos do filme. A cinematografia é um deleite para os fãs do gênero, com cenas de ação espetacularmente coreografadas e enquadramentos dinâmicos que mantêm o espectador na ponta da cadeira. As sequências de combate, especialmente as que envolvem Cherry Darling e sua icônica perna-metralhadora, são tão absurdas quanto criativas, e o uso de efeitos práticos — como explosões, sangue e maquiagem zumbi — reforçam o charme nostálgico da produção.

Planeta Terror não poupa o público de cenas explícitas de violência, que variam entre o grotesco e o hilário. Os efeitos práticos são uma mistura de gore clássico, com direito a cabeças explodindo, mutilações e uma infecção zumbi extremamente gráfica. Ao contrário de muitas produções modernas que optam pelo CGI, Rodriguez abraça os efeitos físicos, o que dá ao filme um toque autêntico e visceral. A maneira como os efeitos especiais são tratados aqui é propositalmente exagerada, mas nunca gratuita; o sangue jorra com propósito, elevando o impacto visual da ação e intensificando o absurdo da trama.

Em termos de maquiagem, o trabalho realizado nas criaturas zumbis é notável. Desde a textura de suas peles até os detalhes grotescos de suas feridas, os monstros de Planeta Terror são um espetáculo visual que reflete o cuidado e a dedicação colocados na criação de cada um desses elementos. Há uma clara inspiração nos filmes de zumbi dos anos 1980, como O Dia dos Mortos de George A. Romero, mas Rodriguez leva a violência a um nível ainda mais extremo, transformando cada cena de carnificina em um show à parte.

A trilha sonora de Planeta Terror é outro ponto alto da produção. Composta pelo próprio Rodriguez, a música captura perfeitamente o tom do filme, misturando elementos de rock, blues e eletrônica para criar uma atmosfera pulsante e intensa. Cada faixa complementa as cenas de ação e suspense, amplificando a energia frenética do filme e dando ao público pouco tempo para respirar entre os momentos de carnificina e caos.

Além disso, a trilha sonora carrega um ar nostálgico, remetendo às trilhas dos filmes de ação e terror dos anos 1970 e 1980, mas com uma atualização que torna o filme acessível ao público moderno. O uso de sons sintéticos e guitarras distorcidas ajuda a reforçar a atmosfera suja e decadente, transportando o espectador diretamente para o mundo distorcido e violento de Planeta Terror.

O elenco de Planeta Terror é um dos aspectos mais deliciosamente ecléticos do filme. Rose McGowan, como Cherry Darling, rouba a cena com uma performance que equilibra vulnerabilidade e pura força de vontade. Sua transformação de dançarina desiludida a guerreira implacável é tão exagerada quanto divertida, e McGowan claramente se diverte com o papel, entregando uma atuação memorável que se tornou icônica, principalmente por causa da "perna-metralhadora" que se tornou um símbolo do filme.

Freddy Rodríguez, como El Wray, oferece uma performance sólida e cheia de carisma, apesar do mistério em torno de seu personagem. Sua química com McGowan é tangível, e os dois formam um par improvável, mas irresistível. Outros membros do elenco, como Josh Brolin, Marley Shelton, e Michael Biehn, também se destacam em papéis secundários, trazendo uma mistura de seriedade e humor que equilibra perfeitamente o tom do filme.

Destaque também para as participações especiais de Bruce Willis e Naveen Andrews, que adicionam ainda mais camadas ao caos generalizado, com personagens tão bizarros quanto memoráveis. Cada ator parece estar se divertindo em seus papéis exagerados, o que transparece em tela e contribui para o charme do filme.

"Planeta Terror" é um exemplo brilhante de como o cinema de gênero pode ser elevado quando realizado com paixão e criatividade. Robert Rodriguez, com sua visão única e estilo inconfundível, cria um filme que não apenas homenageia o cinema exploitation e os filmes B, mas que também oferece uma experiência de entretenimento pura e descompromissada. A mistura de ação, horror, humor e absurdo resulta em uma obra que é tão divertida quanto artisticamente impressionante.

Com uma direção impecável, efeitos práticos brilhantemente grotescos, personagens icônicos e uma estética inconfundível, Planeta Terror é uma celebração do cinema de gênero em sua forma mais pura. É um filme que reconhece suas influências e as transforma em algo novo, divertido e inesquecível. Para os amantes do cinema grindhouse ou simplesmente para aqueles que procuram uma experiência cinematográfica inusitada, este filme é uma joia rara que merece ser revisitada e apreciada em todos os seus detalhes absurdos e deliciosamente exagerados.

 

Matthias & Maxime (2019)

 


Título original: Matthias & Maxime
Direção: Xavier Dolan
Sinopse: Matt e Max, dois amigos de infância se beijam para um curta-metragem amador. Após este beijo aparentemente inocente, surge uma dúvida recorrente, perturbando o equilíbrio do seu círculo social e das suas vidas.


Dirigido por Xavier Dolan, um dos nomes mais prolíficos e autorais do cinema contemporâneo, "Matthias & Maxime" (2019) é uma obra que carrega muitos dos temas e traços estilísticos que marcaram a filmografia do diretor. Dolan explora questões como identidade, sexualidade, amizade e a complicada transição da juventude para a vida adulta, temas centrais em sua trajetória artística. Contudo, ao contrário de trabalhos anteriores que foram recebidos com entusiasmo e aclamação crítica, como "Mommy" (2014) e "Eu Matei Minha Mãe" (2009), "Matthias & Maxime" parece vacilar em seu propósito, resultando em uma narrativa que, embora carregada de boas intenções, não atinge todo o impacto emocional que se espera.

A trama gira em torno de Matthias (Gabriel D’Almeida Freitas) e Maxime (interpretado pelo próprio Dolan), dois amigos de longa data que, durante uma reunião casual de amigos, são desafiados a participar de um curta-metragem estudantil. A cena filmada inclui um beijo entre os dois, que desencadeia uma série de questionamentos internos e externos, especialmente sobre a natureza de sua amizade e a própria sexualidade de Matthias, que até então se via em um relacionamento heterossexual.

Embora a premissa seja provocante e cheia de potencial, a execução deixa a desejar em alguns momentos. O filme se propõe a explorar o impacto de uma descoberta tardia de sentimentos em uma relação masculina aparentemente sólida, mas a narrativa muitas vezes se perde em digressões que enfraquecem a força emocional do enredo principal. As tensões entre os protagonistas, ao invés de se tornarem mais densas e complexas à medida que o filme avança, ficam diluídas por cenas que não parecem contribuir para o desenvolvimento dos personagens de forma significativa.

Tecnicamente, "Matthias & Maxime" exibe a sensibilidade estética característica de Dolan. As composições de cena são cuidadosamente planejadas, com o uso vibrante de cores e ângulos ousados que já se tornaram marcas registradas do diretor. O estilo visual do filme é inegavelmente belo e muitas vezes reforça o sentido de isolamento e confusão experimentado pelos personagens. A direção de arte e o uso de iluminação natural conferem um realismo sensível, equilibrado com momentos de saturação emocional, típicos da obra de Dolan.

Entretanto, a estética forte e detalhada, embora agradável aos olhos, em alguns momentos parece sobrepor-se à narrativa, como se o filme estivesse mais preocupado em ser visualmente marcante do que em construir uma história emocionalmente coesa. Há cenas em que o simbolismo visual é tão denso que obscurece a simplicidade dos sentimentos que Dolan tenta retratar, algo que se encaixaria melhor em um filme mais contemplativo e menos dramático.

As atuações em "Matthias & Maxime" são, em sua maioria, consistentes, mas é nas performances dos dois protagonistas que reside tanto a força quanto a fraqueza do filme. Gabriel D’Almeida Freitas traz uma interpretação sutil e introspectiva para Matthias, capturando bem a angústia de um homem dividido entre sua vida familiar, seu futuro e a redescoberta de um sentimento que não sabe como lidar. Dolan, por sua vez, é eficaz como Maxime, um personagem que é mais emocionalmente aberto, mas que também carrega seus próprios fardos, como uma difícil relação com sua mãe abusiva e seus planos de deixar o país.

No entanto, apesar da competência técnica dos atores, a química entre Matthias e Maxime, crucial para que o público se envolva emocionalmente com o dilema central, não é tão convincente quanto deveria ser. Faltam momentos verdadeiramente carregados de tensão e ambiguidade entre os dois, o que faz com que o impacto de suas ações e decisões seja sentido de maneira menos intensa. A complexidade da relação entre amigos que, possivelmente, sentem algo mais, não é explorada de maneira tão profunda quanto poderia, deixando o espectador esperando por uma catarse emocional que nunca chega completamente.

O roteiro de Dolan tenta balancear os diálogos espirituosos e as interações naturais entre os amigos com momentos de introspecção e silêncio, mas o resultado é um ritmo irregular. O filme tem passagens que flertam com o tédio, especialmente na primeira metade, onde a ação parece se arrastar sem grandes avanços narrativos. As conversas entre o grupo de amigos, embora realistas e às vezes engraçadas, parecem muitas vezes desconectadas do conflito emocional de Matthias e Maxime, o que compromete a fluidez do enredo.

O terceiro ato do filme, onde esperávamos uma resolução mais impactante ou esclarecedora para os sentimentos dos protagonistas, é onde o filme mais se distancia de seu potencial. A conclusão parece abrupta, com os arcos dos personagens principais ficando aquém do desenvolvimento emocional necessário para que o público se sinta verdadeiramente conectado à história.

Um ponto forte em "Matthias & Maxime" é a trilha sonora, cuidadosamente escolhida para amplificar as emoções que o filme busca retratar. Dolan sempre demonstrou habilidade em casar a música com a imagem de maneira envolvente, e aqui não é diferente. Canções melancólicas e momentos de silêncio são bem utilizados para refletir o estado emocional dos personagens, com destaque para as músicas que acompanham os momentos mais introspectivos de Maxime.

"Matthias & Maxime" é um filme que se beneficia da sensibilidade visual de Xavier Dolan e das performances sólidas de seu elenco, mas peca por não alcançar a profundidade emocional que sua premissa sugere. O que poderia ser uma análise poderosa e íntima da fluidez da amizade e do desejo entre dois homens, acaba ficando preso em escolhas narrativas que não exploram totalmente o conflito interno de seus personagens.

Dolan mostra, mais uma vez, seu talento para criar imagens belas e cenas que parecem encapsular a angústia da juventude, mas, neste caso, a beleza estética não é o suficiente para compensar as falhas de um roteiro que carece de foco e de impacto emocional. É um filme que se aproxima de algo verdadeiramente especial, mas que, no fim, parece hesitar em dar o passo final para transformar essa história de amor e amizade em algo memorável e catártico.



outubro 26, 2006

Olhar Estrangeiro (2006)

 


Título original: Olhar Estrangeiro
Direção: Lúcia Murat
Sinopse: Baseado no livro de Tunico Amâncio, O Brasil dos Gringos, o documentário mostra a visão de diretores, roteiristas e atores internacionais sobre o Brasil, procurando desvendar os clichês que o cinema internacional perpetua a respeito do país.


Incrivelmente divertido. É o mínimo que se pode dizer desse mais novo exemplo de como o Brasil anda bem em termos de cinema documental. Olhar Estrangeiro traz um tema interessante e de conhecimento geral de 100% da população: o Brasil. Não como ele é, mas como os outros pensam que ele é.

Contando com entrevistas com atores e diretores internacionalmente reconhecidos, desde Jon Voight e Michael Caine ao diretor Zalman King (de Orquídea Selvagem), Lúcia Murat nos leva a um Brasil que existe somente na cabeça dos ‘gringos’. É realmente impressionante ver como alguns REALMENTE pensam (ou pensaram, antes de conhecer o país) que aqui as pessoas esquiam em jacarés, que o topless é lei nas praias do Rio de Janeiro, ou como se pensa que no Brasil ninguém trabalha. É, doze meses de férias.

Além dos diretores e atores envolvidos em produções cujo personagem principal era o Brasil, o enxuto e conciso documentário de Murat é permeado com depoimentos de pessoas desconhecidas, dos Estados Unidos, França e Suécia. O delírio deles é a nossa realização. Por muitas vezes o filme deixa de se tratar de um documentário para entrar no gênero comédia de cabeça, nos mostrando cenas bizarras dos mais variados tipos de filmes rodados no Brasil. Ou, como ficamos sabendo, muitas dessas produções que se passam nesse país não foram de fato filmadas aqui, e sim em lugares como a Flórida. As cenas citadas vão desde as conhecidas do grande público no trash-hit com Jon Voight e Jennifer Lopez, Anaconda, até imagens de Orson Welles, que foi o único cineasta que realmente se importou em filmar a realidade mas que, ironicamente, nunca teve seu filme finalizado.

Muito interessante é também ver a cara dos diretores, produtores e atores envolvidos nessas produções quando ficam sabendo da ‘terrível verdade’. Alguns reagem de forma meio arrogante, não voltando atrás em momento algum acerca de suas decisões do passado, enquanto outros morrem de rir ou ficam até mesmo envergonhados.

Certamente eles têm na cabeça o Brasil que os próprios brasileiros venderam (e continuam vendendo) para os outros países há séculos. E para isso infelizmente não há remédio. Enquanto isso, ficamos aqui nos divertindo com a ignorância alheia. Afinal, não é todo dia que se houve: “venha comigo para São Paulo para pegarmos uma praia.” Que país é esse?

maio 26, 2006

Caché (2005)

 


Título original: Caché
Direção: Michael Haneke
Sinopse: Um dia Georges (Daniel Auteuil) e sua esposa Anne (Juliette Binoche) recebem uma fita de vídeo com imagens de sua casa, que fora filmada por uma câmara instalada na rua. Depois disso começam a receber desenhos sinistros. Assustado, o casal tenta descobrir o autor daquelas misteriosas ameaças que perturbam a paz de sua família. Logo percebem que quem os persegue conhece mais sobre o seu passado do que eles poderiam esperar.


Da França veio o aborrecimento. Estrelado por uma dupla fantástica, que está muito acima das qualidades desse filme, que, apesar de aclamado, é, como dito, aborrecido, arrastado e meio sem propósito. Daniel Auteuil (O Adversário) é Georges, que tem sua vida "ameaçada" por fitas que chegam a sua casa. O conteúdo, somente horas e horas de filmagens do exterior de sua própria casa, envoltos em desenhos sanguinolentos. 

A partir dessa premissa se desenvolve a trama de Caché, nos moldes de uma parte do cinema francês que é especialista em entediar o público. Com quase exageradas duas horas de duração, era pra ser um suspense formidável, já que parte de um ponto interessante: pessoas sendo ameaçadas pelo "nada". Obviamente que Georges tem algo a esconder (da mesma forma que seu personagem em O Adversário, outro longa desse molde aborrecido francês), e isso preocupa sua mulher, Anne (Juliette Binoche, de Chocolate e Palavras de Amor) e afeta o humor inconstante de seu filho pré-adolescente.

O interessante é ver como algo tão simples consegue derrubar e destruir toda uma família, somente pelo terror psicológico causado e pelo claro fato de que Georges está escondendo algo de sua família. Mas aí mora o grande defeito de Caché: somente quem conhece bem a história da França e da guerra desta com a Argélia poderá entender de verdade a causa do "problema no passado" do personagem. De outra forma, as razões pelas quais o personagem escondido (caché) parecerão completamente sem fundamentos ou sentido.

Fato é que a esmagadora maioria do público ignora esse fato e Caché se mostra não como um longa internacional, mas de aplicação limitada a seu país. E, mesmo aceitando e entendendo os fatos implícitos na história, pelo menos meia hora de enrolação deveria ser cortada para se obter um resultado mais ágil e fácil de ser engolido. Mas isso, definitivamente, não é a especialidade francesa no cinema, salvo raras exceções.

Ainda temos que lidar com um daqueles finais "abertos à interpretação do espectador", completamente irritantes. O que mais parece é que o diretor não sabia como terminar e deixou assim, com uma cena para a qual rolam na internet as mais variadas explicações – bizarras, por sinal. Poderia funcionar como em Flores Partidas de fato funcionou, se ao menos tivesse UMA explicação plausível, mas tudo falta em Caché, até mesmo uma mera explicação de por que um personagem está fazendo isso ou aquilo ou o por quê de um plano ser inserido ali de forma praticamente aleatória. Começa muito bem e interessante, se torna mediano e depois, um desastre. Um realmente um filme para quem tem paciência. E a minha com grande parte do cinema francês está se esgotando.

abril 07, 2006

Free Zone (2005)

 


Título original: Free Zone
Direção: Amos Gitai
Sinopse: Rebecca, uma americana que está morando em Jerusalém há alguns meses, acaba de romper seu noivado. Ela entra em um táxi dirigido por Hanna, uma israelense. Mas Hanna está a caminho da Jordânia, para a Zona Livre, para buscar uma grande quantia de dinheiro.


O primeiro plano de Free Zone já diz tudo sobre o que será o filme. Longuíssimo, escutamos a uma música tradicional judaica enquanto vemos uma Natalie Portman chorando, olhando através de uma janela de um carro. O tempo, chuvoso. Nossas mentes, chuvosas.

Free Zone não foi feito para ser tragado pelo público em geral. Aliás, é para bem poucos. O novo trabalho do aclamado diretor israelense Amos Gitai conta o que primeiramente achamos se tratar de uma história simples: Hanna ben Moshe, que dirige um táxi, vai com uma americana perdida em seus sentimentos (Natalie Portman) para a Jordânia a fim de cobrar uma dívida. Provenientes de outro filme de Gitai, Alila, os personagens Hanna e Moshe (seu marido), têm negócios com a Jordânia (inclusive Free Zone foi o primeiro filme israelense a ser rodado na Jordânia). Obviamente uma americana iria atrapalhar as coisas.

Com algumas cenas tensas espalhadas em sua hora e meia, como a travessia da fronteira e depois as causas do não-pagamento da dívida, captam o interesse do espectador. Mas, como disse, o filme não é de interesse geral, desprovido de trilha sonora e inevitavelmente causa sono em certos momentos.

Após a chegada na Jordânia, Free Zone se concentra em nos mostrar a união e desunião (sim, ao mesmo tempo) de diferentes mulheres. Seja Hanna com Rebecca (Portman) ou com Leila (Hiam Abbass), conhecida como ‘a mulher do Americano’, que deveria pagar a dívida a Hanna ben Moshe. Mesmo o espectador sabendo que se trata de uma situação tensa, em vários pontos temos um humor discreto porém importantíssimo nesses relacionamentos e diálogos incrivelmente bem pensados.

O ponto alto de Free Zone é certamente a interpretação de Hana Laszlo (Hanna ben Moshe), uma atriz fenomenal que consegue nos fazer sentir à vontade mesmo se estivéssemos em problemas numa região fronteiriça israelense. Mas a partir de certo momento, Free Zone deixa de funcionar como deveria. Ao mostrar cenas do passado – Rebecca pensando – sobrepondo imagens do ‘pensamento’ dela com a viagem atual ao lado de Hanna, infindáveis planos, com a pequena presença de Carmen Maura, infelizmente desperdiçada aqui, o espectador definitivamente se cansa de ver aquilo.

Mais mal aproveitado é o encontro de todos com o Americano. Não vou contar o final do filme, mas também não seria nada demais. Assim como Free Zone começa, ele termina: no nada. O clímax é atingido no meio do longa e depois a tensão e emoção descem até atingir o nulo. No final das contas, saímos da sala de cinema com um sentimento de vazio. Mas vale a experiência só pelo gostinho de ver Hanna ben Moshe se aventurando perdida pelas estradas da desértica e pobre Jordânia.

março 01, 2006

O Fim e o Princípio (2005)

 


Título original: O Fim e o Princípio
Direção: Eduardo Coutinho
Sinopse: O documentário registra o cotidiano e as histórias dos moradores da pequena São João do Rio do Peixe, na Paraíba. Por meio de depoimentos, o filme retrata o sentimento de uma população humilde que esbanja alegria e esperança, além de apresentar as nuances de um nordeste de alma densa e fecunda.


Não seria correto afirmar que um dos mestres do cinema brasileiro, Eduardo Coutinho, “não é o mesmo de antes” ou “perdeu a forma”. Só se, obviamente, isso se tratar de algo muito repentino. Desde seus tempos de Rede Globo – ele sendo, aliás, uma das únicas coisas que eram boas em toda a história da péssima emissora – passando pelo Globo Repórter, ele nos tem presenteado com verdadeiras pérolas da arte do documentário. Um de seus grandes trabalhos com certeza foi Edifício Master, recentemente lançado em DVD duplo nas locadoras. Um trabalho magnífico de análise social que vale a pena ser visto.

Talvez o sucesso tenha subido à cabeça de Coutinho. Seu novo longa, O Fim e o Princípio, conta com a mesma premissa abordada em Edifício Master, com a mudança de que o filme não contaria com nenhuma espécie de roteiro previamente desenvolvido. Essa ideia poderia tranquilamente seguir adiante se não fosse o constante problema que o diretor apresenta com a edição de seus filmes. Parece que tudo o que é filmado é colocado na edição final do filme, sem cortes.

Se em partes de Edifício Master o público conseguia dar uns bons bocejos, isso é palavra de ordem em O Fim e o Princípio. A história não deixa de ser tão interessante quanto a do filme anterior, mas o público é derrotado pelos 110 minutos de documentário, mesmas pessoas e paisagens áridas do interior da Paraíba.

Teimo em dizer que o tempo ideal de um documentário beira, no máximo, uns 80 ou 90 minutos. É tempo suficiente para se contar tudo o que quer e mostrar tudo que se pensa. Documentários mais longos que isso tendem a ser enfadonhos e a não receberem boa resposta do público. Com a exceção de Fahrenheit 11 de Setembro (que não se trata de um documentário, e sim uma propaganda tendenciosa), que conta com mais de duas horas de projeção e, mesmo assim, foi o maior sucesso comercial na história do cinema documental, os últimos filmes do gênero que tenho assistido e se mostrado excelentes possuem menos de uma hora e meia, como o brasileiro A Pessoa É Para o Que Nasce e o francês A Marcha dos Pinguins, cada um com 85 minutos.

Pode parecer simples e superficial dizer isso, mas sim, a extensão de O Fim e o Princípio é a condenação do longa-metragem. As histórias das pessoas simples (e idosas) paraibanas são muito interessantes, com bons momentos aqui e ali espalhados por todo o filme. Se fosse editado da forma correta, com certeza seria mais um dos melhores (e inovadores, aí sim funcionando a proposta do diretor de “não haver direção ou roteiro”) documentários brasileiros dos últimos tempos.