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agosto 16, 2024

A Voz Humana (2020)

 


Título original: The Human Voice
Direção: Pedro Almodóvar
Sinopse: Uma mulher observa o tempo passar enquanto permanece ao lado das malas do ex-amante (que deveria vir para buscá-las, mas nunca chega) e de um cachorro inquieto, que não entende que seu dono o deixou. Dois seres vivos encarando o abandono.


Dirigido pelo renomado cineasta espanhol Pedro Almodóvar, A Voz Humana (The Human Voice) é um curta-metragem de 30 minutos que explora temas profundos de solidão, desespero e abandono emocional. Adaptado de uma peça homônima escrita pelo dramaturgo francês Jean Cocteau em 1930, o filme é uma das incursões mais minimalistas e, ao mesmo tempo, estilisticamente ousadas de Almodóvar. Embora o curta seja uma produção visualmente impressionante, seu impacto emocional e narrativo pode deixar a desejar para quem está acostumado com os trabalhos mais expansivos e complexos do diretor.

Almodóvar é conhecido por sua paleta de cores vibrantes, cenografia minuciosa e direção de arte impecável — e A Voz Humana não foge dessa regra. O curta é visualmente um banquete para os olhos, com o diretor utilizando uma explosão de cores primárias — principalmente o vermelho, uma marca registrada em seus filmes — para criar uma atmosfera de tensão emocional que contrasta com a serenidade superficial do ambiente. A casa onde se passa a maior parte da narrativa é cuidadosamente decorada, refletindo o estado psicológico da protagonista. Cada objeto, cada peça de mobiliário parece conter significados ocultos, transformando o cenário em um reflexo do turbilhão emocional vivido pela personagem.

O uso das cores é particularmente significativo no curta, pois cria uma narrativa visual que dialoga diretamente com os sentimentos da protagonista. O vermelho, que domina muitas das cenas, simboliza não apenas paixão e desejo, mas também a raiva e o desespero que permeiam a personagem. É como se o espaço ao redor estivesse constantemente pulsando com os sentimentos reprimidos que ela tenta controlar. Almodóvar, como sempre, demonstra sua maestria em usar o cenário e a estética como uma extensão da psique de seus personagens, elevando a experiência visual para algo mais profundo.

A escolha de Tilda Swinton como a protagonista solitária e emocionalmente devastada é um dos pontos altos de A Voz Humana. A atriz britânica, sempre conhecida por sua capacidade de se transformar em qualquer papel que interpreta, entrega aqui uma performance carregada de nuances e sutilezas. A personagem, nunca nomeada no filme, enfrenta o fim de um relacionamento e passa quase todo o tempo em cena dialogando com o vazio, representado pelo telefone. Swinton consegue transmitir a profundidade do desespero e da vulnerabilidade que o texto exige, mas também inclui momentos de contenção e introspecção que tornam a personagem mais complexa.

Sua atuação é uma verdadeira aula de interpretação. Mesmo em uma narrativa tão restrita, com poucos diálogos e quase nenhum outro personagem para interagir diretamente, Swinton preenche cada cena com uma carga emocional que ressoa. Suas expressões faciais e gestos, muitas vezes mínimos, capturam o estado mental fragmentado de sua personagem — uma mulher à beira de um colapso, mas que ainda tenta manter uma fachada de dignidade e controle. O texto que ela recita ao telefone — o monólogo central da peça de Cocteau — pode ser emocionalmente desgastante e teatral por natureza, mas Swinton o transforma em algo mais introspectivo, onde cada palavra parece um esforço para lidar com a perda e o abandono.

O filme se passa quase inteiramente dentro de um apartamento moderno e luxuoso, mas que rapidamente se torna uma prisão psicológica para a protagonista. O espaço fechado contribui para a sensação de claustrofobia e isolamento que define o curta. Acompanhamos a personagem durante seu processo de luto por um amor perdido, preso em um ciclo de conversas unilaterais ao telefone, onde ela se dirige ao amante que a abandonou. O sentimento de abandono é palpável, e o filme explora como a solidão pode ser exacerbada por um ambiente aparentemente tranquilo e belo, mas que ecoa a ausência de afeto.

O telefone, um objeto central no filme, serve como um símbolo de comunicação falha. Em um mundo onde a tecnologia deveria conectar, ele aqui se transforma em um veículo de dor, já que a protagonista se vê presa a uma relação que já terminou, mas ainda tenta encontrar algum vestígio de esperança nas palavras de despedida de seu amante. Almodóvar constrói essa tensão de maneira lenta, com a ausência física do outro personagem sendo um elemento-chave na narrativa. Essa falta de interação direta amplifica a ideia de uma relação que está apenas no plano da memória e da projeção emocional, tornando o curta uma meditação sobre como lidamos com o fim das conexões humanas.

Embora o curta-metragem tenha todos os elementos técnicos e artísticos que tornaram Almodóvar um dos cineastas mais aclamados de sua geração, A Voz Humana tem limitações claras que podem afastar alguns espectadores. A narrativa é bastante restrita, centrada exclusivamente no monólogo de uma mulher solitária. A repetição de temas — desespero, solidão, amor não correspondido — pode parecer, em certos momentos, redundante. A ausência de uma variedade de personagens e de interação direta pode deixar o filme com uma sensação de estagnação, mesmo com a performance estelar de Swinton.

Além disso, para quem não está familiarizado com a obra de Cocteau, ou mesmo com o estilo mais introspectivo de Almodóvar, o filme pode parecer um exercício formal que falta em ação ou desenvolvimento. A força do curta está em sua intensidade emocional e visual, mas há quem possa achar a narrativa muito contida ou até monótona, especialmente em comparação com as tramas mais elaboradas de longas-metragens do diretor.

Uma das maiores qualidades de A Voz Humana é que ele oferece uma oportunidade para Almodóvar experimentar com a forma cinematográfica de uma maneira mais focada. Sem as camadas narrativas e as subtramas que muitas vezes definem seus filmes, ele se concentra em criar uma obra altamente estilizada, onde a emoção é o centro. Ao fazer isso, o diretor explora o poder da performance solitária e o impacto da estética no cinema de uma maneira que lembra mais uma peça de teatro filmada do que uma narrativa cinematográfica tradicional.

No entanto, ao mesmo tempo em que isso permite que Almodóvar brilhe tecnicamente, também o limita narrativamente. O curta não oferece a profundidade de enredo ou a complexidade emocional que muitos esperam de seus trabalhos. É um filme mais contido, quase um estudo de personagem, e para alguns, pode não atingir o mesmo impacto emocional que suas obras mais completas e expansivas.

The Human Voice é um curta-metragem que certamente agradará os fãs de Pedro Almodóvar e os admiradores da arte cinematográfica mais minimalista e introspectiva. Visualmente deslumbrante e com uma atuação extraordinária de Tilda Swinton, o filme se destaca por sua capacidade de transmitir emoções profundas em um curto espaço de tempo. No entanto, sua limitação narrativa e seu ritmo contido podem afastar aqueles que esperam algo mais dinâmico ou acessível. Em última análise, A Voz Humana é uma obra que, apesar de sua brevidade, ecoa os temas e a estética de Almodóvar, mas de maneira mais contida e reflexiva.

À Prova de Morte (2007)

 


Título original: Death Proof
Direção: Quentin Tarantino
Sinopse: No Texas, um grupo de amigas atrai vários olhares por onde passam. Um dos seus observadores, Stuntman Mike, dono de um carro indestrutível, segue as moças não só para lhes fazer companhia, mas para matá-las.


Quentin Tarantino, um dos cineastas mais influentes e únicos da nossa geração, criou uma obra fascinante com "À Prova de Morte" (Death Proof), um filme que presta homenagem ao gênero "exploitation" e aos clássicos de ação das décadas de 1970 e 1980. Lançado em 2007 como parte do projeto Grindhouse, ao lado de "Planeta Terror" de Robert Rodriguez, À Prova de Morte é uma celebração do estilo "grindhouse" e dos filmes de baixo orçamento que marcaram época nas salas de cinema baratas. Contudo, Tarantino dá seu toque único à obra, subvertendo convenções de gênero e oferecendo diálogos afiados e uma narrativa que desafia expectativas.

De cara, o visual do filme é um de seus aspectos mais marcantes. Tarantino recria com maestria a estética das produções grindhouse, com a película desgastada, cortes abruptos e pequenos erros propositais na edição que evocam a sensação de estar assistindo a um filme antigo em uma sala de cinema decadente. Esse recurso estilístico não é apenas um artifício para nostalgia, mas uma escolha deliberada que imerge o espectador em um universo cinematográfico particular, onde o artifício visual é parte da experiência. O uso desses elementos é essencial para capturar o espírito de um cinema mais sujo e visceral, destacando como Tarantino brinca com as expectativas e respeita as tradições dos filmes "B" dos anos 70.

A trilha sonora, uma marca registrada dos filmes de Tarantino, também não decepciona. Com um gosto musical impecável, o diretor seleciona canções de soul, rock e pop que não apenas embelezam o filme, mas também contribuem para a construção do clima das cenas. O uso da música é uma ferramenta narrativa poderosa aqui, e em À Prova de Morte ela reforça o tom irreverente, sensual e ameaçador da trama, complementando os momentos de tensão e de ação acelerada.

Como em muitos filmes de Tarantino, os diálogos são os verdadeiros protagonistas. À Prova de Morte não é uma obra marcada por longas sequências de ação explosiva, e sim por cenas que desafiam a expectativa tradicional de um thriller de perseguição. Grande parte do filme é dedicada às conversas, recheadas de referências à cultura pop, trocas afiadas e revelações sutis que nos fazem conhecer mais profundamente as personagens.

O grupo de mulheres que protagoniza o filme é composto por personagens bem distintas e carismáticas, como Jungle Julia (Sydney Tamiia Poitier) e Zoë Bell (interpretada por ela mesma, em uma performance física e destemida), que carregam consigo a força de mulheres independentes e confiantes. Essas personagens, em especial, subvertem o típico papel feminino em filmes de perseguição, geralmente relegadas a vítimas frágeis. Aqui, elas não são apenas mais espertas que o vilão; elas têm agência, são decididas e, no terceiro ato, viram o jogo com uma fúria incontrolável.

O antagonista, Stuntman Mike, interpretado por Kurt Russell, é um dos vilões mais intrigantes e perturbadores de Tarantino. Com uma mistura de charme e psicopatia, Mike se apresenta como um homem solitário e misterioso, cujo passatempo mortal envolve perseguir mulheres inocentes com seu carro "à prova de morte". Mas, o que faz de Stuntman Mike um vilão tão memorável é sua vulnerabilidade. Diferente de outros antagonistas tarantinescos, que se mantêm firmes e frios até o final, Mike perde o controle quando percebe que suas vítimas não são tão indefesas quanto ele pensava. O colapso gradual de sua confiança é uma das reviravoltas mais satisfatórias do filme.

A estrutura do filme é claramente dividida em duas partes distintas, e cada uma delas traz um tom e uma abordagem diferentes. Na primeira metade, somos introduzidos a um grupo de amigas, e a ameaça de Stuntman Mike paira sobre elas de maneira tensa e inquietante. O espectador é mantido em suspense, com uma crescente sensação de que algo horrível está prestes a acontecer. Quando a violência finalmente irrompe, é chocante, brutal e visceral, como esperado de Tarantino. Contudo, a segunda metade do filme muda completamente o tom, e agora acompanhamos um novo grupo de mulheres que desafiam diretamente o predador.

Essa reviravolta na narrativa é um dos aspectos mais intrigantes de À Prova de Morte. Enquanto a primeira metade segue um padrão de filme de terror, a segunda parte subverte o gênero completamente, transformando-se em um filme de vingança e ação empoderada. As mulheres não são mais vítimas; elas se tornam caçadoras, e a perseguição automobilística que se desenrola no terceiro ato é uma das sequências de ação mais intensas e eletrizantes do cinema recente.

E falando em ação, não podemos deixar de destacar a cena de perseguição que fecha o filme. Diferente dos blockbusters modernos, onde efeitos visuais e CGI dominam as cenas de ação, Tarantino opta por uma abordagem mais prática e autêntica. A perseguição entre o carro de Stuntman Mike e o Dodge Challenger conduzido pelas protagonistas é filmada de maneira crua, sem o uso de efeitos digitais, o que torna cada batida, derrapada e colisão ainda mais visceral e real. O fato de Zoë Bell, uma dublê profissional, estar realmente pendurada na frente do carro durante a perseguição é um feito impressionante e adiciona uma camada de perigo genuíno à sequência. A autenticidade dessas cenas é uma prova da paixão de Tarantino pelo cinema tradicional de ação, onde os dublês arriscam tudo para criar cenas de tirar o fôlego.

Mais do que apenas um filme de perseguição e vingança, À Prova de Morte é uma celebração ao cinema e à história dos filmes de ação e terror. Tarantino presta homenagem a clássicos como Vanishing Point (Corrida Contra o Destino), Bullitt e outros filmes que tornaram o carro uma extensão da narrativa de poder e violência. Ele constrói uma obra que é, ao mesmo tempo, uma carta de amor ao cinema exploitation e uma subversão inteligente dos tropos desse gênero.

À Prova de Morte é uma obra que une o melhor do estilo característico de Quentin Tarantino: diálogos afiados, personagens cativantes e ação visceral. Embora não seja um filme perfeito e sua estrutura narrativa possa parecer divisiva para alguns, ele brilha em sua homenagem ao cinema de baixo orçamento e nas suas reviravoltas empoderadoras. É um filme que abraça o caos e a violência com uma sofisticação inesperada, tornando-se uma experiência cinematográfica única e memorável.

agosto 15, 2024

Planeta Terror (2007)


Título original: Planet Terror
Direção: Robert Rodriguez
Sinopse: Uma experiência fracassada libera vírus que transforma humanos em zumbis sedentos de sangue e carnívoros. El Wray, Cherry, um médico e o xerife unem forças para sobreviver à noite, quando os mutantes ameaçam tomar a cidade e o mundo.


"Planeta Terror" (2007), dirigido por Robert Rodriguez, é uma verdadeira carta de amor ao cinema exploitation dos anos 1970 e 1980. Parte do projeto Grindhouse — uma colaboração entre Rodriguez e Quentin Tarantino, que também incluiu o filme À Prova de MortePlaneta Terror eleva o gênero a novos patamares, misturando terror, ação, humor negro e uma estética propositalmente suja e desgastada, que captura a essência das produções de baixo orçamento das décadas passadas. Apesar de seu visual intencionalmente "defeituoso", o filme é tecnicamente impecável e artisticamente ousado, resultando em uma obra tão divertida quanto envolvente.

A trama de Planeta Terror gira em torno de uma infestação de zumbis em uma pequena cidade americana, após um vazamento de gás químico letal. A história acompanha um grupo de sobreviventes improváveis, liderados pela ex-dançarina de striptease Cherry Darling (Rose McGowan) e o misterioso El Wray (Freddy Rodríguez), enquanto tentam escapar do caos apocalíptico. O enredo, em sua essência, é uma mistura de diversos clichês e exageros do gênero, mas Rodriguez utiliza esses elementos de forma consciente, criando uma narrativa que, ao mesmo tempo em que abraça o absurdo, nunca perde o ritmo e mantém o espectador cativado do início ao fim.

O roteiro, também escrito por Rodriguez, é recheado de diálogos afiados e sarcásticos, que oferecem tanto alívio cômico quanto momentos de tensão bem equilibrados. A história não tem a pretensão de ser complexa ou profunda — e isso é justamente o que a torna tão eficaz. Planeta Terror reconhece sua própria falta de seriedade e abraça o exagero em todos os aspectos, criando uma experiência cinematográfica intensa e absurdamente divertida.

Um dos aspectos mais marcantes de Planeta Terror é sua estética visual. Robert Rodriguez opta por um estilo propositalmente imperfeito, recriando com exatidão a experiência das antigas salas de cinema "grindhouse". O filme é intencionalmente desgastado, com cortes abruptos, falhas de projeção e até uma cena "perdida", o que contribui para sua autenticidade como uma homenagem ao cinema B. A paleta de cores é suja e saturada, refletindo o caos da narrativa e a degradação do mundo ao redor dos personagens.

Rodriguez, que também atua como diretor de fotografia e editor, demonstra um controle absoluto sobre os aspectos técnicos do filme. A cinematografia é um deleite para os fãs do gênero, com cenas de ação espetacularmente coreografadas e enquadramentos dinâmicos que mantêm o espectador na ponta da cadeira. As sequências de combate, especialmente as que envolvem Cherry Darling e sua icônica perna-metralhadora, são tão absurdas quanto criativas, e o uso de efeitos práticos — como explosões, sangue e maquiagem zumbi — reforçam o charme nostálgico da produção.

Planeta Terror não poupa o público de cenas explícitas de violência, que variam entre o grotesco e o hilário. Os efeitos práticos são uma mistura de gore clássico, com direito a cabeças explodindo, mutilações e uma infecção zumbi extremamente gráfica. Ao contrário de muitas produções modernas que optam pelo CGI, Rodriguez abraça os efeitos físicos, o que dá ao filme um toque autêntico e visceral. A maneira como os efeitos especiais são tratados aqui é propositalmente exagerada, mas nunca gratuita; o sangue jorra com propósito, elevando o impacto visual da ação e intensificando o absurdo da trama.

Em termos de maquiagem, o trabalho realizado nas criaturas zumbis é notável. Desde a textura de suas peles até os detalhes grotescos de suas feridas, os monstros de Planeta Terror são um espetáculo visual que reflete o cuidado e a dedicação colocados na criação de cada um desses elementos. Há uma clara inspiração nos filmes de zumbi dos anos 1980, como O Dia dos Mortos de George A. Romero, mas Rodriguez leva a violência a um nível ainda mais extremo, transformando cada cena de carnificina em um show à parte.

A trilha sonora de Planeta Terror é outro ponto alto da produção. Composta pelo próprio Rodriguez, a música captura perfeitamente o tom do filme, misturando elementos de rock, blues e eletrônica para criar uma atmosfera pulsante e intensa. Cada faixa complementa as cenas de ação e suspense, amplificando a energia frenética do filme e dando ao público pouco tempo para respirar entre os momentos de carnificina e caos.

Além disso, a trilha sonora carrega um ar nostálgico, remetendo às trilhas dos filmes de ação e terror dos anos 1970 e 1980, mas com uma atualização que torna o filme acessível ao público moderno. O uso de sons sintéticos e guitarras distorcidas ajuda a reforçar a atmosfera suja e decadente, transportando o espectador diretamente para o mundo distorcido e violento de Planeta Terror.

O elenco de Planeta Terror é um dos aspectos mais deliciosamente ecléticos do filme. Rose McGowan, como Cherry Darling, rouba a cena com uma performance que equilibra vulnerabilidade e pura força de vontade. Sua transformação de dançarina desiludida a guerreira implacável é tão exagerada quanto divertida, e McGowan claramente se diverte com o papel, entregando uma atuação memorável que se tornou icônica, principalmente por causa da "perna-metralhadora" que se tornou um símbolo do filme.

Freddy Rodríguez, como El Wray, oferece uma performance sólida e cheia de carisma, apesar do mistério em torno de seu personagem. Sua química com McGowan é tangível, e os dois formam um par improvável, mas irresistível. Outros membros do elenco, como Josh Brolin, Marley Shelton, e Michael Biehn, também se destacam em papéis secundários, trazendo uma mistura de seriedade e humor que equilibra perfeitamente o tom do filme.

Destaque também para as participações especiais de Bruce Willis e Naveen Andrews, que adicionam ainda mais camadas ao caos generalizado, com personagens tão bizarros quanto memoráveis. Cada ator parece estar se divertindo em seus papéis exagerados, o que transparece em tela e contribui para o charme do filme.

"Planeta Terror" é um exemplo brilhante de como o cinema de gênero pode ser elevado quando realizado com paixão e criatividade. Robert Rodriguez, com sua visão única e estilo inconfundível, cria um filme que não apenas homenageia o cinema exploitation e os filmes B, mas que também oferece uma experiência de entretenimento pura e descompromissada. A mistura de ação, horror, humor e absurdo resulta em uma obra que é tão divertida quanto artisticamente impressionante.

Com uma direção impecável, efeitos práticos brilhantemente grotescos, personagens icônicos e uma estética inconfundível, Planeta Terror é uma celebração do cinema de gênero em sua forma mais pura. É um filme que reconhece suas influências e as transforma em algo novo, divertido e inesquecível. Para os amantes do cinema grindhouse ou simplesmente para aqueles que procuram uma experiência cinematográfica inusitada, este filme é uma joia rara que merece ser revisitada e apreciada em todos os seus detalhes absurdos e deliciosamente exagerados.

 

Matthias & Maxime (2019)

 


Título original: Matthias & Maxime
Direção: Xavier Dolan
Sinopse: Matt e Max, dois amigos de infância se beijam para um curta-metragem amador. Após este beijo aparentemente inocente, surge uma dúvida recorrente, perturbando o equilíbrio do seu círculo social e das suas vidas.


Dirigido por Xavier Dolan, um dos nomes mais prolíficos e autorais do cinema contemporâneo, "Matthias & Maxime" (2019) é uma obra que carrega muitos dos temas e traços estilísticos que marcaram a filmografia do diretor. Dolan explora questões como identidade, sexualidade, amizade e a complicada transição da juventude para a vida adulta, temas centrais em sua trajetória artística. Contudo, ao contrário de trabalhos anteriores que foram recebidos com entusiasmo e aclamação crítica, como "Mommy" (2014) e "Eu Matei Minha Mãe" (2009), "Matthias & Maxime" parece vacilar em seu propósito, resultando em uma narrativa que, embora carregada de boas intenções, não atinge todo o impacto emocional que se espera.

A trama gira em torno de Matthias (Gabriel D’Almeida Freitas) e Maxime (interpretado pelo próprio Dolan), dois amigos de longa data que, durante uma reunião casual de amigos, são desafiados a participar de um curta-metragem estudantil. A cena filmada inclui um beijo entre os dois, que desencadeia uma série de questionamentos internos e externos, especialmente sobre a natureza de sua amizade e a própria sexualidade de Matthias, que até então se via em um relacionamento heterossexual.

Embora a premissa seja provocante e cheia de potencial, a execução deixa a desejar em alguns momentos. O filme se propõe a explorar o impacto de uma descoberta tardia de sentimentos em uma relação masculina aparentemente sólida, mas a narrativa muitas vezes se perde em digressões que enfraquecem a força emocional do enredo principal. As tensões entre os protagonistas, ao invés de se tornarem mais densas e complexas à medida que o filme avança, ficam diluídas por cenas que não parecem contribuir para o desenvolvimento dos personagens de forma significativa.

Tecnicamente, "Matthias & Maxime" exibe a sensibilidade estética característica de Dolan. As composições de cena são cuidadosamente planejadas, com o uso vibrante de cores e ângulos ousados que já se tornaram marcas registradas do diretor. O estilo visual do filme é inegavelmente belo e muitas vezes reforça o sentido de isolamento e confusão experimentado pelos personagens. A direção de arte e o uso de iluminação natural conferem um realismo sensível, equilibrado com momentos de saturação emocional, típicos da obra de Dolan.

Entretanto, a estética forte e detalhada, embora agradável aos olhos, em alguns momentos parece sobrepor-se à narrativa, como se o filme estivesse mais preocupado em ser visualmente marcante do que em construir uma história emocionalmente coesa. Há cenas em que o simbolismo visual é tão denso que obscurece a simplicidade dos sentimentos que Dolan tenta retratar, algo que se encaixaria melhor em um filme mais contemplativo e menos dramático.

As atuações em "Matthias & Maxime" são, em sua maioria, consistentes, mas é nas performances dos dois protagonistas que reside tanto a força quanto a fraqueza do filme. Gabriel D’Almeida Freitas traz uma interpretação sutil e introspectiva para Matthias, capturando bem a angústia de um homem dividido entre sua vida familiar, seu futuro e a redescoberta de um sentimento que não sabe como lidar. Dolan, por sua vez, é eficaz como Maxime, um personagem que é mais emocionalmente aberto, mas que também carrega seus próprios fardos, como uma difícil relação com sua mãe abusiva e seus planos de deixar o país.

No entanto, apesar da competência técnica dos atores, a química entre Matthias e Maxime, crucial para que o público se envolva emocionalmente com o dilema central, não é tão convincente quanto deveria ser. Faltam momentos verdadeiramente carregados de tensão e ambiguidade entre os dois, o que faz com que o impacto de suas ações e decisões seja sentido de maneira menos intensa. A complexidade da relação entre amigos que, possivelmente, sentem algo mais, não é explorada de maneira tão profunda quanto poderia, deixando o espectador esperando por uma catarse emocional que nunca chega completamente.

O roteiro de Dolan tenta balancear os diálogos espirituosos e as interações naturais entre os amigos com momentos de introspecção e silêncio, mas o resultado é um ritmo irregular. O filme tem passagens que flertam com o tédio, especialmente na primeira metade, onde a ação parece se arrastar sem grandes avanços narrativos. As conversas entre o grupo de amigos, embora realistas e às vezes engraçadas, parecem muitas vezes desconectadas do conflito emocional de Matthias e Maxime, o que compromete a fluidez do enredo.

O terceiro ato do filme, onde esperávamos uma resolução mais impactante ou esclarecedora para os sentimentos dos protagonistas, é onde o filme mais se distancia de seu potencial. A conclusão parece abrupta, com os arcos dos personagens principais ficando aquém do desenvolvimento emocional necessário para que o público se sinta verdadeiramente conectado à história.

Um ponto forte em "Matthias & Maxime" é a trilha sonora, cuidadosamente escolhida para amplificar as emoções que o filme busca retratar. Dolan sempre demonstrou habilidade em casar a música com a imagem de maneira envolvente, e aqui não é diferente. Canções melancólicas e momentos de silêncio são bem utilizados para refletir o estado emocional dos personagens, com destaque para as músicas que acompanham os momentos mais introspectivos de Maxime.

"Matthias & Maxime" é um filme que se beneficia da sensibilidade visual de Xavier Dolan e das performances sólidas de seu elenco, mas peca por não alcançar a profundidade emocional que sua premissa sugere. O que poderia ser uma análise poderosa e íntima da fluidez da amizade e do desejo entre dois homens, acaba ficando preso em escolhas narrativas que não exploram totalmente o conflito interno de seus personagens.

Dolan mostra, mais uma vez, seu talento para criar imagens belas e cenas que parecem encapsular a angústia da juventude, mas, neste caso, a beleza estética não é o suficiente para compensar as falhas de um roteiro que carece de foco e de impacto emocional. É um filme que se aproxima de algo verdadeiramente especial, mas que, no fim, parece hesitar em dar o passo final para transformar essa história de amor e amizade em algo memorável e catártico.



outubro 26, 2006

Olhar Estrangeiro (2006)

 


Título original: Olhar Estrangeiro
Direção: Lúcia Murat
Sinopse: Baseado no livro de Tunico Amâncio, O Brasil dos Gringos, o documentário mostra a visão de diretores, roteiristas e atores internacionais sobre o Brasil, procurando desvendar os clichês que o cinema internacional perpetua a respeito do país.


Incrivelmente divertido. É o mínimo que se pode dizer desse mais novo exemplo de como o Brasil anda bem em termos de cinema documental. Olhar Estrangeiro traz um tema interessante e de conhecimento geral de 100% da população: o Brasil. Não como ele é, mas como os outros pensam que ele é.

Contando com entrevistas com atores e diretores internacionalmente reconhecidos, desde Jon Voight e Michael Caine ao diretor Zalman King (de Orquídea Selvagem), Lúcia Murat nos leva a um Brasil que existe somente na cabeça dos ‘gringos’. É realmente impressionante ver como alguns REALMENTE pensam (ou pensaram, antes de conhecer o país) que aqui as pessoas esquiam em jacarés, que o topless é lei nas praias do Rio de Janeiro, ou como se pensa que no Brasil ninguém trabalha. É, doze meses de férias.

Além dos diretores e atores envolvidos em produções cujo personagem principal era o Brasil, o enxuto e conciso documentário de Murat é permeado com depoimentos de pessoas desconhecidas, dos Estados Unidos, França e Suécia. O delírio deles é a nossa realização. Por muitas vezes o filme deixa de se tratar de um documentário para entrar no gênero comédia de cabeça, nos mostrando cenas bizarras dos mais variados tipos de filmes rodados no Brasil. Ou, como ficamos sabendo, muitas dessas produções que se passam nesse país não foram de fato filmadas aqui, e sim em lugares como a Flórida. As cenas citadas vão desde as conhecidas do grande público no trash-hit com Jon Voight e Jennifer Lopez, Anaconda, até imagens de Orson Welles, que foi o único cineasta que realmente se importou em filmar a realidade mas que, ironicamente, nunca teve seu filme finalizado.

Muito interessante é também ver a cara dos diretores, produtores e atores envolvidos nessas produções quando ficam sabendo da ‘terrível verdade’. Alguns reagem de forma meio arrogante, não voltando atrás em momento algum acerca de suas decisões do passado, enquanto outros morrem de rir ou ficam até mesmo envergonhados.

Certamente eles têm na cabeça o Brasil que os próprios brasileiros venderam (e continuam vendendo) para os outros países há séculos. E para isso infelizmente não há remédio. Enquanto isso, ficamos aqui nos divertindo com a ignorância alheia. Afinal, não é todo dia que se houve: “venha comigo para São Paulo para pegarmos uma praia.” Que país é esse?

maio 26, 2006

Caché (2005)

 


Título original: Caché
Direção: Michael Haneke
Sinopse: Um dia Georges (Daniel Auteuil) e sua esposa Anne (Juliette Binoche) recebem uma fita de vídeo com imagens de sua casa, que fora filmada por uma câmara instalada na rua. Depois disso começam a receber desenhos sinistros. Assustado, o casal tenta descobrir o autor daquelas misteriosas ameaças que perturbam a paz de sua família. Logo percebem que quem os persegue conhece mais sobre o seu passado do que eles poderiam esperar.


Da França veio o aborrecimento. Estrelado por uma dupla fantástica, que está muito acima das qualidades desse filme, que, apesar de aclamado, é, como dito, aborrecido, arrastado e meio sem propósito. Daniel Auteuil (O Adversário) é Georges, que tem sua vida "ameaçada" por fitas que chegam a sua casa. O conteúdo, somente horas e horas de filmagens do exterior de sua própria casa, envoltos em desenhos sanguinolentos. 

A partir dessa premissa se desenvolve a trama de Caché, nos moldes de uma parte do cinema francês que é especialista em entediar o público. Com quase exageradas duas horas de duração, era pra ser um suspense formidável, já que parte de um ponto interessante: pessoas sendo ameaçadas pelo "nada". Obviamente que Georges tem algo a esconder (da mesma forma que seu personagem em O Adversário, outro longa desse molde aborrecido francês), e isso preocupa sua mulher, Anne (Juliette Binoche, de Chocolate e Palavras de Amor) e afeta o humor inconstante de seu filho pré-adolescente.

O interessante é ver como algo tão simples consegue derrubar e destruir toda uma família, somente pelo terror psicológico causado e pelo claro fato de que Georges está escondendo algo de sua família. Mas aí mora o grande defeito de Caché: somente quem conhece bem a história da França e da guerra desta com a Argélia poderá entender de verdade a causa do "problema no passado" do personagem. De outra forma, as razões pelas quais o personagem escondido (caché) parecerão completamente sem fundamentos ou sentido.

Fato é que a esmagadora maioria do público ignora esse fato e Caché se mostra não como um longa internacional, mas de aplicação limitada a seu país. E, mesmo aceitando e entendendo os fatos implícitos na história, pelo menos meia hora de enrolação deveria ser cortada para se obter um resultado mais ágil e fácil de ser engolido. Mas isso, definitivamente, não é a especialidade francesa no cinema, salvo raras exceções.

Ainda temos que lidar com um daqueles finais "abertos à interpretação do espectador", completamente irritantes. O que mais parece é que o diretor não sabia como terminar e deixou assim, com uma cena para a qual rolam na internet as mais variadas explicações – bizarras, por sinal. Poderia funcionar como em Flores Partidas de fato funcionou, se ao menos tivesse UMA explicação plausível, mas tudo falta em Caché, até mesmo uma mera explicação de por que um personagem está fazendo isso ou aquilo ou o por quê de um plano ser inserido ali de forma praticamente aleatória. Começa muito bem e interessante, se torna mediano e depois, um desastre. Um realmente um filme para quem tem paciência. E a minha com grande parte do cinema francês está se esgotando.

abril 07, 2006

Free Zone (2005)

 


Título original: Free Zone
Direção: Amos Gitai
Sinopse: Rebecca, uma americana que está morando em Jerusalém há alguns meses, acaba de romper seu noivado. Ela entra em um táxi dirigido por Hanna, uma israelense. Mas Hanna está a caminho da Jordânia, para a Zona Livre, para buscar uma grande quantia de dinheiro.


O primeiro plano de Free Zone já diz tudo sobre o que será o filme. Longuíssimo, escutamos a uma música tradicional judaica enquanto vemos uma Natalie Portman chorando, olhando através de uma janela de um carro. O tempo, chuvoso. Nossas mentes, chuvosas.

Free Zone não foi feito para ser tragado pelo público em geral. Aliás, é para bem poucos. O novo trabalho do aclamado diretor israelense Amos Gitai conta o que primeiramente achamos se tratar de uma história simples: Hanna ben Moshe, que dirige um táxi, vai com uma americana perdida em seus sentimentos (Natalie Portman) para a Jordânia a fim de cobrar uma dívida. Provenientes de outro filme de Gitai, Alila, os personagens Hanna e Moshe (seu marido), têm negócios com a Jordânia (inclusive Free Zone foi o primeiro filme israelense a ser rodado na Jordânia). Obviamente uma americana iria atrapalhar as coisas.

Com algumas cenas tensas espalhadas em sua hora e meia, como a travessia da fronteira e depois as causas do não-pagamento da dívida, captam o interesse do espectador. Mas, como disse, o filme não é de interesse geral, desprovido de trilha sonora e inevitavelmente causa sono em certos momentos.

Após a chegada na Jordânia, Free Zone se concentra em nos mostrar a união e desunião (sim, ao mesmo tempo) de diferentes mulheres. Seja Hanna com Rebecca (Portman) ou com Leila (Hiam Abbass), conhecida como ‘a mulher do Americano’, que deveria pagar a dívida a Hanna ben Moshe. Mesmo o espectador sabendo que se trata de uma situação tensa, em vários pontos temos um humor discreto porém importantíssimo nesses relacionamentos e diálogos incrivelmente bem pensados.

O ponto alto de Free Zone é certamente a interpretação de Hana Laszlo (Hanna ben Moshe), uma atriz fenomenal que consegue nos fazer sentir à vontade mesmo se estivéssemos em problemas numa região fronteiriça israelense. Mas a partir de certo momento, Free Zone deixa de funcionar como deveria. Ao mostrar cenas do passado – Rebecca pensando – sobrepondo imagens do ‘pensamento’ dela com a viagem atual ao lado de Hanna, infindáveis planos, com a pequena presença de Carmen Maura, infelizmente desperdiçada aqui, o espectador definitivamente se cansa de ver aquilo.

Mais mal aproveitado é o encontro de todos com o Americano. Não vou contar o final do filme, mas também não seria nada demais. Assim como Free Zone começa, ele termina: no nada. O clímax é atingido no meio do longa e depois a tensão e emoção descem até atingir o nulo. No final das contas, saímos da sala de cinema com um sentimento de vazio. Mas vale a experiência só pelo gostinho de ver Hanna ben Moshe se aventurando perdida pelas estradas da desértica e pobre Jordânia.

março 01, 2006

O Fim e o Princípio (2005)

 


Título original: O Fim e o Princípio
Direção: Eduardo Coutinho
Sinopse: O documentário registra o cotidiano e as histórias dos moradores da pequena São João do Rio do Peixe, na Paraíba. Por meio de depoimentos, o filme retrata o sentimento de uma população humilde que esbanja alegria e esperança, além de apresentar as nuances de um nordeste de alma densa e fecunda.


Não seria correto afirmar que um dos mestres do cinema brasileiro, Eduardo Coutinho, “não é o mesmo de antes” ou “perdeu a forma”. Só se, obviamente, isso se tratar de algo muito repentino. Desde seus tempos de Rede Globo – ele sendo, aliás, uma das únicas coisas que eram boas em toda a história da péssima emissora – passando pelo Globo Repórter, ele nos tem presenteado com verdadeiras pérolas da arte do documentário. Um de seus grandes trabalhos com certeza foi Edifício Master, recentemente lançado em DVD duplo nas locadoras. Um trabalho magnífico de análise social que vale a pena ser visto.

Talvez o sucesso tenha subido à cabeça de Coutinho. Seu novo longa, O Fim e o Princípio, conta com a mesma premissa abordada em Edifício Master, com a mudança de que o filme não contaria com nenhuma espécie de roteiro previamente desenvolvido. Essa ideia poderia tranquilamente seguir adiante se não fosse o constante problema que o diretor apresenta com a edição de seus filmes. Parece que tudo o que é filmado é colocado na edição final do filme, sem cortes.

Se em partes de Edifício Master o público conseguia dar uns bons bocejos, isso é palavra de ordem em O Fim e o Princípio. A história não deixa de ser tão interessante quanto a do filme anterior, mas o público é derrotado pelos 110 minutos de documentário, mesmas pessoas e paisagens áridas do interior da Paraíba.

Teimo em dizer que o tempo ideal de um documentário beira, no máximo, uns 80 ou 90 minutos. É tempo suficiente para se contar tudo o que quer e mostrar tudo que se pensa. Documentários mais longos que isso tendem a ser enfadonhos e a não receberem boa resposta do público. Com a exceção de Fahrenheit 11 de Setembro (que não se trata de um documentário, e sim uma propaganda tendenciosa), que conta com mais de duas horas de projeção e, mesmo assim, foi o maior sucesso comercial na história do cinema documental, os últimos filmes do gênero que tenho assistido e se mostrado excelentes possuem menos de uma hora e meia, como o brasileiro A Pessoa É Para o Que Nasce e o francês A Marcha dos Pinguins, cada um com 85 minutos.

Pode parecer simples e superficial dizer isso, mas sim, a extensão de O Fim e o Princípio é a condenação do longa-metragem. As histórias das pessoas simples (e idosas) paraibanas são muito interessantes, com bons momentos aqui e ali espalhados por todo o filme. Se fosse editado da forma correta, com certeza seria mais um dos melhores (e inovadores, aí sim funcionando a proposta do diretor de “não haver direção ou roteiro”) documentários brasileiros dos últimos tempos.

fevereiro 17, 2006

Ponto Final: Match Point (2005)

 


Título original: Match Point
Direção: Woody Allen
Sinopse: O instrutor de tênis Chris Wilton se casa com a jovem Chloé para conseguir um cargo na empresa do sogro milionário, mas começa a traí-la com Nola Rice, a sensual noiva americana do cunhado, que ameaça expor o romance.


Woody Allen chega ao seu quadragésimo longa-metragem. Aclamado internacionalmente, indicado ao Oscar. Definitivamente não seria o ‘normal’ para Allen. E não é. Tudo o que vemos em Ponto Final é, a princípio, uma simples (e ao mesmo tempo complexa) história de amor, num triângulo amoroso que, inevitavelmente, pede por um grandioso clímax.

Devo dizer que é frustrante não somente não ter Woody aparecendo na tela, mas sua direção também é frustrante, especialmente para quem conhece (e gosta) do trabalho anterior do diretor ultra-novaiorquino. Para quem não se importa com isso, Ponto Final pode representar uma experiência e tanto. Allen não está muito à vontade fora de sua habitual Nova York, isso é certo. Por vezes o filme se parece mais com um vídeo demonstrativo do ‘como Londres é cool’ do que o filme introspectivo que se propõe a ser.

Ainda de acordo com minhas crenças, indicado ao Oscar significa qualidade  duvidosa. Não vou rotular Ponto Final como sendo ruim. Decididamente não é. Mas é um trabalho mediano e nada mais. Ok, Woody Allen finalmente mudou de história depois de quarenta anos. Bem, nem tanto. É a mesma história de amor, pelo menos na maior parte do filme, só que em Londres e não em Nova York.

Ponto Final ainda seria um pouco mais autoral e lógico se terminasse com um final... lógico. Sim, porque o estilo de filme nos propõe um tipo de finalização que não ocorre. E o plot-twist que deveria agradar ao espectador acaba por se demonstrar inverossímil. Passamos mais de uma hora conhecendo os personagens, nos entediando com várias cenas praticamente ‘repetidas’ para depois sermos jogados em personagens que ‘mudam de personalidade’ de repente. O pacífico Chris (Jonathan Rhys Meyers) de repente se transforma. Até mesmo a insossa Nola (Scarlet Johansson) começa a ser uma outra pessoa.

Enfim, no momento em que passamos a acreditar nos personagens, eles se  revelam outras pessoas, coisas impossíveis passam a acontecer e coisas do gênero. Certamente esse terceiro ato de Ponto Final é mais interessante que tudo o que nos foi apresentado anteriormente. Mas infelizmente tem um roteiro que se torna risível às vezes por seus diálogos-clichês mal colocados em personagens pessimamente construídos, como já mencionado, interpretados por um time de atores e atrizes sem competência. Todos têm a mesma cara, seja amando ou odiando. E isso não é um legítimo Woody Allen que valha aqueles clássicos créditos em preto com uma típica música novaiorquina de fundo. Volte para Nova York, Woody.

Bambi 2: O Grande Príncipe da Floresta (2006)


Título original: Bambi II
Direção: Brian Pimental
Sinopse: A história de Bambi crescendo sob os cuidados de seu pai, o Grande Príncipe da Floresta.


Longe de se parecer com qualquer uma das novas produções da Disney, Bambi 2: O Grande Príncipe da Floresta segue a fórmula de sucesso dos antigos sucessos do estúdio. É com gosto que fui ao cinema ver um filme em animação tradicional, um entre muitos blockbusters de computação gráfica que tomam conta dos cinemas nos últimos anos.

Certo, mesmo que todos saibam que as animações clássicas tradicionais da Disney sempre funcionaram, a mesma Disney é conhecida por ser péssima em produzir uma continuação de qualquer filme de forma "decente". São exemplos os decepcionantes O Rei Leão 2: O Reino de Simba ou Toy Story 2. O que dizer sobre uma continuação de um filme lançado originalmente há 64 anos atrás?

Tinha tudo pra dar errado. Tudo mesmo. Mas Bambi 2 é um acerto. A história do veadinho que perde a mãe atinge todas as faixas etárias, desde pessoas com quase 80 anos que eram crianças à época do lançamento até os mais jovens, como eu, que viram o filme nos cinemas em um de seus diversos relançamentos, ou em DVD (recentemente lançado em edição dupla especial pela Buena Vista).

Assim como o longa anterior, Bambi 2 não tem uma história em si. É menos trágico, claro, afinal, se mais alguém morresse, com certeza o personagem Bambi seria o personagem de animação mais dramático da história do Cinema. Bambi 2 é um filme singelo, que vale mais a pena para revermos os personagens tão queridos do passado antes de querermos analisá-lo como um filme sozinho, com uma história plausível e interessante.

O pai de Bambi, o Grande Príncipe, tenta achar uma nova ‘mãe’ para Bambi, visto que ele tem muitos afazeres em suas fiscalizações na floresta e não tem tempo para cuidar de seu filho. E a historinha é somente sobre as artes que Bambi e seus amigos (os cativantes Tambor e Flor, em especial) fazem durante esse tempo. E, obviamente que o pai de Bambi começa a se afeiçoar ao filho. Algumas cenas de ação, do pavor causado pelo Homem (certamente um dos maiores inimigos do Cinema, eleito até mesmo pelo American Film Institute como tal) que nunca aparece na tela, mas sempre ameaça a paz na floresta, não são tão marcantes quanto no longa de 1942, mas mesmo assim são funcionais.

Com algumas canções bem agradáveis, Bambi 2 certamente é mais do que o esperado para uma continuação da Disney. Uma exceção à regra que toda continuação é ruim e deve ser desprezada. Em cada fotograma podemos ver o carinho e a essência colocados no filme, os mesmos conceitos que Walt Disney fez questão de colocar no Bambi original. Essa continuação demorou quatro anos para ficar pronta e, certamente, a espera valeu a pena.

fevereiro 10, 2006

Syriana: A Indústria do Petróleo (2005)

 


Título original: Syriana
Direção: Stephen Gaghan
Sinopse: Muito petróleo significa muito dinheiro. Muito dinheiro mesmo. E este fato libera um esquema de corrupção que se estende desde Houston, passando por e Washington, até o Oriente Médio. E envolve industriais, príncipes, espiões, políticos, exploradores de petróleo e terroristas em uma teia mortal de ações e reações enganosas. Este thriller de ação inteligente e envolvente exige toda a atenção e os nervos do espectador, em intensidade narrativa que não permite descuido por um segundo sequer.


Todos estão louvando Syriana: A Indústria do Petróleo pelo seu cunho político e complexidade. Afinal, a moda é falar mal da política americana. E de tão complexo, o filme se torna uma experiência confusa e muito, muito arrastada. A paciência do espectador é testada aos limites, seja por estarmos vendo uma trama que nunca se desenvolve ou seja por tentar entender o que cada personagem está querendo fazer, coisa que raramente se explica em tela.

Talvez Syriana funcione melhor fora das telas do que nelas. Aliás, na tela, nada funciona. Onde está a tão aclamada ‘interpretação’ de George Clooney que lhe valeu a indicação ao Oscar? Ele só apanha e faz algumas coisas aqui e ali, sem tempo para interpretações. E por falar em apanhar, Syriana traz uma das cenas mais impressionantes de tortura que já vi. Ponto final. O filme seria só isso. Se em 2003 falaram que o Oscar de Melhor Atriz foi para Nicole Kidman só porque ela colocou um nariz falso, se Clooney ganhar o Oscar esse ano, será, com razão, meramente porque ele está usando uma barba, que não é de seu costume.

Muitas pessoas saíram da sala de cinema antes mesmo de se completar uma  hora de projeção. É isso que dá tentar bombardear as mentes do povo com fatos políticos completamente desinteressantes. E o pior, de forma aleatória. Existem modos e modos de se mostrar crítica política. Esse ano mesmo temos o excelente exemplo de Boa Noite e Boa Sorte, que trata de uma denúncia política, mas feita de forma ágil e concisa. Já Syriana não tem nada disso.

Por diversas vezes o filme tenta mostrar um pouquinho de drama, como em algumas cenas do personagem de Matt Damon (que também não acrescenta nada à história), mas o cunho é quase em sua totalidade político, textualmente e graficamente desinteressante. Vários outros longas, como JFK: A Pergunta Que Não Quer Calar, também eram 100% políticos, entretanto, prendiam o espectador, o que nunca acontece aqui, visto que o grande número de personagens em histórias confusas e independentes nunca parecem chegar a lugar algum.

O diretor Stephen Gaghan (roteirista do aclamado Traffic) é o grande culpado de Syriana ser esse monte de fotogramas sem sentido. Para os antiamericanos de plantão, esse filme será considerado uma obra-prima, já que qualquer mínima coisa que mostre algo ruim dos EUA é considerado um marco no cinema (assim como o pavoroso e tendencioso Fahrenheit 11 de Setembro). Um aviso para quem não quer se entediar: não vá assistir a Syriana. Ou, se você sofre de insônia, pegue a última sessão do dia e bons sonhos!

fevereiro 03, 2006

O Segredo de Brokeback Mountain (2005)

 


Título original: Brokeback Mountain
Direção: Ang Lee
Sinopse: Um conto de amor sobre o relacionamento de dois jovens, Ennis Del Mar, um rancheiro de Wyoming e Jack Twist, um vaqueiro de rodeio, que se encontram no verão de 1963, e nos anos seguintes lutam secretamente para entender e se manter o amor que nutrem um pelo outro.


O Segredo de Brokeback Mountain pode funcionar de diversas formas, mas definitivamente não funciona como um romance tradicional, só alterando os protagonistas – dois homens. Bem, essa é a forma que o filme foi vendido (e aclamado) mundialmente.

Tecnicamente espantoso e artisticamente muito falho. Todos estão indo na onda de que o filme é perfeito. Longe disso. Ang Lee conseguiu nada mais do que um trabalho mediano. Explico porque. A premissa era justamente ser ‘mais um filme de amor’. Pois eis que O Segredo de Brokeback Mountain se mostra um filme de amor inverso: começa com uma cena de grande impacto e vai declinando, declinando, declinando... até chegar ao fundo do poço, num final previsível, ao final de longuíssimos e intermináveis 134 minutos.

Indiscutivelmente mereceu pelo menos duas das indicações que recebeu ao Oscar: Fotografia e Trilha Sonora Original. Mas, como já mencionei, a parte artística é tão simplória que chega a irritar: Heath Ledger faz um cowboy que reprime seus desejos interiores. Mas reprime tanto que nem dá pra se notar quais desejos são esses, resultado de uma interpretação equivocada. Chama mais a atenção o que ele tinha dentro da boca (estranhamente inchada) e o modo como fala pra dentro do que realmente a sua ‘interpretação’. Jake Gyllenhaal não está melhor aqui do que em outros papéis como em Donnie Darko ou até mesmo no recente Soldado Anônimo (injustamente desprezado aqui no Brasil). O destaque das atuações deve-se a Michelle Williams, melhor do que os dois cowboys principais juntos. Sua personagem, Alma, é na verdade o centro e a causa de tudo que acontece (e não acontece) no longa.

A falta do impulso inicial do amor, dos detalhes que fazem a diferença antes do sexo em si é o que estraga O Segredo de Brokeback Mountain logo no primeiro ato. O filme contribui para o pensamento geral da população de que os gays são criaturas depravadas, taradas e maníacas sexuais. O que tanto se falou antes da estreia desse filme, que mostraria que gays amam igual aos heterossexuais, não foi mostrado aqui. Pelo menos eu não vi nada disso. Ao contrário, o que chama a atenção – desviando o espectador da história – é como eles se atracam na tenda, como se atracam na escada (e como, após vinte anos, eles não envelhecem!), enfim, como se pegam em vários lugares (como dito, à medida que o tempo passa, cada vez de forma mais branda) e o amor raramente aparece. Sim, raramente. Ele não é nulo, aparece, mas SEMPRE no personagem Ennis Del Mar (Ledger).

Não é perturbador, não é inovador, mas, como explicado, também não é ‘mais do mesmo’. Difícil descrever O Segredo de Brokeback Mountain. É um filme bonzinho, na média, não melhor que outros trabalhos de Ang Lee. Não merecia esse alarde todo que está sendo feito e faz pior: faz o grande público (não-homossexual) continuar com a imagem ‘estranha’ ou ‘errada’ que tem dos gays. Oito indicações ao Oscar soam como algo completamente absurdo. Resumindo, Muito Barulho Por Nada.  

Edison: Poder e Corrupção (2005)


Título original: Edison
Direção: David J. Burke
Sinopse: Na promissora cidade de Edison, o ambicioso repórter investigativo em início de carreira Josh Pollack descobre fraudes na maior unidade de polícia da região. Enfrentando a resistência de seu editor Moses Ashford, ele acaba demitido por tocar no ponto nevrálgico que é a corrupção dentro do sistema de combate ao tráfico de drogas. Sem ter como sustentar a história, Pollack precisa se aliar ao promotor local Wallace, que aceita aprofundar essa investigação.


O que mais chama a atenção em Edison? "Nossa, quantos atores de renome!" Exatamente. Vemos Morgan Freeman e um cabeludo Kevin Spacey. E... Justin Timberlake. É, o ex-NSync é o principal personagem desse longa, ao lado de LL Cool J. Tudo de mais bizarro está aqui. Conta até com a participação de um (dos milhares) representante da família Wayans (de As Branquelas – sem comentários).

         Sabe-se lá o que o péssimo diretor David J. Burke tinha em suas mãos para ameaçar Freeman e um ridículo Kevin Spacey, e os convencer a participar dessa abominável produção. Tudo em Edison é de mau gosto: lutas absurdas, centenas de tiros sendo disparados na cara dos personagens sem que ninguém (importante) seja atingido, ou assassinatos graficamente violentos sem necessidade.

         A cidade fictícia de Edison (apesar de obviamente filmado em Vancouver, em nenhum momento isso é escondido do público) era uma cidade onde a violência imperava. Atualmente, a violência fica por conta da polícia extremamente corrompida da problemática cidade. É por causa de um desses casos de corrupção que o jornalista de um pequeno periódico, Pollack (Timberlake), começa a farejar que algo de errado está acontecendo. Enfim, isso só serve para nos mostrar muito sangue e um herói patético vivido pelo ex-boy band. O mais impressionante é que Timberlake nem estão TÃO mal assim como era de se esperar. Sua parca atuação é culpa de um roteiro sem pé nem cabeça (escrito pelo mesmo Burke), e isso afeta não só ele mas até mesmo os veteranos e consagrados atores.

         Morgan Freeman é Ashford, o diretor do jornal onde o entusiasmado (e imbecil) Pollack trabalha. Freeman nada mais faz do que beber e dar uns gritos em todo o tempo de projeção. E Kevin Spacey... o que falar? A peruca pavorosa que ele usa chama mais atenção do que qualquer uma das poucas coisas que pronuncia ao longo de 97 minutos de pura bobagem.

         Burke usa alguns aspectos de filmagem que são nulos em estilo e elegância. Planos simplesmente pavorosos, como a insistência em focar dois personagens distantes um do outro em uma imagem só: um Spacey sempre de perfil a la Rede Globo, ou seja, uma cara gigante que preenche metade da tela e um Freeman perdido no fundo da cena. Totalmente deselegante e, como já mencionado, desnecessário, é a frequente aula de anatomia que o diretor nos proporciona com cérebros explodindo por todos os lugares.

         Certamente tudo deveria ser relevado se Edison fosse feito para ser uma comédia. Mas não serve nem para isso. Em alguns momentos chegamos a rir do que acontece na tela. E isso, sinceramente, não é um bom sinal. Vemos o esforço dos atores em demonstrar serviço independentemente da horrorosa direção (e até de Justin Timberlake, acreditem!), mas tudo é feito em vão. Principalmente a ida ao cinema para ver essa bomba.

Boa Noite e Boa Sorte. (2005)

 


Título: Good Night, and Good Luck.
Direção: George Clooney
Sinopse: Ambientado nos Estados Unidos dos anos 50, durante os primeiros dias de transmissões jornalísitcas, o filme conta os conflitos reais entre o repórter televisivo Edward R. Murrow e o Senador Joseph McCarthy. Desejando esclarecer os fatos ao público, Murroe e sua dedicada equipe desafiam seus patrocinadores e a própria emissora para examinar as mentiras e amedrontadoras táticas perpetradas pelo Senador durante sua "caça às bruxas" comunista.


Enfadonho para muitos, uma obra-prima para alguns. A nova incursão de George Clooney na direção é um acerto por completo. Ao contrário do que possa parecer, Boa Noite e Boa Sorte não é um filme pequeno de interesse restrito. É mais do que certo que a grande maioria do público brasileiro não vivenciou e conviveu com as atitudes insanas do senador McCarthy nos anos 50 nos Estados Unidos. Mas alguém com o mínimo de imaginação pode imaginar o que isso representava à época.

Boa Noite e Boa Sorte é, antes de tudo, um grande exercício de estilo, com uma direção impecável (ponto para Clooney depois de Confissões de uma Mente Perigosa), fotografia igualmente impressionante e uma edição que, de tão boa, não foi indicada ao Oscar, como é de praxe acontecer. Clooney fez um pseudodocumentário nessa fita. Ágil e instigante, nos transporta para cada momento daquela época em que a sala de produção da CBS para o programa de TV de Edward Murrow era um planejamento de guerra. Uma guerra a favor da liberdade de expressão, que estava sendo tão mutilada por Joseph McCarthy.

Artisticamente absoluto e único. Estamos na produção do programa e sentimos o que Murrow sente. Respiramos fundo a cada vez que ele fala "boa noite e boa sorte" e ficamos aliviados a cada "encerrado" que o jornalista Friendly (interpretado por Clooney) fala a cada final de programa. Cada programa, uma bomba em McCarthy. 

Certamente o melhor do longa se encontra nessa sensação de pseudodocumentário. A forma com que os atores – um elenco surpreendente, por sinal – interagem com as imagens de arquivo que são inseridas ao longo da projeção é incrivelmente real, se devendo ao impressionante trabalho de montagem aliado a um roteiro sem furos e digno de Oscar (pena que provavelmente não irá ganhar). De todo o elenco, David Strathairn se sai um perfeito Edward Murrow, tenso a cada programa que ia ao ar, fumante inveterado que levou a frente seus pensamentos sem medo das consequências, diferentemente de seu companheiro de emissora, Don Hollenbeck (também perfeitamente interpretado por Ray Wise). 

Pode-se dizer que Murrow venceu. E assim como Clooney, que fez dessa simples (e ao mesmo tempo complexa) história uma pequena obra-prima. Que, infelizmente, poucos darão o valor que realmente tem.